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Ransom Dunn: O evangelista da fronteira que sustentou o Hillsdale College
Em junho de 1837, um rapaz de dezoito anos desceu de um vapor em Conneaut, às margens do lago Erie, com um baú nas costas e uma dívida de oito dólares, o preço da viagem desde Vermont. Os irmãos de Ohio, escaldados com pregadores jovens e despreparados, o receberam com frieza. Ele foi trabalhar num milharal em troca de comida e esperou a reunião anual da região. Ali, sentado no último banco, levantou-se para falar, e os pastores pediram que pregasse o sermão daquela tarde. Em dois anos o “menino pregador” era o nome mais procurado para avivamentos no nordeste de Ohio. Mais tarde seria pastor em Boston, professor de teologia por décadas e o homem a quem a cidade de Hillsdale, em Michigan, atribuiu a existência do seu colégio.
Vida
Vermont: conversão e chamado
Ransom Dunn nasceu em 7 de julho de 1818, numa casa de toras perto de Bakersfield, no norte de Vermont, terceiro filho de John e Abigail Reed Dunn. Os quatro filhos homens viraram pregadores: Hiram foi metodista, Lewis foi batista, e o caçula, Thomas, foi evangelista e capelão. Quando Ransom era pequeno, Charles Bowles, pregador negro dos batistas do livre-arbítrio, hospedou-se na casa da família e, ao sair, pôs a mão na cabeça do menino e disse que ele estivesse pronto, porque o Senhor podia precisar dele.
A conversão veio em novembro de 1831, aos treze anos, num avivamento que a irmã Amanda e o cunhado Harry Montague começaram com reuniões de oração ao pôr do sol. Durante três anos ele não entrou em igreja nenhuma. Não aceitava o batismo de crianças das duas igrejas da vizinhança, e numa delas também rejeitava a predestinação que, nas palavras dele, tornava o arrependimento e a fé possíveis “só para os eleitos” e punha a regeneração antes de ambos. Em 1834 foi batizado por Perley Hall e entrou numa igreja de dez membros, sem templo e sem pastor, cuja doutrina concordava, para ele, com o Novo Testamento.
Pouco depois leu no Morning Star, o jornal da denominação, um artigo sobre as necessidades religiosas do vale do Mississippi e terminou a leitura convencido de que devia pregar no Oeste. Em 1835 o pai morreu, e a mãe e a fazenda ficaram por conta dele. Em setembro de 1836, a pedido da igreja, recebeu licença para pregar. Perguntado que prova sobrenatural tinha do chamado, respondeu que tinha “uma convicção profunda e firme de que é um dever” e cria que o Espírito Santo a produzia.
O menino pregador de Ohio
Com os treze dólares da herança do pai, partiu em 5 de junho de 1837. Em agosto, a pedido da igreja de Lenox, foi ordenado em Mecca, no condado de Trumbull. Seguiram-se avivamentos em LaFayette, onde organizou a primeira igreja, Westfield, Trumbull, Williamsfield e Wayne. Em 1838 dirigiu 365 reuniões e percorreu mais de três mil milhas. Em janeiro de 1839, em Cherry Valley, quatrocentas pessoas lotaram por oito dias o andar de cima de um galpão, e mais de cem foram batizadas. George H. Ball, convertido numa dessas campanhas e mais tarde presidente do Keuka College, avisou os seus alunos de que um avivamento vinha aí, porque “aquele Dunn é um tornado em pessoa”.
Em 1840 passou um semestre no seminário de New Hampton, em New Hampshire, estudando filosofia moral e teologia natural, até que a vista fraca o obrigou a parar. De volta a Ohio casou-se com Mary Eliza Allen e foi pastor de Cherry Valley por cinco anos. Em 1841 recebeu, com Samuel Philbrick e A. K. Moulton, a tarefa de abrir uma academia em Chester. Quando a assembleia de Ohio aprovou um estatuto que proibia alunos negros, Dunn se juntou aos que protestaram até conseguir um estatuto limpo. O Geauga Seminary abriu em 1842 e teve entre os alunos James A. Garfield, futuro presidente dos Estados Unidos.
Nova Inglaterra e Boston
Em 1843 foi o primeiro pastor da igreja da rua Washington, em Dover, New Hampshire. Depois de um ano em Chester, assumiu em 1845 a igreja de Great Falls, que estava em crise: o templo ficou aberto cento e cinco noites seguidas, e cerca de duzentas pessoas professaram a fé. Nesses anos foi secretário da sociedade de missões nacionais e, em 1845, presidente da sociedade antiescravagista da denominação.
