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HistóriaTeólogos arminianos13 de 330

Filipe Melanchthon: O professor de Wittenberg que trocou o determinismo pela promessa oferecida a todos

Diego Gonçalves13 min de leitura2.557 palavras

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Neste texto

Poucos dias antes de morrer, em abril de 1560, um professor de sessenta e três anos escreveu numa folha, em duas colunas, as razões pelas quais não precisava temer a morte. De um lado pôs o que deixaria para trás: o pecado, as aflições e a “fúria dos teólogos”, a rabies theologorum. Do outro, o que encontraria: a luz, a visão de Deus e do Filho, e a resposta aos mistérios que ficaram fechados para ele nesta vida, por que fomos criados assim e como as duas naturezas se unem em Cristo. Quando lhe perguntaram se queria mais alguma coisa, respondeu: “Nada senão o céu”. Chamava-se Filipe Melanchthon. Escrevera a Confissão de Augsburgo e a primeira teologia sistemática da Reforma, e passara os últimos doze anos acusado pelos próprios luteranos de dar à vontade humana um papel que ela não tinha. Meio século depois, Jacó Armínio lembraria que Melanchthon aprovara a predestinação absoluta no começo da Reforma e a abandonara depois.

Retrato de Filipe Melanchthon
Retrato de Filipe Melanchthon, Lucas Cranach, o Velho, e oficina, 1543. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Bretten, Pforzheim e as universidades

Filipe nasceu em 16 de fevereiro de 1497 em Bretten, no Palatinado, filho de Georg Schwarzerdt, armeiro do eleitor palatino Filipe, e de Barbara Reuter, filha de um comerciante que foi prefeito da cidade. Em 1508 o pai e o avô morreram com poucos dias de diferença, e o menino foi com um irmão para Pforzheim. Ali morou com a avó Elisabeth, irmã do humanista Johann Reuchlin, e estudou na escola latina de Georg Simler. Reuchlin, tio-avô dele e grande conhecedor de grego e hebraico, sugeriu que trocasse o sobrenome pela forma grega: Schwarzerdt quer dizer “terra preta”, e Melanchthon diz o mesmo em grego.

Matriculou-se em Heidelberg em 13 de outubro de 1509, com doze anos, e recebeu o bacharelado em artes em 11 de junho de 1511. A universidade lhe recusou o mestrado por causa da idade, e ele passou para Tübingen, onde se matriculou em 17 de setembro de 1512 e se tornou mestre em artes em 25 de janeiro de 1514. Ficou ali como professor, publicou uma edição do comediógrafo latino Terêncio (1516) e preparou uma gramática grega, impressa em 1518.

Wittenberg e Lutero

Em 1518, por recomendação de Reuchlin, o eleitor Frederico, o Sábio, nomeou-o professor de grego da Universidade de Wittenberg. Tinha vinte e um anos e era pequeno e franzino. No fim de agosto pronunciou a aula inaugural De corrigendis adolescentiae studiis, “sobre a reforma dos estudos da juventude”, um programa de volta às fontes: as línguas originais, os autores antigos e a Escritura lida no grego e no hebraico. Lutero, que publicara as 95 teses no ano anterior, ganhou nele um aliado e logo um amigo.

Em 1519 Melanchthon assistiu ao debate de Leipzig entre Lutero e João Eck. Em 19 de setembro daquele ano recebeu o grau de bacharel em Bíblia e passou a dar aulas sobre as Escrituras. Os cursos de teologia dele chegaram a reunir quinhentos a seiscentos alunos, e mais tarde até mil e quinhentos. Em 25 de novembro de 1520, por insistência dos amigos e do próprio Lutero, casou-se com Katharina Krapp, filha de Hans Krapp, alfaiate e prefeito de Wittenberg. Viveram juntos trinta e sete anos e tiveram quatro filhos: Anna, Filipe, Georg e Madalena.

Das aulas sobre a Epístola aos Romanos nasceram os Loci communes rerum theologicarum, os “tópicos comuns” da teologia, terminados em abril de 1521 e impressos em dezembro, enquanto Lutero estava escondido no castelo de Wartburg depois da Dieta de Worms. Foi a primeira exposição ordenada da doutrina evangélica, montada em torno do pecado, da lei e da graça. Em 1525, no De servo arbitrio, Lutero chamou o livro de digno “não só da imortalidade, mas também do cânon da Igreja”. Os Loci tomaram o lugar das Sentenças de Pedro Lombardo nas universidades luteranas, e o autor os reescreveu a vida toda, até a última forma, os Loci praecipui theologici de 1559.

