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Melvin E. Dieter: O historiador que contou a história do movimento de santidade
Em 1º de novembro de 1972, um pastor wesleyano entregou à Universidade Temple, na Filadélfia, uma tese de doutorado chamada Revivalism and Holiness (“Avivalismo e santidade”). Melvin Easterday Dieter tinha passado a vida entre escolas bíblicas, púlpitos e conselhos de igreja, e agora punha no papel a história do movimento em que nascera. A tese dizia que o avivamento de santidade do século XIX tinha sido o casamento de três coisas: a mentalidade americana, o avivalismo da época e a perfeição cristã ensinada por John Wesley. Publicada em 1980, ela se tornou uma obra de referência sobre o assunto, e Dieter passou a ser lembrado como um dos grandes historiadores do movimento de santidade.
Vida
Allentown e a Marinha
Melvin Dieter cresceu em Allentown, na Pensilvânia, numa família da Igreja Santidade Peregrina (Pilgrim Holiness Church), uma das denominações nascidas do avivamento de santidade no fim do século XIX. O pai, Harold Dieter, era ministro dessa igreja e presidiu por dezesseis anos a escola bíblica da cidade, que em 1934 passou a se chamar Allentown Bible Institute. Harold morreu em 1948. O filho cresceu, portanto, dentro de uma instituição que formava pregadores para as igrejas de santidade.
A formação passou por várias escolas: o Muhlenberg College, em Allentown; a escola de línguas da Marinha dos Estados Unidos, onde foi treinado como especialista em chinês; a Universidade do Colorado; o Eastern Pilgrim College, a escola da sua denominação em Allentown; e a Universidade Lehigh. Em 27 de dezembro de 1945 casou-se com Hallie Arline Kirtz, com quem viveria 72 anos.
Pastor, reitor e administrador
Dieter foi pastor da Igreja Wesleyana de Chichester, em Boothwyn, na Pensilvânia. De 1961 a 1967 presidiu o Eastern Pilgrim College, o mesmo tipo de escola que o pai havia dirigido. Em seguida aceitou o cargo de deão do Houghton College, no estado de Nova York, faculdade da Igreja Metodista Wesleyana.
Naquele momento as duas igrejas da sua vida estavam se unindo. Em 1968 a Igreja Santidade Peregrina e a Igreja Metodista Wesleyana da América se fundiram e formaram a Igreja Wesleyana (The Wesleyan Church). Dieter ajudou no processo de união, e o Conselho Geral da nova denominação o escolheu como primeiro secretário-geral de Instituições Educacionais. As duas igrejas traziam dez faculdades, cada uma com a sua região de divulgação e de arrecadação, e coube a ele redesenhar esses limites para a nova denominação. Ocupou o cargo até 1975.
O historiador do movimento de santidade
Enquanto administrava escolas, Dieter fazia o doutorado na Temple University, concluído em 1973. A tese virou livro em 1980, com o título The Holiness Revival of the Nineteenth Century (“O avivamento de santidade do século XIX”), primeiro volume da série Studies in Evangelicalism, da Scarecrow Press. Uma segunda edição saiu em 1996. David Bundy, ao fazer em 1995 o balanço dos estudos sobre a tradição wesleyana de santidade, destacou que Dieter mostrou a rede complexa que sustentou os avivamentos e acompanhou a sua influência na Europa, tese que outros historiadores retomaram depois.
O livro acompanha o movimento desde a década de 1830, quando Charles Finney e Asa Mahan, em Oberlin, abraçaram a perfeição cristã de Wesley e se juntaram ao avivamento que Phoebe Palmer promovia nas suas reuniões de terça-feira em Nova York. Segue pela fundação da Associação Nacional de Acampamentos para a Promoção da Santidade, em Vineland, Nova Jersey, em 1867, e termina com a “questão da igreja”: os grupos que, a partir de 1880, saíram das denominações antigas para formar igrejas de santidade.
Uma parte original do trabalho foi a Europa. Num artigo de 1974 no Wesleyan Theological Journal, Dieter contou como o casal quacre Robert Pearsall Smith e Hannah Whitall Smith levou a mensagem para a Inglaterra e o continente entre 1873 e 1875. Houve a conferência de Broadlands, em julho de 1874, a de Oxford, com cerca de 1.500 participantes, e a campanha em Berlim, onde quatro a cinco mil pessoas lotavam diariamente a igreja militar cedida pelo imperador. Em Brighton, entre 29 de maio e 1º de junho de 1875, oito mil pessoas encheram três salões. Dieter mostrou que a Convenção de Keswick e o Movimento de Comunhão alemão (Gemeinschaftsbewegung), que se organizou em torno da Conferência de Gnadau a partir de 1888, saíram desse avivamento. Resumiu a dívida numa frase: “se Oxford foi a Vineland do movimento europeu, Brighton foi a sua Manheim”, referência aos dois primeiros acampamentos nacionais americanos.
