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R. A. Torrey: O erudito de Yale que dirigiu o instituto de Moody e pregou o batismo com o Espírito
Neste texto
- Vida
- Brooklyn e Yale (1856-1878)
- Garrettsville, Alemanha e Minneapolis (1878-1889)
- O instituto de Moody (1889-1901)
- Pelo mundo com Charles Alexander (1902-1911)
- Los Angeles e Os Fundamentos (1912-1928)
- Pensamento
- Ler a Bíblia sem partido
- O batismo com o Espírito Santo
- Oração e evangelização
- Graça, eleição e segurança
- Onde ele fica na série
- Obras principais
- Livros em português
- Para aprofundar
Numa noite de desespero, ainda estudante em Yale, Reuben Archer Torrey pulou da cama e foi ao lavatório do quarto buscar a arma com que pretendia se matar. Não a achou. Caiu de joelhos e prometeu a Deus que, se ele tirasse o peso do seu coração, pregaria o evangelho. Só depois soube que, naquela hora, a mãe orava por ele a mais de 600 quilômetros dali. “Eu me converti no meio da noite, na escuridão completa”, contava.
Vida
Brooklyn e Yale (1856-1878)
Torrey nasceu em 28 de janeiro de 1856, em Hoboken, Nova Jersey, filho de Reuben Slayton Torrey e Elizabeth Ann Swift. O pai, banqueiro, perdeu tudo na crise de 1857, refez a fortuna como industrial no Brooklyn e se tornou um líder do Partido Democrata na cidade. Ele era congregacional; a mãe, presbiteriana e mulher de oração, queria o filho no ministério. Ainda menino, Reuben leu num livro dela que, para ser cristão, era preciso estar disposto a ir aonde Deus mandasse, e recusou: queria ser advogado e tinha certeza de que Deus o mandaria pregar.
Entrou em Yale aos 15 anos. Tirava boas notas sem esforço e vivia entre baralho, corridas de cavalos e bailes, até a noite descrita acima. Formou-se em 1875 e concluiu o curso de teologia de Yale em 1878. Nessa fase, Dwight L. Moody pregou em New Haven. Torrey e outros seminaristas foram às reuniões com ar de quem prestigiava o evangelista sem estudo e acabaram pedindo que ele lhes ensinasse a ganhar almas. Moody citou poucos versículos e disse: “Senhores, mãos à obra.” Numa dessas noites, Torrey conversou duas horas, de Bíblia aberta, com uma moça com quem dançava nos bailes, e ela se converteu: se Cristo tinha salvado Torrey, pensou, podia salvar qualquer um. No seminário, porém, ele simpatizava com a “nova teologia” liberal. A fortuna da família acabou no pânico de 1873, e quando o pai morreu, em 1877, a herança de Reuben foi uma caixa de fósforos e um par de abotoaduras.
Garrettsville, Alemanha e Minneapolis (1878-1889)
Ordenado pastor congregacional em 1878, assumiu uma igreja de cinquenta membros em Garrettsville, Ohio. Um dia entrou no bar da rua principal, pediu aos jogadores que largassem as cartas e orou de joelhos com eles; o dono do bar vizinho foi reclamar que o dele também merecia um culto, e ganhou. Em 1879 casou-se com Clara Swift, de Garrettsville, com quem teve cinco filhos: Edith, Blanche, Reuben, Elizabeth e Margaret.
Em 1882 e 1883 estudou em Leipzig e Erlangen, com professores como Franz Delitzsch. Foi adepto da alta crítica, que tratava boa parte da Bíblia como produto humano tardio, e voltou convencido de que ela não se sustentava. Dali em diante defendeu a inspiração e a inerrância das Escrituras.
