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HistóriaTeólogos arminianos14 de 330

Petrus Bertius: o amigo de Armínio que escreveu sobre a apostasia dos santos

Diego Gonçalves14 min de leitura2.771 palavras

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Neste texto

Em 22 de outubro de 1609, três dias depois da morte de Jacó Armínio, um professor de Leiden subiu à cátedra do auditório de teologia para falar dele em latim. Contou que o pai dele, pastor em Roterdã, tinha recebido em casa um rapaz órfão chamado Jacob Hermanszoon, refugiado do massacre de Oudewater, e que os dois meninos tinham sido mandados juntos para a universidade recém-fundada. Desde então, disse, houve entre eles uma grande intimidade e amizade. Terminou com as palavras de 1 João 4:7: “Amados, amemo-nos uns aos outros”. O orador era Petrus Bertius. A oração dele se tornou a principal fonte sobre a juventude de Armínio, abriu uma polêmica com Francisco Gomaro e foi o primeiro passo de uma carreira teológica que terminaria, onze anos depois, fora das igrejas protestantes.

Retrato de Petrus Bertius
Retrato de Petrus Bertius, grisalha de Arnoud van Halen a partir de gravura de Willem van Swanenburg, entre 1700 e 1732. Rijksmuseum, domínio público (CC0), via Wikimedia Commons.

Vida

Exílio, Londres e Leiden

Pieter de Bert, que assinava em latim Petrus Bertius, nasceu em Beveren, em Flandres, em 14 de novembro de 1565. O pai, também chamado Petrus Bertius, tinha abraçado a fé reformada e, quando o menino tinha dois ou três anos, fugiu da perseguição com a família para a Inglaterra. Aos sete anos, num subúrbio de Londres, o menino estudou latim, grego e francês com Christiaan de Rijck, e aprendeu escrita e música com uma jovem muito culta, Pieternella Lansberg.

O pai voltou aos Países Baixos e foi um dos primeiros pregadores reformados de Roterdã. Ele mesmo só aprendeu latim depois dos trinta anos, como o filho contaria na oração fúnebre. Em Roterdã recebeu em casa o jovem Armínio, sem pai e sem família depois do saque de Oudewater, e, quando o príncipe de Orange abriu a Universidade de Leiden, chamou o filho de volta da Inglaterra, aos doze anos, e mandou os dois rapazes juntos para lá. Bertius estudou hebraico, letras com Justus Lipsius e Bonaventura Vulcanius, e teologia com Lambert Daneau e Guillaume Feugueray.

Professor de escola em escola

Em 1582, aos dezessete anos, começou a ensinar: três meses em Antuérpia, oito em Ostende, um ano em Middelburg e cinco em Goes, onde abriu com o pai uma escola latina. Em 10 de fevereiro de 1589 matriculou-se de novo em Leiden, sem pagar taxas, e em 31 de março de 1590 defendeu teses sobre o pecado original. Em 1591 acompanhou Lipsius à Alemanha, passou por Heidelberg e deu aulas particulares em Estrasburgo, até que, em 1592, os curadores de Leiden o chamaram de volta.

O Colégio dos Estados

Em 1593 Bertius foi nomeado sub-regente do Colégio dos Estados (Statencollege), a casa onde os Estados da Holanda sustentavam os estudantes que se preparavam para o ministério reformado. Recebeu também a biblioteca da universidade, organizou os livros por matérias e publicou em 1595 o Nomenclator, o primeiro catálogo impresso da biblioteca de Leiden.

Em 1594, um bolsista castigado pelo sub-regente na ausência do regente provocou uma revolta no colégio, e um oficial de justiça morreu no tumulto. Depois disso, por sugestão de Bertius, Johannes Kuchlinus passou a dirigir a casa. Em 1596 Bertius casou-se com Maritgen, filha de Kuchlinus, com quem teve seis filhos, e em 1606, com a morte do sogro, assumiu a regência, contra a própria vontade.

Nesses anos Bertius pronunciou na universidade os discursos fúnebres do humanista Janus Dousa (1604) e do teólogo Lucas Trelcatius (1607). E começou a obra de geógrafo. Em 1600 publicou as Tabulae contractae, versão latina de um atlas de bolso holandês, o Caert-Thresoor, com descrições que ele mesmo acrescentou. O atlas foi reeditado em 1602-1603, 1606 e 1616.

O amigo de Armínio

Armínio chegou a Leiden como professor em 1603, e Bertius ficou do lado dele na controvérsia sobre a predestinação. A oração fúnebre de 1609 saiu impressa no mesmo ano, em latim e em tradução holandesa, e mais tarde acompanhou a segunda edição das Disputationes de Armínio (1614).

Gomaro se sentiu atingido pelo discurso e publicou as suas Bedencken (considerações) sobre ele. Bertius respondeu em 1610 com a Aen-spraeck (Discurso a Gomaro) e, depois da réplica de Gomaro, com a Schouwe. Os versos de Hugo Grócio para Armínio saíram com a oração, cheios de erros de impressão, e em 21 de dezembro de 1609 Bertius escreveu a Grócio para se desculpar e oferecer uma correção.

