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Peter van Inwagen: O filósofo do livre-arbítrio que se converteu aos quarenta anos

Diego Gonçalves13 min de leitura2.526 palavras

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Neste texto

Em setembro de 1982, perto de completar quarenta anos, um professor de filosofia da Universidade de Syracuse, no estado de Nova York, decidiu ir à igreja todo domingo de manhã. Escolheu a primeira celebração da Eucaristia, a mais cedo, e foi como observador, sem outro compromisso além de cinco dólares para a oferta. Logo descobriu que gostava de ir. Em maio do ano seguinte foi batizado na Igreja Episcopal e recebeu a primeira comunhão. O professor era Peter van Inwagen, que já era conhecido por um argumento contra o determinismo e se tornaria um dos filósofos cristãos mais influentes do nosso tempo.

Vida

Infância unitarista e formação

Peter van Inwagen nasceu em 21 de setembro de 1942, em Rochester, Nova York. No ensaio autobiográfico “Quam Dilecta” (1994), cujo título vem do Salmo 84 (“Quão amáveis são os teus tabernáculos”), ele descreve uma família de pouca religião. A mãe quase não ia aos cultos, e o pai era um católico afastado. Aos sete anos o menino passou um tempo numa escola dominical presbiteriana, onde aprendeu que Jesus era o Filho de Deus.

Depois a família entrou para uma congregação unitarista, e o pai avisou ao filho que os unitaristas não criam nisso. Na nova escola dominical o menino aprendeu que a multiplicação dos pães tinha sido um “milagre da partilha”, e logo era um bom unitarista. Essa fé não sobreviveu à faculdade, e ele observa com ironia que, para um unitarista, deixar a igreja não exige abandonar nenhuma crença.

Formou-se no Instituto Politécnico Rensselaer em 1965 e fez o doutorado em filosofia na Universidade de Rochester, concluído em 1969, sob a orientação de Richard Taylor. Nesse período se dizia agnóstico, e por um tempo, sob a influência do argumento do mal, ateu. Foi também na pós-graduação que começou a ler as obras apologéticas de C. S. Lewis. Com Lewis descobriu o que era o cristianismo, ao menos por fora, e perdeu para sempre a capacidade de levar a sério as versões liberais e secularizadas da fé. Só faltava crer. No fim dos anos 1960, conta, ajoelhou-se e pediu fé a Deus, e a fé não veio.

Exército, carreira e vaidade

Casou-se, serviu dois anos no Exército na Alemanha, durante a Guerra do Vietnã, teve uma filha e começou a ensinar filosofia em Syracuse, onde ficou cerca de 24 anos. Em 1973 passou seis semanas no Calvin College, num instituto de verão sobre filosofia da religião dirigido por Alvin Plantinga. As aulas de Plantinga se tornaram para ele um modelo de como fazer filosofia.

Ele confessa que a vaidade profissional dominava a sua vida interior e que a falta de reconhecimento o deixava deprimido e irado. O livro que firmou o seu nome foi An Essay on Free Will (1983), que trouxe de volta ao centro da filosofia analítica a tese de que o livre-arbítrio é incompatível com o determinismo. Nele aparece, na forma mais completa, o argumento da consequência, discutido até hoje.

A conversão

Por volta de 1980, começou a sentir uma pressão contínua para se tornar cristão. Não era ainda o desejo de ter Cristo como Salvador, explica, mas o desejo de pertencer a uma comunidade em que as pessoas pudessem falar umas com as outras na linguagem das cartas de Lewis. Por fim, fez o que chama de ato de vontade: pediu ao colega William Alston que o pusesse em contato com um padre. Na conversa, percebeu que boa parte da sua dificuldade estava em não querer frequentar uma igreja, e decidiu mudar isso. Daí vieram os domingos de setembro de 1982.

Desde então é episcopal. Considera-se católico no sentido anglicano: a comunhão anglicana seria um ramo da Igreja católica dos credos, separado dos outros por uma tragédia histórica. A Ceia passou a ser o centro da sua vida devocional, a ponto de dizer que deixar de comungar num domingo lhe é tão impossível quanto caluniar um colega.

Em 1985 vieram as dúvidas, sobretudo sobre as palavras de Jesus a respeito do fim antes que passasse aquela geração. Ele sabia responder a elas, mas o medo não passava, e compara a experiência à de quem não crê em fantasmas e mesmo assim teme passar a noite num cemitério. Durante alguns anos o medo o impediu de ler a Bíblia. Com a ajuda de Deus, diz, o medo foi se apagando. Em 1989 casou-se com Elisabeth Bolduc na igreja em que tinha sido batizado.

