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HistóriaTeólogos arminianos18 de 330

Peter Baro: O professor francês de Cambridge que ensinou a graça para todos antes de Armínio

Diego Gonçalves13 min de leitura2.532 palavras

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Neste texto

Em 12 de janeiro de 1596, na igreja de Great St Mary’s, em Cambridge, um professor francês de sessenta e um anos pregou ao clero da universidade e, no meio do sermão, afirmou três coisas: que Deus criou todos os homens, em Adão, à sua semelhança e, por isso, para a vida eterna, e que não afasta ninguém dela a não ser por causa do pecado; que Cristo morreu de modo suficiente por todos; e que as promessas de Deus, oferecidas a todos, devem ser entendidas para todos. Menos de dois meses antes, o arcebispo de Cantuária tinha aprovado em Lambeth nove artigos que diziam o contrário, e cinco dias depois o pregador estava diante do vice-reitor. Chamava-se Peter Baro, e o que ele defendeu naquele inverno seria logo associado ao nome de Jacó Armínio.

Vida

Étampes, Bourges e Genebra

Pierre Baron, que assinava em latim Petrus Baro, nasceu em dezembro de 1534 em Étampes, perto de Paris, filho de Étienne Baron e de Philippa Petit. Estudou direito civil na Universidade de Bourges, onde recebeu o grau de bacharel em 9 de abril de 1556, e no ano seguinte prestou juramento como advogado no Parlamento de Paris. Em Bourges conheceu a Reforma e trocou o direito pela teologia. Em dezembro de 1560 foi para Genebra, e ali o próprio João Calvino o admitiu ao ministério. De volta à França, casou-se em Gien com Guillemette, filha de Étienne Bourgoin. O casal teve oito filhos, a maior parte morta ainda pequena.

No começo dos anos 1570, fugindo das guerras de religião, Baro foi com a família para a Inglaterra, onde o recebeu em casa William Cecil, lorde Burghley, tesoureiro da rainha Elizabeth e chanceler da Universidade de Cambridge.

Professor em Cambridge

Em Cambridge, Baro ligou-se ao Trinity College, então dirigido por John Whitgift, e deu aulas de teologia e de hebraico no King’s College. Em 1574, por influência de Burghley e de Andrew Perne, diretor de Peterhouse, foi eleito professor Lady Margaret de teologia, uma das duas cátedras de teologia da universidade, renovada a cada dois anos e paga com vinte libras anuais. Doutorou-se em teologia em 1576.

Os livros saíram das aulas: as trinta e nove preleções sobre o profeta Jonas (1579), De fide, sobre a origem e a natureza da fé (1580), e dois livros sobre a dignidade da lei divina (1587).

As teses sobre a fé justificadora provocaram em 1581 o primeiro choque público: Laurence Chaderton, o puritano que depois dirigiria o Emmanuel College, atacou-as num sermão, e Baro o levou diante do vice-reitor.

Em 1588 o pastor John Ludham traduziu para o inglês quatro sermões de Baro, sobre os Salmos 133, 15 e 23 e sobre Tiago 2, e duas questões que ele disputara em latim nas escolas, e os publicou junto com um tratado de Andreas Hyperius sobre a providência. A primeira questão já trazia o tema que o perseguiria: “o propósito e decreto de Deus não tira a liberdade da vontade corrompida do homem”.

Os Artigos de Lambeth

Nos anos 1590, William Whitaker, o professor régio, defendia a predestinação de Calvino e de Teodoro Beza, e William Perkins, o pregador mais lido da universidade, escrevia em favor dela. O historiador Keith Stanglin vê na Armilla aurea de Perkins (1590) uma resposta a Baro.

A crise veio em 29 de abril de 1595, quando William Barrett, do Gonville and Caius College, pregou contra a certeza da salvação e contra a doutrina de que a graça nunca se perde, e citou Calvino e Pedro Mártir entre os que ensinavam a reprovação incondicional. Obrigado a se retratar, leu a retratação com ar de desprezo, e o caso subiu a Lambeth. Whitaker redigiu então nove proposições, que Whitgift, já arcebispo de Cantuária, aprovou com correções em 20 de novembro de 1595. Elas diziam que Deus predestinou alguns para a vida e reprovou outros desde a eternidade, que a fé verdadeira dos justificados não se perde e que não está no arbítrio de cada um ser salvo. Whitaker morreu em dezembro. No mesmo mês, uma ordem da rainha mandou recolher os artigos, porque o arcebispo os tinha publicado sem a autoridade dela.

