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Peter Cotterell: O missionário da Etiópia que dirigiu a London Bible College
Um jovem médico australiano tinha ido passar alguns meses entre os nômades somalis, quase sem assistência médica. Numa manhã, enquanto armava a barraca que servia de consultório, foi morto com uma faca pelas costas. As duas enfermeiras missionárias que trabalhavam com ele levaram o corpo num Land Rover até Adis Abeba. Quem conduziu o funeral foi Peter Cotterell, missionário inglês da SIM. Antes do culto, ele encontrou uma das moças sozinha na capela, chorando e tremendo de dor e de algo parecido com raiva: aquilo não era justo, não fazia sentido. Anos depois, já professor em Londres, Cotterell contou a cena a pregadores batistas. Boa parte da obra dele tentou responder ao grito daquela enfermeira.
Vida
Físico, linguista e missionário
Francis Peter Cotterell nasceu em 4 de maio de 1930. Foi professor de física na Universidade Brunel, em Londres, que depois lhe deu um doutorado honorário, e membro do Institute of Linguistics.
Dos vinte e tantos aos quarenta e poucos anos, serviu dezenove anos na Etiópia como missionário da SIM (Sudan Interior Mission), que tinha começado a trabalhar no país em 1927 com o médico americano Thomas Lambie. Aprendeu o amárico a ponto de os etíopes verem nisso um sinal de que ele se identificava com eles, e estudou a língua como cientista: publicou artigos sobre a sintaxe e as classes de palavras do amárico (1964) e, em 1969, defendeu na Escola de Estudos Orientais e Africanos (SOAS) da Universidade de Londres uma tese de doutorado sobre as dificuldades de compreensão que os etíopes encontravam em frases simples e complexas da língua.
Tornou-se também historiador da igreja etíope. Escreveu sobre “uma igreja autóctone no sul da Etiópia” (1969-1970), fez notas biográficas sobre Lambie (1972) e publicou Born at Midnight (“Nascida à meia-noite”, 1973), a história da SIM no país de 1927 a 1972. O livro acompanha as igrejas do sul, como as do povo wolaitta, que se multiplicaram nas mãos de evangelistas etíopes. Cotterell explicava esse crescimento por razões culturais, pelo caráter autóctone daquelas igrejas e pela participação do povo inteiro, e observou que muitos evangelistas pregaram primeiro em regiões de línguas aparentadas à deles, antes de cruzar essas fronteiras.
Os anos etíopes deixaram marcas. Cotterell viu de perto a perseguição de protestantes pela igreja ortodoxa, e a reconciliação entre ortodoxos e protestantes se tornou uma das causas da vida dele. Conheceu o luto: participou do funeral da jovem médica missionária Faith Rayner, onde ouviu 2 Coríntios 5 anunciado com poder, e ele e a esposa perderam o terceiro filho. Dizia que essa perda lhe dava o direito de dizer “eu entendo” a quem passava pela mesma dor.
London Bible College
Em 1976 entrou para o corpo docente da London Bible College, escola evangélica interdenominacional hoje chamada London School of Theology, onde ensinou missiologia, religiões do mundo e islamismo. Os alunos o apelidaram de “Peter Etiópia Cotterell” e lembram que ele desafiava hábitos de pensamento evangélicos. Criou o mestrado em Aspectos da Interpretação Bíblica, com um módulo pioneiro de “Teologia dos pobres”, orientou mestrandos e doutorandos e deu aulas como visitante em Oslo, Stavanger, na Trinity Evangelical Divinity School e no Fuller Theological Seminary. A partir de 1984 presidiu a British Church Growth Association, e a partir de 1989 foi vice-presidente da UCCF, a aliança das associações cristãs universitárias.
