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R. Larry Shelton: A cruz lida pela aliança
Neste texto
- Vida
- Um menino da santidade nas montanhas
- Professor e administrador
- Editor e escritor
- Os povos indígenas
- Pensamento
- Um wesleyano arminiano
- A aliança como chave da expiação
- A crítica aos modelos jurídicos
- Até onde ele se afasta de Wesley e do arminianismo clássico
- A Escritura e a agenda wesleyana
- Obras principais
- Para aprofundar
Num artigo de 2004, R. Larry Shelton contou o que ouvira de um cristão indígena dos Estados Unidos: entre os povos nativos do país, a pregação do fogo do inferno, apoiada na ideia da cruz como castigo, tinha sido recebida muitas vezes como abuso espiritual. A conversa resumia uma pergunta que acompanhou Shelton por toda a carreira: como falar da morte de Cristo de modo fiel à Bíblia e compreensível a quem não foi formado pelo direito romano? A resposta dele foi a aliança. Filho de um pregador da santidade, presbítero da Igreja Metodista Livre e professor de teologia wesleyana em Seattle e em Portland, Shelton dedicou a vida a mostrar que a salvação, na Escritura, é antes de tudo a restauração de uma relação.
Vida
Um menino da santidade nas montanhas
Raymond Larry Shelton nasceu em 10 de janeiro de 1942 em Hooper’s Creek, na Carolina do Norte, numa região de montanha cujo humor ele levou consigo para o resto da vida. O pai, o reverendo Raymond Samuel Shelton, pregava na Igreja Santidade Peregrina; a mãe, Viola Hoots Shelton, era professora e diaconisa ordenada da Igreja Metodista Wesleyana. Larry cresceu dentro do movimento de santidade, o ramo do metodismo americano que enfatiza a inteira santificação, a obra da graça pela qual Deus purifica o coração e o enche de amor perfeito.
Estudou no Asbury Theological Seminary, em Wilmore, no Kentucky, onde fez o mestrado em divindade e o mestrado em teologia. O doutorado em teologia, na área de teologia histórica, veio em 1974 no Fuller Theological Seminary, na Califórnia, com uma tese sobre o conceito de interpretação bíblica de Martinho Lutero em perspectiva histórica.
Foi ordenado presbítero da Igreja Metodista Livre, a denominação fundada por B. T. Roberts no século XIX para manter a pregação da santidade e o cuidado com os pobres.
Professor e administrador
A carreira acadêmica de Shelton passou por várias escolas. Ensinou na North Carolina Agricultural and Technical State University, universidade pública de Greensboro, na Azusa Pacific University, na Califórnia, e no John Wesley College, na Carolina do Norte, onde foi deão acadêmico. Na Seattle Pacific University, a universidade metodista livre de Seattle, foi professor e deão da Escola de Religião. Mais tarde assumiu a vice-presidência de assuntos acadêmicos do Western Evangelical Seminary, em Portland, no Oregon, fundado em 1947 para servir a igrejas wesleyanas, de santidade e quacres.
Em 1996 o Western Evangelical Seminary se uniu ao George Fox College na George Fox University, e o seminário veio a se chamar George Fox Evangelical Seminary e, depois, Portland Seminary. Shelton ficou na nova escola desde a fusão, ensinando teologia histórica e sistemática, estudos wesleyanos e liderança cristã. Ocupou a cátedra Richard B. Parker de Teologia Wesleyana até se aposentar em 2013, quando recebeu o título de professor emérito.
Editor e escritor
Com o estudioso do Antigo Testamento John E. Hartley, Shelton organizou para a Warner Press a série Wesleyan Theological Perspectives (Perspectivas teológicas wesleyanas), em cinco volumes publicados entre 1981 e 1986. No primeiro, sobre a doutrina da salvação, escreveu sobre a justificação nas cartas de Paulo; o quinto, The Spirit and the New Age (O Espírito e a nova era, 1986), organizado com Alex R. G. Deasley, tratava do Espírito Santo e das últimas coisas. Em 1983 escreveu o capítulo sobre a salvação inicial em A Contemporary Wesleyan Theology, organizada por Charles W. Carter.
