AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaTeólogos arminianos19 de 330

Paul T. Culbertson: O deão de Pasadena que pôs a teologia de Wiley ao alcance da igreja

Diego Gonçalves13 min de leitura2.596 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Em junho de 1951, os leitores do Herald of Holiness, a revista oficial da Igreja do Nazareno, encontraram o primeiro de cinco artigos sobre “Higiene mental e vida cristã”. O autor, deão do Pasadena College, na Califórnia, começava admitindo que os evangélicos tinham razão para desconfiar da psicologia moderna, e citava a piada de um crítico: a psicologia “primeiro perdeu a alma, e agora perdeu a mente”. Mas Paul T. Culbertson, leigo nazareno, doutor em história e professor de psicologia, queria mostrar que a experiência cristã da justificação e da santificação, bem entendida e vivida com perseverança, é a base mais firme para a saúde da personalidade. Cinco anos antes, ele tinha ajudado H. Orton Wiley a condensar os três volumes da Christian Theology num livro só, que foi traduzido para o espanhol, o francês e o português.

Vida

Oregon: pastor e doutor em história

Paul Thomas Culbertson nasceu em 1905. Fez o bacharelado e o mestrado na Universidade da Califórnia e, nos anos 1930, estava no Oregon, a serviço da Igreja do Nazareno. Em julho de 1936, o Herald of Holiness publicou um texto curto dele, assinado em Ashland, no sul do estado, com uma pergunta tirada do julgamento de Jesus: “Que farei então de Jesus?”. Em outubro de 1939 a revista o apresentava como pastor em Eugene, a cidade da Universidade de Oregon.

Foi nessa universidade que ele fez o doutorado. A lista oficial dos graus conferidos em 1940-1941 registra Paul Thomas Culbertson como doutor em filosofia (Ph.D.), com concentração em história e área secundária em educação. A tese tratava da história política do estado: A History of the Initiative and Referendum in Oregon, sobre a iniciativa popular e o referendo.

Pasadena: deão e professor de psicologia

Em 1941, Culbertson entrou para o corpo docente do Pasadena College, a faculdade nazarena da Califórnia, hoje Point Loma Nazarene University. O presidente era H. Orton Wiley, cujos três volumes da Christian Theology saíram entre 1940 e 1943. Logo em seguida, Wiley e Culbertson prepararam a Introduction to Christian Theology, publicada pela Beacon Hill Press, a editora da denominação, em 1946.

Em 1948 Culbertson tornou-se deão da faculdade, e ocupou a função de deão acadêmico por dezoito anos, atravessando a passagem da presidência de Wiley para W. T. Purkiser, em 1949. Ao mesmo tempo ensinava psicologia, e foi como psicólogo cristão que se tornou conhecido fora de Pasadena. Em 1951 a editora nazarena anunciava um livreto dele, Building a Bridge to a Better World (Construindo uma ponte para um mundo melhor), uma parábola da vida cristã tirada da construção da ponte Golden Gate.

Vieram depois os artigos de higiene mental no Herald, em 1951, e, em setembro de 1964, “A compreensão de um leigo sobre o Espírito Santo”. Nos anos 1960 a revista o apresentava como leigo, embora ele tivesse sido pastor no Oregon, e ele falava com frequência em retiros de leigos.

O conselheiro do Herald

Em janeiro de 1967 os editores do Herald pediram ao professor de psicologia uma coluna de aconselhamento, que ele chamou de “Roads to a Radiant Life” (Caminhos para uma vida radiante), a partir de Salmos 34:5 na versão Berkeley: “Olharam para ele e ficaram radiantes”. A coluna saiu de quinze em quinze dias em 1967 e 1968. Pouco antes, a Beacon Hill tinha publicado More Like the Master (Mais parecido com o Mestre, 1966).

