AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaTeólogos arminianos11 de 330

Philip Yancey: o jornalista que escreveu sobre a graça e a dor

Diego Gonçalves16 min de leitura3.177 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Em fevereiro de 2007, um jipe desgovernado capotou cinco vezes num barranco do Colorado e quebrou o pescoço de Philip Yancey. Amarrado a uma prancha, ele decidiu que, se sobrevivesse, contaria por inteiro a história da própria família. Sobreviveu. Semanas depois, contra o conselho dos médicos, que temiam que uma viagem de avião pudesse matá-lo, foi falar aos estudantes da Virginia Tech, onde um atirador tinha acabado de matar 32 pessoas. O livro prometido naquela prancha saiu em 2021, com o título Where the Light Fell (Onde a luz caiu), e explica muito do escritor que passou a vida perguntando onde está Deus quando chega a dor.

Philip Yancey falando num palco iluminado de roxo
Philip Yancey na Maranatha Chapel, no condado de San Diego, Califórnia, foto de Steve Carroll, 2014. CC BY-SA 2.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Atlanta, o pulmão de aço e o voto da mãe

Philip Yancey nasceu em Atlanta, na Geórgia, em 4 de novembro de 1949. O pai, Marshall Watts Yancey, era um jovem pregador que se preparava com a esposa, Mildred, para ser missionário na África. A poliomielite o deixou paralisado num pulmão de aço. Ele deixou o aparelho contra a orientação dos médicos, certo de que Deus o curaria e o devolveria ao campo missionário, e morreu poucos dias depois, aos 23 anos, quando Philip tinha um ano.

Diante do túmulo do marido, Mildred fez um voto: entregaria os dois filhos, Marshall e Philip, para ocupar o lugar do casal na missão africana. Criou-os sozinha, na pobreza, num trailer de alumínio de cerca de 2,4 metros por 14,6, estacionado no terreno de uma igreja. A igreja era fundamentalista, no Sul ainda segregado, e chegou a recusar como membro um estudante negro de um instituto bíblico chamado Tony Evans. Na memória, Yancey resume o peso daquele voto numa frase: “Meu irmão e eu somos a expiação para compensar um erro fatal de crença”.

Ainda menino, passou por uma crise de fé por causa da pregação sobre o inferno. Mais tarde, O sol é para todos, de Harper Lee, e Black Like Me, de John Howard Griffin, abriram os seus olhos para o racismo à sua volta. A conclusão foi direta: se não podia confiar no que a igreja dizia sobre raça, como confiaria no que ela dizia sobre Jesus e a Bíblia? O irmão, Marshall, largou o Wheaton College no último semestre, virou um dos primeiros hippies de Atlanta e, mais tarde, declarou-se ateu.

Columbia, Wheaton e a Campus Life

Philip cursou o Columbia Bible College, na Carolina do Sul, hoje Columbia International University, onde quase perdeu a vaga, perto da formatura, por ter bebido vinho. Ali conheceu Janet Norwood, filha de missionários, com quem se casou em 1970. A fé voltou, como ele contou muitas vezes, por três portas inesperadas: a beleza da natureza, a música clássica e o amor por Janet.

Fez mestrado em comunicação no Wheaton College, concluído em 1972, e, anos depois, outro em inglês na Universidade de Chicago. Para pagar os estudos, aceitou em 1971 um emprego na Campus Life, a revista da Mocidade para Cristo, onde Harold Myra percebeu o talento do rapaz que pretendia ser missionário. Foi editor e, depois, diretor de publicação. De escrever para adolescentes tirou uma lição que repetiu a vida inteira: quem manda é o leitor. Em 1978 passou a viver só da escrita.

Chicago e Paul Brand

No fim dos anos 1970 o casal se mudou para o centro de Chicago. Janet trabalhou no centro de idosos da LaSalle Street Church, uma igreja antiga num bairro difícil, que acolhia gente ferida e cuidava do corpo e da alma. Yancey deu aulas de escola dominical ali, e foi essa igreja que o reconciliou com a igreja.

O primeiro grande livro, Where Is God When It Hurts? (Onde está Deus quando chega a dor?, 1977), levou-o a Carville, na Louisiana, para conhecer o médico Paul Brand, “o único homem que conheci que faz campanha a favor da dor”. Brand, cirurgião que passara boa parte da vida na Índia tratando pacientes de hanseníase, tinha descoberto que a doença destrói o corpo porque apaga a dor, o alarme que protege os membros. Para Yancey, foi o retrato de um cristão devoto sem o fundamentalismo da infância. Juntos escreveram Fearfully and Wonderfully Made (1980), In His Image (1984) e Pain: The Gift Nobody Wants (1993).

Yancey passou ainda seis anos estudando a Bíblia para escrever, com Tim Stafford, as notas da Student Bible (1986). Disappointment with God (1988) foi eleito livro do ano da Christianity Today. Numa entrevista a uma revista evangélica brasileira, ele descreveu o método: dos dois anos que levava para escrever um livro, gastava 40% juntando material, 20% escrevendo e 40% revisando.