Em 1990 assumiu a direção da escola, uma das maiores instituições teológicas da Europa, e a dirigiu até se aposentar, em 1995; no período ela cresceu, sobretudo em alunos de pesquisa. Derek Tidball, o sucessor, escreveu que Cotterell deu à faculdade “um novo senso de direção”, que nunca mostrou interesse por status ou formalidade e que muitos achariam radicais as atitudes dele em relação à igreja. O historiador Harold Rowdon destacou o jeito direto do colega: sobre a Irlanda do Norte, as falhas das sociedades missionárias, o modelo do ministério pastoral ou o destino dos perdidos, Cotterell dizia o que pensava.
Na aposentadoria, os colegas lhe dedicaram Mission and Meaning (“Missão e sentido”, 1995), organizado por Antony Billington, Tony Lane e Max Turner, com vinte ensaios de professores da escola escritos para estudantes, pastores e leigos, porque Cotterell defendia que a teologia deve servir a igreja inteira e não ficar presa à academia. Ligado ao Centro de Estudos Islâmicos e Relações Muçulmano-Cristãs da escola, escreveu com o diretor do centro, Peter G. Riddell, Islam in Context (2003).
De volta à Etiópia
Depois de se aposentar, Cotterell voltou à Etiópia por três anos. Em 1997 tornou-se o primeiro diretor da Escola Etíope de Pós-Graduação em Teologia (EGST), em Adis Abeba, e a dirigiu até 1999, lançando as bases da escola. Na inauguração da segunda fase das obras, em 15 de março de 2014, declarou: “A Etiópia é tanto o meu país quanto a Inglaterra”, e pediu que os formados fossem seguidores humildes e fiéis de Jesus.
Fez 90 anos em maio de 2020, isolado em casa durante a pandemia, e morreu no começo de 2021. Em 11 de junho daquele ano, a EGST fez um culto em memória dele, preparado com líderes da Igreja Kale Heywet, nascida do trabalho da SIM. Desta Heliso, terceiro diretor da escola, resumiu: “A nossa dor era a dor dele”. A filha, Jae, lembrou um homem de ação, que fazia planos para cinco ou dez anos e se perturbava com a injustiça. O centro de pesquisa de doutorado da EGST recebeu o nome dele.
Pensamento
Onde ele fica
Na classificação desta série, Cotterell é um simpatizante do arminianismo. Escreveu como evangélico interdenominacional, sem se filiar a uma escola sobre a predestinação, mas rejeitou com todas as letras o determinismo teológico: Deus não é a causa de cada desgraça, deu ao mundo regularidades e à criatura uma liberdade real, e a responsabilidade humana e a própria justiça de Deus ficam ameaçadas quando tudo se atribui à vontade divina. Somou a isso um otimismo sobre a salvação dos que nunca ouviram o evangelho que o põe ao lado de Clark Pinnock e Norman Anderson.
Deus e o sofrimento
O texto mais claro sobre o assunto é a palestra “Disaster and Disorder: The Human Predicament” (“Desastre e desordem: a condição humana”), feita em 1989 para a Associação dos Pregadores Batistas de Londres. Entre o nascimento e a morte, diz Cotterell, a vida não faz sentido: gente boa sofre, gente má prospera. Mas ele recusa a explicação fácil, porque Jesus negou que o cego de nascença ou os mortos da torre de Siloé pagassem por um pecado especial (João 9:2-3; Lucas 13:1-5; ver Por que Deus permite o sofrimento? Lucas 13 e o livro de Jó).
A resposta dele tem quatro partes. Vivemos num mundo de regularidades, sem as quais a vida seria impossível: o fogo queima, as asas sustentam o avião, e a sua destruição o derruba. Se Deus interviesse em cada caso, nenhum futuro seria previsível. O mundo é caído, e por isso há doença, velhice e morte. As grandes promessas humanas fracassaram, do comunismo, que desmoronava enquanto ele falava, à ilusão de que a vida consiste na abundância de bens (Lucas 12:15). E há um “segundo reino”, o do mal, cujo propósito é destruir o que há de humano em nós, como no endemoninhado de Marcos 5.
