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Oswald Chambers: O professor da santidade por trás de Tudo para Ele

Diego Gonçalves14 min de leitura2.788 palavras

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Neste texto

Na primeira noite no acampamento de Zeitoun, perto do Cairo, em outubro de 1915, o novo capelão da Associação Cristã de Moços anunciou uma reunião de oração na tenda de lona que fazia as vezes de salão. Ninguém apareceu. Oswald Chambers pregou assim mesmo, e aos poucos os soldados australianos e neozelandeses começaram a entrar. Dois anos depois, quando ele morreu, cerca de mil pessoas encheram a cabana da associação em Zeitoun para o culto em sua memória. Chambers nunca escreveu o livro que o tornou conhecido. Tudo para Ele saiu dez anos depois da sua morte, montado pela viúva a partir das notas taquigráficas das aulas que ele dava a estudantes e soldados.

Retrato de Oswald Chambers com a mão apoiada no rosto
Oswald Chambers, fotografia da época, autor desconhecido. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Aberdeen, Londres e a arte

Oswald Chambers nasceu em 24 de julho de 1874, em Aberdeen, na Escócia, penúltimo dos nove filhos de Clarence e Hannah Chambers. O pai era pastor batista, e os dois tinham sido batizados por Charles Spurgeon. Em 1889 a família se fixou em Peckham, no sul de Londres.

Aos quinze anos, voltando para casa depois de ouvir Spurgeon pregar, Oswald disse ao pai que teria entregado a vida ao Senhor naquela noite, se houvesse oportunidade. O pai respondeu: “Você pode fazer isso agora, meu filho”. Ele fez. Foi batizado na Rye Lane Baptist Chapel, onde deu aulas na escola dominical e trabalhou com os pobres do bairro.

O rapaz tinha talento para a música, a poesia e o desenho. De 1893 a 1895 estudou na National Art Training School, a atual Royal College of Art, e recusou uma bolsa para continuar os estudos no exterior. Sonhava com o que chamava de “a redenção do reino estético”, a arte posta a serviço de Deus.

Edimburgo e Dunoon

Em 1895 entrou no curso de artes da Universidade de Edimburgo. Numa noite de oração em Arthur’s Seat, o morro que domina a cidade, ele teve a certeza de um chamado, que resumiu nestas palavras ouvidas de Deus: “Eu quero você no meu serviço, mas posso passar sem você”.

Pouco depois encontrou o folheto de uma pequena escola de obreiros em Dunoon, na Escócia, dirigida pelo pastor batista Duncan MacGregor. Chambers chegou ali em 1897 e ficou quase dez anos, como aluno e depois como tutor, e em 1899 foi ordenado na igreja batista local. MacGregor foi para ele um pai: “Nunca amei um homem como o amo”.

O jovem pregador era duro, e uma igreja chegou a pedir outro. A amizade com o metodista Dinsdale Young e uma crise pessoal mudaram o tom.

Quatro anos de secura

A crise começou com uma visita de F. B. Meyer a Dunoon. Meyer falou sobre o Espírito Santo, e Chambers decidiu ter tudo o que Deus oferecesse: foi para o quarto e pediu a Deus o batismo do Espírito Santo. O que veio foram cerca de quatro anos de secura espiritual, que ele chamou de “inferno na terra”. A Bíblia, contou ele mais tarde, lhe parecia “o livro mais enfadonho e desinteressante que existia”.

A saída veio de Lucas 11:13, a promessa de que o Pai dará o Espírito Santo aos que lho pedirem. Em 1901 ele resolveu tomar a promessa ao pé da letra e reclamar o dom com base na palavra de Jesus, sem esperar sentir nada. Numa reunião pouco depois, outras pessoas foram tocadas, e ele continuou vazio. MacGregor perguntou se ele não se lembrava de ter reclamado o Espírito como dom, pela palavra de Jesus, e concluiu: “Este é o poder do alto”. Chambers entendeu que vinha tentando apresentar o próprio sacrifício como oferta. Anos depois escreveria que “o ensino que apresenta a consagração como dar a Deus os nossos dons, os nossos bens, os nossos companheiros, é um erro profundo”. Consagrar-se, para ele, passou a significar entregar a Deus o direito a si mesmo.

A Liga de Oração, Cincinnati e o Japão

A experiência de 1901 levou Chambers à Liga Pentecostal de Oração, fundada em 1891 pelo advogado londrino Richard Reader Harris (1847-1909). O nome é anterior ao pentecostalismo moderno: a Liga era uma rede interdenominacional do movimento de santidade, que orava por avivamento e pregava a inteira santificação. A partir de 1906 Chambers trabalhou para ela em tempo integral, sem salário fixo, viajando pela Grã-Bretanha.