Entre uma igreja rica no Brooklyn e uma pequena em Minneapolis, escolheu Minneapolis. Nas primeiras visitas, portas bateram na sua cara, e ele já voltava para casa ofendido quando ouviu por dentro a pergunta: “Você não pode fazer isso por amor de Cristo?” Voltou às visitas. Fundou uma igreja com onze membros, tão pobre que o pedido de oração mais comum era por lenha, e depois uma “igreja do povo” reunida em salões e teatros. Dirigiu a Sociedade Missionária da Cidade e, quando percebeu que ocupava sete ou oito cargos em entidades beneficentes, renunciou a todos para se dedicar só à pregação. Treinava cada igreja para a evangelização pessoal, e dizia viver num avivamento contínuo desde o primeiro ano de ministério.
O instituto de Moody (1889-1901)
Em 1889, Moody o chamou para ser o primeiro superintendente do instituto bíblico da Sociedade de Evangelização de Chicago, depois Moody Bible Institute. Torrey montou um currículo que unia Bíblia e prática diária: pregação na rua, visitas a cadeias e hospitais, conversa pessoal. Um colega resumiu a dupla: Moody era brusco, impulsivo e sem estudo; Torrey, polido, lógico e erudito. Eram amigos, e outro companheiro dizia que Moody era o único que ousava dizer a Torrey o que pregar.
Em 1894 assumiu também a Igreja da Avenida Chicago, a igreja de Moody, com oitocentos membros, onde ficou até 1906. Em 8 de julho daquele ano, no fim da conferência de estudantes de Northfield, pregou sobre o batismo com o Espírito Santo, e à tarde 456 pessoas subiram com Moody a encosta de um morro para orar por esse batismo. Em 1898 foi capelão da Associação Cristã de Moços no acampamento militar de Chickamauga.
Em Chicago morreu a filha Elizabeth, de nove anos, de difteria. A menina tinha ouvido em Northfield que um caráter bonito faz um rosto bonito e passara a pedir a Deus que a fizesse muito bonita; Moody telegrafou: “A oração de Elizabeth foi respondida.” Quando Moody adoeceu em Kansas City, em 1899, foi Torrey quem terminou a campanha.
Pelo mundo com Charles Alexander (1902-1911)
Em 1902 e 1903, Torrey pregou na Austrália, Nova Zelândia, Índia, China, Japão e ilhas britânicas, com o cantor Charles M. Alexander e o pianista Robert Harkness. A segunda volta, até 1905, incluiu cinco meses em Londres, no Royal Albert Hall e num salão de ferro corrugado construído em Brixton. Voluntários visitaram cerca de cem mil casas, e só em Brixton perto de cinco mil adultos e crianças se apresentaram como convertidos ou interessados. A Saturday Review chamou a campanha de fracasso e de intromissão americana. Até 1911 vieram Toronto, Filadélfia, Montreal, Detroit e outras cidades. Em 1907 recebeu o doutorado honorário do Wheaton College, e em 1908 deixou Chicago e fundou a Conferência Bíblica de Montrose, na Pensilvânia.
Los Angeles e Os Fundamentos (1912-1928)
De 1912 a 1924 foi o primeiro decano do Instituto Bíblico de Los Angeles, a atual Biola University, e a partir de 1915 o primeiro pastor da Igreja da Porta Aberta. Editou os dois últimos volumes de The Fundamentals (Os Fundamentos), doze coletâneas contra o liberalismo teológico, pagas pelos irmãos Lyman e Milton Stewart e enviadas a pastores e missionários do mundo inteiro; delas veio o nome “fundamentalismo”. Em 1918, a sua casa recebeu a reunião que criou a Associação Cristã Mundial dos Fundamentos.
Em 1924 deixou os cargos para evangelizar em tempo integral e, em 1926, fixou-se em Asheville, na Carolina do Norte. Morreu em casa em 26 de outubro de 1928, aos 72 anos, e foi sepultado em Montrose. O filho Reuben Archer Torrey Jr. foi missionário na Coreia. O auditório principal do Moody Bible Institute leva o nome dele e de James M. Gray, o seu sucessor.
