AssineApoie

EstudosAtos

Como a Igreja primitiva se espalhou pelo Império Romano

Como a igreja saiu de um cantinho da Palestina e se espalhou pelo mundo

Diego Gonçalves9 min de leitura1.810 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste estudo

Como a igreja cristã saiu de um cantinho pequeno da Palestina e se espalhou pelo mundo todo? O que sabemos sobre isso? E, além disso, o que não sabemos?

A história tem algumas lacunas, algumas incertezas e muita especulação, mas também algumas certezas firmes que vêm das Escrituras.

As pistas do Novo Testamento

Se olharmos para o Novo Testamento, principalmente para o livro de Atos dos Apóstolos, encontramos pistas de como a igreja crescia. Havia pelo menos três grandes comunidades: a paulina, a petrina e a joanina. Paulo, Pedro, João e outros aparecem indo de cidade em cidade, pregando e formando pequenas comunidades nas casas de pessoas comuns.

Atos não foi escrito como um livro de números ou de estatísticas. O autor não está preocupado em demonstrar números exatos nem listas do tipo “tantos cristãos aqui, tantos ali”. Os evangelhos e as cartas apostólicas também não tinham essa intenção. Eles contam histórias, resolvem problemas práticos e dão orientações pastorais. O que sabemos sobre a expansão da igreja vem desses relatos, lidos com atenção, tentando deduzir o que acontecia entre as linhas.

Da sinagoga para as casas

Sabemos, por exemplo, que Paulo, sempre que chegava a uma cidade, procurava uma sinagoga e pregava ali primeiro. Isso causava divisão: alguns judeus criam em Jesus, outros rejeitavam, e muitas vezes Paulo era expulso ou ameaçado.

Os que criam em Jesus iam com Paulo, normalmente os chamados “tementes a Deus”. Quem eram esses? Pessoas atraídas pelo judaísmo, pelos valores éticos, pelo monoteísmo e pela moralidade, mas que não tinham dado o passo de se tornar judeus de verdade. O Evangelho foi para elas uma grande notícia: podiam seguir o Deus de Israel sem carregar as exigências da Lei, como a circuncisão, as restrições alimentares e os rituais. Essa foi uma grande virada na história da igreja, tema até de debates intensos, como vemos em Atos 15. Desses “tementes a Deus” e de outros gentios vieram os primeiros cristãos não judeus, que em pouquíssimo tempo se tornaram o grupo majoritário da igreja.

É fácil perceber, pelas cartas de Paulo, que muita gente dessa época era de origem simples: trabalhadores, comerciantes, gente como Lídia (At 16:14-15) e como Priscila e Áquila (At 18:2-3). Esses cristãos abriam suas casas para os cultos, para as reuniões de oração e para acolher viajantes. E Paulo, que também trabalhava com as mãos fazendo tendas (At 18:3), certamente tinha facilidade para se enturmar com esse tipo de gente.

Era uma rede de contatos parecida com as que existem até hoje em certos grupos de imigrantes e em pequenas comunidades. Quando alguém chegava de fora, rapidamente achava conhecidos de conhecidos, era acolhido e recebia indicações e contatos. Em Romanos 16, Paulo, que nunca tinha ido a Roma, manda cumprimentos para uma lista enorme de pessoas daquela igreja. Isso mostra que as comunidades estavam ligadas por redes informais, relações pessoais, família e trabalho.

Assim, o Evangelho viajava junto com mercadores, viajantes, pequenos empresários e artesãos. A igreja crescia nos lares, no comércio e nas estradas, fora dos templos, sem poder, sem influência política e sem grandes recursos.