Na Liga ele conheceu Juji Nakada (1870-1939), evangelista japonês da santidade, um dos fundadores da Sociedade Missionária Oriental. Em 1906 os dois partiram para o Japão passando pelos Estados Unidos. No fim de dezembro chegaram a Cincinnati, à God’s Bible School, a escola de santidade fundada por Martin Wells Knapp. Chambers ensinou ali um semestre, e o que recebeu pagou a viagem ao Japão, onde passou alguns meses com Charles Cowman, o outro fundador da Sociedade Missionária Oriental. Voltou à escola todos os anos de 1907 a 1910, escreveu para a revista dela, God’s Revivalist, até o fim da vida, e os seus primeiros livros saíram por essa editora.

No fim de 1907, de volta à Grã-Bretanha, encontrou o movimento de santidade dividido pela chegada das línguas. Chambers não combatia o falar em línguas, mas criticava quem fazia dele a prova do batismo no Espírito.

Biddy e o Bible Training College

Em 1908, a bordo do Baltic, de Liverpool a Nova York, ele conheceu Gertrude Hobbs, taquígrafa que escrevia 250 palavras por minuto, a quem apelidou de Biddy. Casaram-se em 25 de maio de 1910. A partir daí Biddy anotou em taquigrafia quase todas as aulas e sermões do marido.

Em 1911 a Liga comprou uma casa grande em Clapham Common, em Londres, e ali abriu o Bible Training College, com Chambers como diretor e Biddy como superintendente. Entre 1911 e 1915 passaram por ela 106 estudantes residentes, e em julho de 1915 quarenta deles já estavam no campo missionário. As aulas de 1911 sobre a constituição do ser humano viraram o livro Biblical Psychology. Em 24 de maio de 1913 nasceu Kathleen, a única filha do casal.

Zeitoun

Com a guerra, Chambers fechou o colégio em maio de 1915 e se apresentou como capelão voluntário da Associação Cristã de Moços. Chegou ao Egito em outubro, e Biddy, Kathleen e Mary Riley foram ao seu encontro meses depois. Em Zeitoun ele trocou os concertos e as sessões de cinema da cabana da ACM por aulas bíblicas, que reuniam centenas de soldados. Um soldado escreveu que quase valia a pena se alistar só para ouvir Oswald Chambers. Na primavera de 1917 ele deu uma série de aulas sobre o livro de Jó, que Biddy transcreveu e que se tornaria Baffled to Fight Better.

Em 17 de outubro de 1917 teve uma crise de apendicite. Recusou-se a ocupar um leito de hospital, que seria necessário para os feridos da ofensiva contra Gaza. Foi operado de emergência em 29 de outubro e morreu em 15 de novembro, aos 43 anos, de uma hemorragia pulmonar, no hospital da Cruz Vermelha de Gizé. Biddy mandou aos amigos um telegrama de quatro palavras: “Oswald in His Presence”, Oswald na presença dele. Cem soldados acompanharam o caixão até o cemitério do Velho Cairo, e o missionário Samuel Zwemer falou junto ao túmulo.

A obra dos livros

Biddy continuou no Egito até 1919, transformando as notas em folhetos mensais que a ACM distribuía aos soldados. Naquele ano voltou à Inglaterra com Kathleen, sem pensão e sem economias, só com os cadernos de taquigrafia. Para se sustentar, abriu uma pensão em Oxford, e foi ali que, em 1926, datilografou os 365 trechos de My Utmost for His Highest, publicado em 1927 e, nos Estados Unidos, em 1935. Em 29 de dezembro de 1940, um bombardeio alemão sobre Londres queimou os depósitos perto da Catedral de São Paulo e todo o estoque dos livros de Chambers, mas os livros voltaram a ser impressos depois da guerra. Quando Biddy morreu, em 15 de janeiro de 1966, mais de trinta livros com o nome do marido estavam publicados. Tudo para Ele nunca saiu de catálogo e foi traduzido para dezenas de línguas.

Pensamento

Um wesleyano do movimento de santidade

Chambers é um wesleyano do movimento de santidade. Batista por formação e por ordenação, passou a vida adulta na Liga Pentecostal de Oração e na God’s Bible School, duas casas da santidade de linha wesleyana, e ensinou a doutrina delas: depois do novo nascimento, uma segunda obra da graça, a inteira santificação. Na leitura de 10 de janeiro de Tudo para Ele, comentando Atos 26:18, ele separa as duas obras: primeiro o perdão dos pecados, e “depois vem a segunda grande obra da graça”, a herança “entre os que são santificados”. J. I. Packer, teólogo reformado que admirava Chambers, via nele uma teologia evangélica comum com uma exceção: a inteira santificação de Wesley, que Chambers julgava confirmada no seu próprio “batismo no Espírito” de 1901.