Daí a frase mais forte da palestra: “há um sentido em que Deus não está no trono”. Deus não acorda numa sexta-feira com uma cota de cânceres e acidentes para distribuir. Quando terroristas do IRA mataram um cabo da Força Aérea britânica e uma bala atingiu a cabeça do bebê dele, “Deus não planejou isso. Isso foi diabólico”. Deus age dentro de um limite que ele mesmo se impôs e reserva o julgamento para outro tempo. Cotterell via o defeito oposto no monoteísmo indiferenciado do islamismo, que leva ao determinismo, e nos cristãos que fazem de Deus a causa imediata de toda desgraça. A tese volta em Is God Helpless? Suffering and the Sovereignty of God (“Deus é impotente? O sofrimento e a soberania de Deus”, 1996), que conclui que Deus não protege os cristãos do sofrimento e que a tarefa da igreja é restaurar a soberania de Deus.
Ele rejeitava o uso de Romanos 8:28 para secar as lágrimas de quem sofre, como se a tragédia fosse “para o melhor”: o versículo diz que, em toda situação, Deus trabalha para tirar dela todo o bem possível. E punha no centro a encarnação. Citando Cartas de um diabo a seu aprendiz, de C. S. Lewis, lembrava que em Cristo Deus se fez homem, foi condenado sem culpa e executado, e por isso ninguém pode gritar contra Deus que ele não entende. O cristianismo, resumiu, é Deus conosco nas experiências comuns de um mundo caído. Ver também A providência e o problema do mal.
Missão contra a falta de sentido
O livro mais conhecido de Cotterell, Mission and Meaninglessness: The Good News in a World of Suffering and Disorder (“Missão e falta de sentido”, 1990), parte da mesma pergunta. Na palestra de 1989, ele definiu a missão como o povo de Deus falando e agindo em nome de Deus para explicar e vencer a aparente falta de sentido da vida, onde quer que ela apareça. “O cristianismo é antes de tudo uma práxis”, disse, e não há prioridade absoluta da missão “espiritual” sobre a ação social: as duas são faixas de um mesmo espectro. Na fome da Etiópia, os cristãos tinham o que dizer, porque a fome vinha da guerra e da má administração, e o que fazer, porque os voluntários cristãos estavam lá antes das câmeras.
O livro defende o lugar indispensável da igreja na missão de Deus e combate o princípio das “unidades homogêneas” da escola americana de crescimento da igreja, que recomendava congregações de um só grupo social. Pela visão de Efésios 2, a congregação é o lugar onde ricos e pobres, negros e brancos, homens e mulheres, velhos e jovens encontram em Cristo o que têm em comum. Com a mesma franqueza, Cotterell escreveu contra a teologia da prosperidade (1993).
Em 1993, respondendo ao teólogo ganês Kwame Bediako, defendeu as igrejas tidas por “pouco sofisticadas”, que deixam Deus ser Deus, contra os teólogos que querem domar nas universidades o Aslam “imprevisível” da Bíblia, o leão de Lewis que não é manso.
A Bíblia como conversa real
Com o colega Max Turner, Cotterell escreveu Linguistics and Biblical Interpretation (“Linguística e interpretação bíblica”, 1989), introdução à linguística moderna para estudantes da Bíblia que trata do sentido das palavras, da intenção do autor e da análise do discurso, e critica o abuso dos “estudos de palavras” na teologia. Num artigo de 1986, queixou-se de que os exegetas liam as Escrituras como se tivessem sido produzidas “por computadores anônimos”, e aplicou a análise de conversas reais ao diálogo de Jesus com Nicodemos (João 3), tratando o texto como resumo de uma conversa de verdade cujo contexto pode ser reconstruído. Sobre o método, ver A interpretação da Escritura.
