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Ravi Zacharias: O apologista indiano, a obra e os abusos revelados após a morte

Diego Gonçalves13 min de leitura2.662 palavras

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Neste texto

Aos 17 anos, um rapaz de Délhi tomou veneno e acordou num leito de hospital. Um obreiro cristão levou-lhe uma Bíblia, e a mãe leu para ele o capítulo 14 do Evangelho de João. Um versículo ficou: João 14:19, em que Jesus diz que, porque ele vive, os discípulos também viverão. O rapaz orou e prometeu que, se saísse daquela cama, não pouparia esforço na busca da verdade. Cinco dias depois, deixou o hospital. Chamava-se Ravi Zacharias, e o mesmo versículo está no seu túmulo, em Atlanta. Ele se tornou um dos apologistas evangélicos mais conhecidos do mundo, e meses depois da sua morte uma investigação encomendada pelo próprio ministério revelou que, por anos, ele abusou de mulheres às escondidas.

Retrato de Ravi Zacharias
Ravi Zacharias na capela da Base Naval da Baía de Guantánamo, em 17 de setembro de 2013. Foto de Kathrin Forbes, Guarda Nacional do Exército dos Estados Unidos. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Índia

Frederick Antony Ravi Kumar Zacharias nasceu em 26 de março de 1946, em Madras, hoje Chennai, numa família tâmil, e cresceu em Délhi. O pai, Oscar, era funcionário do serviço público e ocupou postos importantes nos governos de Jawaharlal Nehru e de Indira Gandhi; a mãe, Isabella, era professora. A família era anglicana mais de nome que de convicção. A fé tinha chegado a ela cinco gerações antes, quando uma antepassada deixou uma família de sacerdotes hindus nambudiris para se tornar cristã.

O menino preferia o críquete aos livros e vivia esmagado pela comparação com o pai. Na adolescência perdeu o sentido da vida, e daí veio a tentativa de suicídio. Depois da conversão, um comentário de W. H. Griffith Thomas sobre Romanos, achado numa lata de lixo, levou-o com um amigo a estudar a justificação pela fé. Começou a pregar, e em 1965 ganhou um prêmio de pregação num congresso da Mocidade para Cristo em Hyderabad.

Canadá e Estados Unidos

Em 1966, aos 20 anos, emigrou com a família para Toronto. Trabalhou alguns anos na administração de hotéis e depois entrou no Ontario Bible College, hoje Tyndale University, onde se formou em 1972. No mesmo ano casou-se com Margaret Reynolds, a Margie, com quem teve três filhos. No verão de 1971 tinha pregado no Vietnã do Sul a soldados americanos, a doentes e a prisioneiros vietcongues.

Começou então um ministério itinerante pela Aliança Cristã e Missionária, a denominação da santidade fundada por A. B. Simpson, a mesma de A. W. Tozer. Com licença de obreiro desde 1974, foi mandado ao Camboja pouco antes da tomada do poder pelo Khmer Vermelho. Concluiu em 1976 o mestrado em divindade (MDiv), o curso de formação pastoral, na Trinity Evangelical Divinity School, perto de Chicago. Em 1977 a Aliança o nomeou evangelista nacional nos Estados Unidos, e em 1980 o ordenou. No começo da década de 1980 foi titular da cadeira de Evangelismo e Pensamento Contemporâneo no Alliance Theological Seminary, em Nyack, no estado de Nova York.

Amsterdã e o ministério

A virada veio em 1983, quando Billy Graham o convidou para a primeira Conferência Internacional de Evangelistas Itinerantes, em Amsterdã. Diante de cerca de 3.800 evangelistas de 133 países, sobre “a perdição do homem” e a partir de Romanos 1, disse que as religiões, as culturas e as filosofias do século XX tinham aberto “vastos abismos entre a mensagem de Cristo e a mente do homem”, e pediu que ninguém humilhasse quem pensa diferente.

Em agosto de 1984 fundou em Toronto a Ravi Zacharias International Ministries (RZIM), para ser um “evangelista clássico na arena dos intelectualmente resistentes”. O lema era “ajudar o pensador a crer e o crente a pensar”. A sede foi para os arredores de Atlanta, onde ele viveu o resto da vida. O programa de rádio Let My People Think chegou a centenas de emissoras, e em 2000 começou o diário A Slice of Infinity. Falou em Moscou em 1989, abriu o primeiro Veritas Forum, em Harvard, em 1992, e falou no congresso missionário de Urbana no mesmo ano.

