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Paul J. Achtemeier: O biblista reformado que recusou a leitura calvinista de Romanos 9
Em 1989, o presidente da Society of Biblical Literature, a principal associação acadêmica de estudos bíblicos da América do Norte, subiu à tribuna para o discurso anual com um título em latim: Omne verbum sonat, “toda palavra soa”. Paul J. Achtemeier, professor de Novo Testamento em Richmond, na Virgínia, lembrou aos colegas, habituados a ler em silêncio, que os livros do Novo Testamento foram ditados em voz alta, lidos em voz alta e ouvidos pelas igrejas. Quatro anos antes, ele tinha sido o primeiro protestante eleito para presidir a Associação Bíblica Católica dos Estados Unidos. Os dois cargos resumem a carreira de um exegeta respeitado por católicos e protestantes que, num comentário a Romanos, rejeitou com firmeza a leitura de Calvino sobre a eleição.
Vida
Nebraska e Wisconsin
Paul John Achtemeier nasceu em 3 de setembro de 1927, em Lincoln, no Nebraska, filho único do pastor Arthur Achtemeier e de sua esposa, Clara. Os amigos o chamavam de “Bud”. De 1938 a 1959 o pai foi pastor da Igreja Zwingli, hoje da Igreja Unida de Cristo, em Monticello, no Wisconsin, e de uma congregação vizinha. Paul concluiu o ensino médio em Monticello em 1945.
Estudou no Elmhurst College, em Illinois, escola ligada à Igreja Unida de Cristo, onde se preparou para o seminário, estudou teologia e jogou futebol americano. Formou-se em 1949 com distinção. Um colega de turma, Bill Bauer, que depois foi juiz federal de apelação, lembrava que Achtemeier “era o primeiro da nossa turma”.
Nova York, Heidelberg e Basileia
Do Elmhurst ele foi para o Union Theological Seminary, em Nova York, onde concluiu o bacharelado em teologia (B.D.) em 1952. No mesmo ano casou-se com Elizabeth Rice, que se tornaria estudiosa do Antigo Testamento e professora de pregação. O casamento durou mais de cinquenta anos, e os dois escreveram quatro livros juntos.
Uma bolsa de viagem do Union, recebida em 1952, levou-o à Europa. Paul estudou na Universidade de Heidelberg em 1952 e 1953 e na Universidade de Basileia em 1953 e 1954, quando Karl Barth ainda ensinava ali. Passou também pelo Seminário Teológico de Princeton. No primeiro livro que publicaram, em 1962, Paul e Elizabeth agradeceram a três mestres: James Muilenburg, do Union de Nova York, Gerhard von Rad, de Heidelberg, e Walther Eichrodt, de Basileia. Paul voltou ao Union e recebeu o doutorado em teologia (Th.D.) em 1958.
Professor da igreja
Achtemeier foi ordenado ministro da Igreja Unida de Cristo. Começou a ensinar no Elmhurst College e passou para o Lancaster Theological Seminary, na Pensilvânia, seminário da sua igreja, onde ocupou de 1961 a 1973 a cátedra Kunz de Novo Testamento. Elizabeth ensinou teologia do Antigo Testamento na mesma escola de 1959 a 1973. Paul também lecionou na Escola de Estudos Ecumênicos do Conselho Mundial de Igrejas, em Bossey, na Suíça.
The Old Testament Roots of Our Faith (As raízes da nossa fé no Antigo Testamento, 1962), escrito com Elizabeth, apresentava a leigos a história da promessa de Deus de Abraão a Cristo. Em 1969 ele publicou An Introduction to the New Hermeneutic, sobre a “nova hermenêutica” de Ernst Fuchs e Gerhard Ebeling, discípulos de Rudolf Bultmann.
