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R. A. Torrey: O erudito de Yale que dirigiu o instituto de Moody e pregou o batismo com o Espírito

Diego Gonçalves13 min de leitura2.593 palavras

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Neste texto

Numa noite de desespero, ainda estudante em Yale, Reuben Archer Torrey pulou da cama e foi ao lavatório do quarto buscar a arma com que pretendia se matar. Não a achou. Caiu de joelhos e prometeu a Deus que, se ele tirasse o peso do seu coração, pregaria o evangelho. Só depois soube que, naquela hora, a mãe orava por ele a mais de 600 quilômetros dali. “Eu me converti no meio da noite, na escuridão completa”, contava.

Retrato de R. A. Torrey
R. A. Torrey em fotografia publicada em 1905. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Brooklyn e Yale (1856-1878)

Torrey nasceu em 28 de janeiro de 1856, em Hoboken, Nova Jersey, filho de Reuben Slayton Torrey e Elizabeth Ann Swift. O pai, banqueiro, perdeu tudo na crise de 1857, refez a fortuna como industrial no Brooklyn e se tornou um líder do Partido Democrata na cidade. Ele era congregacional; a mãe, presbiteriana e mulher de oração, queria o filho no ministério. Ainda menino, Reuben leu num livro dela que, para ser cristão, era preciso estar disposto a ir aonde Deus mandasse, e recusou: queria ser advogado e tinha certeza de que Deus o mandaria pregar.

Entrou em Yale aos 15 anos. Tirava boas notas sem esforço e vivia entre baralho, corridas de cavalos e bailes, até a noite descrita acima. Formou-se em 1875 e concluiu o curso de teologia de Yale em 1878. Nessa fase, Dwight L. Moody pregou em New Haven. Torrey e outros seminaristas foram às reuniões com ar de quem prestigiava o evangelista sem estudo e acabaram pedindo que ele lhes ensinasse a ganhar almas. Moody citou poucos versículos e disse: “Senhores, mãos à obra.” Numa dessas noites, Torrey conversou duas horas, de Bíblia aberta, com uma moça com quem dançava nos bailes, e ela se converteu: se Cristo tinha salvado Torrey, pensou, podia salvar qualquer um. No seminário, porém, ele simpatizava com a “nova teologia” liberal. A fortuna da família acabou no pânico de 1873, e quando o pai morreu, em 1877, a herança de Reuben foi uma caixa de fósforos e um par de abotoaduras.

Garrettsville, Alemanha e Minneapolis (1878-1889)

Ordenado pastor congregacional em 1878, assumiu uma igreja de cinquenta membros em Garrettsville, Ohio. Um dia entrou no bar da rua principal, pediu aos jogadores que largassem as cartas e orou de joelhos com eles; o dono do bar vizinho foi reclamar que o dele também merecia um culto, e ganhou. Em 1879 casou-se com Clara Swift, de Garrettsville, com quem teve cinco filhos: Edith, Blanche, Reuben, Elizabeth e Margaret.

Em 1882 e 1883 estudou em Leipzig e Erlangen, com professores como Franz Delitzsch. Foi adepto da alta crítica, que tratava boa parte da Bíblia como produto humano tardio, e voltou convencido de que ela não se sustentava. Dali em diante defendeu a inspiração e a inerrância das Escrituras.

Entre uma igreja rica no Brooklyn e uma pequena em Minneapolis, escolheu Minneapolis. Nas primeiras visitas, portas bateram na sua cara, e ele já voltava para casa ofendido quando ouviu por dentro a pergunta: “Você não pode fazer isso por amor de Cristo?” Voltou às visitas. Fundou uma igreja com onze membros, tão pobre que o pedido de oração mais comum era por lenha, e depois uma “igreja do povo” reunida em salões e teatros. Dirigiu a Sociedade Missionária da Cidade e, quando percebeu que ocupava sete ou oito cargos em entidades beneficentes, renunciou a todos para se dedicar só à pregação. Treinava cada igreja para a evangelização pessoal, e dizia viver num avivamento contínuo desde o primeiro ano de ministério.

O instituto de Moody (1889-1901)

Em 1889, Moody o chamou para ser o primeiro superintendente do instituto bíblico da Sociedade de Evangelização de Chicago, depois Moody Bible Institute. Torrey montou um currículo que unia Bíblia e prática diária: pregação na rua, visitas a cadeias e hospitais, conversa pessoal. Um colega resumiu a dupla: Moody era brusco, impulsivo e sem estudo; Torrey, polido, lógico e erudito. Eram amigos, e outro companheiro dizia que Moody era o único que ousava dizer a Torrey o que pregar.