Em 1990 passou um período de estudos no Ridley Hall, escola anglicana de teologia em Cambridge, e escreveu o primeiro livro, A Shattered Visage, sobre o ateísmo. Can Man Live Without God? (1994) ganhou o prêmio Gold Medallion e vendeu cerca de meio milhão de exemplares; ao todo foram quase trinta livros, traduzidos para mais de uma dúzia de línguas. Com o Wycliffe Hall, fundou em Oxford o Oxford Centre for Christian Apologetics. Em 2020 a RZIM tinha cerca de 200 funcionários e mais de 70 conferencistas; de 1998 a 2003, um deles foi o filósofo Paul Copan.

Houve críticas ainda em vida. Em 2004, ao falar no Tabernáculo Mórmon de Salt Lake City, foi acusado de não tratar das diferenças doutrinárias. E materiais do ministério o apresentavam como “Dr.” e falavam de estudos em Cambridge e de um posto de professor visitante em Oxford; em 2017 a revista Christianity Today mostrou que os doutorados eram honorários, e o título saiu das biografias.

Doença e morte

Em novembro de 2019 deixou a presidência da RZIM. Em março de 2020, numa cirurgia de coluna, os médicos acharam um sarcoma no sacro. Tratou-se em Houston, mas em maio o câncer foi declarado intratável. Morreu em casa, em Atlanta, em 19 de maio de 2020, aos 74 anos.

Os abusos revelados depois da morte

Em 2017 a canadense Lori Anne Thompson acusou Zacharias de tê-la manipulado para trocar mensagens e fotos de teor sexual. Ele processou o casal Thompson por extorsão, e o caso terminou num acordo com cláusula de sigilo. Em nota, disse que nunca estivera a sós com ela, mas assumiu a responsabilidade por não ter sido prudente.

Em setembro de 2020, três mulheres que trabalharam em dois spas de que ele era sócio, perto de Atlanta, contaram à Christianity Today que sofreram abusos. A RZIM primeiro as desmentiu e depois contratou o escritório Miller & Martin. O relatório final, de fevereiro de 2021, ouviu 50 testemunhas e examinou os celulares que ele usou de 2014 a 2018. Confirmou os abusos nos spas, identificou outras cinco vítimas nos Estados Unidos e achou indícios de abusos na Tailândia, na Índia e na Malásia. Nos aparelhos havia contatos de mais de 200 massagistas e centenas de fotos de mulheres jovens. Dinheiro do ministério, destinado a um “esforço humanitário”, sustentou quatro massagistas; uma delas relatou que ele lhe exigiu sexo, o que ela chamou de estupro. Os investigadores não acharam provas de que a direção soubesse, mas concluíram que o fundador quase não prestava contas a ninguém. Ele também não era membro de nenhuma igreja local.

O conselho da RZIM pediu perdão a Lori Anne Thompson (“Nós estávamos errados”). Em 12 de fevereiro de 2021 a Aliança Cristã e Missionária o expulsou do ministério e revogou a sua ordenação, reconhecendo “com grande tristeza” um padrão de comportamento pecaminoso que “minou o testemunho da Igreja de Cristo”. A HarperCollins tirou os livros dele de circulação, filiais do ministério fecharam e a RZIM mudou de nome. A viúva e o filho contestam as conclusões.

Pensamento

Onde ele fica

Na classificação desta série, Zacharias é um simpatizante do arminianismo: rejeitou a leitura calvinista da eleição sem adotar o rótulo arminiano. Num texto breve de 1987, resposta a um ouvinte sobre Romanos 9 e 2 Pedro 3:9, ele lê Romanos 9 a 11 como ensino sobre o privilégio de Israel, escolhido como instrumento de Deus para as nações, e sobre a responsabilidade que vem com ele, e não como decreto sobre indivíduos. Afirma que “presciência e predestinação não são a mesma coisa” e que Deus deu a cada pessoa o privilégio de “confiar nele ou de recusar-se a confiar nele”; quem nasceu de novo reconhece que foi a graça de Deus que o levou até ali. Soberania e responsabilidade seriam círculos que se tocam, e Deus não pode nos chamar de livres e, ao mesmo tempo, violar essa liberdade.

A RZIM não tomava posição oficial no debate e tinha conferencistas das duas tradições. A igreja que o ordenou ensina que a salvação foi provida por Jesus Cristo para todos e que é vontade de Deus que cada crente seja cheio do Espírito e “inteiramente santificado”. A distância em relação ao arminianismo clássico está na falta de uma doutrina desenvolvida: Zacharias não escreveu sobre a incapacidade humana nem sobre a graça preveniente, que a declaração de fé deste site põe na origem de toda resposta a Deus. Ele tratava a questão como um paradoxo e recomendava Evangelism and the Sovereignty of God, de J. I. Packer. Ver também A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano.