Os artigos foram apresentados a Baro para que os aceitasse, e ele escreveu ao arcebispo que Deus “não é o autor do pecado”. Depois do sermão de 12 de janeiro, seis bacharéis em teologia, entre eles George Downham, denunciaram-no ao vice-reitor Roger Goad, e Baro compareceu diante dele e dos chefes dos colégios em 17, 21 e 29 de janeiro. Disse que tinha falado dos antigos Trinta e Nove Artigos da Igreja da Inglaterra, e não dos novos, e que tinha mirado o livro do alemão Johannes Piscator, que negava que Cristo tivesse morrido de modo suficiente por todos. Quando pediram o parecer de John Overall, que logo depois sucederia Whitaker na cátedra régia, Overall declarou abertamente que concordava com ele. No fim, Goad mandou que entregasse o sermão por escrito e se abstivesse dessas controvérsias.

Baro mandou a Whitgift uma Explicação ortodoxa dos nove artigos e escreveu a Lancelot Andrewes, que estava em Lambeth, contando que Perkins pregara contra Overall porque este ensinava que Cristo morreu por todos. Burghley desaprovou o processo. O arcebispo de York aconselhou mandar o francês de volta para o seu país, mas Whitgift só lhe pediu que evitasse os assuntos que acendiam disputas. Além de Overall e Andrewes, ficaram do lado dele Samuel Harsnett e Richard Clayton.

Os últimos anos

Em 1º de abril de 1596, Baro escreveu ao dinamarquês Niels Hemmingsen, antigo aluno de Filipe Melanchthon, queixando-se de que na Inglaterra mal se podia ensinar em público aquela opinião sobre a graça, “muito menos publicá-la”, e mandou-lhe o Sumário de três opiniões sobre a predestinação.

O mandato de Baro terminou em novembro de 1596 e não foi renovado. Ele deixou Cambridge, e atribui-se a ele a frase Fugio, ne fugarer, “fujo para não ser posto em fuga”. Foi morar em Londres, em frente à igreja de St Olave, Hart Street. Morreu em abril de 1599. Richard Bancroft, bispo de Londres, que simpatizava com ele, ordenou um funeral solene: seis doutores em teologia seguraram o pano mortuário, todo o clero da cidade acompanhou o enterro, e ele foi sepultado em St Olave.

Os adversários publicaram o Sumário em 1613, com respostas de Francisco Júnio e de Piscator. Em 1684 ele foi reimpresso em Amsterdã numa coletânea de cartas editada no círculo dos remonstrantes, e em 1825 James Nichols o traduziu para o inglês nas obras de Armínio.

Pensamento

Onde Baro fica no arminianismo

Baro é um proto-arminiano reformado, da família do arminianismo clássico. Ordenado por Calvino e ministro da Igreja da Inglaterra, ensinou em Cambridge, antes de Armínio publicar qualquer coisa, a predestinação segundo a presciência da fé, a morte de Cristo por todos, a graça oferecida a todos e que pode ser recusada, e a possibilidade de perder a fé justificadora. Armínio não dependeu dele: o Sumário só saiu impresso quatro anos depois da morte de Armínio, e a semelhança vem das mesmas fontes, os pais anteriores a Agostinho, Melanchthon e Hemmingsen. Keith Stanglin o chamou de “Armínio antes do nome”. Nichols notou que a conclusão do Sumário coincide com o que Armínio diria na Declaração de Sentimentos de 1608.

Três opiniões sobre a predestinação

O Sumário deixa de fora Pelágio e expõe as três opiniões que havia entre os protestantes. A primeira é a de Calvino e Beza: Deus decidiu desde a eternidade criar os homens para eleger uns e reprovar outros, sem olhar para Cristo nem para a fé nos primeiros e sem olhar para o pecado nos segundos, e decretou a queda como meio de cumprir esse plano. Dessa forma, diz Baro, é “difícil, e nem mesmo difícil”, entender como Deus não seria o autor do mal. A segunda, do último Agostinho, de Zanchi e de Belarmino, começa a predestinação depois da queda: Deus escolhe alguns da massa perdida e deixa os outros nela. Apertada, ela volta à primeira, porque o pecado está igualmente em todos e não explica por que uns são deixados; resta a vontade absoluta. As duas impõem uma necessidade inevitável de se salvar ou de perecer.

A terceira é a dos pais anteriores a Agostinho, do próprio Agostinho antes da briga com Pelágio, de Melanchthon, de Hemmingsen e de Gellius Snecanus. Deus criou o homem para a vida feliz, prometeu depois da queda o Filho que esmagaria a cabeça da serpente e deu a lei pela qual julgará cada um: quem crer será salvo, quem não crer será condenado. Nessa base, Deus “todos os dias chama e convida verdadeiramente todos os homens” ao arrependimento, à fé e à salvação. Deus predestinou os que desde a eternidade conheceu de antemão como crentes em Cristo e reprovou os rebeldes e os que permanecem obstinados no pecado. Isso é a eleição condicional em Cristo.