Colorado e os livros sobre a graça

No começo dos anos 1990 o casal trocou Chicago pelo Colorado. Yancey assinou por muitos anos uma coluna mensal na Christianity Today, que tinha absorvido a Campus Life, e foi por cerca de três décadas um dos seus editores colaboradores. The Jesus I Never Knew (O Jesus que eu nunca conheci, 1995) e What’s So Amazing About Grace? (Maravilhosa graça, 1997) foram escolhidos livro do ano pelas livrarias cristãs americanas em 1996 e 1998. Ele recebeu treze prêmios Gold Medallion, e os livros venderam mais de 17 milhões de exemplares em cerca de 50 línguas. Esteve na Rússia em 1991, logo depois da queda do comunismo, viagem que virou Praying with the KGB (1992). Em Soul Survivor (Alma sobrevivente, 2001) traçou o perfil das pessoas que salvaram a sua fé dos estragos da igreja, entre elas Chesterton, Paul Brand e o psiquiatra Robert Coles.

Os lugares de dor

What Good Is God? (Para que serve Deus?, 2010) reúne palestras dadas em dez situações de crise, a começar pela Virginia Tech. Em 2012 ele falou no Japão, no aniversário do tsunami que matou 20 mil pessoas; em Sarajevo, que sofreu o cerco mais longo da guerra moderna; e em Newtown, depois que um atirador matou 20 crianças na escola Sandy Hook. Dessas visitas nasceu The Question That Never Goes Away (A pergunta que não quer calar, 2013).

A memória, a doença e a confissão

Where the Light Fell contou a história do pai, da mãe e do irmão, e da teologia do medo que marcou a família. Yancey escreveu que a fé que exaltou o pai foi a mesma que o matou. Na vida adulta, procurou as pessoas que tinha ferido com o racismo aprendido na infância para pedir perdão. Em 2023 recebeu o diagnóstico de doença de Parkinson, e ainda publicou Undone (2023), uma versão moderna das Devoções de John Donne, e What Went Wrong? (2024), sobre a Rússia e o caminho até a guerra na Ucrânia.

Em 6 de janeiro de 2026, aos 76 anos, mandou à Christianity Today uma declaração: “Para minha grande vergonha, confesso que durante oito anos mantive, por vontade própria, um caso pecaminoso com uma mulher casada”. Disse que tinha confessado a Deus e à esposa, que entraria num programa de aconselhamento e de prestação de contas e que, por ter se desqualificado para o ministério cristão, deixava de escrever, de falar em público e de usar as redes sociais. Janet, casada com ele havia 55 anos, escreveu que falava de um lugar de trauma e devastação, que não quebraria o voto do casamento e que pedia a Deus a graça de perdoar.

Pensamento

Onde ele fica diante do arminianismo

Yancey é simpatizante do arminianismo. Jornalista, e não teólogo de sistema, nunca escreveu um tratado sobre a eleição nem se apresentou como arminiano. Mas os seus livros recusam com clareza a ideia de que Deus determina cada acontecimento. Em Prayer: Does It Make Any Difference? (2006), lembra que raios caem na Terra muitas vezes por segundo e escreve: “eu, pelo menos, não creio que Deus programe pessoalmente o trajeto de cada um”. Ao Deus que derruba os muros de Jericó e consome com fogo os sacerdotes de Baal ele contrapõe o modo como Deus age hoje: “Creio que o reino agora avança pela graça e pela liberdade, o alvo de Deus desde o começo”. A oração, para ele, é “cooperação com Deus, um consentimento que abre caminho para a graça agir”.

Leitores dos dois lados perceberam o mesmo. Heber Carlos de Campos Júnior, ao resenhar Decepcionado com Deus na revista Fides Reformata, em 2000, criticou “as pressuposições arminianas de Yancey”, que o fariam enfatizar demais a liberdade humana e apresentar Deus como quem assume riscos. Do outro lado, Clark Pinnock e os coautores de The Openness of God (1994) puseram o nome dele, ao lado de Gilbert Bilezikian e Greg Boyd, entre os evangélicos que afirmariam a “abertura” de Deus, a ideia de que Deus não conhece de antemão as decisões livres, ou que se aproximariam dela.

O arminianismo clássico, de Jacó Armínio a John Wesley, não põe a liberdade humana no centro, mas a graça. A vontade caída está presa ao pecado, e só a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta, a liberta para crer (ver Livre-arbítrio e graça). Yancey fala muito da liberdade e pouco dessa obra que a precede, e a declaração de fé do site afirma com mais força a depravação total e a incapacidade humana. O site também rejeita o teísmo aberto e confessa que Deus conhece todo o futuro, inclusive as nossas escolhas. O próprio Yancey, em Decepcionado com Deus, diz que a vida parece injusta porque estamos presos ao tempo e não vemos a história do ponto de vista de Deus.