Quatro perguntas e três testes

A apologética de Zacharias parte de quatro perguntas que toda visão de mundo precisa responder: a da origem, a do sentido da vida, a da moral e a do destino. Uma resposta só merece crédito se for logicamente coerente, corresponder à realidade observada e tiver relevância para a vida vivida. Toda grande religião, dizia, faz afirmações exclusivas; a questão é qual responde às quatro perguntas com coerência, e ele sustentava que só Jesus Cristo o faz.

O seu público eram os “pagãos felizes”, céticos para quem o sucesso basta e que nunca fazem as perguntas básicas da vida. Em entrevista à Christianity Today, em 1994, disse que o problema espiritual dos Estados Unidos era um ateísmo prático, de quem se vê como “capitão da própria alma”. E, como as dúvidas desse público são sofisticadas, “uma resposta de graduação não basta”.

Viver sem Deus

Can Man Live Without God? nasceu de palestras em universidades. A primeira parte trata do “antiteísmo”: sem Deus não há ponto de referência para chamar algo de bom ou de mau, e o livro passa pelo louco de Nietzsche e pelo Holocausto. A segunda aponta quatro coisas de que a vida precisa para ter sentido, o encanto, a verdade, o amor e a segurança, e argumenta que só Cristo dá as quatro. A terceira examina as afirmações cristãs, da Trindade à ressurreição. A conclusão é que se pode viver sem Deus, mas sem sentido, propósito nem fundamento moral.

Em Deliver Us from Evil (1996) o diagnóstico é cultural: a secularização levou à perda da vergonha, o pluralismo à perda da razão e a privatização da fé à perda do sentido. Em Jesus Among Other Gods (2000), traduzido como Por que Jesus é diferente?, ele compara as respostas de Jesus às das outras religiões. Numa série de livros curtos, imaginou conversas de Jesus com Buda, Krishna, Oscar Wilde e Hitler.

O sofrimento e o Grande Tecelão

Em Why Suffering? (2014), escrito com Vince Vitale, o argumento central é que onde há a possibilidade do amor tem de haver a realidade da liberdade e, portanto, a possibilidade da dor. Sobre o tema, ver O problema do mal.

O grande tecelão (2007) tira a imagem da Índia, onde os tecelões fazem um tecido belo com fios que, sozinhos, não têm beleza. Nas memórias, Zacharias conta que viu um pai e um filho tecendo seda: o pai, sentado mais alto, dava o sinal com a cabeça, e o filho, sem ver o desenho, passava a lançadeira. Para ele, “o projeto de Deus para a sua vida une cada fio de sua existência numa magnífica obra de arte” (p. 17 da edição brasileira). Isso inclui a dor, que “devemos ver […] através dos olhos de Jesus… na cruz” (p. 48). E a espiritualidade verdadeira se mede pela atenção à voz de Jesus, porque “a verdade é o fio que separa a verdadeira espiritualidade da falsa” (p. 110).

Doutrina e vida

A obra de Zacharias precisa ser lida junto com a sua vida. Ele pregava que a verdade tem de ser vivível, e a investigação mostrou que ele viveu o contrário do que pregava, protegido pela fama e por um ministério que não lhe pedia contas. O pastor e jurista Valmir Nascimento, que começou a vida cristã lendo Pode o homem viver sem Deus?, resumiu a lição em 2021: a apologética não é uma vacina contra o pecado. Paulo já tinha escrito a Timóteo: “Tem cuidado de ti mesmo e da doutrina; persevera nessas coisas” (1 Timóteo 4:16, Bíblia Livre).

Obras principais

  • A Shattered Visage: The Real Face of Atheism (Wolgemuth & Hyatt, 1990).
  • Can Man Live Without God? (Word, 1994).
  • Deliver Us from Evil (Word, 1996).
  • Cries of the Heart (Word, 1998).
  • Jesus Among Other Gods (Word, 2000).
  • The Lotus and the Cross: Jesus Talks with Buddha (Multnomah, 2001).
  • Who Made God? (org., com Norman Geisler, Zondervan, 2003).
  • Walking from East to West (com R. S. B. Sawyer, Zondervan, 2006).
  • The Grand Weaver (Zondervan, 2007).
  • The End of Reason (Zondervan, 2008).
  • Why Suffering? (com Vince Vitale, FaithWords, 2014).
  • Jesus Among Secular Gods (com Vince Vitale, FaithWords, 2017).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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