Dieter também estudou de perto a vida de Hannah Whitall Smith. Com a esposa, Hallie, organizou God Is Enough (1986), um livro de leituras diárias tirado dos escritos dela, e em 1994 publicou The Christian’s Secret of a Holy Life, com cartas e diários inéditos da autora de O segredo de uma vida feliz. Os seus papéis com a correspondência de Hannah Smith estão hoje no arquivo do Asbury Theological Seminary.
Na Sociedade Teológica Wesleyana, Dieter foi presidente em 1977. Donald Dayton, que viveu aqueles anos na sociedade, lembra que foi durante a presidência dele que a entidade tirou da sua declaração doutrinária a definição de “infalibilidade” copiada de um dicionário comum, o que na prática afastou a sociedade do fundamentalismo americano. A decisão passou com apenas dois votos contra. Em 1996 a sociedade lhe deu o prêmio pelo conjunto da obra.
Asbury e os últimos anos
Em 1975 Dieter foi para o Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, como o primeiro professor de história da igreja da escola, na cadeira de história da igreja e teologia histórica. Mais tarde foi vice-presidente e reitor acadêmico (provost). Aposentou-se em 1990. Em 1987 escreveu a visão wesleyana no livro Five Views on Sanctification (“Cinco visões sobre a santificação”), da Zondervan, ao lado de Anthony Hoekema (reformado), Stanley Horton (pentecostal), J. Robertson McQuilkin (Keswick) e John Walvoord (dispensacionalista). Em 1998 organizou The 19th-Century Holiness Movement, quarto volume da coleção Great Holiness Classics, da Beacon Hill Press.
Seus papéis, com cartas, anotações de pesquisa, folhetos e impressos do movimento de santidade e do pentecostalismo, foram para o arquivo do Fuller Theological Seminary, e a sua biblioteca pessoal de 480 volumes também foi catalogada como coleção especial.
Melvin Dieter morreu em 6 de outubro de 2018, em Lyndhurst, na Virgínia, com 93 anos. Hallie morreu no dia seguinte. O culto em memória dos dois foi celebrado em 27 de dezembro de 2018 na Igreja Wesleyana Parkway, em Staunton, na data em que fariam 73 anos de casados.
Pensamento
Dieter é um teólogo wesleyano, da tradição de santidade. Foi ministro da Igreja Wesleyana a vida inteira, escreveu a defesa da visão wesleyana da santificação no debate de 1987 e falava das igrejas do seu movimento como as “igrejas wesleyano-arminianas”. A sua soteriologia (a doutrina da salvação) é a de Wesley. Ao expor Wesley em 1995, escreveu que a graça preveniente, isto é, a graça de Deus que vem antes de qualquer resposta humana, “restaura em cada pessoa a capacidade de receber a graça salvadora do segundo Adão”. A capacidade de crer vem da graça, e não da natureza. É o arminianismo clássico na forma que Wesley lhe deu, sem nada de semipelagiano.
Fé somente e vida santa
A ideia que Dieter mais repetiu está no seu discurso presidencial publicado no Wesleyan Theological Journal em 1979. Com Albert Outler, ele dizia que a contribuição única de Wesley a toda a tradição cristã foi insistir que “não há tensão bíblica entre a salvação somente pela fé e a vida santa que se expressa em amor”. Lutero, a seu ver, deixou a fé somente e a vida santa lado a lado, como dois polos; Wesley as uniu. Para isso, Wesley juntou o caminho do meio anglicano, que vinha de Cranmer e dos místicos ingleses do século XIV, o estudo da igreja antiga e a leitura dos Pais orientais, como Basílio e os dois Gregórios, que o livraram de entender a salvação só em termos de tribunal.
Daí vinha um alerta aos colegas. Ao corrigir os excessos do avivalismo e do pentecostalismo, que põem a experiência acima de tudo, o movimento de santidade corria o risco de “passar direto por Wesley e cair nos braços de Lutero e Calvino”. O wesleyano fiel, dizia ele, precisa de uma teologia em que a justiça de Deus em Cristo se torne “realidade viva” na vida das pessoas, pela plenitude do Espírito.
A inteira santificação
No debate de 1987, Dieter apresentou a inteira santificação como Wesley a ensinou: uma obra da graça de Deus, posterior à conversão e recebida pela fé, que liberta o coração para amar a Deus e ao próximo. O amor é a medida da santificação. Ela costuma acontecer num momento de crise, uma entrega decisiva depois da conversão, e abre um crescimento que não termina nesta vida. Ele usou a velha fórmula agostiniana: pelo Espírito Santo o crente se torna “capaz de não pecar, embora nunca chegue ao ponto de não ser capaz de pecar” (Five Views on Sanctification, p. 137). A vitória prometida é sobre o pecado consciente e voluntário, a rebelião deliberada contra a lei de Deus, e não sobre as falhas involuntárias, que continuam enquanto vivemos num corpo mortal.
Dieter apoiava essa doutrina na leitura da Bíblia como um todo, e não em textos soltos. Citava Mateus 5:48 para mostrar que é possível, nesta vida, ser livre do pecado voluntário, e criticava a tradição da Reforma por falar quase só da justiça imputada, deixando de lado o que Paulo diz sobre a libertação real do pecado em Cristo.
