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HistóriaTeólogos arminianos12 de 330

Philip Pugh: O menino de fábrica que respondeu ao hipercalvinismo

Diego Gonçalves13 min de leitura2.503 palavras

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Neste texto

Na terça-feira, 5 de outubro de 1852, Philip Pugh voltou para casa cansado, depois de quatro dias de viagem pelo circuito, e encontrou um folheto de Samuel Cozens, pastor batista de Willenhall, no condado de Stafford. O título dizia tudo: John Wesley, o papa da Roma britânica, e Philip Pugh, o Pelágio moderno, pesados na balança da verdade eterna e achados em falta. Pugh achou o texto um caos, “sem forma e vazio”, e antes de amanhecer já tinha ordenado os argumentos do adversário para responder. O pregador que Cozens chamava de herdeiro de Pelágio tinha entrado numa fábrica aos sete ou oito anos e estudado grego e hebraico por conta própria.

Vida

Da fábrica ao púlpito

Philip Pugh nasceu em Shrewsbury, no condado de Shropshire, em julho de 1817, filho de Thomas Pugh. O pai escolheu o nome pensando em Atos 8:5, “Filipe, descendo à cidade de Samaria, lhes pregava a Cristo”, com a esperança de que o filho também pregasse. Como tantas crianças pobres da Inglaterra daquele tempo, Philip trabalhou numa fábrica das seis da manhã às seis da tarde e quase não teve escola.

Aos treze anos frequentava a escola dominical dos metodistas primitivos de Shrewsbury. Essa igreja nasceu dos acampamentos ao ar livre que Hugh Bourne e William Clowes começaram em 1807, no monte Mow Cop. Os dirigentes wesleyanos desaprovaram aquelas reuniões, e os pregadores dos acampamentos formaram uma conexão própria, feita sobretudo de operários, mineiros e lavradores. Depois de ouvir uma palavra do superintendente da escola, John Drayton, o menino entrou para a classe dele, o pequeno grupo semanal de cuidado e oração do metodismo. Anos depois, Pugh disse que devia o seu ministério à classe teológica daquela escola dominical.

Os amigos lembravam a mudança: o rapaz ficou sério e repetia que vale pouco a religião que não melhora a mente além da conduta. Levava livros para o trabalho e lia nas pausas. Aos dezesseis anos entrou no plano de pregadores locais, saindo com um pregador mais velho, que informava à reunião trimestral se ele servia.

Missionário na Irlanda

No verão de 1835 Pugh começou como pregador itinerante em Pennerley, no circuito de Bishop’s Castle. Do mesmo circuito saiu Robert Bowen, de Asterton, cuja irmã seria a primeira esposa de Pugh. Em dezembro o circuito o enviou à missão de Belfast, no norte da Irlanda, onde ficou três anos e meio.

Foram anos de pobreza. A conexão ainda não tinha um comitê missionário geral, e cada circuito sustentava como podia os seus missionários. Certa vez Pugh foi esperar o navio que trazia o seu salário e recebeu só uma carta: os irmãos não tinham dinheiro, mas registraram em ata um voto de agradecimento. Na mesma época outra comunidade metodista, rica, ofereceu a ele a escolha entre três postos importantes. Ele recusou e continuou no trabalho.

Na missão de Lisburn trabalhou com J. Pritchard, seu futuro biógrafo. Em Dromore e no povoado de Mile Bush houve um avivamento, com conversões que entravam pela noite e casas cheias de gente orando às seis da manhã; entre os convertidos havia ladrões que se tornaram membros fiéis. Sem dinheiro para livros, Pugh tomava emprestados os das bibliotecas públicas de Belfast e de Lisburn.

Os circuitos ingleses

De volta à Inglaterra, passou vinte e oito anos em nove nomeações: Burland, Leek e Congleton, dois anos cada; Tunstall, Shrewsbury, Darlaston e Dudley, três anos cada; de novo Tunstall, seis anos; e Birmingham, quatro. Em 1839 Thomas Bateman, um dos líderes da conexão, anotou no diário: “Pugh é um rapaz de Shrewsbury. Acho que há alguma coisa nele: estudioso, prestativo e um pregador razoável.”

Em Leek casou-se com a senhorita Bowen. Em menos de três anos ela morreu, deixando dois filhos pequenos, e seis meses depois Pugh enterrou também uma das crianças. Em Tunstall casou-se com Sarah Highfield, e o casal ainda perdeu outro filho.

Os estudos continuaram. Por volta dos vinte e quatro anos comprou gramática, léxico e o Novo Testamento grego de Greenfield, que de tanto uso precisou ser amarrado com barbante; aos vinte e seis começou a ler uma Bíblia poliglota e, dois anos depois, o hebraico. Os colegas o tinham como linguista notável. No púlpito, expunha uma passagem comparando-a com outras, em “inglês saxão simples e bom senso”, nas palavras dele. Como superintendente, em Tunstall fez um mapa das ruas com os nomes dos membros de cada uma para visitá-los em ordem.

