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Randall Basinger: o filósofo que perguntou que diferença faz a soberania de Deus

Diego Gonçalves13 min de leitura2.642 palavras

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Neste texto

No número de julho de 1983 da revista britânica The Evangelical Quarterly, o editor abriu um artigo de quatro páginas com uma explicação: a revista não costumava publicar textos de dois autores, “especialmente quando os dois autores são irmãos”, mas aquela dupla já tinha provado o seu valor. Os irmãos eram Randall e David Basinger, e o artigo propunha um dilema a quem defendia ao mesmo tempo a inerrância da Bíblia e a explicação do mal pelo livre-arbítrio humano. Randall ensinava filosofia no Tabor College, no Kansas. Naquele ano ele se mudaria para a Pensilvânia, onde passaria 39 anos no Messiah College. Nessas quatro décadas voltou muitas vezes à mesma pergunta: como a soberania de Deus e a liberdade humana se combinam, e que diferença a resposta faz na vida de quem crê.

Vida

Formação

Randall G. Basinger nasceu em 1950. Cresceu ao lado do irmão David, que também se tornou filósofo e com quem dividiu boa parte da obra. Em 1986, os dois dedicaram o livro que organizaram juntos “à memória do nosso pai, Emerson”.

Formou-se bacharel em artes pelo Trinity College em 1972, fez o mestrado em filosofia da religião na Trinity Evangelical Divinity School, em Deerfield, Illinois, em 1974, e o doutorado em religião na Northwestern University em 1979. Três dos autores que ele reuniria no livro sobre predestinação passaram por essas escolas: Norman Geisler dirigiu o departamento de filosofia da religião da Trinity, onde John Feinberg ensinava teologia, e o filósofo Bruce Reichenbach fez o doutorado na Northwestern.

Tabor College e os primeiros artigos

No começo dos anos 1980, Basinger era professor assistente de filosofia no Tabor College, em Hillsboro, no Kansas, escola dos Irmãos Menonitas fundada em 1908. David ensinava no Roberts Wesleyan College, em Rochester, Nova York. Dessa época saíram os primeiros artigos a quatro mãos.

Na primavera de 1981, a revista Process Studies publicou “Divine Omnipotence: Plantinga vs. Griffin”, que comparava a onipotência no filósofo Alvin Plantinga, de linha clássica, e no teólogo do processo David Griffin. A mesma edição trouxe uma resposta do próprio Plantinga, que concordou com boa parte da análise. No mesmo ano saiu “In the Image of Man Create They God”, no Scottish Journal of Theology, sobre as maneiras de conciliar o controle de Deus com a liberdade das criaturas.

Messiah College

Em 1983, Basinger entrou para o corpo docente do Messiah College, em Grantham, na Pensilvânia, fundado em 1909 pela Igreja dos Irmãos em Cristo (Brethren in Christ). A denominação nasceu no século XVIII entre descendentes de menonitas tocados por um avivamento e junta a herança anabatista da paz à conversão pessoal do pietismo e à santidade wesleyana. Em Messiah ensinou também o teólogo Luke L. Keefer Jr., estudioso do arminianismo de Wesley.

Em 1986, Basinger publicou dois livros com o irmão: Predestination and Free Will: Four Views of Divine Sovereignty and Human Freedom, pela InterVarsity Press, com John Feinberg, Norman Geisler, Bruce Reichenbach e Clark Pinnock, e Philosophy and Miracle: The Contemporary Debate, pela Edwin Mellen Press, sobre o debate a respeito do conceito de milagre na filosofia analítica. O International Journal for Philosophy of Religion elogiou a prosa “lúcida” do segundo. Colin Brown já registrara, em Miracles and the Critical Mind (1984), a crítica dos irmãos ao modo como Richard Swinburne tratava os milagres.

Nos anos seguintes, Basinger passou à administração. Foi deão de currículo e depois vice-reitor acadêmico (provost), o responsável pela vida acadêmica. Com a presidente Kim Phipps, liderou a criação dos programas de pós-graduação, lançados no fim dos anos 2000. Em 2012 publicou na revista In Trust o artigo “A clearer view”, com um diagrama em cores para mostrar quem decide o quê entre o conselho, a administração e os professores.

Aposentou-se em 2022, depois de 39 anos na instituição, que desde 2020 se chama Messiah University. Na última formatura que presidiu, recebeu um doutorado honorário. Hoje é vice-reitor emérito.

A igreja e a paz

Basinger ensina nas classes de adultos da Igreja dos Irmãos em Cristo de Grantham. Uma delas estudou A Field Guide to Christian Nonviolence (2022), de David C. Cramer e Myles Werntz, perguntando se o mandamento de amar os inimigos vale também para governos e nações. Com a esposa, Rebekah Burch Basinger, ele resenhou esse livro em 2023 no periódico Brethren in Christ History and Life.