No Wesleyan Theological Journal, a revista da Sociedade Teológica Wesleyana, publicou três textos que marcam as fases do seu pensamento: sobre o modo como John Wesley usava a Escritura (1981), sobre um conceito de expiação baseado na aliança (1984) e sobre a agenda da tradição wesleyana e de santidade para o século XXI (1998). O artigo de 1984 saiu acompanhado de uma resposta de Arthur M. Climenhaga, que concordou com a abordagem e com as conclusões.
O trabalho de duas décadas sobre a cruz ganhou forma em Cross and Covenant: Interpreting the Atonement for 21st Century Mission (Cruz e aliança: interpretando a expiação para a missão no século XXI), publicado em 2006 pela Paternoster. O livro nasceu de um manuscrito em preparo havia anos, intitulado Divine Expectations (Expectativas divinas), e foi elogiado por Joel B. Green pela clareza e pelo senso de missão.
Os povos indígenas
Na última fase da carreira, Shelton se voltou para a teologia dos povos nativos da América do Norte e para a questão moral da colonização e dos seus efeitos sobre eles. Participou da maior parte dos simpósios do North American Institute for Indigenous Theological Studies (NAIITS), uma comunidade de estudo fundada e dirigida por indígenas, e o diretor executivo do instituto, Terry LeBlanc, elogiou a defesa que ele fazia do lugar dos indígenas na vida acadêmica. O teólogo indígena Randy Woodley, que Shelton ajudou a trazer para o ensino em tempo integral, descreveu-o como amigo, confidente e colega, de mente teológica afiada e humor de gente da montanha, e resumiu: Larry era, acima de tudo, “um ser humano de verdade”.
Em 2014, colegas, antigos alunos e amigos publicaram em sua honra Covenant-Making: The Fabric of Relationship (Fazer aliança: o tecido das relações), organizado por Charles J. Conniry Jr. e Laura K. Simmons. Os capítulos aplicam a ideia de aliança à expiação, à missão, à santificação e à vida em família; o primeiro, de MaryKate Morse, apresenta o próprio Shelton.
Casado com Evangeline, pai de duas filhas, Shelton gostava de pescar, caminhar e acampar. Morreu em Vancouver, no estado de Washington, em 22 de janeiro de 2020, aos 78 anos.
Pensamento
Um wesleyano arminiano
Classe: wesleyano. Shelton foi presbítero metodista livre e escreveu sempre de dentro da tradição de Wesley, que ele chamava de teologia “wesleyano-arminiana”. Rejeitou a expiação limitada e a eleição por decreto, que associava ao calvinismo, e descreveu a salvação como o caminho da graça proposto por Wesley: com base na obra de Cristo, o Espírito Santo aplica a todas as pessoas a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta, que leva à convicção do pecado, à justificação e ao novo nascimento pela fé, e daí à santificação e ao amor perfeito. Ao propor essa visão à cultura do fim do século XX, insistiu que a restauração da imagem de Deus no ser humano precisava permanecer “claramente baseada somente na graça e no poder do Espírito Santo” (A Wesleyan/Holiness Agenda, 1998), para não virar culto ao próprio eu.
A aliança como chave da expiação
O centro da obra de Shelton é a doutrina da expiação, isto é, o modo como a morte de Cristo nos reconcilia com Deus. Para ele, “as questões do pecado e da salvação são profundamente interpessoais” (A Covenant Concept of Atonement, 1984), e a imagem bíblica que melhor exprime isso é a aliança. Aliança, para ele, é uma relação de compromisso entre Deus e as pessoas, que já existia com Adão, criado à imagem de Deus, antes de qualquer aliança formal. A Lei, nessa moldura, é o conjunto das “expectativas divinas” que guardam a comunhão, e o pecado é a quebra dessa comunhão.