Notre Dame e o reconhecimento

Em 1995 deixou Syracuse e assumiu a cátedra John Cardinal O’Hara de Filosofia na Universidade de Notre Dame, onde hoje é professor emérito. Em 2003 deu as Gifford Lectures, a tradicional série escocesa de conferências sobre teologia natural, na Universidade de St Andrews, publicadas como The Problem of Evil (2006). Foi eleito para a Academia Americana de Artes e Ciências em 2005, presidiu a Divisão Central da Associação Americana de Filosofia (2008-2009) e a Sociedade de Filósofos Cristãos (2010-2013). Em 2024 publicou com William Lane Craig um debate sobre a existência dos números e de outros objetos abstratos, em que ele defende a existência deles e Craig a nega.

Pensamento

Onde ele fica no arminianismo

Van Inwagen é um simpatizante do arminianismo, e não um arminiano clássico. Ele defende a liberdade libertária, isto é, a tese de que uma escolha só é livre se não for determinada por causas anteriores, e afirma que “cada ser humano é capaz de rejeitar livremente a oferta de salvação de Deus” (“What Does an Omniscient Being Know about the Future?”, 2008). Também rejeita o molinismo, que explica a providência pelo conhecimento que Deus teria do que cada pessoa faria em qualquer circunstância. Na versão revista, de 2024, de um ensaio sobre o “Conselho aos filósofos cristãos” de Plantinga, ele imagina Jonathan Edwards pregando contra Plantinga, calvinista como ele, por defender que as ações humanas não são determinadas, e exortando-o a se arrepender do seu “arminianismo”.

Mas a obra dele não trata da doutrina da salvação como sistema, ele pertence à tradição anglicana e se afasta do arminianismo clássico num ponto decisivo, a presciência de Deus, como veremos abaixo.

O argumento da consequência

O argumento que o tornou conhecido é simples na forma. Se o determinismo é verdadeiro, os nossos atos são consequências das leis da natureza e de fatos do passado remoto. Ninguém tem escolha sobre o que aconteceu antes de nascer, nem sobre as leis da natureza. Logo, ninguém tem escolha sobre as consequências deles, incluindo os próprios atos. A versão formal depende de uma regra de inferência que ele chamou de regra Beta.

Em “Free Will Remains a Mystery” (2000), van Inwagen reconheceu que a regra, como estava formulada, era inválida, corrigiu o argumento e manteve a conclusão. Foi além: o livre-arbítrio parece incompatível com o determinismo e também com o indeterminismo, porque um ato que acontece por acaso não está sob o controle de quem o pratica. A conclusão dele é que o livre-arbítrio “continua um mistério”: existe sem dúvida, e mesmo assim há um forte argumento, ainda sem resposta, de que é impossível.

O mal e a defesa do livre-arbítrio

Van Inwagen distingue a teodiceia, que pretende dizer a razão verdadeira por que Deus permite o mal, da defesa, que só precisa contar uma história possível e crível. A defesa dele, exposta no capítulo “The Problem of Evil” (2005) e nas Gifford Lectures, conta que Deus elevou os ancestrais da humanidade à racionalidade e lhes deu linguagem, pensamento, amor desinteressado e livre-arbítrio, porque o amor exige liberdade. Esses primeiros seres humanos viviam em união com Deus, abusaram da liberdade e se separaram dele.

Deus, então, pôs em marcha um plano de resgate para restaurar a união. Como o amor não pode ser imposto pela força, as pessoas precisam voltar a amar a Deus livremente, e isso é algo que “não conseguem fazer pelos próprios esforços”. Para desejar o resgate, precisam saber o que é viver separado de Deus, e por isso Deus não elimina todo o mal, embora nos proteja de grande parte dele. Quem recusa o resgate é deixado, para sempre, num estado de ruína escolhida, que é o inferno. Muito do mal fica entregue ao acaso, e isso também faz parte do que significa estar separado de Deus. Contra o argumento baseado num mal específico, ele acrescenta que Deus pode ter de traçar uma linha moralmente arbitrária entre os males que permite e os que impede, como quem pode soltar presos e não é obrigado a libertar um condenado um dia antes só porque um dia a menos não faria diferença.

A mesma linha aparece em Albert Bledsoe e em Bruce Reichenbach; ver também A providência e o problema do mal.