O historiador e o próprio movimento
Como historiador, Dieter não poupou o seu movimento. No artigo “Primitivism in the American Holiness Tradition” (1995), mostrou que a santidade americana nasceu querendo reformar as igrejas por dentro e só depois se separou delas. Também mostrou que o “caminho mais curto” de Phoebe Palmer mudou o ensino de Wesley. Palmer ensinava que o crente que se põe inteiro “sobre o altar”, que é Cristo, pode reivindicar pela fé a purificação do coração naquele momento. Wesley punha a segunda bênção dentro de um processo muito mais longo de crescimento. Dieter observou que a forma mais radical dessa ideia de “reivindicar pela fé” reapareceu no ensino de “declarar e tomar posse” de parte do movimento carismático.
No discurso de 1979, tratou da linguagem do batismo com o Espírito Santo, que muitas igrejas de santidade usavam para a inteira santificação. Lembrou que o pentecostalismo, ao adotar o nome “pentecostal”, obrigou o movimento de santidade a abandonar esse vocabulário no começo do século XX. Agora o neopentecostalismo forçava a pergunta outra vez. Dieter não deu a resposta pronta. Perguntou que outra imagem expressaria tão bem como Pentecostes “a plenitude da vida no Espírito”. A declaração de fé deste site afirma a inteira santificação como obra da graça recebida pela fé, nos mesmos termos de Dieter, mas não a chama de batismo com o Espírito.
Por fim, Dieter pedia diálogo. Queria que a Sociedade Teológica Wesleyana ouvisse os melhores representantes de Keswick, do movimento carismático e do fundamentalismo, para discordar deles como são e não como “espantalhos”. Achava que o wesleyanismo só deixaria de ser “um redemoinho no remanso” da vida religiosa se encarasse a si mesmo e aos outros com franqueza. Entre os seus contemporâneos na sociedade estavam Mildred Wynkoop, Clarence Bence, Leo Cox, Donald Dayton, J. Kenneth Grider e Luke Keefer Jr., cuja leitura de Wesley como discípulo da igreja primitiva ele resumiu e usou. Para o lugar da santificação na doutrina cristã, veja o capítulo sobre a santificação e o panorama da tradição arminiana, de Armínio a Wesley.
Obras principais
- Revivalism and Holiness, tese de doutorado, Temple University (1972)
- “From Vineland and Manheim to Brighton and Berlin: The Holiness Revival in Nineteenth Century Europe”, Wesleyan Theological Journal 9 (1974)
- “Presidential Address: Musings”, Wesleyan Theological Journal 14, 1 (1979)
- The Holiness Revival of the Nineteenth Century (1980; 2ª ed., 1996)
- “John Wesley and Creative Synthesis”, revista do Asbury Theological Seminary, vol. 39, n. 3 (1984)
- God Is Enough, com Hallie A. Dieter, leituras diárias de Hannah Whitall Smith (1986)
- “The Wesleyan Perspective”, em Five Views on Sanctification (1987)
- The Christian’s Secret of a Holy Life: The Unpublished Personal Writings of Hannah Whitall Smith (1994)
- “Primitivism in the American Holiness Tradition”, Wesleyan Theological Journal 30, 1 (1995)
- The 19th-Century Holiness Movement, organizador, Great Holiness Classics, vol. 4 (1998)
Para aprofundar
- Ron McClung, “Former General Secretary of Educational Institutions passes away”, The Wesleyan Church, dezembro de 2018.
- Asbury Theological Seminary, “Asbury Seminary Extends Condolences to the Dieter Family”, 2018.
- Fuller Theological Seminary, Melvin Easterday Dieter Collection, guia do acervo, Online Archive of California.
- Asbury Theological Seminary, Papers of Melvin E. Dieter: Hannah Whitall Smith Correspondence Collection, guia do acervo.
- William Kostlevy (org.), Historical Dictionary of the Holiness Movement, verbete “Dieter, Melvin Easterday”.
- Wesleyan Theological Society, lista de presidentes.
- David Bundy, “The Historiography of the Wesleyan/Holiness Tradition”, e Donald W. Dayton, “Society’s Second Decade (1975-1984)”, em Wesleyan Theological Journal 30, 1 (1995).
- Tony Garland, “Review of Five Views on Sanctification”, SpiritAndTruth.org.
- Melvin E. Dieter, Revivalism and Holiness (tese, Temple University, 1972), Internet Archive.
- Melvin E. Dieter, “From Vineland and Manheim to Brighton and Berlin”, Wesleyan Theological Journal 9 (1974).
- Melvin E. Dieter, “Presidential Address: Musings”, Wesleyan Theological Journal 14, 1 (1979).
- Melvin E. Dieter, “Primitivism in the American Holiness Tradition”, Wesleyan Theological Journal 30, 1 (1995).
- Melvin E. Dieter, The Holiness Revival of the Nineteenth Century (Scarecrow Press, 1980), Internet Archive.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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