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R. Alan Streett: Do apelo no fim do sermão à Ceia que desafiava César
Neste texto
- Vida
- Baltimore, Washington e a estrada
- A crise do apelo
- Criswell College
- Um segundo doutorado depois dos sessenta
- Pensamento
- Onde ele fica no debate sobre o calvinismo
- O apelo na Bíblia e na história
- Resposta a Lloyd-Jones
- Diferenças com o arminianismo clássico
- O Reino como a grande história
- A Ceia, o batismo e os hinos diante de César
- O paranormal
- Obras principais
- Para aprofundar
Antes de ser pregador ou professor, Alan Streett era um jogador de beisebol com futuro. Uma lesão ameaçou o contrato profissional que ele esperava assinar, e o rapaz procurou ajuda com Olga Worrall, a curandeira psíquica cuja New Life Clinic, em Baltimore, atraía multidões. Foi ela quem lhe falou pela primeira vez de Edgar Cayce, o vidente americano. Desse encontro nasceu uma pergunta que o acompanhou por cinquenta anos: os fenômenos psíquicos são naturais ou sobrenaturais, vêm de Deus ou do diabo, são truque ou obra da mente inconsciente? A resposta saiu em 2024, num livro que ele chamou de “docudrama literário”. No meio do caminho, Streett foi evangelista itinerante, defensor do apelo público no fim do sermão e, por três décadas, professor da Criswell College, em Dallas.
Vida
Baltimore, Washington e a estrada
R. Alan Streett formou-se em psicologia pela Universidade de Baltimore em 1969 e concluiu em 1972 o mestrado em divindade, com ênfase em ministério pastoral e missões, no Wesley Theological Seminary, o seminário metodista de Washington.
Nas décadas de 1970 e 1980 pregou como evangelista itinerante em igrejas dos estados do Atlântico Médio, no leste dos Estados Unidos. Os sermões tratavam de justificação, redenção, reconciliação e regeneração e terminavam na cruz, como em Spurgeon. No fim, ele convidava os ouvintes a se arrepender, a crer somente em Cristo e a mostrar essa decisão vindo à frente, onde receberiam aconselhamento. Foi também pastor e plantador de igrejas.
A crise do apelo
Nessa época leu teólogos reformados que condenavam o apelo evangelístico como prática sem base bíblica. O conteúdo dos sermões continuou o mesmo, mas ele passou a temer o momento do convite, com medo de “acrescentar obras à fé”. Como fazia o doutorado em meio período, tomou o problema como tema da tese, O convite público: sua natureza, validade bíblica e praticabilidade. Depois de três anos de estudo concluiu que o apelo tem apoio nas Escrituras. Recebeu o doutorado em teologia pastoral da California Graduate School of Theology em 1982.
A versão popular da tese saiu em 1984 com o título The Effective Invitation (O convite eficaz), ganhou edição em espanhol em 1987 e foi revista e ampliada em 2004. Nas palavras do autor, tornou-se livro de texto padrão em cursos de evangelismo e de pregação. O calvinista inglês Errol Hulse respondeu com The Great Invitation (1986), em que chamou o apelo de “sacramento evangélico”. No mesmo período Streett escreveu sobre seitas em revistas do Exército de Salvação e, por encomenda de Billy Graham, preparou Panorama of Baltimore (1982), uma história religiosa da cidade para a campanha evangelística de Graham ali.
Criswell College
Em 1983 começou a ensinar na Criswell College, a escola teológica ligada à Primeira Igreja Batista de Dallas e então presidida por Paige Patterson. Ficou até 1988 e voltou em 1998, para não sair mais. Chefiou a área de evangelismo e mais tarde ocupou a cátedra W. A. Criswell de pregação expositiva. Entre 1998 e 2004 preparou para publicação os sermões de W. A. Criswell, e por dezoito anos ensinou a Bíblia, versículo por versículo, numa classe de escola dominical da Primeira Igreja Batista de Dallas.
De 2003 a 2012 editou a Criswell Theological Review, onde entrevistou protagonistas dos debates do momento: Darrell Bock e Norman Geisler sobre o teísmo aberto (2004), N. T. Wright e Martin Hengel sobre a nova perspectiva sobre Paulo (2005), Brian McLaren sobre a igreja emergente (2006). Para a Apologetics Study Bible (2008) escreveu as sessenta notas sobre os versículos que as seitas leem fora do sentido.
Um segundo doutorado depois dos sessenta
O primeiro doutorado veio quando ele tinha trinta e poucos anos; o segundo, depois dos sessenta. Na Universidade de Gales Trinity Saint David, no Reino Unido, orientado por William S. Campbell e Kathy Ehrensperger, defendeu em 2011 a tese A Ceia do Senhor como prática anti-imperial. No mesmo ano a Criswell o nomeou professor sênior de pesquisa, e a escrita virou o centro do trabalho: de segunda a sexta, das 9h às 12h30, revisando cada capítulo antes de começar o seguinte. Diz-se “maníaco por edição” e procura frases limpas, à maneira de Hemingway.
