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HistóriaTeólogos arminianos24 de 330

Orlando Boyer: O missionário do sertão que escreveu Heróis da Fé

Diego Gonçalves14 min de leitura2.889 palavras

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Neste texto

Em meados da década de 1940, o missionário americano João Peter Kolenda, que reorganizava a Casa Publicadora das Assembleias de Deus no Rio de Janeiro, chamou um colega e lhe disse que a presença dele no campo como pioneiro era, comparativamente, “uma perda de tempo”. O colega era Orlando Boyer, que vinha de quase vinte anos abrindo igrejas a pé e a cavalo no sertão de Alagoas, no Ceará e em Santa Catarina. Kolenda explicou o motivo: a igreja precisava de escritores para as lições da Escola Dominical e para livros, e Boyer tinha “um dom especial para escrever”. Pouco depois ele se mudou para o Rio. Dessa mudança saíram Heróis da Fé, os comentários que a CPAD reuniria em Espada Cortante e mais de uma centena de títulos que formaram a biblioteca de gerações de assembleianos.

Vida

De Iowa ao Recife

Orland Spencer Boyer nasceu em 5 de março de 1893, em Bedford, no estado americano de Iowa. Nos papéis da Assembleia de Deus americana o nome aparece como Orla S. Boyer; no Brasil ele ficou sendo Orlando. Aos 12 anos, preocupado com a morte e a eternidade, entregou-se a Cristo. Aos 16 atravessou uma crise de dúvidas, que resolveu lendo a Epístola aos Hebreus, o mesmo tema a que voltaria décadas depois no livro Âncora da Alma.

Em março de 1914 casou-se com Ethel Beebe, que seria a sua companheira de ministério por 53 anos. Em 1927 os Boyer chegaram ao Brasil, enviados pelo conselho missionário da Igreja de Cristo, a denominação a que pertenciam. Passaram o primeiro ano em Pernambuco, estudando português. Naquele mesmo ano desembarcou no Recife outro jovem missionário americano, Virgil Frank Smith, que seria companheiro de Boyer no campo.

O sertão de Alagoas

Depois do ano de língua, Boyer foi para Mata Grande, no sertão alagoano, onde passou cerca de quatro anos abrindo pontos de pregação. Dizia ter aprendido o português conversando com o povo, nas viagens a pé ou a cavalo.

Foi ali que aconteceu o episódio mais lembrado da sua história. O bando de Lampião soube que a cidade estava sem policiamento e foi para a região. Perto de Mata Grande, os cangaceiros prenderam Virgil Smith e exigiram um resgate que nenhum missionário podia pagar, com ameaças à esposa dele. Smith teve de escrever um bilhete a Boyer. Este orou e mandou o pouco que havia em casa: um saquinho com moedas e uma nota pequena, e disse que aquilo era tudo, inclusive o dinheiro das crianças. Lampião ficou com quase nada, devolveu as moedas, levou os cavalos e soltou o missionário. Smith registrou o caso no seu diário, e em 1950 a revista Missionary Challenge, da Assembleia de Deus americana, contou aos leitores a história dos colegas de Boyer presos por bandidos.

O Ceará e a virada pentecostal

Em 1932 Boyer passou ao Ceará. Em Sobral encontrou forte hostilidade ao evangelho; seguiu para Ipu, Crateús e Camocim e abriu trabalhos em catorze localidades ao longo da estrada de ferro. Ficou no estado cerca de dez anos.

Nesse tempo a sua fé tomou outro rumo. Lendo a Bíblia inteira seis vezes em três meses, ele encontrou no livro de Atos a promessa do derramamento do Espírito e passou a pedi-la a Deus, mesmo sem entender bem o que pedia. Em maio de 1935 o casal voltou aos Estados Unidos. Ethel recebeu o batismo no Espírito Santo numa reunião em Oklahoma, e Boyer, pouco depois, numa igreja de Tulsa. Os dois se filiaram à Assembleia de Deus e voltaram ao Brasil como missionários dela. Virgil Smith fez caminho parecido e também passou a trabalhar com as Assembleias de Deus.

A mudança coincidiu com a decisão da Assembleia de Deus americana, em 1936, de tomar o Brasil como campo missionário próprio, ao lado dos suecos que continuavam a obra iniciada em Belém por Gunnar Vingren e Daniel Berg. Em 1936 o Pentecostal Evangel, a revista semanal da denominação, já publicava as notícias que Boyer mandava do Ceará, com a história do evangelho em Camocim, onde ele pastoreou a Assembleia de Deus. As cartas desses anos falam de perseguição, de curas e de avivamento; um relato de 1941 tem o título “O evangelho no lombo da mula”. Numa das grandes secas do Ceará, filas de famintos se formaram à porta da sua casa, e ele contava que todos foram saciados.

Santa Catarina e a CPAD

Depois do Ceará, Boyer trabalhou cerca de três anos em Santa Catarina, em Criciúma, Tubarão e Orleans, e ali começou a escrever e a traduzir. Foi então que Kolenda o chamou para a editora, e em 1945 ele se mudou para o Rio de Janeiro.