Daí ele releu os sacrifícios do Antigo Testamento. Seguindo os estudiosos alemães Hartmut Gese e Otfried Hofius, entendia o gesto de pôr a mão sobre a cabeça do animal como identificação: o ofertante se colocava no animal e oferecia a si mesmo a Deus, em arrependimento. A transferência de pecados aparece, segundo ele, no rito do bode emissário, em que o sacerdote põe as duas mãos (Levítico 16:21-22), e não deve ser estendida a todos os sacrifícios. Levítico 17:11 diz que a vida está no sangue, e por isso o que se oferece a Deus é a vida. O verbo hebraico da expiação, kipper, tem como objeto o pecado, e nunca Deus; quem toma a iniciativa é Deus, que deu ao povo o próprio sistema de sacrifícios. E a Bíblia nunca diz que Deus precise ser reconciliado: são os pecadores que se reconciliam com ele (2 Coríntios 5:19-20; Romanos 5:10).
Aplicada a Cristo, essa leitura dá o que Shelton chamou de expiação como renovação da aliança. Cristo, o segundo Adão, assume a humanidade inteira, entra na morte que o pecado trouxe e oferece a Deus a obediência perfeita que a aliança esperava. Como ele participa da nossa morte, nós participamos da sua ressurreição (Romanos 6). Pela fé, o crente se une a Cristo, entra na obediência dele como se fosse sua e é restaurado à imagem de Deus pelo Espírito que regenera. Nesse esquema a Trindade inteira age na cruz, e a santificação nasce da própria expiação, sem precisar de um passo extra.
A crítica aos modelos jurídicos
Shelton percorreu a história das teorias da expiação para mostrar de onde vinha a linguagem jurídica. Via com simpatia a recapitulação de Irineu, em que Cristo reúne em si a humanidade e recupera a imagem perdida. Já a linha que vai de Tertuliano e Cipriano a Anselmo e a Calvino, segundo ele, trouxe para a teologia as categorias do direito romano e do sistema penitencial: mérito, dívida, satisfação, pena. A teoria governamental de Hugo Grócio, adotada por muitos arminianos e metodistas, mantinha a necessidade de uma pena e por isso lhe parecia “uma teoria da influência moral ao contrário”. Lembrava, com aprovação, que o remonstrante Étienne de Courcelles tinha preferido falar de sacrifício a falar de castigo.
O motivo da crítica era pastoral. Um modelo que só remove a culpa, dizia Shelton, deixa de lado a transformação da pessoa, e gera legalismo, obsessão com a culpa e o que Dallas Willard chamou de “gerenciamento do pecado”. A pergunta wesleyana, para ele, era outra: “Deus não pode fazer nada com o pecado além de perdoá-lo? Não pode também quebrar o seu poder?” (Covenant Atonement as a Wesleyan Integrating Motif, 2004). Ele chegou a atribuir em parte a essa ênfase a esterilidade da pregação da santidade nos púlpitos wesleyanos dos Estados Unidos.
Até onde ele se afasta de Wesley e do arminianismo clássico
Shelton sabia que divergia do próprio Wesley nesse ponto. Ele mesmo mostrou que Wesley via a morte de Cristo como o castigo devido aos nossos pecados e preferia “propiciação” a “expiação” em Romanos 3:25, contra William Law. Classificou a posição de Wesley como “satisfação penal modificada” e argumentou, com H. Ray Dunning, que ela não sustentava bem a doutrina da santidade que Wesley pregava.
Aqui está a principal diferença entre Shelton e a nossa declaração de fé. Com Jacó Armínio e Wesley, entendemos a cruz como satisfação penal substitutiva: Cristo levou sobre si a pena do pecado (Isaías 53:5-6; Gálatas 3:13). Shelton propõe uma “substituição inclusiva”, em que Cristo nos representa e nós participamos dele, e não uma substituição penal. Ele mantém a iniciativa de Deus do começo ao fim, e por isso não há nele nada de semipelagiano: quem abre o caminho e chama ao arrependimento é Deus. A distância está no sentido da morte de Cristo, e não na primazia da graça.
