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HistóriaTeólogos arminianos16 de 330

Peter Lumpkins: O pastor batista que contou as confissões do Sul para medir o calvinismo

Diego Gonçalves13 min de leitura2.567 palavras

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Neste texto

Em outubro de 1970, durante a Série Mundial de beisebol, um operário de uma fábrica de produtos químicos do Tennessee assistia ao jogo pela televisão quando os pulmões se encheram de líquido. A esposa o levou ao hospital, e ele morreu cerca de uma hora depois. O caçula dos doze filhos, Peter, mal tinha 16 anos. Desse pai ele guardou três lembranças: a paixão pela pesca de black bass, a devoção ao time do Atlanta Braves e a cerveja. Quase quarenta anos depois, Peter Lumpkins abriu o seu primeiro livro, uma defesa da abstinência total de bebidas alcoólicas, contando essa história, porque foi bebendo as latas do pai que ele mesmo começou a beber.

Vida

O vale perto da ferrovia

Edgar Peter Frank Lumpkins cresceu no centro do Tennessee, numa casa de quatro cômodos no fundo de um vale cortado por um riacho, perto de uma ferrovia movimentada. A família era muito pobre e não tinha água encanada: o riacho servia de piscina e de banheira, e a casinha do banheiro ficava perto do pontilhão da linha do trem. Ele morou ali nos primeiros dezessete anos de vida.

A casa não se considerava cristã, mas o respeito a Deus era ensinado, e os pais faziam questão de que o menino fosse à Escola Dominical e ao culto. Ele conta que teve ainda criança um primeiro encontro com Deus e que o ensino bíblico daqueles anos o marcou, mas só se tornou cristão na idade adulta. Começou a beber cedo, com goles das latas que levava ao pai, e depois com latas inteiras bebidas escondido no mato. Da morte do pai até o casamento, quase toda semana bebia até perder os sentidos. Anos depois, ao concluir o doutorado, escreveu que se apaixonou por Cristo pela primeira vez numa igreja batista. É casado com Kathy Lynn Lumpkins.

Vinte anos de púlpito

Lumpkins se formou em religião e filosofia, fez o mestrado em divindade no New Orleans Baptist Theological Seminary e o doutorado em ministério, na área de pregação expositiva, no Trinity Theological Seminary. Fez também estudos de pós-graduação em bioética na Trinity International University. Durante mais de vinte anos pastoreou igrejas batistas do Sul em Kentucky, no Tennessee e na Geórgia. Depois disso passou a se dedicar à escrita, morando no oeste da Geórgia e editando uma série de estudos bíblicos para pequenos grupos. Em 2013 estava à frente da Corner Stone Baptist Chapel, em Waco, na Geórgia. Nos anos do doutorado servia numa igreja cujo pastor titular lhe deu horários flexíveis para terminar a pesquisa.

O blog e as brigas da convenção

No seu blog, peterlumpkins.com, que também levava o nome SBC Tomorrow, comentava a vida da Convenção Batista do Sul e, sobretudo, o crescimento do calvinismo entre os pastores jovens. Em 2016 escrevia no blog Free Church Theology sobre Balthasar Hubmaier, os anabatistas e a liberdade religiosa.

Em julho de 2009 a Hannibal Books lançou Alcohol Today: Abstinence in an Age of Indulgence (“O álcool hoje: abstinência numa era de indulgência”). Em dezembro de 2010, numa reportagem da Associated Baptist Press, ele disse que a aceitação do consumo social de bebida era a maior controvérsia dos batistas do Sul desde a virada conservadora dos anos 1980. Os líderes mais jovens chamavam a abstinência de “legalismo farisaico”; ele via ali uma “mudança moral cataclísmica”, que afastava a igreja da santidade bíblica.

Em abril de 2012 publicou que os curadores da Liberty University tinham vetado por unanimidade uma visita do pastor Mark Driscoll. A universidade negou a votação e mandou uma notificação extrajudicial exigindo a retirada do texto.

A resolução sobre abuso infantil

O episódio de maior repercussão veio em 2013. Um processo acusava líderes da Sovereign Grace Ministries, entre eles C. J. Mahaney, de encobrir abusos sexuais contra crianças. Mahaney tinha laços com Albert Mohler, presidente do Southern Seminary, pela conferência Together for the Gospel. Em maio Lumpkins enviou a primeira resolução da sua vida à comissão da convenção: ela pedia que servidores denominacionais, dirigentes de instituições e curadores cortassem “todos os laços” com quem estivesse sendo processado por falhas na proteção de crianças. A comissão reescreveu o texto. Na reunião de Houston, em 11 e 12 de junho de 2013, Lumpkins propôs do plenário uma emenda pedindo aos líderes “o mais alto discernimento” ao se associar a grupos com práticas duvidosas de proteção à infância. Os mensageiros aprovaram a emenda e a resolução “Sobre o abuso sexual de crianças”.