Em 1894 assumiu também a Igreja da Avenida Chicago, a igreja de Moody, com oitocentos membros, onde ficou até 1906. Em 8 de julho daquele ano, no fim da conferência de estudantes de Northfield, pregou sobre o batismo com o Espírito Santo, e à tarde 456 pessoas subiram com Moody a encosta de um morro para orar por esse batismo. Em 1898 foi capelão da Associação Cristã de Moços no acampamento militar de Chickamauga.

Em Chicago morreu a filha Elizabeth, de nove anos, de difteria. A menina tinha ouvido em Northfield que um caráter bonito faz um rosto bonito e passara a pedir a Deus que a fizesse muito bonita; Moody telegrafou: “A oração de Elizabeth foi respondida.” Quando Moody adoeceu em Kansas City, em 1899, foi Torrey quem terminou a campanha.

Pelo mundo com Charles Alexander (1902-1911)

Em 1902 e 1903, Torrey pregou na Austrália, Nova Zelândia, Índia, China, Japão e ilhas britânicas, com o cantor Charles M. Alexander e o pianista Robert Harkness. A segunda volta, até 1905, incluiu cinco meses em Londres, no Royal Albert Hall e num salão de ferro corrugado construído em Brixton. Voluntários visitaram cerca de cem mil casas, e só em Brixton perto de cinco mil adultos e crianças se apresentaram como convertidos ou interessados. A Saturday Review chamou a campanha de fracasso e de intromissão americana. Até 1911 vieram Toronto, Filadélfia, Montreal, Detroit e outras cidades. Em 1907 recebeu o doutorado honorário do Wheaton College, e em 1908 deixou Chicago e fundou a Conferência Bíblica de Montrose, na Pensilvânia.

Los Angeles e Os Fundamentos (1912-1928)

De 1912 a 1924 foi o primeiro decano do Instituto Bíblico de Los Angeles, a atual Biola University, e a partir de 1915 o primeiro pastor da Igreja da Porta Aberta. Editou os dois últimos volumes de The Fundamentals (Os Fundamentos), doze coletâneas contra o liberalismo teológico, pagas pelos irmãos Lyman e Milton Stewart e enviadas a pastores e missionários do mundo inteiro; delas veio o nome “fundamentalismo”. Em 1918, a sua casa recebeu a reunião que criou a Associação Cristã Mundial dos Fundamentos.

Em 1924 deixou os cargos para evangelizar em tempo integral e, em 1926, fixou-se em Asheville, na Carolina do Norte. Morreu em casa em 26 de outubro de 1928, aos 72 anos, e foi sepultado em Montrose. O filho Reuben Archer Torrey Jr. foi missionário na Coreia. O auditório principal do Moody Bible Institute leva o nome dele e de James M. Gray, o seu sucessor.

Pensamento

Ler a Bíblia sem partido

Em What the Bible Teaches (1898), Torrey reúne os textos sobre cada doutrina e tira deles “proposições” numeradas, em mais de quinhentas páginas. A tarefa do intérprete, diz, é achar o sentido natural de cada passagem e crer nele mesmo sem saber conciliá-lo com outra. Forçar cada texto a caber nos demais produz uma teologia unilateral: “Um homem se torna um calvinista unilateral, e outro, um arminiano unilateral.” Em Difficulties in the Bible (1907) acrescenta que há passagens “decididamente calvinistas” e outras “decididamente arminianas”, e que os dois lados são verdadeiros. Nos sermões publicados, os temas que voltam sempre são a inerrância da Bíblia, a criação e a volta de Cristo antes do milênio.

O batismo com o Espírito Santo

Em The Baptism with the Holy Spirit (1895), Torrey ensina que esse batismo é uma experiência definida, “separada e distinta” da regeneração: os apóstolos já estavam limpos (João 15:3) e ainda não tinham sido batizados com o Espírito (Atos 1:5). Quem foi regenerado está salvo, mas ainda não está equipado para servir. O batismo dá poder para o testemunho, com dons diferentes para cada um (1 Coríntios 12), e se recebe em sete passos: aceitar Jesus como Cristo e Senhor, abandonar o pecado, confessá-lo no batismo, obedecer com entrega total, desejar, pedir e crer que recebeu.