A segunda passagem por Tunstall foi a mais marcante. Ali estavam a primeira capela e o primeiro circuito da conexão. Nos três anos anteriores a 1860, sob a superintendência de Pugh, o circuito recebeu mais de trezentos novos membros, e a capela foi quase toda reconstruída, com lugar para 1.500 pessoas. Em junho de 1860 a Conferência do Jubileu da denominação reuniu-se nessa capela.

Editor e presidente

A fama de estudioso levou Pugh ao cargo de vice-editor e, em 1867, ao de editor das revistas da conexão. Cuidava de quatro revistas mensais e escrevia nelas séries próprias, como uma história da Revolução Francesa. Certa vez disse à esposa que gostaria de “editar para sempre”. Em 1869 a Conferência o elegeu presidente. Tinha sido indicado duas vezes antes e, nas duas, pediu que se escolhessem homens mais velhos.

A última viagem

Em outubro de 1870 a conexão o mandou de novo à Irlanda, como representante da Conferência. Já havia sintomas de confusão e um tremor no rosto, e a família tentou segurá-lo em casa. Em Dublin ele confessou que já não se lembrava da ordem das ideias dos sermões e que a fala saía embaraçada; mesmo assim falou em Newry, em Donaghmore e em Portadown. No domingo, 16 de outubro, de volta a Londres, sentiu uma dor violenta no peito, e uma sequência de derrames paralisou o lado direito do corpo. Foi levado para a casa de Pritchard, em Newcastle-under-Lyme, e no dia em que deixou a casa os seus sermões e diários foram queimados. Aos amigos dizia que não havia nada sobre ele que valesse a pena escrever.

Passou onze semanas quase sem falar. Pouco antes do fim, um rapaz foi agradecer: quando era um menino faminto nas ruas de Tunstall, Pugh o levou para casa e lhe deu comida e conselho até ele arrumar trabalho, e por isso ele tinha procurado a Deus. Quando Pritchard perguntou se as doutrinas que pregara e o Salvador em quem crera o sustentavam, Pugh respondeu que sim com sinais. Morreu na terça-feira, 31 de janeiro de 1871, aos 53 anos, e foi sepultado em Newcastle-under-Lyme em 4 de fevereiro.

Pensamento

Um arminiano wesleyano

Philip Pugh pertence à linha wesleyana do arminianismo. Os metodistas primitivos guardavam a doutrina de John Wesley, e o livro de Pugh defende, no título da terceira carta, “as doutrinas da graça irrestrita, do livre-arbítrio e da santidade cristã” contra as restrições, o fatalismo e o antinomismo que via em Cozens. Ele se põe ao lado de Wesley e de Adam Clarke e cita a favor da sua leitura o bispo George Pretyman Tomline, o arcebispo John Bramhall e Henry Hammond.

O adversário era um hipercalvinista, dos batistas particulares estritos. O sermão que publicou em 1852, The Divine Decrees Consistent with Reason and Revelation, afirmava que Deus predestina uns para a vida e pune outros com a morte “e não dá conta do assunto”. O hipercalvinismo vai além do calvinismo histórico, porque tende a negar que o evangelho deva ser oferecido a todos. Pugh combateu esse sistema e reproduziu no livro, a favor da oferta universal do evangelho, um longo trecho de um pregador calvinista.

A graça vem antes

A resposta de Pugh mostra por que a acusação de pelagianismo não se sustenta. O livro afirma que o “arminianismo puro” não nega o pecado original, não nega que a graça é necessária à santificação e não prega o mérito humano: os seguidores de Jacó Armínio pregam o pecado original “em toda a sua extensão”, a justificação somente pela fé e somente pela graça e a obra do Espírito Santo na santificação do começo ao fim.

Quando Cozens o acusou de fazer da fé uma opção humana, Pugh explicou: Deus dá a todo homem poder para crer para a salvação, e a pessoa pode usar esse poder ou “resistir ao Espírito Santo”. E acrescentou: “Sim, creio que a fé é dom de Deus”, que Cristo é o seu autor e consumador e que ela é fruto do Espírito (Arminianism v. Hyper-Calvinism, 1860). É a doutrina que os wesleyanos chamam de graça preveniente: a capacidade de crer vem de Deus e é dada a todos, e por isso a recusa é culpa de quem recusa. Pugh também rejeitou a palavra “independente” para descrever o ser humano: para andar direito, ele precisa do conselho de Deus, e o que tem é liberdade para recusá-lo.