Em outubro do mesmo ano ele acusou líderes da convenção de ignorar a decisão: o presidente do Southeastern Seminary, Danny Akin, divulgava uma conferência com Mahaney, e o Southern Seminary dava créditos a alunos do colégio de pastores da Sovereign Grace. “O que estamos dizendo às vítimas de abuso, batistas do Sul?”, perguntou.

Pretória e a Truett-McConnell

Nos arquivos da Southern Baptist Historical Library and Archives, em Nashville, e nas coleções especiais da Mercer University, em Macon, Lumpkins examinou milhares de documentos de mais de quatrocentas associações batistas de doze estados do Sul do século XIX. A tese foi defendida em 2018 no Departamento de História e Governo da Igreja da Universidade de Pretória, na África do Sul, sob orientação de Jerry Pillay. Entre os que comentaram o trabalho estavam o historiador Bruce Gourley e os teólogos Malcolm Yarnell e Fisher Humphreys.

No mesmo ano ele já dirigia a TMU Press, a editora da Truett-McConnell University, em Cleveland, na Geórgia, faculdade batista presidida por Emir Caner, irmão de Ergun Caner. Ali passou a professor associado de história e estudos cristãos. Antes disso, em 2013, tinha editado o livreto Born Guilty?, de Adam Harwood, lançado pela Free Church Press, de Carrollton, na Geórgia, e trabalhado na edição de Preach the Word!, coletânea sobre pregação bíblica em honra de Jerry Vines, organizada por David L. Allen, que traz capítulos de Lumpkins, de Paige Patterson, dos irmãos Caner e de outros.

Pensamento

Não calvinista, sem ser anticalvinista

Classe: simpatizante. Lumpkins rejeita o calvinismo nos seus pontos centrais, mas não se diz arminiano. Num texto de 2007, republicado em 2012 com o título “Divagações de um não calvinista na Convenção Batista do Sul”, ele se descreveu assim: “Sou não calvinista”, e logo depois: “definitivamente não sou anticalvinista”. Contou que já tinha admirado Warfield, Spurgeon e R. C. Sproul e que a mudança veio devagar, pela leitura da Escritura, e não por filosofia nem por admiração a heróis. A regra que o guiou foi que “a preocupação com o texto sempre vem antes da preocupação teológica”.

A recusa do rótulo de anticalvinista tem dois motivos. Os calvinistas fazem parte da igreja fiel, e ser contra eles seria ser contra cristãos. Além disso, “onde quer que tenha havido batistas na terra de Deus, houve calvinistas”, de modo que ser anticalvinista seria, para um batista, ser contra a própria história. O alvo dele são os calvinistas que ele chama de militantes, os que tratam o sistema como se fosse o próprio evangelho e repetem o slogan “o evangelho é o calvinismo, e o calvinismo é o evangelho”.

Em 2014 publicou um texto que perguntava se ensinar que a regeneração precede a fé, tese central do calvinismo estrito, não acabaria levando à salvação pelas obras.

O que as confissões mostram

A contribuição mais sólida de Lumpkins é histórica. O historiador Tom Nettles e o teólogo Albert Mohler, ambos calvinistas, afirmam que os batistas do Sul foram calvinistas até o começo do século XX; Nettles chegou a chamar a mudança posterior de “apostasia teológica”. Lumpkins foi conferir essa tese nos documentos que as próprias associações adotaram e tomou como medida a Confissão de Fé de Filadélfia (1742), edição americana da Segunda Confissão de Londres, que ele chama de padrão do calvinismo estrito.

O que encontrou foi diversidade desde o começo. Em 1801 os batistas de Kentucky uniram as alas “regular” e “separada” com termos de união em onze artigos que não falam de eleição e declaram que a doutrina da redenção geral, isto é, de que Cristo morreu por todos, “não impede a comunhão”. Em 1800 a associação de Broad River, na Carolina do Norte, recusou o artigo sobre a “eleição particular eterna” e confessou a eleição “pela santificação do Espírito e fé na verdade”, com as palavras de 2 Tessalonicenses 2:13. Pelo menos 72 associações do Sul seguiram essa fórmula. Também acompanhou Reuben Ross, pastor criado entre calvinistas estritos que em 1825 liderou a formação da associação de Bethel, entre Kentucky e o Tennessee, cuja confissão de 1836 ensina que Cristo “provou a morte por todos”.