O mestre da Alemanha

Em 1526 fundou a escola superior de Nuremberg, e em 1528 publicou a Instrução aos visitadores, base para reformar as igrejas e as escolas da Saxônia. Orientou a fundação ou a reorganização das universidades de Marburgo, Königsberg, Jena e Leipzig e escreveu manuais de gramática, dialética, retórica, ética e física usados por mais de um século. Os contemporâneos o chamaram Praeceptor Germaniae, o mestre da Alemanha.

Augsburgo e a busca de acordo

Em outubro de 1529 debateu com Ulrico Zuínglio em Marburgo, ao lado de Lutero, contra a doutrina zuingliana da Ceia. No ano seguinte, na Dieta de Augsburgo, Lutero, proscrito desde Worms, não pôde estar presente, e Melanchthon redigiu a Confissão de Augsburgo, lida diante do imperador Carlos V em 25 de junho de 1530. O texto procurava mostrar que os evangélicos continuavam dentro da Igreja católica e que ensinavam o que a Escritura e os pais ensinavam. Quando os teólogos do imperador responderam com uma refutação, Melanchthon escreveu a Apologia da Confissão de Augsburgo (1531). Em 1537, em Esmalcalda, escreveu o Tratado sobre o poder e o primado do papa.

Buscou acordo também entre os protestantes, cujas diferenças estão em Luteranos e reformados. Em maio de 1536 participou da Concórdia de Wittenberg, o entendimento sobre a Ceia com Martin Bucer e os teólogos do sul da Alemanha. Em 1540 publicou uma edição revista da Confissão, a Variata, que João Calvino assinou. Calvino, que o conhecera em Frankfurt em 1539, escreveu em 1546 o prefácio da tradução francesa dos Loci, explicando por que as suas posições sobre o livre-arbítrio e a predestinação pareciam diferentes das do amigo. Com os católicos, esteve nos colóquios fracassados de Worms (1540) e de Regensburg (1541).

Depois de Lutero

Lutero morreu em 18 de fevereiro de 1546, e no enterro Melanchthon o chamou de “carro de Israel e seu cavaleiro”, as palavras de Eliseu diante de Elias (2 Reis 2:12). Depois da vitória do imperador na guerra de Esmalcalda, Melanchthon rejeitou o Ínterim de Augsburgo, mas participou em 1548 das negociações do Ínterim de Leipzig, que aceitava cerimônias católicas como adiaphora, coisas indiferentes, desde que a doutrina fosse preservada. Matthias Flacius e os chamados gnésio-luteranos o trataram como traidor e herege, e ele mesmo se arrependeu depois de algumas concessões. No colóquio de Worms de 1557, a que foi contra a vontade, os adversários luteranos o humilharam diante dos católicos. A mulher morreu naquele mesmo ano.

Em março de 1560 pegou um resfriado forte numa viagem a Leipzig, seguido de febre. Morreu em Wittenberg em 19 de abril de 1560, orando, e foi sepultado em 21 de abril na Igreja do Castelo, ao lado de Lutero. Os discípulos dele, chamados filipistas, ficaram no centro das disputas que só a Fórmula de Concórdia encerraria, em 1577.

Pensamento

Onde Melanchthon fica no arminianismo

Melanchthon é um proto-arminiano luterano. Começou determinista e terminou ensinando que a promessa do Evangelho é universal, que a vontade, movida pela Palavra e pelo Espírito, assente ou resiste, e que a causa da reprovação está em quem rejeita o Evangelho, e não num decreto de Deus. Armínio o cita na Declaração de Sentimentos (1608) como testemunha de que a predestinação absoluta não era a doutrina comum das igrejas protestantes, e Peter Baro o defendeu em Cambridge da acusação de pelagianismo. A distância também é clara: Melanchthon é luterano, não formulou uma doutrina dos decretos como a de Armínio e se recusou a explicar, além do que a Escritura diz, por que uns creem e outros não.

Do determinismo de 1521 às três causas

Os Loci de 1521 diziam: “visto que tudo o que acontece acontece necessariamente segundo a predestinação divina, não há liberdade da nossa vontade”. Na edição de 1535 ele abandonou essa tese, afirmou que Deus “de modo algum” é autor do pecado e passou a falar de três causas que concorrem na conversão. Na forma final, de 1559, a frase é esta: “concorrem três causas da boa ação: a Palavra de Deus, o Espírito Santo e a vontade humana”, que assente à Palavra e não lhe resiste (Loci praecipui theologici, locus IV).