A primeira coluna, “Você pode ser uma pessoa transfigurada”, partia de 2 Coríntios 3:17-18, texto de que Phineas Bresee, fundador da Igreja do Nazareno na costa oeste, tirou pelo menos três sermões: todos nós, “com o rosto descoberto”, refletimos a glória do Senhor e somos transformados “de glória em glória” na mesma imagem, pelo Espírito. Para Culbertson, o novo nascimento e o batismo com o Espírito tratam do problema do pecado, e a transfiguração é o crescimento de quem reflete Cristo com nitidez cada vez maior.

Point Loma e os últimos anos

Em 1973 a faculdade se mudou para o antigo campus da Cal Western, nos penhascos de Point Loma, em San Diego, com o nome de Point Loma College. No mesmo ano saíram dois livros dele sobre personagens bíblicos: Contemporary Portraits from the Old Testament, pela Beacon Hill, e Contemporary Insights from Bible Characters, pela Baker Book House. Aposentado, continuou em San Diego e escrevendo para o Herald, que em 1981 o apresentava como professor emérito de psicologia. Em 1991, a pedido da administração da faculdade, publicou A Hewer of Windows, memória das suas décadas de ligação com a escola.

Paul T. Culbertson morreu em 1993. Em 1998 a universidade restaurou o Wood Hall, um dos prédios mais antigos do campus, e o rebatizou de Culbertson Hall; ali fica o departamento de psicologia. A turma de 1952 criou uma bolsa permanente com o seu nome para alunos de psicologia. A universidade o lembra como um dos seus líderes acadêmicos mais queridos, e Kim Schaeffer resumiu: “A chave de Culbertson era que ele era bondoso”.

Pensamento

Um wesleyano da Igreja do Nazareno

Culbertson pertence ao ramo wesleyano do arminianismo, na forma nazarena e de santidade. Foi pastor e depois leigo da Igreja do Nazareno, que confessa a expiação universal, a graça preveniente e a inteira santificação; assinou com Wiley a Introduction to Christian Theology; e nos seus textos fala da salvação nas duas etapas da tradição de santidade: o novo nascimento e o “batismo com o Espírito Santo”, nome que os nazarenos da época davam à inteira santificação, a obra da graça, posterior à conversão e recebida pela fé, que purifica o coração e o enche de amor a Deus e ao próximo.

A teologia de Wiley em um volume

A Introdução à teologia cristã tem sete partes, cada uma aberta por uma sinopse e um esquema, e termina com uma bibliografia comentada. Foi pensada para membros de igreja e estudantes dos institutos bíblicos das missões, sem o peso dos três volumes da obra maior. O conteúdo é o de Wiley: eleição condicional, expiação por todos e graça preveniente, em oposição ao calvinismo. O arminianismo, diz o livro, “com a sua ênfase na liberdade moral e na graça preveniente”, sempre sustentou a universalidade da expiação. A graça preveniente é a graça que vem antes de qualquer resposta humana e torna possível crer (veja A graça preveniente: a graça que vem antes).

No Brasil, o livro saiu pela Casa Nazarena de Publicações, em São Paulo. Com os Fundamentos da teologia armínio-wesleyana de Mildred Wynkoop, foi por décadas uma das poucas obras declaradamente arminianas em português, como conta a biografia de Wellington Mariano (veja também A tradição arminiana: de Armínio a Wesley e ao Brasil).

A graça e a decisão

Os primeiros textos de Culbertson são apelos à conversão. Em 1936 e em 1939 ele classificou as decisões por três pares: viva ou morta, decisiva ou trivial, forçada ou evitável, as categorias de William James em The Will to Believe (1896). A decisão diante de Cristo é viva, porque Cristo atrai de verdade; decisiva, porque o que está em jogo é eterno; e forçada, porque não existe lugar neutro: quem tenta ficar indiferente já recusou. “Aceite Jesus Cristo hoje” (1939) começa dizendo que ninguém pode ser salvo sem a graça de Deus, e ninguém sem aceitar deliberadamente a Cristo como Salvador pessoal, e lembra a “força de atração do Espírito Santo” que acompanha o chamado.