Pensamento
Ler a Bíblia sem partido
Em What the Bible Teaches (1898), Torrey reúne os textos sobre cada doutrina e tira deles “proposições” numeradas, em mais de quinhentas páginas. A tarefa do intérprete, diz, é achar o sentido natural de cada passagem e crer nele mesmo sem saber conciliá-lo com outra. Forçar cada texto a caber nos demais produz uma teologia unilateral: “Um homem se torna um calvinista unilateral, e outro, um arminiano unilateral.” Em Difficulties in the Bible (1907) acrescenta que há passagens “decididamente calvinistas” e outras “decididamente arminianas”, e que os dois lados são verdadeiros. Nos sermões publicados, os temas que voltam sempre são a inerrância da Bíblia, a criação e a volta de Cristo antes do milênio.
O batismo com o Espírito Santo
Em The Baptism with the Holy Spirit (1895), Torrey ensina que esse batismo é uma experiência definida, “separada e distinta” da regeneração: os apóstolos já estavam limpos (João 15:3) e ainda não tinham sido batizados com o Espírito (Atos 1:5). Quem foi regenerado está salvo, mas ainda não está equipado para servir. O batismo dá poder para o testemunho, com dons diferentes para cada um (1 Coríntios 12), e se recebe em sete passos: aceitar Jesus como Cristo e Senhor, abandonar o pecado, confessá-lo no batismo, obedecer com entrega total, desejar, pedir e crer que recebeu.
Ele negou que esse batismo seja a erradicação da natureza pecaminosa, como dizia parte do movimento de santidade; a vitória sobre a carne “precisa ser mantida a cada momento” pelo andar no Espírito (Gálatas 5:16). Em 1913, na revista The King’s Business, rejeitou o pentecostalismo, que faz das línguas “a única evidência decisiva” do batismo, posição que Myer Pearlman ensinaria nas Assembleias de Deus. Em Why God Used D. L. Moody (1923), põe o batismo com o Espírito como a sétima razão do poder de Moody, depois da entrega total, da oração, do estudo da Bíblia, da humildade, do desapego ao dinheiro e da paixão pelas almas. Seguia nisso a linha de Charles Finney e da convenção de Keswick.
Oração e evangelização
How to Bring Men to Christ (1893) ensina a conversar com o indiferente, o ansioso, o cético e o desviado, com os versículos certos para cada caso. Em How to Pray (1900) Torrey escreveu que a oração é o meio estabelecido por Deus para obtermos as coisas, e que “o grande segredo de toda falta” na vida e no trabalho cristão “é a negligência da oração”.
Graça, eleição e segurança
Em What the Bible Teaches, o homem fora de Cristo é escravo do pecado, “em cativeiro sem ajuda e sem esperança”; a carne não pode ser melhorada, e “tudo o que temos a fazer com a nossa regeneração é receber Cristo”. A morte de Cristo é vicária e é “o grande ímã do mundo”, que atrai todos os homens (João 12:32): “Há muitos que resistem a essa atração para a própria ruína.” Cristo é a propiciação pelos pecados do mundo inteiro (1 João 2:2).
Em Practical and Perplexing Questions Answered (1909), comentando Atos 13:48, Torrey explica que Deus sabe desde a eternidade quem vai ceder ao Espírito e aceitar Cristo, e que os que o recebem são ordenados para a vida eterna; “Deus não ordena ninguém para a perdição contra a própria vontade”. A presciência não causa a escolha: “o conhecimento é determinado pelo fato, e não o fato pelo conhecimento”. É a eleição condicional de que tratamos em Presciência, eleição e predestinação. Quando nega que a adoção venha de “algum mérito visto ou previsto em nós”, Torrey nega o mérito, como os arminianos, para quem a fé recebe e não merece.