Em 1973 o casal se mudou para Richmond, na Virgínia. Paul foi professor de Novo Testamento no Union Theological Seminary in Virginia, a escola presbiteriana que hoje se chama Union Presbyterian Seminary, e ali ficou 24 anos. Aposentou-se em 1997 como titular da cátedra Herbert Worth e Annie H. Jackson de Interpretação Bíblica. Elizabeth foi professora adjunta de Bíblia e homilética na mesma escola de 1973 a 1996.
O editor
Boa parte da influência de Achtemeier veio do trabalho de editor. Dirigiu a revista trimestral Interpretation: A Journal of Bible and Theology, publicada pelo seminário de Richmond, e foi o editor de Novo Testamento da coleção Interpretation: A Bible Commentary for Teaching and Preaching, feita para o ensino e a pregação, para a qual escreveu Romans (1985). Foi editor geral do Harper’s Bible Dictionary (1985), preparado com a Society of Biblical Literature para levar a pesquisa bíblica ao grande público. A edição de 1985 foi premiada, e a obra foi revista em 1996 como HarperCollins Bible Dictionary.
Na Society of Biblical Literature foi tesoureiro, secretário e, em 1989, presidente. Em 1985 a Associação Bíblica Católica dos Estados Unidos o elegeu presidente, a primeira vez que um protestante ocupou o cargo. Ao todo publicou dezoito livros, mais de sessenta artigos e mais de setenta e cinco resenhas.
Os últimos anos
A obra mais citada de Achtemeier saiu em 1996: o comentário à Primeira Carta de Pedro na série Hermeneia, da Fortress Press, chamado de “comentário clássico” numa resenha da Review of Biblical Literature. Em 2001 ele publicou, com Joel B. Green e Marianne Meye Thompson, o manual Introducing the New Testament. Em 2002, quando ele fez 75 anos, dois ex-alunos, Frank Matera e A. Andrew Das, lhe dedicaram a coletânea The Forgotten God (O Deus esquecido).
Elizabeth morreu em 25 de outubro de 2002. Paul casou-se depois com Sandra M. Levy. Seu último livro, Jesus and the Miracle Tradition (2008), estudou os milagres de Jesus nos Evangelhos e os relatos de milagres no mundo greco-romano.
Os colegas lembravam um professor querido, generoso com os necessitados, que levava a sério o mandamento bíblico de cuidar dos pobres e dos sem-teto. Achtemeier morreu em casa, em Richmond, em 28 de janeiro de 2013, depois de uma longa doença, aos 85 anos. O culto em sua memória foi celebrado na Igreja Episcopal de St. John, em Richmond. Desde 2009 a Society of Biblical Literature concede todo ano o prêmio Paul J. Achtemeier de pesquisa em Novo Testamento.
Pensamento
Onde ele fica
Achtemeier viveu na tradição reformada da linha principal americana: filho de pastor reformado, ministro da Igreja Unida de Cristo, professor num seminário presbiteriano. Nunca se declarou arminiano. Mas no ponto que separa arminianos e calvinistas ele ficou do lado arminiano: no comentário a Romanos, recusou a eleição incondicional de indivíduos e a reprovação, afirmou a liberdade humana diante do chamado do evangelho e explicou a perdição como recusa da misericórdia de Deus. O teólogo reformado Cornelis P. Venema, que discorda dele, concluiu que a sua leitura de Romanos 9 é “compatível com a visão arminiana histórica da predestinação”. Por isso o classificamos como simpatizante: rejeita o calvinismo nos pontos centrais sem se dizer arminiano e sem desenvolver uma soteriologia arminiana completa.
Romanos 9: a história de uma escolha
Para Achtemeier, o tema de Romanos é “o plano que Deus está seguindo para estender o seu senhorio gracioso a todos os povos” pelo que fez em Cristo (Romans, 1985, p. 22). A justificação pela fé é o meio pelo qual os ímpios entram debaixo desse senhorio. A carta conta a história de Deus com a sua criação, da rebelião até a redenção final, e os capítulos 9 a 11 tratam do futuro dessa história. Paulo acabou de dizer, no fim do capítulo 8, que nada pode nos separar do amor de Deus; se a palavra de Deus tivesse falhado com Israel, que garantia haveria de que não falharia também conosco?