Numa classe de discipulado, durante uma série sobre os valores centrais da denominação, Basinger reparou que o artigo atual sobre a paz nos Artigos de Fé e Doutrina dos Irmãos em Cristo trazia uma cláusula de ressalva ao compromisso com a não violência. Foi atrás das declarações anteriores e concluiu que era a primeira vez que algo assim aparecia. A editora do periódico, Harriet Sider Bicksler, pediu-lhe um artigo, publicado em abril de 2024: “The Brethren in Christ and the Peace Position”, com 51 páginas, que acompanha a posição de paz nas confissões da igreja desde a primeira, de 1780. O texto pergunta de onde veio a cláusula, por que foi acrescentada e por que nenhuma outra doutrina recebeu ressalva parecida. O número de agosto publicou respostas de cinco autores.

Pensamento

Um arminiano entre filósofos

Basinger é arminiano, e a melhor prova está na obra dele. Em 1989, escreveu o capítulo “Exhaustive Divine Sovereignty: A Practical Critique” para The Grace of God, the Will of Man: A Case for Arminianism, a coletânea organizada por Clark Pinnock em defesa do arminianismo, ao lado de I. Howard Marshall, William Lane Craig, Jack Cottrell, Jerry Walls e Reichenbach. O capítulo formula o que chama de “desafio arminiano final” ao calvinismo. O arminianismo de Basinger é o dos filósofos: trata da liberdade, da providência e do problema do mal, e não da ordem da salvação. Por isso nós o colocamos entre os arminianos, na companhia de Reichenbach, Walls e Kevin Timpe, dentro de uma igreja, a dos Irmãos em Cristo, que soma raízes anabatistas e wesleyanas.

O problema em dois níveis

A introdução de Predestination and Free Will (1986), escrita pelos dois irmãos, mostra o método. No nível teórico, é preciso dizer o que significam “soberania divina” e “liberdade humana”. No prático, é preciso decidir como viver. Muitos cristãos, lembram os irmãos, dizem aos filhos que Deus “escolheu levar o tio João para casa” e começam a fazer exercícios para não morrer do coração como ele. A conclusão: “se queremos evitar uma vida arbitrária, é preciso encontrar respostas”.

Para organizar as respostas, os Basinger perguntaram em que medida a liberdade humana limita o controle de Deus sobre os acontecimentos. Quem responde “em nada” defende uma soberania específica: Deus garante cada acontecimento, seja determinando as escolhas humanas (Feinberg), seja ordenando o mundo de acordo com o que conhece de antemão (Geisler). Quem responde que a liberdade impõe limites defende uma soberania geral: Deus alcança os seus propósitos e intervém quando quer, mas não garante que cada escolha livre corresponda à sua vontade (Reichenbach e Pinnock). A introdução registra que os dois primeiros se consideravam calvinistas e os dois últimos, arminianos. Cada autor aplicou a teoria a dois casos: Fred, empresário que já não sabe se deve agradecer a Deus pela riqueza num mundo de famintos, e Mary, enfermeira recusada pelas faculdades de medicina, que se pergunta se perdeu a vontade de Deus.

Inerrância e livre-arbítrio

O artigo de 1983 levava o mesmo rigor à doutrina das Escrituras. Os defensores da inerrância negam que a Bíblia tenha sido ditada: os autores humanos escreveram livremente, e Deus controlou o que escreveram. Para isso, precisam afirmar que Deus pode controlar totalmente uma ação livre. Mas a defesa do livre-arbítrio diante do mal diz que Deus não pode criar criaturas livres e garantir que façam sempre o bem; se pudesse, teria criado um mundo de pessoas livres que nunca pecassem. A conclusão é seca: “não se pode ter as duas coisas”.

Norman Geisler respondeu em 1985, e os irmãos replicaram em 1986: quem afirma o controle total precisa explicar o mal como Leibniz, para quem Deus escolheu o melhor mundo possível, com o mal que ele contém. E, se Deus pode levar qualquer pessoa a escolher livremente o que ele quer, poderia levar todas a aceitá-lo, o que a teologia sem predestinação incondicional tem dificuldade de explicar. Em 2000, o teólogo calvinista Stephen Wellum retomou o argumento: reconheceu que ele vale para quem adota a liberdade libertária, mas usou-o para defender a liberdade compatibilista, a de quem faz o que deseja ainda que o desejo tenha sido determinado.