A graça vem primeiro, e a resposta só é possível porque o Espírito atrai. É a lógica que a Introdução expõe em termos técnicos: a fé não acrescenta mérito nenhum, porque responde a uma graça que já alcançou e libertou a pessoa. Quando Culbertson diz que “a vida é essencialmente um período de prova”, e que a morte sela o destino, fala como wesleyano, para quem a perseverança é condicional.

Psicologia a serviço da santidade

A série de 1951 é o melhor retrato do seu pensamento. Culbertson rejeita a imagem do homem como animal determinado pela hereditariedade e pelo ambiente, e afirma a alma criada à imagem de Deus, capaz de consciência de si e de decisão, mas aceita os fatos bem estabelecidos da psicologia aplicada. Distingue o desajuste psicológico, de origem emocional ou física, do “desajuste espiritual”, que é o pecado e se mostra no egocentrismo, na guerra interior entre a carne e o espírito, na culpa, na fraqueza diante da tentação e na falta de propósito. “O problema central do homem é o pecado”, escreveu, e a graça de Cristo basta para tratá-lo: pelo novo nascimento e pelo batismo com o Espírito, o centro da pessoa passa do eu para Deus.

Daí ele tira uma advertência contra o fanatismo: nem todo problema emocional vem diretamente do pecado, e quem sofre de um desajuste deve começar por um exame médico. Outro artigo reúne princípios de saúde mental que já estão nas Escrituras: cuidar do corpo, conhecer-se com sobriedade (Romanos 12:3) e perder-se numa causa maior, que para o cristão é o serviço de Cristo (Mateus 16:25). O último, “Emoção e salvação”, explica que as emoções variam com o temperamento, a idade, a saúde e a história de cada um, e por isso cristãos igualmente sinceros sentem a graça de modos diferentes. Ele conta o caso de um ex-soldado que voltou da Segunda Guerra buscando em vão a emoção da sua conversão de adolescente, e conclui que se deve buscar “a Deus e o perdão, e não a sensação”. As emoções sobem e descem; Deus cuida de nós “quando não sentimos” tanto quanto quando sentimos.

O Espírito que aponta para Cristo

Em 1964 Culbertson escreveu sobre o Espírito Santo como leigo para leigos. O Espírito fala pouco de si, porque a sua missão é glorificar a Cristo (João 16:13-14) e comunicar aos crentes a vida do Cristo ressuscitado. Por isso nunca levará alguém a agir contra o exemplo e o ensino de Jesus nos Evangelhos. As marcas do seu poder são morais: amor leal a Cristo, o fruto do Espírito (Gálatas 5:22-23) e um amor que atravessa as barreiras de raça, nação, cultura e classe social.

O Deus semelhante a Cristo

Nos textos da velhice, a cristologia ocupa o centro. Em “Um Deus semelhante a Cristo” (1981), a partir de Hebreus 1:1-3 e João 14:9, Culbertson diz que Jesus traz a semelhança do caráter de Deus como a moeda traz a imagem do molde. Se Deus é como Cristo, o seu poder é poder de Pai, que gera filhos e os leva à maturidade, e não há casos perdidos; e o caminho da vitória é o do amor sacrificial do Servo que lavou os pés dos discípulos. “Se esse amor não vencer, Jesus não vencerá! Deus não vencerá!”

Em “Sem etiqueta de preço” (1987), ele junta a pergunta de Satanás em Jó 1:9, se Jó temia a Deus “por nada”, à escada do amor de Bernardo de Claraval: o amor de si por si, o amor de Deus por causa de si, o amor de Deus por causa de Deus e o amor do próximo e de si por causa de Deus. O primeiro degrau é o do pecador não regenerado; o segundo, o do “cristão carnal” de 1 Coríntios 3, de motivos misturados; o terceiro é a inteira santificação, amar a Deus “por causa dele mesmo”, em resposta a Romanos 12:1-2. Só então se torna possível o quarto.