Eleição condicional

Pugh aceitava que a eleição vem do beneplácito de Deus, mas sustentava que a fé e a perseverança são as suas condições, porque Deus nunca salva ninguém sem elas. Contra a objeção de que isso faria da salvação uma dívida de Deus, respondeu com imagens: a mão estendida do mendigo não transforma a esmola em pagamento, e o cego Bartimeu, levantando-se para ir a Jesus, não comprou a vista. É a figura da mão vazia que Armínio usava e que o site expõe no estudo sobre a eleição condicional em Cristo.

Para Cozens, o réprobo é alguém por quem Cristo não morreu. “No sentido em que eu uso o termo, creio que há graça para ele, mas ele não a quer”, escreveu Pugh. Cozens dizia que Judas pecou porque estava decretado que pecaria, e Pugh inverteu a frase: “Não, sr. Cozens, ele há de, porque quer.” Do contrário, Deus seria o autor do pecado. A presciência também não causa os acontecimentos: Deus conhece o futuro porque ele vai acontecer. Pugh tomou de Bramhall a imagem da sentinela no alto da torre, cuja previsão é certa porque ela vê a tropa chegando, sem que a previsão faça a tropa vir.

Exegese de combate

Boa parte das cartas é exegese. Em Atos 13:48, “creram todos os que haviam sido destinados para a vida eterna”, Pugh analisou o particípio grego tetagmenoi e defendeu a tradução “dispostos”, com Hammond, Daniel Whitby e a antiga versão siríaca: “os judeus não estavam dispostos e por isso não creram”. Em Romanos 9, mostrou que Gênesis 25:23 fala de “duas nações” no ventre de Rebeca, e que Paulo tira a figura do oleiro de Jeremias 18:6-10, onde a ação de Deus sobre uma nação depende de ela se arrepender. Para ele, o capítulo trata do direito de Deus de rejeitar Israel incrédulo e chamar os gentios aos privilégios da igreja, e não da salvação final de cada pessoa, leitura próxima da eleição corporativa de Brian Abasciano.

Com Romanos 11:20-22, “tu, porém, mediante a fé, estás firme… doutra sorte, também tu serás cortado”, e Hebreus 10:26-29, Pugh mostrou que o eleito pode se tornar não eleito pela incredulidade, e afirmou contra Cozens a possibilidade da apostasia, como a declaração de fé deste site.

Santidade contra antinomismo

O que mais o indignava era a consequência moral. Um membro de uma igreja ligada à de Cozens dissera que um eleito que morresse bêbado iria para o céu. Pugh chamou isso de antinomismo, a ideia de que o eleito está dispensado da lei moral, a mesma acusação de John Fletcher nos Checks to Antinomianism. Contra ela pôs a doutrina wesleyana da santidade cristã e comparou um verso cantado pelos amigos de Cozens, que se dizia “ao mesmo tempo diabo e santo”, com o hino metodista que pede “poder para vencer o pecado interior”.

Aqui há uma diferença de linguagem com a declaração de fé deste site. Pugh atacou a “justiça imputada” tal como Cozens a usava, como garantia para quem vive no pecado, e citou uma frase de Wesley contra a expressão. O site, com o Wesley do sermão O Senhor, justiça nossa, afirma que o pecador é justificado pela justiça de Cristo imputada a quem crê. O alvo de Pugh era o uso antinomiano da doutrina, e ele mesmo defendia a justificação somente pela fé.

Num discurso a dois jovens ministros, em 1862, Pugh partiu de 2 Coríntios 5:20 para dizer que os ministros são “embaixadores de Deus”, enviados para oferecer a sua anistia real aos culpados. A frase resume a teologia dele: o perdão é oferecido a todos, e quem o recusa recusa uma graça que foi de fato estendida a ele.

Obras principais

  • Strictures on a Sermon Published by the Rev. S. Cozens, on the Divine Decrees (Willenhall, 1852), primeira carta.
  • The Weights and Scales of the Rev. Samuel Cozens, Examined and Found False (Willenhall, 1852), segunda carta.
  • The Re-adjustment of the Adjuster; or, the Doctrines of Unrestricted Grace, Free-Will, and Christian Holiness, Vindicated (Willenhall, 1852), terceira carta.
  • A Supplement to the Re-adjustment of the Adjuster (Willenhall, 1852).
  • Arminianism v. Hyper-Calvinism: Being Three Letters from Philip Pugh to the Rev. Samuel Cozens (Tunstall, Arthur Tomkinson, 1860), segunda edição das três cartas, com notas e índice de textos; houve depois uma terceira edição.
  • “Essay on the Being and Attributes of God”, na coletânea Essays by our Ministers.
  • Séries na Primitive Methodist Magazine: a história da Revolução Francesa (1867-1868) e Days Worth Remembering (1867-1869).
  • “A Lecture on Education”, publicada em J. Pritchard, Memoirs of the Life, Literary and Itinerant Labours of the Rev. Philip Pugh (Londres, George Lamb, 1871).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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