Daí vêm as três teses da sua leitura. A primeira: Paulo fala da escolha de povos, e não do destino eterno de indivíduos. “Ele não está tratando do destino de indivíduos” (p. 163). A segunda: predestinação não é predeterminismo. O predeterminismo filosófico supõe que cada ato e cada pensamento são ditados por forças fora do controle da pessoa; a predestinação de Paulo, escreve ele, fixa o fim de um processo sem determinar o caminho até lá (p. 155). A terceira: entre graça e ira não há uma “terrível simetria” (p. 162), como se Deus quisesse salvar uns e condenar outros com o mesmo empenho. O propósito de Deus é de misericórdia, para Israel, para a igreja e, por meio deles, para toda a humanidade. Quem se perde, perde-se porque recusa essa misericórdia em Cristo. Sobre Isaque e Jacó, ele resume: a história de Israel “não é a história de uma raça, é a história de uma escolha” (p. 156), uma escolha que inclui a intenção de Deus de um dia ser gracioso com todos por meio de Israel.
A leitura se aproxima da eleição condicional em Cristo e, mais ainda, da eleição corporativa defendida por Brian Abasciano: Deus elege um povo, e as pessoas entram nesse povo pela fé. Ela já estava no livro de 1962, escrito com Elizabeth: Israel foi escolhido “não para gozar do privilégio de Deus, mas para ser o instrumento da sua vontade” (The Old Testament Roots of Our Faith, p. 48), e o amor que o escolheu foi imerecido, sem nada em Israel que o qualificasse.
O pecado e a graça
Mesmo um crítico calvinista como John Piper, que resenhou o comentário em 1987, considerou a análise do pecado “uma das grandes forças” do livro. Achtemeier descreve uma humanidade escrava da rebelião e “incuravelmente propensa à idolatria”, e insiste que somos aceitos só pela misericórdia de Deus, e não por algum valor nosso, confissão que, diz ele, é dura demais para o homem moderno autossuficiente (p. 81). Essa ênfase na graça que vem antes de qualquer mérito está de acordo com o arminianismo clássico.
A distância maior aparece em Romanos 7. Achtemeier lê o capítulo como retrato de quem ainda está fora de Cristo e escreve que o problema dessa pessoa não está em querer o bem, mas em fazê-lo (p. 111). Piper objetou que isso deixa de lado a “escravidão da vontade” de Lutero. Jacó Armínio também lia Romanos 7 como retrato de quem está debaixo da lei, mas atribuía esse querer o bem à ação do Espírito, porque a vontade caída, por si, está perdida para o bem. Achtemeier descreve o conflito sem desenvolver a doutrina da graça preveniente, a graça que vem antes da fé e liberta a vontade, que a declaração de fé do site afirma.
Outra diferença está na justificação. Achtemeier define a justiça de Deus como a fidelidade de Deus aos seus propósitos de bem para a criação, e ser justificado como aceitar o senhorio de Deus. Piper notou que o ensaio sobre Romanos 3:21-30 não discute a propiciação nem o sangue de Cristo. Armínio e John Wesley afirmam a justificação pela imputação da justiça de Cristo e a morte de Cristo como satisfação penal em nosso lugar, e a declaração de fé do site fala da justificação como ser declarado justo diante de Deus.
A Escritura
Em The Inspiration of Scripture: Problems and Proposals (1980), Achtemeier escreveu para quem não aceita a inerrância e quer, ainda assim, reconhecer a autoridade da Bíblia. Ele rejeitou o que chamou de “modelo profético”, a ideia de que cada livro tem um autor inspirado que registrou o texto, porque os livros bíblicos passaram por muitas mãos antes da forma final. Propôs situar a inspiração na relação entre três elementos: as tradições da comunidade de fé, a situação nova que a comunidade enfrenta e o “respondente”, quem reformula a tradição para essa situação. O Espírito age em todo o processo e continua agindo nos que leem e pregam. Para ele, o conceito bíblico de verdade é sobretudo confiabilidade (p. 148). Aqui a diferença com o site é clara: a declaração de fé afirma que os escritos originais foram preservados de erro.