Ele negou que esse batismo seja a erradicação da natureza pecaminosa, como dizia parte do movimento de santidade; a vitória sobre a carne “precisa ser mantida a cada momento” pelo andar no Espírito (Gálatas 5:16). Em 1913, na revista The King’s Business, rejeitou o pentecostalismo, que faz das línguas “a única evidência decisiva” do batismo, posição que Myer Pearlman ensinaria nas Assembleias de Deus. Em Why God Used D. L. Moody (1923), põe o batismo com o Espírito como a sétima razão do poder de Moody, depois da entrega total, da oração, do estudo da Bíblia, da humildade, do desapego ao dinheiro e da paixão pelas almas. Seguia nisso a linha de Charles Finney e da convenção de Keswick.

Oração e evangelização

How to Bring Men to Christ (1893) ensina a conversar com o indiferente, o ansioso, o cético e o desviado, com os versículos certos para cada caso. Em How to Pray (1900) Torrey escreveu que a oração é o meio estabelecido por Deus para obtermos as coisas, e que “o grande segredo de toda falta” na vida e no trabalho cristão “é a negligência da oração”.

Graça, eleição e segurança

Em What the Bible Teaches, o homem fora de Cristo é escravo do pecado, “em cativeiro sem ajuda e sem esperança”; a carne não pode ser melhorada, e “tudo o que temos a fazer com a nossa regeneração é receber Cristo”. A morte de Cristo é vicária e é “o grande ímã do mundo”, que atrai todos os homens (João 12:32): “Há muitos que resistem a essa atração para a própria ruína.” Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro (1 João 2:2).

Em Practical and Perplexing Questions Answered (1909), comentando Atos 13:48, Torrey explica que Deus sabe desde a eternidade quem vai ceder ao Espírito e aceitar Cristo, e que os que o recebem são ordenados para a vida eterna; “Deus não ordena ninguém para a perdição contra a própria vontade”. A presciência não causa a escolha: “o conhecimento é determinado pelo fato, e não o fato pelo conhecimento”. É a eleição condicional de que tratamos em Presciência, eleição e predestinação. Quando nega que a adoção venha de “algum mérito visto ou previsto em nós”, Torrey nega o mérito, como os arminianos, para quem a fé recebe e não merece.

Na perseverança, ele fica com os calvinistas. A doutrina deles, diz, é no fundo a “perseverança do Salvador”: o crente pode cair em pecado grave, mas Cristo vai atrás dele como da ovelha perdida, e quem vive no pecado prova que nunca foi regenerado (1 João 2:19). Dá razão aos arminianos, porém, contra um “uma vez na graça, sempre na graça” que sirva de desculpa para pecar. A certeza vem da Palavra, da vida transformada e do testemunho do Espírito (Romanos 8:16): “É o sangue de Cristo que nos torna salvos; é a Palavra de Deus que nos torna seguros.”

Onde ele fica na série

Nós classificamos Torrey como simpatizante. Ensinou a expiação para todos, uma graça que atrai todos e pode ser resistida e a eleição segundo a presciência, e afirmou a incapacidade do homem caído e a salvação só pela graça, mediante a fé. Mas nunca se disse arminiano, recusou escolher entre os sistemas e ensinou a segurança incondicional do regenerado, como Moody e, depois, Henry Thiessen. Não usou a expressão “graça preveniente”, que explicamos em A graça preveniente em Armínio, embora a atração universal da cruz ocupe esse lugar no seu ensino.

Há três diferenças com a declaração de fé deste site. Eu creio que a perseverança é condicional e que a fé pode ser abandonada, como explicamos em Arminianismo: a segurança da salvação. Creio na inteira santificação, obra da graça recebida pela fé que purifica o coração e o enche de amor perfeito, conforme o que Wesley ensinou sobre a perfeição cristã, enquanto Torrey ligava a experiência posterior à conversão ao poder para servir, e não à purificação do coração. E sou amilenista, enquanto ele pregava o pré-milenismo.

Obras principais

  • How to Bring Men to Christ (1893).
  • The Baptism with the Holy Spirit (1895).
  • The New Topical Textbook (1897).
  • What the Bible Teaches (1898).
  • How to Pray (1900).
  • Revival Addresses (1903).
  • Difficulties in the Bible (1907).
  • Practical and Perplexing Questions Answered (1909).
  • The Person and Work of the Holy Spirit (1910).
  • The Fundamentals (1910-1915), editor dos volumes 11 e 12.
  • Is the Bible the Inerrant Word of God? (1922).
  • Why God Used D. L. Moody (1923).
  • The Power of Prayer and the Prayer of Power (1924).

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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