O poder de Deus e o teísmo do processo

O artigo de 1981 tinha uma tese ousada. Os teístas clássicos acusavam a teologia do processo, que vê Deus como alguém que só pode persuadir as criaturas, de resolver o problema do mal à custa de um Deus fraco; os teólogos do processo acusavam o teísmo clássico de incoerência diante do mal. Os irmãos concluíram que um teísta clássico que leva a liberdade a sério precisa admitir que ela limita o poder de Deus, e acaba com uma ideia de onipotência muito próxima da do processo. O argumento, escreveram, “pode, com a mesma facilidade, ser visto como uma defesa do teísmo do processo”, e a escolha entre os dois sistemas teria de ser feita por outros motivos.

A crítica prática ao calvinismo

O ponto mais conhecido de Randall Basinger já estava no título de um artigo de 1987 no Evangelical Journal: “Divine Sovereignty: What Difference Does It Make?” O argumento aparece desenvolvido no capítulo de 1989. Se Deus decretou tudo o que acontece, tudo o que acontece é o que Deus quis. A visão calvinista, escreve Basinger, “estabelece que o que é deve ser” e exclui a ideia de que as coisas poderiam ou deveriam ter sido diferentes. Mas o cristão ora, evangeliza e luta contra a injustiça como se pudessem. O argumento põe o calvinista diante de duas saídas: ou vive como se a sua doutrina não valesse, e ela não faz diferença, ou vive de acordo com ela, e perde os motivos para agir. Daí a fórmula: “o desafio arminiano final à visão calvinista da soberania divina exaustiva é este: que diferença ela faz?”

Wayne Grudem resume o argumento na Teologia sistemática como a acusação de que a visão calvinista, “quando bem entendida, destrói os motivos” para uma vida cristã responsável, e responde a ele; John Piper também o discute em The Pleasures of God. A resposta calvinista costuma dizer que Deus decreta também os meios, entre eles a oração e o esforço humano.

O que fica em aberto

A obra de Basinger trata da providência e da liberdade, e deixa fora do foco a incapacidade humana depois da queda e a graça preveniente, que o arminianismo clássico põe no centro. Gordon Woolard apontou essa lacuna ao resenhar o livro de 1986 na Themelios: “nenhum dos autores trata a sério dos efeitos do pecado sobre a natureza humana”. Para Armínio, a liberdade que importa na salvação é a da vontade libertada pela graça, e não um poder natural de escolha. Esse lado da doutrina está em Roger Olson e Robert Picirilli.

Há também uma diferença de linguagem em relação à declaração de fé deste site. A soberania geral fala da liberdade humana como um limite, escolhido por Deus, ao controle de Deus; o site prefere dizer que dar às criaturas uma liberdade real é exercício da soberania, e afirma que Deus conhece todo o futuro. Reichenbach mostra que a soberania geral pode andar com a presciência completa. David Basinger seguiu outro caminho e foi um dos cinco autores de The Openness of God (1994), manifesto do teísmo aberto, que o site rejeita. A contribuição de Randall está em outro lugar: obrigar calvinistas e arminianos a perguntar o que a sua doutrina da providência muda na oração, no trabalho e no sofrimento de cada dia.

Obras principais

  • “Divine Omnipotence: Plantinga vs. Griffin”, com David Basinger, Process Studies 11, n. 1 (1981), p. 11-24
  • “In the Image of Man Create They God”, com David Basinger, Scottish Journal of Theology 34 (1981), p. 97-107
  • “Divine Determinateness and the Free Will Defense”, com David Basinger, Philosophy Research Archives 8 (1982), p. 531-534
  • “Inerrancy, Dictation and the Free Will Defence”, com David Basinger, The Evangelical Quarterly 55, n. 3 (1983), p. 177-180
  • Predestination and Free Will: Four Views of Divine Sovereignty and Human Freedom, organizado com David Basinger (InterVarsity Press, 1986)
  • Philosophy and Miracle: The Contemporary Debate, com David Basinger (Edwin Mellen Press, 1986)
  • “Inerrancy and Free Will: Some Further Thoughts”, com David Basinger, The Evangelical Quarterly 58, n. 4 (1986), p. 351-354
  • “Divine Sovereignty: What Difference Does It Make?”, Evangelical Journal 5, n. 1 (1987), p. 15-30
  • “Exhaustive Divine Sovereignty: A Practical Critique”, em Clark H. Pinnock (org.), The Grace of God, the Will of Man: A Case for Arminianism (Zondervan, 1989)
  • “Faith/Reason Typologies: A Constructive Proposal”, Christian Scholar’s Review 27, n. 1 (1997), p. 62-73
  • “A clearer view”, In Trust (primavera de 2012)
  • “The Brethren in Christ and the Peace Position: Brethren in Christ Statements of Faith and Their Significance”, Brethren in Christ History and Life 47, n. 1 (2024), p. 3-53

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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