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Paul R. Eddy: O professor de Bethel que defende o livre-arbítrio e a história dos Evangelhos

Diego Gonçalves13 min de leitura2.596 palavras

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Neste texto

Num dia frio de fevereiro, no estacionamento do Bethel Theological Seminary, em St. Paul, Minnesota, um aluno do segundo ano passou cerca de uma hora discutindo com um professor recém-chegado à Bethel. O professor, Gregory Boyd, tinha dado uma palestra na turma e, na conversa, disse que era um “teísta aberto calvinista”. O aluno conhecia o calvinismo e não gostava dele. Décadas depois, Paul Rhodes Eddy contou a cena rindo: na versão de Boyd, a conversa só deu fruto um ano depois; na dele, em uma hora desmontou o calvinismo do amigo e o conduziu ao “evangelho do arminianismo”. Boyd deixou o calvinismo, e os dois se tornaram parceiros de livros, de púlpito e de debate por mais de trinta anos.

Vida

Da biologia à teologia

Eddy cresceu na igreja. Aos sete anos fez a oração de entrega a Cristo e aos doze foi batizado. A partir da oitava série, nos anos 1970, começou um afastamento lento: Deus ficou irrelevante e a fé parou no nível da escola dominical. Entrou no Bethel College, em St. Paul, porque os pais pagariam os estudos numa escola cristã. Cursava biologia, queria ser médico e se descreve, naquele tempo, como um “agnóstico funcional”.

A virada veio no terceiro ano. A moça que ele namorava, que não era cristã, teve uma experiência com Jesus e mudou de vida em poucos dias. No semestre seguinte, uma disciplina de teologia lhe mostrou uma fé de adulto, capaz de conversar com a ciência, e o professor se tornou seu mentor. Entre o que viu na namorada e o que aprendeu na sala de aula, a realidade de Deus se tornou inegável para ele. Trocou a medicina pelos estudos bíblicos e teológicos e se formou em 1983. Seu primeiro professor de Bíblia em Bethel foi John Piper, depois um dos nomes mais conhecidos do calvinismo americano.

Logo depois da formatura, passou oito meses discutindo com um ateu bem mais velho, até perceber que o homem tinha sofrido abusos num colégio religioso nos anos 1940 e rejeitava um carrasco cósmico, bem diferente do Deus revelado em Jesus. Desde então, diante de um ateu, Eddy começa com uma pergunta: “fale-me do Deus em que você não acredita”.

O seminário e Romanos 9

Nos seus vinte e poucos anos, Romanos 9 quase derrubou a fé recuperada. Eddy conta que muitas noites pediu a Deus que o capítulo não estivesse na Bíblia na manhã seguinte, porque a leitura que tinha recebido fazia de Deus um jogador de cara ou coroa, que amou Jacó e odiou Esaú sem motivo. Entrou no seminário para resolver essa pergunta, numa busca de uns dez anos, e concluiu em 1991 o mestrado em estudos teológicos no Bethel Theological Seminary. Nesses anos descobriu o tema bíblico da aliança, que mudou o seu modo de entender Deus e o casamento.

Marquette e John Hick

O doutorado foi na Marquette University, a universidade jesuíta de Milwaukee, em teologia filosófica. A tese, de 1999, orientada por Bradford Hinze, examinou o pluralismo do filósofo britânico John Hick, para quem as grandes religiões seriam respostas igualmente válidas à mesma Realidade última. Em 1994, na revista Religious Studies, Eddy sustentou que a proposta “neokantiana” de Hick, que separa o divino em si do divino como as religiões o experimentam, minava o esforço do próprio Hick para defender que a fé fala de algo real. Hick respondeu no ano seguinte, na mesma revista. A tese virou livro em 2002, com a conclusão de que o modelo de Hick não mantém ao mesmo tempo o realismo religioso e um pluralismo coerente.

No primeiro semestre em Marquette, uma disciplina sobre os Evangelhos, dada por um professor ligado ao Jesus Seminar e construída sobre as premissas de Rudolf Bultmann, deixou Eddy “mordido” pela pesquisa do Jesus histórico. Ele terminou a tese sobre Hick, mas dedicou os quinze anos seguintes aos Evangelhos.

Bethel e Woodland Hills

Em 1997 Eddy voltou à Bethel como professor. Hoje é professor de estudos bíblicos e teológicos, com interesse na vida de Jesus, na teologia das religiões e na teologia da sexualidade. Em aula, apresenta cada posição de um debate na primeira pessoa, como se fosse a dele, e só diz o que pensa quando os alunos perguntam.