Na perseverança, ele fica com os calvinistas. A doutrina deles, diz, é no fundo a “perseverança do Salvador”: o crente pode cair em pecado grave, mas Cristo vai atrás dele como da ovelha perdida, e quem vive no pecado prova que nunca foi regenerado (1 João 2:19). Dá razão aos arminianos, porém, contra um “uma vez na graça, sempre na graça” que sirva de desculpa para pecar. A certeza vem da Palavra, da vida transformada e do testemunho do Espírito (Romanos 8:16): “É o sangue de Cristo que nos torna salvos; é a Palavra de Deus que nos torna seguros.”
Onde ele fica na série
Nós classificamos Torrey como simpatizante. Ensinou a expiação para todos, uma graça que atrai todos e pode ser resistida e a eleição segundo a presciência, e afirmou a incapacidade do homem caído e a salvação só pela graça, mediante a fé. Mas nunca se disse arminiano, recusou escolher entre os sistemas e ensinou a segurança incondicional do regenerado, como Moody e, depois, Henry Thiessen. Não usou a expressão “graça preveniente”, que explicamos em A graça preveniente em Armínio, embora a atração universal da cruz ocupe esse lugar no seu ensino.
Há três diferenças com a declaração de fé deste site. Eu creio que a perseverança é condicional e que a fé pode ser abandonada, como explicamos em Arminianismo: a segurança da salvação. Creio na inteira santificação, obra da graça recebida pela fé que purifica o coração e o enche de amor perfeito, conforme o que Wesley ensinou sobre a perfeição cristã, enquanto Torrey ligava a experiência posterior à conversão ao poder para servir, e não à purificação do coração. E sou amilenista, enquanto ele pregava o pré-milenismo.
Obras principais
- How to Bring Men to Christ (1893).
- The Baptism with the Holy Spirit (1895).
- The New Topical Textbook (1897).
- What the Bible Teaches (1898).
- How to Pray (1900).
- Revival Addresses (1903).
- Difficulties in the Bible (1907).
- Practical and Perplexing Questions Answered (1909).
- The Person and Work of the Holy Spirit (1910).
- The Fundamentals (1910-1915), editor dos volumes 11 e 12.
- Is the Bible the Inerrant Word of God? (1922).
- Why God Used D. L. Moody (1923).
- The Power of Prayer and the Prayer of Power (1924).
Livros em português
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- O batismo com o Espírito Santo (Casa Publicadora Paulista, 2024). Ver na Amazon · Ver na Shopee
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Para aprofundar
- R. A. Torrey, What the Bible Teaches (1898), Internet Archive.
- R. A. Torrey, The Baptism with the Holy Spirit (1895), Internet Archive.
- R. A. Torrey, Practical and Perplexing Questions Answered (1909), Internet Archive.
- R. A. Torrey, Difficulties in the Bible (1907), Internet Archive.
- R. A. Torrey, Why God Used D. L. Moody (1923), Internet Archive.
- R. A. Torrey, How to Pray (1900), Christian Classics Ethereal Library.
- R. A. Torrey, “The ‘Tongues Movement’ is Not of God”, The King’s Business (julho de 1913), reproduzido em The Scriptorium Daily.
- J. Kennedy Maclean, Torrey and Alexander: The Story of Their Lives (Londres: S. W. Partridge, 1905), Internet Archive.
- James Lutzweiler, Torrey, Reuben Archer, Dictionary of North Carolina Biography (University of North Carolina Press, 1996), via NCpedia.
- Reuben Archer Torrey (1856-1928), Arquivos do Moody Bible Institute.
- A Biographical Sketch of Dr. Reuben Archer Torrey, Moody Bible Institute.
- R. A. Torrey, Christian Classics Ethereal Library.
- Vinita Hampton e C. J. Wheeler, Key People in the Life of D. L. Moody, Christian History, n. 25 (1990).
- Who Were the “Fundamentalists”?, Christian History.
- Divine disruption, Christian History, n. 151.
- The American evangelical preachers who built a corrugated iron church in Brixton, Brixton Buzz (2023).
- The Fundamentals, coleção digital da Biola University.
- R. A. Torrey, Wikipédia (em inglês).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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