Os que nunca ouviram
Em 1988, num artigo da International Review of Mission, e depois em dez teses de Mission and Meaninglessness, Cotterell tratou do destino dos que nunca ouviram o evangelho. Ele mantinha a necessidade da cruz e a unicidade de Cristo, mas sustentava que alguém alcançado só pela revelação de Deus na criação (Romanos 1:20) pode abandonar os próprios esforços religiosos e se lançar sobre a misericórdia e a graça de Deus. Por isso o teólogo Chris Sinkinson o pôs, com John Stott, Clark Pinnock e Norman Anderson, entre os evangélicos mais otimistas sobre o destino dos adeptos de outras religiões. Nem por isso relativizava a verdade: o islamismo e o cristianismo, lembrava, não podem estar ambos certos sobre a crucificação de Jesus.
Diferenças com a nossa declaração de fé
Cotterell está perto do arminianismo clássico na rejeição do determinismo, no amor de Deus por todos e na recusa de fazer de Deus o autor do mal. As diferenças estão em dois pontos. A declaração de fé deste site diz que são salvos os que estão unidos a Cristo pela fé, e as teses de Cotterell sobre os que nunca ouviram vão além disso. A tradição de Jacó Armínio lê a obra do Espírito antes e além da pregação como graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta, sem fazer dela um caminho alternativo de salvação. E a frase de que, num sentido, “Deus não está no trono” soa diferente do que o site afirma: dar liberdade real às criaturas e resistir ao mal sem ser autor dele é exercício da soberania de Deus, e não limite a ela, e Deus governa a história e cumprirá os seus propósitos.
Obras principais
- Born at Midnight: The Sudan Interior Mission in Ethiopia, 1927-1972 (Moody, 1973).
- I Want to Know What the Bible Says about Personal Salvation (Kingsway, 1980).
- The Eleventh Commandment: Church and Mission Today (IVP, 1981).
- This Is Christianity (IVP, 1985).
- Cry Ethiopia (MARC, 1988).
- Linguistics and Biblical Interpretation (com Max Turner, SPCK, 1989).
- Mission and Meaninglessness (SPCK, 1990).
- Prosperity Theology (RTSF, 1993).
- Is God Helpless? Suffering and the Sovereignty of God (SPCK, 1996).
- Islam in Context (com Peter G. Riddell, Baker Academic, 2003).
Para aprofundar
- Ethiopian Graduate School of Theology, “The Life and Ministry of the Late Dr Peter Cotterell Celebrated” (junho de 2021) e “Peter Cottrell Celebrates 90th Birthday” (maio de 2020).
- London School of Theology, “In Memory of Francis Peter Cotterell (1930-2021)” (março de 2021).
- Antony Billington, Tony Lane e Max Turner (org.), Mission and Meaning: Essays Presented to Peter Cotterell (Paternoster, 1995): prefácio e bibliografia e ensaios, em especial os de Derek Tidball, Harold Rowdon, Stephen Motyer, Michael Griffiths e Tony Lane.
- Peter Cotterell, “Disaster and Disorder: The Human Predicament”, Vox Evangelica 21 (1991), p. 89-105.
- Peter Cotterell, “Sociolinguistics and Biblical Interpretation”, Vox Evangelica 16 (1986), p. 61-76.
- F. P. Cotterell, “Language, Imagery, and Meaning”, Vox Evangelica 13 (1983), p. 85-92, e “The Gospel of Barnabas”, Vox Evangelica 10 (1977), p. 43-47.
- F. Peter Cotterell, “The Laing Lecture for 1993: Second Response”, Vox Evangelica 23 (1993), p. 29-30.
- Chris Sinkinson, “Other Religions: A Christian Appraisal” (novembro de 1996).
- Dictionary of African Christian Biography, “Choramo, Mahay”, com as notas sobre Born at Midnight e Cry Ethiopia.
- London School of Theology, Wikipédia em inglês (lista dos diretores).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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