AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaTeólogos arminianos4 de 330

Ransom Dunn: O evangelista da fronteira que sustentou o Hillsdale College

Diego Gonçalves12 min de leitura2.476 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Neste texto

Em junho de 1837, um rapaz de dezoito anos desceu de um vapor em Conneaut, às margens do lago Erie, com um baú nas costas e uma dívida de oito dólares, o preço da viagem desde Vermont. Os irmãos de Ohio, escaldados com pregadores jovens e despreparados, o receberam com frieza. Ele foi trabalhar num milharal em troca de comida e esperou a reunião anual da região. Ali, sentado no último banco, levantou-se para falar, e os pastores pediram que pregasse o sermão daquela tarde. Em dois anos o “menino pregador” era o nome mais procurado para avivamentos no nordeste de Ohio. Mais tarde seria pastor em Boston, professor de teologia por décadas e o homem a quem a cidade de Hillsdale, em Michigan, atribuiu a existência do seu colégio.

Retrato de Ransom Dunn
Ransom Dunn na velhice, com a assinatura "Yours for the truth, R. Dunn". Frontispício de A Consecrated Life, de Helen Dunn Gates (1901). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Vermont: conversão e chamado

Ransom Dunn nasceu em 7 de julho de 1818, numa casa de toras perto de Bakersfield, no norte de Vermont, terceiro filho de John e Abigail Reed Dunn. Os quatro filhos homens viraram pregadores: Hiram foi metodista, Lewis foi batista, e o caçula, Thomas, foi evangelista e capelão. Quando Ransom era pequeno, Charles Bowles, pregador negro dos batistas do livre-arbítrio, hospedou-se na casa da família e, ao sair, pôs a mão na cabeça do menino e disse que ele estivesse pronto, porque o Senhor podia precisar dele.

A conversão veio em novembro de 1831, aos treze anos, num avivamento que a irmã Amanda e o cunhado Harry Montague começaram com reuniões de oração ao pôr do sol. Durante três anos ele não entrou em igreja nenhuma. Não aceitava o batismo de crianças das duas igrejas da vizinhança, e numa delas também rejeitava a predestinação que, nas palavras dele, tornava o arrependimento e a fé possíveis “só para os eleitos” e punha a regeneração antes de ambos. Em 1834 foi batizado por Perley Hall e entrou numa igreja de dez membros, sem templo e sem pastor, cuja doutrina concordava, para ele, com o Novo Testamento.

Pouco depois leu no Morning Star, o jornal da denominação, um artigo sobre as necessidades religiosas do vale do Mississippi e terminou a leitura convencido de que devia pregar no Oeste. Em 1835 o pai morreu, e a mãe e a fazenda ficaram por conta dele. Em setembro de 1836, a pedido da igreja, recebeu licença para pregar. Perguntado que prova sobrenatural tinha do chamado, respondeu que tinha “uma convicção profunda e firme de que é um dever” e cria que o Espírito Santo a produzia.

O menino pregador de Ohio

Com os treze dólares da herança do pai, partiu em 5 de junho de 1837. Em agosto, a pedido da igreja de Lenox, foi ordenado em Mecca, no condado de Trumbull. Seguiram-se avivamentos em LaFayette, onde organizou a primeira igreja, Westfield, Trumbull, Williamsfield e Wayne. Em 1838 dirigiu 365 reuniões e percorreu mais de três mil milhas. Em janeiro de 1839, em Cherry Valley, quatrocentas pessoas lotaram por oito dias o andar de cima de um galpão, e mais de cem foram batizadas. George H. Ball, convertido numa dessas campanhas e mais tarde presidente do Keuka College, avisou os seus alunos de que um avivamento vinha aí, porque “aquele Dunn é um tornado em pessoa”.

Em 1840 passou um semestre no seminário de New Hampton, em New Hampshire, estudando filosofia moral e teologia natural, até que a vista fraca o obrigou a parar. De volta a Ohio casou-se com Mary Eliza Allen e foi pastor de Cherry Valley por cinco anos. Em 1841 recebeu, com Samuel Philbrick e A. K. Moulton, a tarefa de abrir uma academia em Chester. Quando a assembleia de Ohio aprovou um estatuto que proibia alunos negros, Dunn se juntou aos que protestaram até conseguir um estatuto limpo. O Geauga Seminary abriu em 1842 e teve entre os alunos James A. Garfield, futuro presidente dos Estados Unidos.