A CPAD tinha sido criada em 1940 e funcionava em seis salas da Assembleia de Deus de São Cristóvão. A primeira equipe tinha o pastor Francisco Leopoldo Coelho na gerência, Emílio Conde como redator, João Kolenda Lemos na revisão do jornal e Boyer como comentarista das Lições Bíblicas da Escola Dominical. Os primeiros livros da editora foram, em boa parte, de Conde e de Boyer. Era uma novidade: até então a igreja não imaginava um missionário dedicado em tempo integral à escrita.

Boyer também publicava por conta própria, com o selo Livros Evangélicos e uma caixa postal no bairro da Penha. Em 1945 o primeiro volume de Heróis da Fé já estava na terceira edição, e o segundo, na segunda. Ele punha as próprias economias, e o que os livros rendiam, em novas edições. Entre 1950 e 1955 vieram os comentários a Marcos, Daniel, Mateus e Apocalipse, seguidos de notas sobre Lucas, João e Atos. Traduziu biografias como O Homem que Orava, sobre John Hyde, missionário na Índia; Smith Wigglesworth: Apóstolo da Fé; e Carlos Studd: O Homem que Obedecia, além do livro Acerca dos Dons Espirituais. Ao todo publicou 131 títulos, 16 de sua autoria e os demais traduções do inglês.

Os últimos anos

Ethel adoeceu, e o casal voltou aos Estados Unidos. Ela morreu em 14 de outubro de 1967. Boyer, já com mais de setenta anos e com direito à aposentadoria, quis voltar ao Brasil, mas o departamento de missões não pagaria a passagem. Ele usou o dinheiro do seguro reservado ao funeral da esposa para comprar a viagem ao Rio e depois explicou, numa carta, que sabia que a missão pagaria o funeral, mas não imaginava que o mandaria de volta ao Brasil.

Passou os últimos anos em Pindamonhangaba, no interior de São Paulo, morando e lecionando no Instituto Bíblico das Assembleias de Deus (IBAD), que deu o nome dele à sua biblioteca. Ainda planejava novos livros quando, em 16 de fevereiro de 1978, deixou o Brasil para sempre, com uma despedida curta: “Adeus, Pinda”. Morreu em 21 de abril de 1978, aos 85 anos, na casa de repouso Maranatha, em Springfield, no Missouri. Tinha dado 51 anos ao Brasil. O sermão do funeral foi de J. Philip Hogan, diretor de missões estrangeiras da denominação, e uma das homenagens publicadas teve o título “Um dos heróis de Deus”.

Pensamento

Um pentecostal arminiano

Boyer é um pentecostal arminiano. Passou de uma Igreja de Cristo americana para as Assembleias de Deus, que ensinam que Cristo morreu por todos e que o crente pode abandonar a fé, e escreveu dentro dessa linha por mais de trinta anos, como comentarista das lições da Escola Dominical. As suas posições aparecem nos comentários, versículo a versículo.

Sobre a promessa à igreja de Sardes, “de maneira nenhuma riscarei o seu nome do livro da vida” (Apocalipse 3:5), ele lê a frase como advertência: “Note como é possível um salvo ter o nome apagado do livro da vida; pode um crente salvo cair para a destruição” (A Visão de Patmos, 1955). É a perseverança condicional da tradição arminiana: o crente está seguro enquanto permanece em Cristo pela fé, e a apostasia, o abandono da fé, é uma possibilidade real.

O convite do evangelho, para ele, é dirigido a todos. Comentando a porta estreita (Mateus 7:13-14), escreve que o caminho para a vida foi fechado pelo pecado e aberto pelo sacrifício de Cristo: “É uma estrada aberta, pela graça de Deus!” E acrescenta que a estrada “comporta a qualquer homem, pela graça infinita de Deus, mas não há lugar para o menor pecado” (Mateus, o Evangelho do Rei, 1951). Em Apocalipse 22:17 vê “o último convite na Bíblia para o pecador render-se a Cristo”.

Esse convite universal não vem acompanhado de confiança na força humana. Os ensinamentos do Sermão do Monte, diz Boyer, “são demasiado altos para a natureza humana, antes de ser regenerada”, e o que os homens não conseguem por força de vontade “é efetuado nos crentes pelo Espírito Santo”. Os súditos do Rei “não são justificados por sua própria justiça mas pela justiça que vem dos céus”, e o crente continua sendo pecador “salvo pela graça”, que avança sem justiça própria (Filipenses 3:9). Na primeira bem-aventurança, ele explica que a palavra traduzida por “pobre” tem a ideia de mendigo: os bem-aventurados “sentem-se inteiramente dependentes da graça de Deus”. É a imagem que Jacó Armínio usava para a fé, a mão vazia do mendigo que recebe o presente sem merecê-lo. Para explicar por que somos julgados pelas obras se somos salvos pela fé (Apocalipse 20:12), Boyer recorre a Calvino: as obras são a prova da fé que salva, porque “só a fé justifica, porém a fé que justifica não está só”.