Eddy é também pastor de ensino da Woodland Hills Church, fundada por Boyd em 1992, e faz parte da equipe executiva de pastores. Os dois dividem o escritório e por anos conduziram juntos noites de perguntas e respostas sobre céu e inferno, oração e textos difíceis.

Nas reuniões da Evangelical Theological Society, Eddy dividia quarto com Boyd e, por meio de John Sanders, conheceu Clark Pinnock, outros dois nomes centrais do teísmo aberto, a ideia de que o futuro das escolhas livres ainda não está definido nem para Deus. De 1994 a 2003 o assunto dominou a sociedade, até a votação sobre a permanência dos teístas abertos. Eddy discordou deles desde o primeiro dia, mas passou esses anos defendendo que a posição deles não era heresia.

The Jesus Legend

Em 2003, Eddy acompanhou Boyd a um debate na UCLA com Robert Price, membro do Jesus Seminar e defensor da tese de que Jesus nunca existiu. No voo de volta, decidiram escrever um livro curto e popular. A pesquisa levou Eddy aos estudos sobre culturas orais, e o projeto virou uma obra acadêmica de mais de quatrocentas páginas, que levou quatro anos. The Jesus Legend (2007) sustenta que a tese do Jesus lendário depende da premissa de que eventos sobrenaturais não acontecem e que, sem ela, há boas razões para confiar no retrato dos Evangelhos sinóticos, transmitido por uma tradição oral mais estável do que os céticos supunham. O livro recebeu o prêmio da Christianity Today em estudos bíblicos (2008). Richard Bauckham o chamou de um dos livros mais importantes sobre método nos estudos dos Evangelhos, e Craig Keener e Craig Blomberg o recomendaram. A versão popular, Lord or Legend?, saiu no mesmo ano.

Os livros de muitas vozes

Com o colega James K. Beilby, Eddy organizou seis volumes em que cada autor defende uma posição e os outros respondem: sobre a presciência divina (2001), com o teísmo aberto de Boyd, a presciência simples de David Hunt, o conhecimento médio de William Lane Craig e a visão calvinista de Paul Helm; sobre a expiação (2006), com Bruce Reichenbach; sobre o Jesus histórico (2009), com James D. G. Dunn e John Dominic Crossan; sobre a justificação (2011), a batalha espiritual (2012) e as identidades transgênero (2019). Com Boyd escreveu Across the Spectrum (2002; novas edições em 2009 e 2022), que apresenta dezoito debates evangélicos, entre eles calvinismo e arminianismo e a segurança eterna, sem que os autores tomem partido.

Em 2009, no Scottish Journal of Theology, estudou a velha acusação de que Agostinho teria guardado restos do maniqueísmo, a seita dualista que frequentou por cerca de dez anos, acusação levantada por Juliano de Eclano e retomada no último século. Na última década, dedicou-se sobretudo à teologia da sexualidade.

Pensamento

Um arminiano da presciência simples

Eddy se declara arminiano porque crê no livre-arbítrio libertário: a decisão humana não é determinada de antemão por nenhuma causa, nem por um decreto de Deus. Sobre a diferença com Boyd, resumiu: “a minha visão da presciência é tão arminiana quanto a de Greg, porque nós dois cremos no livre-arbítrio libertário” (podcast Biblically Speaking, 2025). É um arminiano evangélico: rejeita a eleição incondicional, defende a eleição condicional e afirma que Deus conhece todo o futuro, inclusive as escolhas livres.

Segundo ele, o calvinista tem uma explicação para a presciência, e o arminiano tem três: o teísmo aberto de Boyd, o conhecimento médio de Molina, defendido por Craig, e a presciência simples, que é a dele. Na presciência simples, Deus sabe o que vamos escolher porque vê a escolha, e não porque a decretou: é a escolha futura que dá a Deus esse conhecimento.

A divergência com Boyd, depois de 35 anos de conversa, está na relação de Deus com o tempo. Boyd entende que Deus caminha conosco do passado ao futuro e por isso conhece as possibilidades, mas não as escolhas ainda não feitas. Eddy defende uma atemporalidade relativa: Deus está acima do nosso tempo e vê a história inteira como um “presente espesso”, como quem vê do alto de uma montanha o carro que ainda vai fazer a curva. Ao contrário do Deus de Boécio, porém, ele não fica congelado fora do tempo: entra no nosso presente e conversa conosco nele. O debate com os teístas abertos o fez corrigir uma ideia antiga: se Deus vê tudo num só ato, não pode usar esse conhecimento para alterar o que vê. O mal nunca é ordenado por Deus; vem de vontades livres, humanas e angélicas, e por isso a batalha espiritual entra na explicação.