O que a história não conta: Egito e Nag Hammadi

Essa expansão não foi uniforme. Existem muitos lugares sobre os quais sabemos quase nada. O cristianismo chegou cedo ao Egito, especialmente a Alexandria, mas o Novo Testamento quase não informa como isso aconteceu. Sabemos, pelos achados arqueológicos, que havia comunidades cristãs ali. Inclusive os manuscritos mais antigos do Novo Testamento que conhecemos, como um fragmento do Evangelho de João datado do início do século II, foram encontrados nas areias do Egito. Mas quem levou o Evangelho para lá? Quem eram essas pessoas? Como viviam? Não sabemos.

Curiosamente, foi no Egito que arqueólogos acharam o maior número de textos considerados “heréticos”, como os famosos escritos de Nag Hammadi. São textos que apresentam ideias bem diferentes da fé cristã tradicional, com interpretações esotéricas e visões alternativas sobre Jesus e a salvação.

Aqui entra um ponto importante. É comum, até hoje, sair reportagem dizendo que “a verdadeira história do cristianismo” foi escondida, ou que havia vários tipos de cristianismo e só um venceu. Mas essas descobertas precisam ser lidas com muito cuidado. Não dá para pensar que, porque acharam um texto estranho num vaso enterrado no deserto, ele representa o que toda a igreja cristã daquele tempo acreditava. Muitas vezes eram grupos isolados, pequenos, na periferia do movimento cristão, e seus escritos sobreviveram justamente porque foram enterrados longe das cidades. A maioria dos cristãos nem sabia que esses grupos existiam.

Isso vale também para o judaísmo da época, como vemos nos Manuscritos do Mar Morto. Eles mostram a existência de comunidades bem diferentes do judaísmo comum de Jerusalém, mas que não eram representativas do todo. É como hoje: se alguém de fora ler um livro sobre seitas estranhas numa cidade do interior do Brasil, pode pensar que aquilo representa todo o cristianismo brasileiro. Quem vive aqui sabe que não é assim. O que sobrevive, muitas vezes, é a exceção, não a regra.

Paulo, Pedro e João

Se Paulo é relativamente bem conhecido, pelo menos o que ele fez em vida e por onde passou, Pedro e João são um mistério maior.

Sobre Pedro, há toda uma tradição, principalmente no catolicismo romano, de que ele teria sido o primeiro bispo de Roma, líder da igreja lá, morrido como mártir e deixado sucessores até chegar ao papa atual. Analisando os textos do Novo Testamento, porém, isso fica difícil de provar. Pedro realmente era uma liderança importante, aparece como porta-voz no Pentecostes (At 2:14) e nas primeiras decisões da igreja em Jerusalém, mas sempre acompanhado de outros, como João. E, por mais estranho que pareça, nas cartas de Paulo para Roma não há menção a Pedro estar lá, nem qualquer indicação de que ele era o chefe da igreja daquela cidade.

Pode ser que Pedro tenha, de fato, morrido em Roma, provavelmente durante a perseguição de Nero, depois do grande incêndio do ano 64. Mas afirmar que ele foi bispo de Roma por anos e deixou sucessores diretos é algo que só aparece muito tempo depois, já no século IV, quando a igreja de Roma precisava justificar sua importância diante das outras igrejas do império.

E João? Outro mistério. Além de ser lembrado como “o discípulo amado” que aparece no Evangelho, não se sabe muito mais sobre o seu paradeiro depois de Jerusalém. Há uma tradição antiga de que ele viveu muitos anos, morou em Éfeso e foi uma referência para a segunda e a terceira geração de cristãos. Policarpo, líder da igreja em Esmirna e mártir no ano 156, teria conhecido João pessoalmente em sua juventude.

A questão é: os textos atribuídos a João no Novo Testamento, o Evangelho, as cartas e o Apocalipse, vieram mesmo dele? Há quem defenda que sim, e há quem ache que são autores diferentes com o mesmo nome. A tradição mais antiga sustenta que João, o apóstolo, escreveu todos esses livros. O mais curioso é que tanto o Evangelho de João quanto o Apocalipse são textos de altíssima qualidade literária, em linguagem simples e acessível, mas com profundidade teológica imensa. O início do Evangelho (“No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus”, Jo 1:1) tem um vocabulário simples, e ninguém até hoje conseguiu esgotar o seu significado. O mesmo vale para o Apocalipse, cheio de imagens, símbolos e referências ao Antigo Testamento, mas sem citar diretamente nenhuma passagem, um feito único.