O segundo achado diz respeito à Declaração de Fé de New Hampshire (1833), que um historiador do início do século XX já tinha chamado de “neutra” em todos os pontos que separam calvinistas e arminianos. A opinião corrente era que ela só chegou ao Sul depois de 1853, quando entrou num manual de igreja muito usado. Lumpkins mostrou que os dezesseis artigos originais circularam desde 1835, numa enciclopédia religiosa, e foram adotados por pelo menos 40 associações do Sul; outras 51 seguiram a edição de 1853. Foi essa confissão que a Convenção Batista do Sul revisou em 1925, sob a liderança de E. Y. Mullins, para fazer a sua primeira declaração de fé.

Daí a conclusão sobre a reunião de Augusta, em maio de 1845, que fundou a convenção: as associações representadas ali não tinham todas adotado a Confissão de Filadélfia, como se costuma dizer. Para Lumpkins, no último quarto do século XIX o calvinismo confessional estrito estava, nas palavras dele, “na UTI”.

Tons de calvinismo

Na mesma tese ele discute se alguém que nega um dos cinco pontos ainda é calvinista. Teólogos como Sproul e J. I. Packer dizem que os cinco pontos se sustentam juntos e caem juntos. Lumpkins prefere a observação de historiadores do século XIX de que existem “diferentes tons” de calvinismo, do estrito ao moderado. Na introdução ele lembra que os primeiros batistas, os batistas gerais de John Smyth, ensinavam que Cristo morreu por todos, e que só por volta de 1640 surgiram os batistas particulares, calvinistas.

A abstinência como padrão de santidade

Alcohol Today tem três partes. A primeira traz a história pessoal, a mudança de atitude das igrejas e uma defesa da Lei Seca, cujos resultados ele mede pela queda do consumo por pessoa. A segunda examina cinco posições sobre a bebida, da liberdade total à abstinência total, e rejeita como insustentáveis, sobretudo para os jovens, as fórmulas “beba com responsabilidade” e “só não se embebede”. A terceira expõe os textos bíblicos. Para ele, “vinho” na Bíblia é muitas vezes termo genérico, o vinho de Caná era provavelmente suco de uva fresco, e alguns textos condenam o próprio vinho, e não só a embriaguez.

O argumento central é moral. A igreja foi por muito tempo “a consciência moral da nossa cultura”. Quem se abstém só porque beber é imprudente, diz ele, deixa de lado a pergunta que importa, que é se beber por prazer é moralmente certo. Uma frase do primeiro capítulo resume o tom: “O ácido do álcool mata tudo e todos em que toca.”

A distância em relação ao arminianismo clássico

Lumpkins está com o arminianismo e com a nossa declaração de fé na recusa do calvinismo estrito, com a sua eleição incondicional e a sua graça irresistível. Duas diferenças, porém, ficam claras. A primeira é a perseverança. A confissão da sua convenção, a Baptist Faith and Message, afirma que os verdadeiros crentes nunca cairão do estado de graça; a nossa declaração de fé ensina a perseverança condicional, segundo a qual o crente está seguro enquanto permanece em Cristo (João 15:4-6).

A segunda é o pecado original. O livreto de Harwood que Lumpkins editou nega que os bebês nasçam culpados do pecado de Adão, posição que Eric Hankins também pôs na Declaração Tradicional de 2012. A nossa declaração de fé afirma que todos nascemos pecadores e sob a justa condenação de Deus, incapazes de qualquer coisa para a própria salvação. Jacó Armínio ensinou que a vontade caída está perdida para o bem e só a graça preveniente, dada a todos, a liberta para crer. Batistas não calvinistas como Lumpkins chegam à recusa do calvinismo por outro caminho, o da herança batista e da leitura direta do texto, e não pelo sistema de Armínio.

Obras principais

  • Alcohol Today: Abstinence in an Age of Indulgence (Hannibal Books, 2009).
  • Adam Harwood, Born Guilty? A Southern Baptist View of Original Sin (Free Church Press, 2013), editor.
  • David L. Allen (org.), Preach the Word! A Collection of Essays on Biblical Preaching in Honor of Jerry Vines (Free Church Press, 2013), colaborador e editor.
  • What Is Calvinism? Everything You Need to Know about Calvinism… and Then Some (2013), livreto.
  • The Decline of Confessional Calvinism among Baptist Associations in the Southern States during the Nineteenth Century (tese de doutorado, Universidade de Pretória, 2018).
  • “The New Hampshire Declaration of Faith: Reevaluating Its Impact on Baptists in the South During the Nineteenth Century”, Journal for Baptist Theology & Ministry 15, n. 2 (2018).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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