A ordem importa. Melanchthon repete o artigo XVIII da Confissão de Augsburgo: a vontade escolhe as coisas da vida civil, mas “não tem poder, sem o Espírito Santo”, para produzir a justiça de Deus. Em 1559 ele diz que a vontade humana não pode, sem o Espírito Santo, produzir os efeitos espirituais que Deus pede, o verdadeiro temor de Deus, a confiança na misericórdia, o amor a Deus e a paciência nas aflições. As boas obras se fazem “com a graça indo à frente e a vontade acompanhando”. Ele cita Basílio, “basta que queiras, e Deus vem antes ao teu encontro”, e explica logo que Deus vem primeiro, chama, move e ajuda, e que o nosso cuidado é não resistir. Saul é o exemplo do contrário: “por vontade própria resistiu ao Espírito Santo que o movia”. A vontade, diz ele, não fica ociosa, mas luta contra a própria fraqueza.

É a lógica da graça preveniente, que vem antes, chama e pode ser recusada. Os gnésio-luteranos viram nisso sinergismo, a cooperação da vontade natural na conversão, e a Fórmula de Concórdia rejeitou em 1577 a frase “a vontade do homem na conversão não está ociosa, mas faz alguma coisa”, e comparou o homem não convertido, nas coisas espirituais, a um tronco (ver livre-arbítrio e graça). Melanchthon também aceitou, a partir de 1548, uma definição antiga e erasmiana do livre-arbítrio como “faculdade de se aplicar à graça”, isto é, ouvir a promessa e procurar assentir a ela. Aqui o arminianismo clássico fala com mais precisão do que ele. Armínio diz que a vontade caída está morta para o bem e que a capacidade de assentir já é obra da graça que a liberta, de modo que a pessoa não traz nada de seu. Melanchthon não chega a essa formulação, mas também nunca diz que o homem dá o primeiro passo: na ordem dele, a Palavra e o Espírito sempre vêm antes.

A promessa é para todos

“A promessa da graça é universal”, escreve em 1559, com Mateus 11:28 e João 3:16. Melanchthon defendia isso por razões pastorais: se a graça fosse só para alguns, a promessa ficaria incerta e a fé não teria onde se apoiar. Por isso a eleição se julga “não pela razão nem pela lei, mas pelo Evangelho”. Não se procura um decreto escondido: eleitos são os que pela fé recebem a misericórdia prometida por causa de Cristo, porque Deus “nos escolheu nele antes da fundação do mundo” (Efésios 1:4). Quem, enganado pelo próprio erro, se opõe ao Evangelho, “a causa da reprovação está nele mesmo”. E Deus “não é causa do pecado nem quer o pecado” (Salmo 5:4; Oseias 13:9). É a raiz da eleição condicional em Cristo que os remonstrantes desenvolveriam, mas Melanchthon parou antes: disse que há em nós uma causa da diferença entre Saul e Davi e não foi além disso.

Conhecer Cristo pelos seus benefícios

A frase mais lembrada dos Loci de 1521 está no começo: “conhecer Cristo é conhecer os seus benefícios”, e não especular sobre as suas naturezas e os modos da encarnação. No comentário a Romanos (1532) descreveu a justificação como o ato pelo qual Deus nos considera justos por causa de Cristo, a justiça imputada que Armínio e John Wesley afirmariam sem reservas (ver a justificação pela fé).

Concordâncias e diferenças com o site

Com a declaração de fé deste site, Melanchthon concorda na incapacidade humana sem a graça, na justificação somente pela fé, na promessa oferecida a todos, na graça que pode ser recusada e na possibilidade de perder a fé, que a Confissão de Augsburgo afirma no artigo XII. Difere no batismo de crianças, que defendia, enquanto o site batiza depois da conversão, e na Ceia: Melanchthon afirmava a presença real de Cristo, embora tenha passado de uma presença corporal a uma presença espiritual real, e o site entende a Ceia como memorial.

Obras principais

  • De corrigendis adolescentiae studiis (aula inaugural em Wittenberg, 1518).
  • Loci communes rerum theologicarum (1521; refeitos em 1535 e 1543; forma final: Loci praecipui theologici, 1559).
  • Unterricht der Visitatorn, a Instrução aos visitadores (1528).
  • Confissão de Augsburgo (1530).
  • Apologia da Confissão de Augsburgo (1531).
  • Commentarii in Epistolam Pauli ad Romanos (1532).
  • Tractatus de potestate et primatu papae, o Tratado sobre o poder e o primado do papa (1537).
  • Confessio Augustana variata (1540).
  • Oratio in funere Lutheri, o discurso no enterro de Lutero (1546).

Livros em português

  • Loci Theologici: Tópicos Teológicos, de 1521, edição crítica bilíngue, latim e português, tradução de Eduardo Gross (Sinodal/EST, 2018). Ver na Amazon
  • Livro de Concórdia: as confissões da Igreja Evangélica Luterana, tradução de Arnaldo Schüler (Sinodal, edição revista de 2021), com a Confissão de Augsburgo, a Apologia e o Tratado sobre o poder e o primado do papa. Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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