Pecado, graça e fé

Van Inwagen afirma o pecado original sem atenuantes. Em “Quam Dilecta” lembra, com Chesterton, que esse é o único dogma cristão que se pode provar pela experiência, e resume o diagnóstico assim: somos “profunda e radicalmente maus”, e essa condição é “inalterável por qualquer meio natural”. No mesmo texto diz que a Igreja ensina que ninguém chega à fé cristã sem a ajuda de Deus, e corrige Hume: o milagre que a fé exige não subverte o entendimento, mas a carne, o velho Adão, e por esse milagre o entendimento é libertado.

Aqui ele chega perto do arminianismo clássico, que afirma a incapacidade humana e a graça que liberta a vontade antes de qualquer resposta (ver Livre-arbítrio e graça). A linguagem da defesa, que fala de seres humanos que “cooperam” com Deus no resgate, precisa ser lida com esse limite: no arminianismo clássico a própria capacidade de responder já é dom da graça, e a resposta não acrescenta mérito nenhum.

Presciência e conhecimento médio: a diferença principal

O ponto em que van Inwagen se separa do arminianismo clássico está no ensaio de 2008 sobre a onisciência. Ali ele aceita esta proposição: “Deus não conhece de antemão os atos livres dos seres humanos”. O argumento segue o da consequência: se Deus soubesse em 1900 que eu mentiria hoje, eu não poderia agora deixar de mentir, porque não posso fazer que Deus tenha crido outra coisa. Ele não adota a tese de que as proposições sobre o futuro ainda não são verdadeiras nem falsas; sustenta que há verdades sobre os atos livres futuros que nem Deus pode conhecer. Deus sabe tudo o que pode ser sabido, inclusive o que no futuro já está causalmente determinado. Quanto às profecias sobre Faraó, Pedro e Judas, sugere que Deus as conhecia porque tinha decretado ou tornado inevitáveis aqueles atos.

Em “Against Middle Knowledge” (1997) ele já tinha argumentado que todas as afirmações sobre o que uma pessoa faria livremente em circunstâncias que não acontecem são falsas, o que tira a base do molinismo.

Essa posição fica perto do teísmo aberto e se afasta de Armínio, cujo quarto decreto se apoia na presciência de Deus sobre quem creria e perseveraria (ver a Declaração de Sentimentos). O site afirma o arminianismo clássico: Deus conhece todo o futuro, inclusive as decisões livres, e essas decisões continuam reais. Van Inwagen também é materialista quanto à pessoa humana, sem uma alma imaterial, outro ponto em que se distancia da teologia tradicional.

Ressurreição, Trindade e método

O materialismo o levou a pensar a ressurreição. Em “The Possibility of Resurrection” (1978) argumentou que um corpo cremado e reconstruído com os mesmos átomos não seria a mesma pessoa, porque a cadeia causal da vida se rompeu. Propôs então uma possibilidade: talvez Deus, no momento da morte, remova o corpo e deixe em seu lugar uma réplica, que é o que se enterra ou se queima. Sobre a Trindade, tentou mostrar com a lógica da identidade relativa que a doutrina não é contraditória.

Quanto ao método, denuncia um duplo critério: filósofos igualmente capazes discordam sobre quase tudo, como ele e David Lewis sobre o livre-arbítrio, e mesmo assim só da fé cristã se exigem provas que convençam qualquer pessoa inteligente. Em “Quam Dilecta” explica que confia na Igreja, e não no Iluminismo, por três razões: a doutrina cristã combina melhor com o que a ciência e a história mostram, os frutos da Igreja na história são melhores, e há cristãos cuja vida mostra a mesma luz que brilha no Novo Testamento.

Obras principais

  • An Essay on Free Will (Oxford University Press, 1983)
  • Material Beings (Cornell University Press, 1990)
  • Metaphysics (1993; várias edições revistas)
  • “Quam Dilecta”, em Thomas V. Morris (org.), God and the Philosophers (Oxford University Press, 1994)
  • God, Knowledge, and Mystery: Essays in Philosophical Theology (Cornell University Press, 1995)
  • The Possibility of Resurrection and Other Essays in Christian Apologetics (Westview, 1998)
  • Ontology, Identity, and Modality (Cambridge University Press, 2001)
  • Christian Faith and the Problem of Evil, organizador (Eerdmans, 2004)
  • The Problem of Evil (Oxford University Press, 2006)
  • Persons: Human and Divine, organizado com Dean Zimmerman (Oxford University Press, 2007)
  • Existence: Essays in Ontology (Cambridge University Press, 2014)
  • Thinking about Free Will (Cambridge University Press, 2017)
  • Do Numbers Exist? A Debate about Abstract Objects, com William Lane Craig (Routledge, 2024)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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