Nova Inglaterra e Boston

Em 1843 foi o primeiro pastor da igreja da rua Washington, em Dover, New Hampshire. Depois de um ano em Chester, assumiu em 1845 a igreja de Great Falls, que estava em crise: o templo ficou aberto cento e cinco noites seguidas, e cerca de duzentas pessoas professaram a fé. Nesses anos foi secretário da sociedade de missões nacionais e, em 1845, presidente da sociedade antiescravagista da denominação.

Mary Eliza morreu de tuberculose em 4 de agosto de 1848, deixando três filhos pequenos. Numa viagem pelo Oeste, Dunn pisou pela primeira vez em terra escravista e escreveu que ali havia um poder que arrancava a imagem de Deus do seu lugar e a pisava no pó; em St. Louis, pregou numa igreja de negros. Em junho de 1849 assumiu a igreja de Boston, que começou com cinquenta e um ouvintes num salão e chegou a quatrocentos e oitenta. Em setembro casou-se com Cyrena Emery. Em março de 1850, a pedido da reunião trimestral de Boston, escreveu o Discurso sobre a liberdade da vontade. No outono o corpo cedeu, e seis médicos lhe disseram que o cérebro estava esgotado. Ele deixou o púlpito e saiu pelas cidades dando palestras de fisiologia para sustentar a família.

Hillsdale

Em janeiro de 1852 chegou a Spring Arbor, Michigan, para levantar fundos para o Michigan Central College, escola da denominação aberta a mulheres e a negros, e soube que tinha sido eleito professor de filosofia mental e moral. Logo se convenceu de que o colégio não sobreviveria numa vila sem ferrovia. Em janeiro de 1853, preso por uma nevasca, desviou para Hillsdale e reuniu à noite vinte comerciantes, banqueiros e advogados. Subiu num toco no alto de um pasto e disse que, se um dia houvesse um colégio batista do livre-arbítrio no Oeste, seria ali. Em menos de um mês a mudança estava decidida.

Pediram-lhe dez mil dólares das igrejas pobres do Illinois, do Wisconsin, de Iowa e de Minnesota. Contou que chorou nas primeiras dez milhas. Em dois anos voltou com mais de vinte mil, quase tudo em promessas de cem e de cinquenta dólares, e ao longo da vida acrescentou mais de cem mil ao fundo do colégio. Pelo caminho organizou igrejas e pregou contra a escravidão. O historiador de Hillsdale Arlan K. Gilbert o considera o principal responsável pela sobrevivência do colégio, numa época em que a maioria dos colégios fundados antes da Guerra Civil fechou.

A guerra levou os dois filhos para o exército da União. Newell morreu de febre tifoide em março de 1863, perto de Corinth, Mississippi. Também morreu na guerra o irmão Thomas, que morreu em Nova Orleans como superintendente das escolas para crianças negras. Em 1863 Dunn assumiu a recém-criada cátedra Burr de teologia e passou a dirigir o departamento teológico. Em 1865 e 1866 viajou pela Europa, pelo Egito e pela Palestina e representou a denominação na convenção dos batistas gerais da Grã-Bretanha. Outro colapso, em 1870, levou-o a uma fazenda em Nebraska. Em 1871 os curadores o chamaram de volta numa crise do colégio. O filho Wayland, professor em Hillsdale, morreu de tuberculose em 1874.

Em 1873 o Bates College lhe deu o título de doutor em teologia. Organizou o Rio Grande College, em Ohio, e foi o seu primeiro presidente (1876). Em 1883 presidiu a Conferência Geral da denominação, e em 1885 e 1886 foi presidente interino de Hillsdale. No inverno de 1889 para 1890 ditou a um estenógrafo as suas aulas de teologia, que a editora Morning Star juntou às de John Jay Butler num volume publicado em 1892. Cyrena morreu em 1896. Em junho de 1898 ele deixou a sala de aula, depois de quarenta e cinco anos no colégio, e recebeu um livro com cento e cinquenta cartas de ex-alunos. Quatro dias antes de morrer escreveu que tinha dedicado mais de cem casas de culto: “Meu único pesar é não ter feito mais. Mas Deus é misericordioso” (carta a T. J. Mawhorter, 5 de novembro de 1900). Morreu em Scranton, Pensilvânia, em 9 de novembro de 1900, e foi sepultado em Hillsdale.

Pensamento

Dunn pertence à linha dos batistas arminianos, chamados batistas do livre-arbítrio (Freewill Baptists), o movimento que Benjamin Randall começou em New Hampshire em 1780 contra a predestinação incondicional dos batistas calvinistas. A evidência vem dele mesmo: recusou na juventude a igreja que punha a regeneração antes da fé, e no Discurso de 1850 resumiu a “salvação livre” da sua igreja em três teses: a vontade é livre, a expiação é ilimitada e a eleição para a vida eterna é condicional.