Mary Eliza morreu de tuberculose em 4 de agosto de 1848, deixando três filhos pequenos. Numa viagem pelo Oeste, Dunn pisou pela primeira vez em terra escravista e escreveu que ali havia um poder que arrancava a imagem de Deus do seu lugar e a pisava no pó; em St. Louis, pregou numa igreja de negros. Em junho de 1849 assumiu a igreja de Boston, que começou com cinquenta e um ouvintes num salão e chegou a quatrocentos e oitenta. Em setembro casou-se com Cyrena Emery. Em março de 1850, a pedido da reunião trimestral de Boston, escreveu o Discurso sobre a liberdade da vontade. No outono o corpo cedeu, e seis médicos lhe disseram que o cérebro estava esgotado. Ele deixou o púlpito e saiu pelas cidades dando palestras de fisiologia para sustentar a família.
Hillsdale
Em janeiro de 1852 chegou a Spring Arbor, Michigan, para levantar fundos para o Michigan Central College, escola da denominação aberta a mulheres e a negros, e soube que tinha sido eleito professor de filosofia mental e moral. Logo se convenceu de que o colégio não sobreviveria numa vila sem ferrovia. Em janeiro de 1853, preso por uma nevasca, desviou para Hillsdale e reuniu à noite vinte comerciantes, banqueiros e advogados. Subiu num toco no alto de um pasto e disse que, se um dia houvesse um colégio batista do livre-arbítrio no Oeste, seria ali. Em menos de um mês a mudança estava decidida.
Pediram-lhe dez mil dólares das igrejas pobres do Illinois, do Wisconsin, de Iowa e de Minnesota. Contou que chorou nas primeiras dez milhas. Em dois anos voltou com mais de vinte mil, quase tudo em promessas de cem e de cinquenta dólares, e ao longo da vida acrescentou mais de cem mil ao fundo do colégio. Pelo caminho organizou igrejas e pregou contra a escravidão. O historiador de Hillsdale Arlan K. Gilbert o considera o principal responsável pela sobrevivência do colégio, numa época em que a maioria dos colégios fundados antes da Guerra Civil fechou.
A guerra levou os dois filhos para o exército da União. Newell morreu de febre tifoide em março de 1863, perto de Corinth, Mississippi. Também morreu na guerra o irmão Thomas, que morreu em Nova Orleans como superintendente das escolas para crianças negras. Em 1863 Dunn assumiu a recém-criada cátedra Burr de teologia e passou a dirigir o departamento teológico. Em 1865 e 1866 viajou pela Europa, pelo Egito e pela Palestina e representou a denominação na convenção dos batistas gerais da Grã-Bretanha. Outro colapso, em 1870, levou-o a uma fazenda em Nebraska. Em 1871 os curadores o chamaram de volta numa crise do colégio. O filho Wayland, professor em Hillsdale, morreu de tuberculose em 1874.
Em 1873 o Bates College lhe deu o título de doutor em teologia. Organizou o Rio Grande College, em Ohio, e foi o seu primeiro presidente (1876). Em 1883 presidiu a Conferência Geral da denominação, e em 1885 e 1886 foi presidente interino de Hillsdale. No inverno de 1889 para 1890 ditou a um estenógrafo as suas aulas de teologia, que a editora Morning Star juntou às de John Jay Butler num volume publicado em 1892. Cyrena morreu em 1896. Em junho de 1898 ele deixou a sala de aula, depois de quarenta e cinco anos no colégio, e recebeu um livro com cento e cinquenta cartas de ex-alunos. Quatro dias antes de morrer escreveu que tinha dedicado mais de cem casas de culto: “Meu único pesar é não ter feito mais. Mas Deus é misericordioso” (carta a T. J. Mawhorter, 5 de novembro de 1900). Morreu em Scranton, Pensilvânia, em 9 de novembro de 1900, e foi sepultado em Hillsdale.
Pensamento
Dunn pertence à linha dos batistas arminianos, chamados batistas do livre-arbítrio (Freewill Baptists), o movimento que Benjamin Randall começou em New Hampshire em 1780 contra a predestinação incondicional dos batistas calvinistas. A evidência vem dele mesmo: recusou na juventude a igreja que punha a regeneração antes da fé, e no Discurso de 1850 resumiu a “salvação livre” da sua igreja em três teses: a vontade é livre, a expiação é ilimitada e a eleição para a vida eterna é condicional.
A vontade contra o determinismo
No Discurso, Dunn se declara devedor de Jonathan Edwards, o adversário, e de Day, Asa Mahan e Henry Philip Tappan. A pergunta é se as volições são livres ou necessárias, e ele insiste que qualquer pessoa pode julgá-la, porque a prova está na própria consciência. Contra o argumento da presciência, distingue saber de causar: Deus conhece todas as coisas de modo imediato, e “as coisas são conhecidas não porque têm de ser, mas porque são”. Contra a distinção de Edwards entre capacidade natural e moral, responde que, se a necessidade é a mesma nas duas, “a responsabilidade moral não pode repousar sobre a capacidade natural”. O argumento mais forte é o do juízo: se Deus governa as volições por motivos que ele mesmo controla e depois as castiga, “podemos forçar a mão de uma criança nas chamas e depois puni-la pela sua tolice?”. O texto termina com doze objeções ao necessitarismo, entre elas a de que ele faz de Deus o autor do pecado, e com um apelo para que quem deseja ver o bêbado restaurado e o escravo livre pregue à vontade do homem.