O conjunto corresponde ao arminianismo clássico: incapacidade humana, justificação somente pela fé, salvação oferecida a todos e graça que pode ser recusada. Os arminianos chamam de graça preveniente a graça que vem antes de qualquer passo humano e liberta a vontade para crer. Boyer não usa o termo, mas defende essa ordem: primeiro a graça, depois a resposta.

Os heróis e a oração

Heróis da Fé reúne vinte biografias curtas, de Savonarola a Jonatas Goforth, passando por Lutero, Bunyan, Edwards, João Wesley, Whitefield, Brainerd, Carey, Adoniram Judson, Finney, Müller, Livingstone, Hudson Taylor, Spurgeon e Moody. Na introdução, “O mistério dos heróis da fé”, Boyer conta que leu as biografias desses homens e concluiu que o êxito deles nunca pode ser atribuído só ao talento e à força de vontade. O biógrafo que não crê no valor da oração nem no poder do Espírito, escreve, não menciona a oração “como sendo o verdadeiro mistério da grandeza dos heróis da fé”.

O livro tem um alvo prático. Boyer se pergunta quantos crentes vivem satisfeitos em apenas escapar da perdição e ignoram “a plenitude da bênção do Evangelho de Cristo” (Romanos 15:29). Por isso a lista junta calvinistas e arminianos, Edwards e Whitefield ao lado de Wesley e Finney: o critério é a vida de oração e o zelo pelas almas. No capítulo sobre Wesley, “Tocha tirada do fogo”, Wesley chega a Aldersgate, onde sentiu o coração abrasado e confiou “em Cristo, somente em Cristo, para a salvação”. Em 2002 a CPAD já imprimia o livro na 35ª edição, e ele saiu também em espanhol, como Biografías de grandes cristianos.

Pentecostal e pré-milenista

Como pentecostal, Boyer ensinava o batismo no Espírito Santo como experiência distinta da conversão. No comentário a Mateus 3:11 ele o chama de “a bênção mais significante da Nova Aliança” e diz que a obra de restauração de Deus não está completa antes de o seu povo estar cheio do Espírito. Em Marcos, observa que Jesus, concebido pelo Espírito, só começou a pregar e a curar depois de ser ungido no batismo, e conclui que todos os que servem a Deus carecem do mesmo poder (Lucas 24:49; Atos 1:8).

A escatologia é pré-milenista e dispensacionalista. Entre as obras que consultou para Marcos está a Bíblia de Scofield. Boyer distingue o arrebatamento da Igreja da manifestação gloriosa de Cristo: “no rapto, vem PARA os Seus santos; na Sua manifestação vem COM os Seus santos” (A Visão de Patmos). Daniel Fala Hoje trata Daniel como o “Apocalipse do Velho Testamento”.

Os comentários têm sempre um fim devocional. Na carta a Éfeso, que perdeu o primeiro amor, ele deixa uma observação que vale para o próprio ofício de comentarista: “É quase certo que a igreja, ou o crente, que gosta de discutir doutrina já deixou o primeiro amor”.

Diferenças com a declaração de fé do site

Na salvação, Boyer e a declaração de fé do site coincidem: depravação total, expiação por todos, justificação pela fé e perseverança condicional. As diferenças estão em dois pontos. O site é amilenista (ver a segunda vinda de Cristo e o milênio); Boyer espera um reino terreno de mil anos depois de um arrebatamento anterior à Grande Tribulação. E o site confessa, com a tradição wesleyana, a inteira santificação como segunda obra da graça que purifica o coração e o enche de amor perfeito; na tradição de Boyer a segunda experiência é o batismo no Espírito, ligado ao poder para servir. Mesmo assim, comentando “bem-aventurados os limpos de coração”, ele lembra com Atos 15:9 que Deus purifica os corações pela fé e cita Hebreus 12:14: sem santificação “ninguém verá o Senhor”.

Obras principais

  • Heróis da Fé, vol. I (Livros Evangélicos, 3ª edição em 1945; depois CPAD)
  • Heróis da Fé, vol. II (edição do autor, 2ª edição em 1945; depois CPAD)
  • Marcos, o Evangelho do Servo do Senhor (Livros Evangélicos, 1950)
  • Daniel Fala Hoje: o que há de acontecer nos últimos dias (CPAD, 1951)
  • Mateus, o Evangelho do Rei (CPAD, 1951)
  • A Visão de Patmos: comentário sobre o livro do Apocalipse (Livros Evangélicos, 1955)
  • Espada Cortante, vol. 1 (CPAD, 1994, reunindo os comentários a Daniel, Apocalipse, Mateus e Marcos) e vol. 2 (CPAD, com Lucas, João e Atos)
  • Pequena Enciclopédia Bíblica (CPAD)
  • 150 Estudos e Mensagens de Orlando Boyer (CPAD, 2014, póstumo, manuscritos organizados por Joel Dutra do Nascimento)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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