A vontade contra o determinismo

No Discurso, Dunn se declara devedor de Jonathan Edwards, o adversário, e de Day, Asa Mahan e Henry Philip Tappan. A pergunta é se as volições são livres ou necessárias, e ele insiste que qualquer pessoa pode julgá-la, porque a prova está na própria consciência. Contra o argumento da presciência, distingue saber de causar: Deus conhece todas as coisas de modo imediato, e “as coisas são conhecidas não porque têm de ser, mas porque são”. Contra a distinção de Edwards entre capacidade natural e moral, responde que, se a necessidade é a mesma nas duas, “a responsabilidade moral não pode repousar sobre a capacidade natural”. O argumento mais forte é o do juízo: se Deus governa as volições por motivos que ele mesmo controla e depois as castiga, “podemos forçar a mão de uma criança nas chamas e depois puni-la pela sua tolice?”. O texto termina com doze objeções ao necessitarismo, entre elas a de que ele faz de Deus o autor do pecado, e com um apelo para que quem deseja ver o bêbado restaurado e o escravo livre pregue à vontade do homem.

O caminho é o mesmo de Daniel Whedon e de Albert Taylor Bledsoe, que também responderam a Edwards com a filosofia moral americana. E aqui está a principal distância entre Dunn e o arminianismo clássico. O Discurso abre com o princípio de que “a obrigação humana é exatamente proporcional à capacidade humana” e argumenta a partir da consciência, sem tratar da graça. Jacó Armínio fundava a capacidade de crer na graça que liberta uma vontade perdida, e não numa faculdade natural (ver Livre-arbítrio e graça: a vontade libertada). Dunn afirmava a queda: num artigo sobre avivamentos escreveu que Jesus atraía multidões só com “a verdade simples da depravação do homem e da oferta de misericórdia de Deus pela morte do seu Filho”, e em 1886 deu aos pastores de Nebraska aulas sobre a natureza humana e a depravação. Mas o vocabulário da capacidade, herdado da filosofia moral da Nova Inglaterra, pede ser lido junto com a doutrina da graça preveniente da declaração de fé deste site.

A expiação e o governo moral

No artigo “Expiação substitutiva”, Dunn parte da natureza e da sociedade, em que uns carregam o fardo dos outros (Gálatas 6:2). Deus é o legislador do universo, e a pena existe para impedir o mal moral. Por isso ela não precisa ser igual ao que o culpado merece: se o caráter do substituto torna o seu sofrimento tão eficaz contra o pecado quanto o castigo do culpado, “a lei e a justiça ficam satisfeitas, e o criminoso é perdoado”. Ele rejeita as teorias que fazem da cruz só exemplo ou influência moral, e põe duas condições para o perdão: o arrependimento, “o estado correto da mente em relação ao pecado”, e a fé, “o estado correto da mente em relação a Deus”.

É a leitura governamental da expiação, que remonta a Hugo Grócio e que muitos arminianos americanos do século XIX adotaram. Ela difere da satisfação penal substitutiva de Armínio e de Wesley, que o site professa, embora Dunn afirme que Cristo morreu como substituto e que o inocente sofreu pelo culpado.

Avivamento, chamado e reforma

Dunn defendia o avivamento com argumentos de bom senso: os erros religiosos raramente cedem só à lógica, e a maioria só se move quando o público se move. “Um homem pode fazer o seu próprio trabalho, mas não pode sozinho tripular um navio de guerra”, escreveu, contra o avivamento que espera tudo de um pregador. Sobre o ministério, ensinava que “a voz do povo com quem ele convive é em geral a voz de Deus” a respeito do chamado de um homem. Piedade e reforma andavam juntas: lutou contra a escravidão quando isso custava caro, trabalhou por escolas abertas a negros e a mulheres e dizia que o valor de um colégio se mede “pelo aumento de força mental e de força moral”. Os batistas do livre-arbítrio de hoje guardam a sua memória na comissão histórica da denominação, e a tradição continuou com teólogos como F. Leroy Forlines e Robert Picirilli, que deram ao arminianismo batista uma forma mais próxima da de Armínio.

Obras principais

  • A Discourse on the Freedom of the Will (Boston, 1850)
  • Lectures on Systematic Theology, com John Jay Butler (Boston: Morning Star, 1892)
  • Artigos e sermões reunidos em A Consecrated Life (1901), como “O poder da fé”, “Avivamentos”, “Expiação substitutiva” e “Bom senso e religião”

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

140pal/min