Chambers não escreveu tratados sobre eleição, mas a soteriologia das suas aulas tem a forma do arminianismo de Wesley: a graça vem primeiro, o convite é para todos, e a pessoa responde à graça sem que essa resposta seja mérito.

Só Deus salva, só Deus santifica

Em Biblical Psychology (aulas de 1911), Chambers insiste na incapacidade humana. O amor que a Bíblia pede não brota do coração humano; só o Espírito o derrama. Daí a advertência: “Nós tentamos nos ‘salvar’, mas só Deus pode fazer isso; depois tentamos nos ‘santificar’, mas só Deus pode fazer isso”. Depois que Deus realizou essas “obras soberanas da graça”, cabe ao crente pôr a graça em prática na vida, como em Filipenses 2:12-13.

Ao mesmo tempo, a graça é oferecida a todos e pede resposta: está aberto “a cada um escolher” receber esse amor pelo dom do Espírito (Lucas 11:13; Romanos 5:5). A escolha recebe e não produz nada: “Será que eu percebo, sem nenhuma esperteza, que não tenho em mim mesmo poder algum para ser santo?”, pergunta ele, e então: “escolho deliberadamente receber dele a graça soberana” que fará essa obra em mim? Em Tudo para Ele ele diz o mesmo sobre o novo nascimento: quem nasce de novo sabe que foi porque recebeu algo “como dom do Deus Todo-Poderoso”, e não por decisão própria. É a imagem que Jacó Armínio usava para a fé, a mão vazia que recebe o presente. Chambers não usa o termo graça preveniente, mas pensa nessa ordem: a graça vem antes e torna possível a resposta.

A responsabilidade humana, para ele, está em recusar a libertação oferecida. A expiação de Cristo, escreve, “fez provisão” para a disposição de pecado que herdamos, e o homem passa a ser responsável no momento em que vê que Deus pode livrá-lo dela e não deixa (João 3:19).

O direito a si mesmo

O centro do ensino de Chambers é a santificação, entendida como identificação com Cristo. “A santificação não é algo que Jesus Cristo põe em mim: é Ele mesmo em mim”, diz uma das leituras de Tudo para Ele. Por isso ele fala menos de um estado alcançado e mais de uma rendição: o que o crente entrega a Deus na santificação é “o direito a si mesmo”, a lição da sua crise em Dunoon. O título do livro mais famoso sai da primeira leitura do ano, sobre Filipenses 1:20: “Minha determinação é dar o meu máximo para o Seu supremo”.

Essa santificação não é perfeição sem falhas. Em Biblical Psychology ele descreve o Espírito tomando “o território inteiro” da pessoa até a inteira santificação, e diz que só então começa o crescimento na graça que manifesta a vida de Jesus no corpo mortal. Também desconfiava de quem tomava a conversão, a inteira santificação, as línguas ou o desejo de ser “usado por Deus” como o objetivo da vida cristã; conformar-se à vontade de Deus é coisa de todo dia. O alvo era o próprio Cristo, e a ambição que ele confessava era ter “menção honrosa” na relação de alguém com o Senhor Jesus.

Sofrimento sem explicação

As aulas de Zeitoun sobre Jó mostram outro lado do seu pensamento. Para soldados em guerra, ele não ofereceu explicações fáceis. “Deus nunca torna claro a Jó o seu caminho”, diz Baffled to Fight Better, e “há nuvens que são negras de ponta a ponta”. Jó não recebe a resposta que pede, mas conhece melhor o caráter de Deus, e o sofrimento tira dele a confiança em si mesmo. O tema volta no nosso estudo sobre Jó e o sofrimento.

Diferenças com a declaração de fé do site

Na salvação, Chambers e a declaração de fé do site caminham juntos: incapacidade humana, graça que vem antes, expiação oferecida a todos e inteira santificação como obra da graça posterior à regeneração (ver Sede perfeitos: o que Wesley ensinou sobre perfeição cristã). Há uma diferença de formulação no pecado original. Chambers ensina que Deus não responsabiliza o homem por ter herdado a disposição de pecado, só pelo mal que pratica e por recusar a libertação; a declaração do site confessa que todos nascemos pecadores e sob a justa condenação de Deus. E ele chamava a crise de santificação de “batismo no Espírito”, como o movimento de santidade da época, enquanto o site usa o nome “inteira santificação”.

Obras principais

  • Biblical Psychology (1912; edição do God’s Revivalist, Cincinnati, 1914)
  • Studies in the Sermon on the Mount (1915)
  • Baffled to Fight Better (1917)
  • My Utmost for His Highest (1927; edição americana pela Dodd, Mead, 1935)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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