Contra o teísmo aberto, pesam para Eddy as profecias de escolhas livres feitas gerações antes, como a de Josias (1 Reis 13:2) e a de Ciro (Isaías 44:28). Mesmo assim, ele separa dogma de doutrina. Dogma é o cristianismo básico, no sentido do Cristianismo puro e simples de C. S. Lewis; a onisciência é dogma, mas a natureza do futuro nunca foi definida por credo ou concílio. Como Boyd afirma a onisciência, Eddy considera o teísmo aberto do amigo um erro, e não uma heresia.

Eleição e o amor de Deus

A resposta que Eddy encontrou para Romanos 9 é a eleição corporativa. Numa noite de perguntas em Woodland Hills, em 2008, explicou que no Antigo Testamento o eleito é Israel como povo, e não indivíduos escolhidos um a um, e que as fronteiras desse povo eram abertas: desde Gênesis 17 o estrangeiro podia entrar pela aliança, e quem a violava era “eliminado do seu povo”. No Novo Testamento, o povo eleito é a igreja, a noiva que o Pai predestinou para o Filho. Em Mateus 22:14, “muitos são chamados, mas poucos, escolhidos”, o convite é para todos, e os escolhidos são os que respondem e entram. Em 2025, Eddy acrescentou que a presciência simples também permite a outra leitura arminiana, a de que Deus elege pessoas por conhecer de antemão a fé delas. As duas leituras cabem no arminianismo; a corporativa é a de Brian Abasciano, e o tema é tratado em A eleição condicional em Cristo.

Eddy faz questão de expor o calvinismo pelo seu melhor argumento. Cita a fórmula de J. I. Packer, para quem Deus ama todos de algum modo e alguns de todos os modos, e a resposta de Jonathan Edwards a partir de Romanos 9:20-23. Mas diz que não consegue conciliar o amor agápe do Novo Testamento com um Deus que escolhe não salvar a maioria das pessoas. Agápe, na definição que ele usa, é o amor voltado para o outro, sacrificial e escolhido, que busca o maior bem do outro.

A aliança

Eddy lê a Bíblia a partir de seis alianças: a da criação (Gênesis 2), a de Noé (Gênesis 9), a de Abraão (Gênesis 12 a 22), a do Sinai, a de Davi (2 Samuel 7) e a nova aliança em Cristo, que cumpre as anteriores. Para ele, há dois modos de formar família, o nascimento e a promessa, e pela aliança Deus faz de criaturas filhos e de estranhos uma família, no casamento e na adoção. Em Gênesis 2:23-24 ele vê três marcas de aliança, e é a esse texto que Jesus volta em Marcos 10 e Mateus 19.

Em relação à fé deste site

A declaração de fé deste site rejeita o teísmo aberto e afirma que Deus conhece todo o futuro, e Eddy concorda; a diferença está no peso, porque ele não trata o teísmo aberto como heresia. O vocabulário dele vem da filosofia da religião e põe o livre-arbítrio libertário no centro. O arminianismo clássico começa pela graça preveniente: a vontade caída só fica livre para crer porque o Espírito Santo age antes nela, e a liberdade de responder já é dom da graça. As duas ênfases se completam. Ver também Presciência, eleição e predestinação.

Obras principais

  • “Religious Pluralism and the Divine: Another Look at John Hick’s Neo-Kantian Proposal”, Religious Studies 30, 1994.
  • Divine Foreknowledge: Four Views (org., com James K. Beilby), InterVarsity Press, 2001.
  • John Hick’s Pluralist Philosophy of World Religions, Ashgate, 2002 (reeditado pela Routledge em 2018).
  • Across the Spectrum: Understanding Issues in Evangelical Theology (com Gregory A. Boyd), Baker Academic, 2002; 2ª ed. 2009; 3ª ed. 2022.
  • The Nature of the Atonement: Four Views (org., com James K. Beilby), InterVarsity Press, 2006.
  • The Jesus Legend: A Case for the Historical Reliability of the Synoptic Jesus Tradition (com Gregory A. Boyd), Baker Academic, 2007.
  • Lord or Legend? Wrestling with the Jesus Dilemma (com Gregory A. Boyd), Baker Books, 2007.
  • The Historical Jesus: Five Views (org., com James K. Beilby), InterVarsity Press, 2009.
  • “Can a Leopard Change Its Spots? Augustine and the Crypto-Manichaeism Question”, Scottish Journal of Theology 62, 2009.
  • Justification: Five Views (org., com James K. Beilby), InterVarsity Press, 2011.
  • Understanding Spiritual Warfare: Four Views (org., com James K. Beilby), Baker Academic, 2012.
  • Understanding Transgender Identities: Four Views (org., com James K. Beilby), Baker Academic, 2019.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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