A graça e a falta de graça

Maravilhosa graça começa com uma prostituta em situação desesperadora. Quando um amigo de Yancey perguntou se ela já tinha pensado em procurar uma igreja, ela respondeu: “Igreja! Por que eu iria lá?”. Já se sentia mal consigo mesma, e lá se sentiria pior. Essa resposta, diz Yancey, o levou a escrever o livro, que pergunta por que as pessoas que mais precisavam de graça fugiam justamente dos cristãos.

A definição que ele propõe ficou famosa: graça significa que não há nada que possamos fazer para que Deus nos ame mais, nenhuma ginástica espiritual, e nada que possamos fazer para que Deus nos ame menos. O contrário ele chama de ungrace, a falta de graça que via nas famílias, nas igrejas e na política. A graça, porém, custou caro. Quando os servos erravam, escreve ele, o Rei era punido, e “a graça só é de graça porque o próprio doador arcou com o custo”. A frase combina com a expiação substitutiva que a declaração de fé do site confessa: Cristo levou sobre si a pena que era nossa.

Deus e o sofrimento

Com Paul Brand, Yancey aprendeu a ver a dor física como um dom que protege o corpo, e daí tirou a imagem espiritual: o sofrimento é um alarme num mundo que não está como Deus o quis. Em Onde está Deus quando chega a dor? ele recusa a resposta fácil de que cada tragédia é um recado de Deus. Anos depois, disse que deixou de perguntar “por quê?”, pergunta que a Bíblia não responde, para perguntar “para quê?”. O mundo foi invadido pelo mal, e julgar Deus pelas catástrofes seria como julgar um quadro pela pichação que o estragou. Deus não tira a liberdade humana nem impede todo mal, mas resgata para o bem o que outros planejaram para o mal (Romanos 8:28), como na vida de Joni Eareckson Tada, tetraplégica desde a juventude. O tema volta no estudo Jó e o sofrimento.

Decepcionado com Deus

O livro de 1988 parte de três perguntas que ninguém faz em voz alta: Deus é injusto? Deus está calado? Deus está escondido? Lendo a Bíblia inteira em duas semanas, Yancey notou que, quando Deus agiu de forma visível, no Êxodo e no deserto, o povo não ganhou fé, mas ficou dependente de sinais. Por isso, diz ele, Deus não age hoje como agia no Sinai.

Ele lê a criação como um ato em que Deus aceita limites: ao fazer seres livres à sua imagem, corre o risco de que eles se desviem. Toma emprestado dos estudiosos hassídicos o termo tsimtsum, a “contração” de Deus para dar espaço à criatura. Em Jó, o tema central é a fé, e não o sofrimento, e Yancey distingue duas fés: a que espera o impossível acontecer e a que confia em Deus mesmo quando nada acontece. A segunda é a fidelidade, a maior prova de amor a Deus.

Olhar para Jesus

Em Reaching for the Invisible God (O Deus (in)visível, 2000), Yancey confessa que, quando se perde no problema da dor, nos enigmas da oração e na tensão entre providência e livre-arbítrio, “tudo fica nebuloso”. A saída é olhar para Jesus, a quem chama de pedra de Roseta da fé, a chave para ler o resto. O mesmo movimento já estava em O Jesus que eu nunca conheci, que procura o Jesus dos Evangelhos por trás das imagens aprendidas na infância. Da pergunta difícil Yancey volta sempre para a pessoa de Cristo, e foi esse caminho que fez dele companheiro de tantos leitores afastados da igreja.

Obras principais

  • Where Is God When It Hurts? (1977).
  • Fearfully and Wonderfully Made, com Paul Brand (1980).
  • In His Image, com Paul Brand (1984).
  • The Student Bible, com Tim Stafford (1986).
  • Disappointment with God: Three Questions No One Asks Aloud (1988).
  • Praying with the KGB (1992).
  • Pain: The Gift Nobody Wants, com Paul Brand (1993).
  • The Jesus I Never Knew (1995).
  • What’s So Amazing About Grace? (1997).
  • The Bible Jesus Read (1999).
  • Reaching for the Invisible God (2000).
  • Soul Survivor: How My Faith Survived the Church (2001).
  • Rumors of Another World (2003).
  • Prayer: Does It Make Any Difference? (2006).
  • What Good Is God? In Search of a Faith That Matters (2010).
  • The Question That Never Goes Away (2013).
  • Vanishing Grace: What Ever Happened to the Good News? (2014).
  • Fearfully and Wonderfully: The Marvel of Bearing God’s Image, com Paul Brand (2019).
  • Where the Light Fell: A Memoir (2021).
  • Undone: A Modern Rendering of John Donne’s Devotions (2023).
  • What Went Wrong? Russia’s Lost Opportunity and the Path to Ukraine (2024).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

140pal/min