Outro detalhe: o Apocalipse foi escrito para ser lido em voz alta (Ap 1:3), como quase todos os textos daquele tempo. Seu ritmo, suas imagens e suas repetições têm um efeito que só se percebe lendo ou ouvindo, não apenas lendo em silêncio. Isso faz parte da força do texto e da experiência de fé da igreja primitiva, e mostra o quanto a transmissão oral da fé era importante antes dos livros impressos.

A perseguição

Agora, um ponto de que não dá para fugir: a perseguição. Desde cedo, a igreja enfrentou hostilidade, prisões e mortes, principalmente entre seus líderes. O primeiro mártir cristão, Estêvão, aparece ainda em Atos (At 7). Mas a perseguição não era apenas questão de fé. Para os líderes judeus, a pregação de Jesus como Messias dividia o povo, ameaçava a identidade da comunidade e era uma questão de sobrevivência cultural e religiosa. Isso explica a resistência e a perseguição aos judeus cristãos.

Ao mesmo tempo, é curioso notar que no Império Romano havia muito mais tolerância religiosa. Por que, então, os cristãos também passaram a ser perseguidos pelo Estado romano? A resposta está na diferença que o cristianismo representava. Para os romanos, aceitar mais um deus no panteão não era problema. O problema era um grupo de pessoas que recusava adorar o imperador, não se envolvia nos rituais públicos e não fazia sacrifícios aos deuses oficiais. Para eles, religião era questão de ordem pública e de estabilidade social, e os cristãos pareciam uma ameaça à unidade do império.

Os mártires cristãos morreram não por uma fé vaga, mas porque se recusaram a adorar outros deuses ou a reconhecer o imperador como divino. A palavra “mártir”, que originalmente significa “testemunha”, passou a ser sinônimo de quem testemunha com a própria vida, até a morte.

Cuidado com o que se publica

A partir daí surgiram muitos relatos, debates e confusões. Desde sempre há quem invente histórias, misture boato com verdade, traga à tona documentos antigos e queira fazer parecer que o cristianismo foi muito diferente do que é hoje, ou que tudo era mais plural, mais aberto, mais esquisito. Claro, havia diversidade, disputas, desvios e exageros. Mas a fé que sobreviveu e moldou a igreja é aquela baseada no testemunho dos apóstolos, na tradição viva transmitida de geração em geração, confirmada por vidas transformadas e por comunidades que atravessaram séculos enfrentando perseguição, pobreza e até a morte.

A história da igreja antiga tem muitas partes desconhecidas. Muito do que se publica hoje é baseado em suposições, interpretações e reconstruções com poucos dados. Isso não quer dizer que não vale estudar, questionar e pesquisar. Mas é preciso cuidado: nem tudo o que se diz por aí é verdade, e nem tudo o que sai na mídia ou nos livros populares tem base sólida. O que se sabe de verdade está na Escritura, na tradição confiável e nos documentos reconhecidos. O resto precisa ser lido com espírito crítico.

Fica então a pergunta: se alguém desafiasse hoje a sua fé, dizendo que tudo em que você acredita é invenção, você teria coragem e clareza para explicar de onde vem a sua esperança? A sua fé está baseada em boatos, em tradições humanas ou no testemunho vivo das Escrituras e na pessoa de Jesus Cristo?

Fontes para aprofundar

Atos dos Apóstolos; cartas de Paulo; Justo González, História Ilustrada do Cristianismo; Earle Cairns, O Cristianismo através dos séculos; Martirologia Cristã Primitiva; manuscritos de Nag Hammadi; Manuscritos do Mar Morto.