A Escritura e a agenda wesleyana
No artigo de 1981, Shelton situou Wesley na linha dos Pais da Igreja e dos reformadores: ele afirmava a inspiração, fundava a autoridade da Bíblia no testemunho interior do Espírito Santo e lia a Escritura como meio de graça, pelo qual o Espírito aplica a salvação. “A hermenêutica por trás da interpretação bíblica de Wesley é o amor”, escreveu. Shelton sustentou que Wesley não baseava a autoridade da Bíblia na inerrância dos manuscritos originais, doutrina que ele ligava à teologia de Princeton do século XIX, e citou a nota de Wesley sobre as genealogias de Mateus 1, que admite falhas nas listas usadas pelo evangelista sem prejuízo do texto. Nesse ponto ele também difere da nossa declaração de fé, que afirma que os autógrafos foram preservados de erro.
Em 1998, Shelton propôs uma agenda para a tradição wesleyana e de santidade no século XXI. Pedia uma teologia que transformasse a cultura sem se acomodar a ela, livre da herança liberal e da fundamentalista. Retomava o diagnóstico de Wesley sobre o pecado original, a pessoa presa ao “círculo do eu”, e apresentava a inteira santificação como o amor que ocupa o centro antes tomado pelo pecado. Queria recuperar as classes metodistas e uma ética atenta às estruturas, aos direitos humanos, à criação e aos pobres. Em 2004, defendeu que a aliança, imagem conhecida em quase todas as culturas, serve melhor à missão entre povos não ocidentais que os modelos jurídicos europeus.
Obras principais
- Wesleyan Theological Perspectives, 5 volumes, organizados com John E. Hartley (Warner Press, 1981-1986); o quinto, The Spirit and the New Age, com Alex R. G. Deasley (1986).
- “John Wesley’s Approach to Scripture in Historical Perspective”, Wesleyan Theological Journal 16, n. 1 (1981).
- Capítulo sobre a salvação inicial em A Contemporary Wesleyan Theology, org. Charles W. Carter (1983).
- “A Covenant Concept of Atonement”, Wesleyan Theological Journal 19, n. 1 (1984).
- “A Wesleyan/Holiness Agenda for the Twenty-First Century”, Wesleyan Theological Journal 33, n. 2 (1998).
- “Covenant Atonement as a Wesleyan Integrating Motif”, Aldersgate Papers 5 e The Asbury Theological Journal 59 (2004).
- Cross and Covenant: Interpreting the Atonement for 21st Century Mission (Paternoster, 2006).
Para aprofundar
- R. Larry Shelton, “A Covenant Concept of Atonement”, com a resposta de Arthur M. Climenhaga, Wesleyan Theological Journal 19, n. 1 (1984).
- R. Larry Shelton, “John Wesley’s Approach to Scripture in Historical Perspective”, Wesleyan Theological Journal 16, n. 1 (1981).
- R. Larry Shelton, “A Wesleyan/Holiness Agenda for the Twenty-First Century”, Wesleyan Theological Journal 33, n. 2 (1998).
- R. Larry Shelton, “Covenant Atonement as a Wesleyan Integrating Motif”, Aldersgate Papers 5 (2004), com nota biográfica do autor; também no Digital Commons da George Fox University e no Asbury Journal.
- R. Larry Shelton, “Relational Atonement: Covenant Renewal as a Wesleyan Integrating Motif” (2008), Digital Commons da George Fox University.
- “Raymond Larry Shelton”, obituário, Evergreen Memorial Gardens (2020).
- “Larry Shelton”, página do autor e descrição de Cross and Covenant, Logos.
- Randy S. Woodley, “Did Jesus or Custer Die for Our Sins?”, e MaryKate Morse, “The Man behind the Curtain: Who is this Covenant Theologian?”, em Charles J. Conniry Jr. e Laura K. Simmons (orgs.), Covenant-Making: The Fabric of Relationship (Pickwick, 2014).
- “Portland Seminary”, Wikipédia em inglês.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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