Em 2019, na reunião de Marburgo, na Alemanha, foi eleito para a Studiorum Novi Testamenti Societas, a sociedade internacional de estudos do Novo Testamento, que exige a indicação de dois membros e obra de nível internacional. Foi o primeiro professor da Criswell a entrar nela. Da primeira reunião a que foi como convidado, em Montreal, disse: “Fui apresentado a um nível de estudo que eu nunca tinha visto”. Em 2022 recebeu o título de emérito, e o presidente Barry Creamer disse que ele teve na escola “tanta influência positiva quanto qualquer outro em toda a sua história”.
Pensamento
Onde ele fica no debate sobre o calvinismo
Classe: simpatizante. Streett é batista do sul e não se apresenta como arminiano. Em 2010 escreveu o capítulo “O convite público e o calvinismo” em Whosoever Will (Quem quiser), a crítica ao calvinismo de cinco pontos organizada por David L. Allen e Steve Lemke, com Paige Patterson, Jerry Vines, Kenneth Keathley, Malcolm Yarnell, Jeremy Evans e Bruce Little. No mesmo livro, Allen o chama de “calvinista moderado”. Streett fala dos calvinistas na terceira pessoa e defende, contra o calvinismo estrito, que o chamado do evangelho é feito a todos, pode ser resistido (Atos 7:51) e pede resposta: “eles precisam escolher”. Rejeita, portanto, o calvinismo nos pontos centrais sem adotar o nome nem o sistema arminiano.
O apelo na Bíblia e na história
Para Streett, Deus sempre chamou o pecador a sair do esconderijo e a tomar posição em público: chamou Adão escondido entre as árvores (Gênesis 3:8-9), e Josué mandou o povo escolher a quem serviria (Josué 24:15). Jesus prometeu confessar diante do Pai quem o confessasse diante dos homens (Mateus 10:32), e Paulo liga a confissão com a boca à salvação (Romanos 10:9-10). Na igreja apostólica o convite público era o batismo: Pedro terminou o sermão de Pentecostes chamando ao arrependimento e ao batismo (Atos 2:38-41). Por isso Streett propõe que, havendo água, quem se arrepende seja chamado logo ao batismo. Sobre a ordenança, ver o batismo na Bíblia.
Contra a ideia de que o apelo foi inventado por Charles Finney, ele reúne exemplos. Os anabatistas, como Balthasar Hubmaier, chamavam os convertidos ao batismo de crentes. George Whitefield e Jonathan Edwards marcavam conversas depois do culto, e os metodistas de John Wesley chamavam à frente os que estavam sob convicção. Asahel Nettleton, o modelo dos críticos de Finney, mandava os interessados para uma sala de inquiridores, e Spurgeon os enviava às salas do subsolo do Tabernáculo Metropolitano. Streett pergunta que diferença há entre ir ao banco da frente e ir à sala de inquiridores, se nos dois casos o pecador sai do lugar para receber instrução.
Resposta a Lloyd-Jones
O capítulo responde às objeções de Martyn Lloyd-Jones em Pregação e pregadores (1971). Várias delas, diz Streett, atacam o abuso do apelo, como a pressão sobre a vontade e a manipulação emocional, e não o apelo. O pregador nunca deve coagir e precisa explicar que vir à frente não salva ninguém, porque é só a expressão exterior do arrependimento e da fé.
A objeção mais séria é a da incapacidade: o pecador está morto em delitos e pecados (Efésios 2:1). Streett responde que Deus usa a Palavra pregada para conceder o arrependimento e a fé (Atos 11:18; Romanos 10:17). Com Leighton Ford, lembra que Jesus mandou o homem da mão ressequida estender a mão e mandou Lázaro sair do túmulo, e os dois fizeram o que não podiam fazer. “Deus, e não o homem, ressuscita a alma.” Aos calvinistas propõe uma ponte nos termos deles: o apelo pertence ao chamado geral, feito a todos pelo pregador, e o chamado eficaz continua sendo obra do Espírito. E termina com uma pergunta: “Será que achamos que podemos melhorar o método do Novo Testamento de chamar as pessoas a Cristo?”
Diferenças com o arminianismo clássico
Streett põe a obra de Deus antes da resposta humana: é Deus quem concede arrependimento e fé e quem dá vida ao morto. Nesse ponto ele não cai no semipelagianismo, que deixa o pecador dar o primeiro passo. A sua linguagem difere da do arminianismo clássico em dois pontos. Primeiro, ele liga essa ação de Deus à Palavra pregada, enquanto Jacó Armínio e a nossa declaração de fé falam de uma graça preveniente que o Espírito dá a todas as pessoas, ordinariamente pela pregação, mas também antes e além dela (João 16:8; Tito 2:11). Segundo, ao defender o dever de responder ele escreve que “a responsabilidade pela salvação está com os ouvintes, e não com Deus”; o arminianismo clássico prefere dizer que a salvação é inteiramente obra de Deus, recebida pela fé que a própria graça torna possível.