É uma leitura da inteira santificação como amor perfeito, que concorda com a declaração de fé deste site. O nome “batismo com o Espírito” é o da sua igreja em meados do século XX; a substância é a da tradição de John Wesley (veja A santificação na teologia sistemática). O traço próprio de Culbertson foi ligar essa doutrina ao que a psicologia descreve da personalidade, sem trocar uma pela outra: a graça cura o centro da pessoa, e a pessoa curada continua humana, com temperamento, corpo e história.

Obras principais

  • A History of the Initiative and Referendum in Oregon, tese de doutorado, Universidade de Oregon (1941).
  • Introduction to Christian Theology, com H. Orton Wiley (Beacon Hill Press, 1946).
  • “Mental Hygiene and the Christian Life”, série de cinco artigos no Herald of Holiness (junho e julho de 1951).
  • Building a Bridge to a Better World (Nazarene Publishing House, c. 1951).
  • “A Layman’s Understanding of the Holy Spirit”, Herald of Holiness (2 set. 1964).
  • More Like the Master (Beacon Hill Press, 1966).
  • “Roads to a Radiant Life”, coluna quinzenal no Herald of Holiness (1967-1968).
  • Contemporary Portraits from the Old Testament (Beacon Hill Press, 1973).
  • Contemporary Insights from Bible Characters (Baker Book House, 1973).
  • “A Christlike God”, Herald of Holiness (1.º abr. 1981).
  • “No Price Tag”, Herald of Holiness (15 mar. 1987).
  • A Hewer of Windows (1991).

Livros em português

Para aprofundar

  • “Buildings & Locations: Culbertson Hall”, Point Loma Nazarene University: pointloma.edu.
  • “Who Are the Buildings on PLNU’s Campus Named After?”, Point Loma Nazarene University: pointloma.edu.
  • “Class of 1952/Dr. Paul T. Culbertson Endowed Scholarship”, lista de bolsas da Point Loma Nazarene University: pointloma.edu.
  • University of Oregon, Degrees Conferred and Students Enrolled 1940-41, Scholars’ Bank: scholarsbank.uoregon.edu.
  • “Paul T. Culbertson”, página de autor na Wesleyan-Holiness Digital Library, com os números do Herald of Holiness em que escreveu: whdl.org.
  • Paul T. Culbertson, “What Then Shall I Do With Jesus?”, Herald of Holiness, 11 jul. 1936: whdl.org.
  • Paul T. Culbertson, “Accept Jesus Christ, Today!”, Herald of Holiness, 14 out. 1939: whdl.org.
  • Paul T. Culbertson, “The Christian Faith and Adjustment”, Herald of Holiness, 25 jun. 1951 (primeiro artigo da série): whdl.org; terceiro artigo, 9 jul. 1951: whdl.org; “Emotion and Salvation”, 23 jul. 1951: whdl.org.
  • Paul T. Culbertson, “A Layman’s Understanding of the Holy Spirit”, Herald of Holiness, 2 set. 1964: whdl.org.
  • “Roads to a Radiant Life” (apresentação da coluna) e “You Can Be a Transfigured Person”, Herald of Holiness, 18 jan. 1967: whdl.org.
  • Paul T. Culbertson, “A Christlike God”, Herald of Holiness, 1.º abr. 1981: whdl.org.
  • Paul T. Culbertson, “No Price Tag”, Herald of Holiness, 15 mar. 1987: whdl.org.
  • H. Orton Wiley e Paul T. Culbertson, Introdução à teologia cristã (Casa Nazarena de Publicações), descrição e cópia digital: whdl.org.
  • Introduction to Christian Theology, de Wiley e Culbertson, no Internet Archive: archive.org; More Like the Master (1966): archive.org.
  • “Pasadena to Point Loma: A calling to the cliffs”, Loma Beat: lomabeat.com.
  • “Henry Orton Wiley”, Wikipédia em inglês: en.wikipedia.org.

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

140pal/min