Dois axiomas sustentam tudo: Deus quer que todos os homens sejam salvos e que nenhum pereça, e Cristo morreu por todos. Deus nunca odiou ninguém como criatura sua, só como pecador. Baro usa a distinção dos pais entre a vontade antecedente de Deus, que quer a salvação de todos, e a consequente, que condena os que persistem na impenitência e resistem ao Espírito Santo (Atos 7:51), e fecha com Oseias 13:9: a perdição vem de Israel, mas o socorro vem de Deus. A predestinação é imutável na mente de Deus, mas não torna imutável a vontade humana nem lhe impõe necessidade.

O sermão e a explicação de Lambeth

O sermão de 1596, como os acusadores o anotaram, usava imagens simples. Um rei faz leis para o bem dos cidadãos, um pai não gera o filho para a forca, e um agricultor não planta a árvore para arrancá-la. Cristo morreu por todos e por cada um, porque todos tinham perecido em Adão, e “o remédio se estende tanto quanto a doença” (ver expiação para todos). As promessas valem igualmente para Caim e Abel, Esaú e Jacó, Judas e Pedro: são os homens que se excluem do céu, e não Deus. Diante do vice-reitor, Baro acrescentou que a graça suficiente é oferecida a todos os homens, embora não na mesma medida, como os talentos da parábola.

Na Explicação ortodoxa, Baro aceita a letra de cada artigo de Lambeth e diz em que sentido ela é verdadeira. A causa da predestinação não é a fé, nem a perseverança, nem as boas obras, mas a vontade misericordiosa de Deus, “inclinada a todos”; mesmo assim, sem fé, perseverança e boas obras ninguém entra no céu, porque são os meios pelos quais se participa dela. A graça salvadora é oferecida a cada um, mas não é dada a todos, porque muitos a rejeitam. A fé justificadora pode ser perdida por inteiro, como ensinam a Confissão de Augsburgo e todos os pais. Nos eleitos ela não se perde de modo final, porque é restaurada pelo arrependimento. E a certeza do crente quanto à vida eterna vale “por Cristo”, isto é, se ele se apegar a Cristo até o fim. É a perseverança condicional que os remonstrantes defenderiam.

Graça, e não força natural

Os adversários chamaram essa doutrina de pelagiana, e Baro respondeu que não eram pelagianos nem os pais anteriores a Pelágio nem Melanchthon, autor da Confissão de Augsburgo. O nono artigo de Lambeth dizia que não está no arbítrio de cada um ser salvo, e Baro concordou, explicando que não está no poder natural do homem, porque “para que alguém seja salvo, é preciso Cristo e a graça sobrenatural”. Na questão disputada em Cambridge, citou Agostinho: agir livremente é próprio da natureza humana, “escolher o mal é próprio da natureza corrompida, mas escolher o bem é dom da graça”. Ele defendia a liberdade da vontade contra a ideia de um decreto que arrasta as pessoas “como a poeira pelo vento”, mas negava ao homem a capacidade de alcançar por si a salvação, o que seria “abolir inteiramente a graça de Deus”. É a lógica da graça preveniente: a graça vem antes, chama todos e pode ser recusada.

Quanto à presciência, Deus conhece com certeza até o que é contingente, porque para ele tudo está presente “como numa só vista dos olhos”, mas conhecer não é causar: o que ele prevê acontece, embora não por necessidade quando a causa é uma vontade livre.

Herança e diferenças com o site

John Overall, Andrewes e Harsnett levaram a reação contra o calvinismo de Lambeth para dentro da Igreja da Inglaterra, e John Plaifere retomou em Cambridge, uma geração depois, os mesmos argumentos. Com a declaração de fé deste site, Baro concorda na incapacidade humana sem a graça, na expiação universal, na eleição condicional segundo a presciência da fé, na graça resistível e na perseverança condicional. Difere no batismo de crianças, que praticava como ministro reformado e anglicano, enquanto o site batiza depois da conversão.

Obras principais

  • In Jonam prophetam praelectiones 39, com Conciones ad clerum e Theses (Londres, 1579), ed. Osmund Lake.
  • De fide, eiusque ortu et natura plana ac dilucida explicatio (Londres, 1580).
  • De praestantia et dignitate divinae legis libri duo (Londres, 1587).
  • Four Sermons and Two Questions, tradução de John Ludham, em Andreas Hyperius, A speciall treatise of Gods providence (Londres, 1588).
  • Explicatio orthodoxa dos nove Artigos de Lambeth (1596; impressa no apêndice da Life and Acts of John Whitgift, de John Strype, 1718).
  • Summa trium de praedestinatione sententiarum (escrita em 1595-1596; publicada em 1613; tradução inglesa em The Works of James Arminius, vol. 1, 1825).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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