O Reino como a grande história
A paixão declarada de Streett é o Reino de Deus. O blog dele se chama Already/Not Yet (Já/ainda não), a fórmula que resume a teologia do Reino de George Eldon Ladd. Em Heaven on Earth (2013) ele chama o Reino de “a grande narrativa de toda a Bíblia”. O evangelho do Reino trata de inteireza, e não só do resgate da alma: as curas de Jesus mostravam a chegada do Reino, e a salvação alcança a criação inteira. A igreja é a embaixada do governo de Deus na terra, e o individualismo americano, diz ele, combina mais com a democracia do que com a teologia do Reino. Ver também Reino de Deus e Igreja.
A Ceia, o batismo e os hinos diante de César
A tese de Gales virou Subversive Meals (2013). Streett parte de estudos que mostraram que a Ceia do Senhor, no primeiro século, era uma refeição completa, com os dois tempos do banquete romano: o deipnon, o jantar, e o symposion, a conversa, o canto e o brinde. Junta a isso a ideia de James C. Scott de “transcrição oculta”, a resistência que os oprimidos expressam longe dos olhos do poder. A conclusão é que os primeiros cristãos viam a refeição comum como resistência sem violência contra Roma: no symposion profetizavam, cantavam e erguiam um brinde a um homem que Roma tinha executado como criminoso.
Caesar and the Sacrament (2018), com prefácio de Walter Brueggemann, lê o batismo a partir do sacramentum, o juramento do soldado romano: batizar-se era jurar lealdade a outro rei. Songs of Resistance (2022) lê os hinos do Novo Testamento, inclusive os cânticos das narrativas do Natal, como canções de protesto que cantavam Jesus executado como inimigo do Estado e ressuscitado como Senhor do universo.
Streett chama a sua leitura de “descritiva, e não prescritiva”. A nossa declaração de fé lê a Ceia como memorial da morte de Cristo até que ele venha (1 Coríntios 11:26) e o batismo como união com Cristo na morte e na ressurreição (Romanos 6:3-4); a leitura de Streett acrescenta a esses sentidos a lealdade a Cristo diante dos poderes deste mundo. Ver os sacramentos: batismo e Ceia do Senhor.
O paranormal
Exploring the Paranormal (2024) é em parte memória e em parte ensino. Conta, por exemplo, a noite em que, numa roda de amigos, ouviu um homem em transe falar com a voz de um parente morto; tudo acontecia, diziam, “em nome de Jesus”, até que aquilo começou a lhe parecer estranho. O livro passa pelo mentalismo, pela diferença entre truque e capacidade psíquica, pela meditação, pelos estados alterados de consciência e pelos milagres, e termina com o encontro com Deus e a transformação. Joel B. Green recomendou-o para um mundo cada vez mais “espiritual, mas não religioso”.
Obras principais
- The Effective Invitation (Fleming H. Revell, 1984; edição revista, Kregel, 2004). Em espanhol: La invitación eficaz (Casa Bautista, 1987).
- “The Public Invitation and Calvinism”, em David L. Allen e Steve W. Lemke (orgs.), Whosoever Will (B&H Academic, 2010).
- Subversive Meals: An Analysis of the Lord’s Supper under Roman Domination during the First Century (Pickwick, 2013).
- Heaven on Earth: Experiencing the Kingdom of God in the Here and Now (Harvest House, 2013).
- Caesar and the Sacrament: Baptism: A Rite of Resistance (Cascade, 2018).
- Songs of Resistance: Challenging Caesar and Empire (Cascade, 2022).
- Exploring the Paranormal: Miracles, Magic, and the Mysterious (Eerdmans, 2024).
Para aprofundar
- Criswell College, “R. Alan Streett”, página do professor, com formação e bibliografia completa.
- Kendall Lyons, “Criswell College professor elected to New Testament society”, Criswell College (2019).
- Kendall Lyons, “Criswell College trustees approve budget, elect faculty, and endorse President’s bestowal of emeritus status”, Criswell College (2022).
- “The Theologist: R. Alan Streett on Writing and Publishing”, entrevista, Wipf and Stock (2023).
- David Moore, “Alan Streett: Heaven on Earth”, entrevista no blog Jesus Creed, de Scot McKnight (2013).
- Matthew W. Bates, “R. Alan Streett: Caesar and the Sacrament”, podcast OnScript (2020).
- R. Alan Streett, “The Public Invitation and Calvinism”, e David L. Allen, “The Atonement: Limited or Universal?”, em Whosoever Will (B&H Academic, 2010).
- R. Alan Streett, introdução de Subversive Meals, amostra da James Clarke (2016).
- Charles C. Bing, resenha de The Effective Invitation, Journal of the Grace Evangelical Society.
- “Meet This Book: Exploring the Paranormal”, EerdWord, Eerdmans (2024).
- John W. Morehead, “Alan Streett and his book Exploring the Paranormal”, podcast Multifaith Matters (2024).
- Marc Jolicoeur, “Alan Streett’s Exploring the Paranormal”, Jolly Thoughts.
- Brian Kaylor, “Alan Streett on Songs of Resistance”, podcast Dangerous Dogma, Word&Way (2022).
- Jeremy Myers, “Heaven on Earth by R. Alan Streett: a book review”, Redeeming God (2013).
- R. Alan Streett, Already/Not Yet, blog do autor.
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
- Biografia
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- Batistas