O caminho é o mesmo de Daniel Whedon e de Albert Taylor Bledsoe, que também responderam a Edwards com a filosofia moral americana. E aqui está a principal distância entre Dunn e o arminianismo clássico. O Discurso abre com o princípio de que “a obrigação humana é exatamente proporcional à capacidade humana” e argumenta a partir da consciência, sem tratar da graça. Jacó Armínio fundava a capacidade de crer na graça que liberta uma vontade perdida, e não numa faculdade natural (ver Livre-arbítrio e graça: a vontade libertada). Dunn afirmava a queda: num artigo sobre avivamentos escreveu que Jesus atraía multidões só com “a verdade simples da depravação do homem e da oferta de misericórdia de Deus pela morte do seu Filho”, e em 1886 deu aos pastores de Nebraska aulas sobre a natureza humana e a depravação. Mas o vocabulário da capacidade, herdado da filosofia moral da Nova Inglaterra, pede ser lido junto com a doutrina da graça preveniente da declaração de fé deste site.
A expiação e o governo moral
No artigo “Expiação substitutiva”, Dunn parte da natureza e da sociedade, em que uns carregam o fardo dos outros (Gálatas 6:2). Deus é o legislador do universo, e a pena existe para impedir o mal moral. Por isso ela não precisa ser igual ao que o culpado merece: se o caráter do substituto torna o seu sofrimento tão eficaz contra o pecado quanto o castigo do culpado, “a lei e a justiça ficam satisfeitas, e o criminoso é perdoado”. Ele rejeita as teorias que fazem da cruz só exemplo ou influência moral, e põe duas condições para o perdão: o arrependimento, “o estado correto da mente em relação ao pecado”, e a fé, “o estado correto da mente em relação a Deus”.
É a leitura governamental da expiação, que remonta a Hugo Grócio e que muitos arminianos americanos do século XIX adotaram. Ela difere da satisfação penal substitutiva de Armínio e de Wesley, que o site professa, embora Dunn afirme que Cristo morreu como substituto e que o inocente sofreu pelo culpado.
Avivamento, chamado e reforma
Dunn defendia o avivamento com argumentos de bom senso: os erros religiosos raramente cedem só à lógica, e a maioria só se move quando o público se move. “Um homem pode fazer o seu próprio trabalho, mas não pode sozinho tripular um navio de guerra”, escreveu, contra o avivamento que espera tudo de um pregador. Sobre o ministério, ensinava que “a voz do povo com quem ele convive é em geral a voz de Deus” a respeito do chamado de um homem. Piedade e reforma andavam juntas: lutou contra a escravidão quando isso custava caro, trabalhou por escolas abertas a negros e a mulheres e dizia que o valor de um colégio se mede “pelo aumento de força mental e de força moral”. Os batistas do livre-arbítrio de hoje guardam a sua memória na comissão histórica da denominação, e a tradição continuou com teólogos como F. Leroy Forlines e Robert Picirilli, que deram ao arminianismo batista uma forma mais próxima da de Armínio.
Obras principais
- A Discourse on the Freedom of the Will (Boston, 1850)
- Lectures on Systematic Theology, com John Jay Butler (Boston: Morning Star, 1892)
- Artigos e sermões reunidos em A Consecrated Life (1901), como “O poder da fé”, “Avivamentos”, “Expiação substitutiva” e “Bom senso e religião”
Para aprofundar
- Ransom Dunn, A Discourse on the Freedom of the Will (Boston, 1850), Society of Evangelical Arminians.
- John Jay Butler e Ransom Dunn, Lectures on Systematic Theology (Boston: Morning Star, 1892), Google Livros.
- Helen Dunn Gates, A Consecrated Life: A Sketch of the Life and Labors of Rev. Ransom Dunn, D. D., 1818-1900 (Boston: Morning Star Publishing House, 1901), Internet Archive.
- G. A. Burgess e J. T. Ward (orgs.), Free Baptist Cyclopaedia (1889), verbete “Dunn, Rev. Ransom, D. D.”, Internet Archive.
- “Dunn, Ransom”, The New Schaff-Herzog Encyclopedia of Religious Knowledge, vol. 4, CCEL.
- Steve Hasty, “The Whirlwind Evangelist”, Free Will Baptist Historical Commission.
- John Taylor, “Hillsdale History: Ransom Dunn, The Grand Old Man of Hillsdale”, Hillsdale College.
- Arlan K. Gilbert, “Hillsdale College and Imprimis”, Imprimis 36, n. 6 (junho de 2007).
- Ransom Dunn, Wikipédia (en).
Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.
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