A Bíblia que se ouve e a igreja como Israel
No discurso de 1989, publicado no Journal of Biblical Literature em 1990, Achtemeier sustentou que o mundo do Novo Testamento era uma cultura de forte oralidade: quase tudo se escrevia por ditado, a leitura silenciosa era rara e a maioria dos cristãos conhecia as Escrituras ouvindo-as ler nas reuniões. Por isso a estrutura dos textos tinha de ser percebida pelo ouvido. O artigo abriu caminho para a chamada crítica da performance; a tese da raridade da leitura silenciosa foi depois contestada.
No comentário a 1 Pedro, Achtemeier propôs que a imagem que governa a carta é Israel. O autor aplica a comunidades de judeus e gentios os títulos do povo de Deus, como “eleitos”, “estrangeiros”, “dispersão”, “raça eleita” e “sacerdócio real” (1 Pedro 2:9), e faz isso sem dizer que Deus rejeitou os judeus. Ele considerava a carta pseudônima, escrita entre os anos 80 e 100 para consolar comunidades que sofriam.
Obras principais
- The Old Testament Roots of Our Faith, com Elizabeth Achtemeier (1962).
- To Save All People, com Elizabeth Achtemeier (1967).
- An Introduction to the New Hermeneutic (1969).
- Mark, série Proclamation Commentaries (1975; 2.ª ed. ampliada).
- The Inspiration of Scripture: Problems and Proposals (1980).
- Romans, série Interpretation (1985).
- The Quest for Unity in the New Testament Church (1987).
- “Omne verbum sonat: The New Testament and the Oral Environment of Late Western Antiquity”, Journal of Biblical Literature 109 (1990), p. 3-27.
- 1 Peter: A Commentary on First Peter, série Hermeneia (1996).
- Inspiration and Authority: Nature and Function of Christian Scripture (1999).
- Introducing the New Testament: Its Literature and Theology, com Joel B. Green e Marianne Meye Thompson (2001).
- Jesus and the Miracle Tradition (2008).
Para aprofundar
- “Paul J. Achtemeier” (obituário), Monticello Historical Society, Wisconsin: monticellohistoricalsociety.org.
- “Bible Scholar Paul Achtemeier ‘49, 1927-2013”, Elmhurst University: elmhurst.edu.
- “Achtemeier, emeritus professor, dies at age 85”, The Presbyterian Outlook, 1.º fev. 2013: pres-outlook.org.
- “Paul John Achtemeier”, Nebraska Authors (Lincoln City Libraries): nebraskaauthors.org.
- “Elizabeth Achtemeier dies”, Worldwide Faith News, out. 2002: archive.wfn.org.
- Cornelis P. Venema, “‘Jacob I Loved, But Esau I Hated’: Corporate or Individual Election in Paul’s Argument in Romans 9?”, Mid-America Journal of Theology 26 (2015), p. 7-58: midamerica.edu.
- John Piper, resenha de Romans, de Paul J. Achtemeier, Journal of Biblical Literature 106 (1987), p. 725-727: desiringgod.org.
- Resenha de The Inspiration of Scripture, Andrews University Seminary Studies 19 (1981): andrews.edu.
- Society of Biblical Literature, “Presidential Addresses”: sbl-site.org.
- Paul e Elizabeth Achtemeier, The Old Testament Roots of Our Faith (Abingdon, 1962), no Internet Archive: archive.org.
- “Jobes and Achtemeier on 1 Peter: Introduction”, Logos: logos.com.
- “Paul J. Achtemeier”, Wikipédia em inglês: en.wikipedia.org.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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