Em 14 de janeiro de 1610 Bertius esteve na reunião de Gouda, onde os seguidores de Armínio prepararam a Remonstrância, redigida por Johannes Wtenbogaert. Seis anos depois traduziu para o latim os documentos da conferência de Haia de 1611, e com eles o texto da Remonstrância, nos Scripta adversaria collationis Hagiensis (Leiden, 1616).

Em 1612 saiu em Delft a correspondência dele com Sibrandus Lubbertus, professor em Franeker, sobre a fé que justifica. Em 1613 publicou a troca de cartas entre Armínio e Franciscus Junius sobre a predestinação, a Amica collatio, com um prefácio contra o teólogo alemão Johannes Piscator, e em 1614 respondeu à réplica de Piscator com o Apologeticus.

O livro proibido

O livro que mais lhe custou foi o Hymenaeus desertor, “Himeneu, o desertor”. O título lembra Himeneu, que Paulo cita entre os que naufragaram na fé (1 Timóteo 1:19-20). Os próprios remonstrantes aconselharam Bertius a não publicá-lo. Ele publicou assim mesmo, com uma edição latina datada de Frankfurt em 1612 e uma tradução holandesa em 1613. Os Estados e o advogado Oldenbarnevelt ficaram descontentes. Bertius mandou um exemplar ao arcebispo de Cantuária, com uma carta em que afirmava que a doutrina do livro concordava com a da Igreja da Inglaterra. O rei Jaime I respondeu na sua declaração contra Conrad Vorstius (1612): bastava o título do livro “para o fazer digno do fogo”. Por meio do embaixador Ralph Winwood, pediu que o livro fosse queimado.

Em 1614 Bertius deixou a regência do colégio, onde foi sucedido por Gerardus Vossius, e passou a professor de ética. Ensinava uma ética filosófica, comentando Aristóteles. Em 1618, quando o país caminhava para o Sínodo de Dort, publicou um poema em versos iâmbicos sobre a “amável concórdia da igreja”.

Dort, Paris e Roma

Depois de Dort (1618-1619), que condenou os remonstrantes, Bertius foi afastado da cátedra e proibido de dar aulas em casa. Em 1619 um sínodo em Leiden lhe negou a Ceia. Com mulher e muitos filhos, pediu ajuda aos Estados da Holanda e não recebeu.

A saída veio pela geografia. Em 1618-1619 saiu em Amsterdã, pela casa Hondius, o Theatrum geographiae veteris, edição da Geografia de Ptolomeu em grego e latim, com os mapas de Gerardus Mercator, as tábuas de geografia antiga de Abraham Ortelius e a Tábua de Peutinger. O livro agradou ao rei Luís XIII, que o nomeou cosmógrafo real, com uma pensão ligada à tarefa de descrever a França. Bertius foi para Paris. Lá os pastores reformados se recusaram a admiti-lo à comunhão, e a Sorbonne ofereceu-lhe uma cátedra se ele se tornasse católico. Em 25 de junho de 1620 Bertius foi recebido na Igreja Católica. O embaixador holandês e o pastor reformado Pierre du Moulin tentaram demovê-lo, sem resultado. Em 20 de outubro foi nomeado professor de retórica no colégio de Boncourt e publicou um discurso sobre a sua passagem. Na Páscoa de 1621 foi excomungado publicamente pela igreja de Leiden, e no mesmo ano a mulher e os filhos também se tornaram católicos. Quatro dos filhos seguiram a vida religiosa.

Na Holanda, um panfleto satírico de 1620 zombou do autor do livro sobre a apostasia dos santos, apresentado como o apóstata que ele mesmo descrevera. Em Paris, em 1622, Luís XIII criou para ele uma cátedra de matemática no Colégio Real e deu-lhe o título de historiógrafo do rei. Os últimos livros foram de geografia: uma descrição dos bispados da França (1625), um Breviarium do mundo e um tratado sobre diques e pontes (1629). Morreu em Paris em 13 de outubro de 1629. O lema dele era Unum expetii a Domino, “uma coisa pedi ao Senhor” (Salmos 27:4).

Pensamento

Nos anos de Leiden, Bertius foi arminiano clássico, da linha remonstrante. Estudou e viveu com Armínio, defendeu-o contra Gomaro, esteve na reunião que preparou a Remonstrância e verteu para o latim o texto dela. A conversão de 1620 o levou para fora da tradição reformada, e a obra que o põe na história do arminianismo é a que ele escreveu antes dela.

O justo pode abandonar a sua justiça

O Hymenaeus desertor discute “dois problemas”, que Bertius formula na folha de rosto: se é possível que o justo abandone a sua justiça, e se a justiça abandonada era verdadeira. No prefácio ele conta como chegou ao tema. Havia em Leiden quem quisesse que ninguém fosse admitido ao ministério sem afirmar três coisas: que a graça é dada só aos predestinados por um decreto absoluto e incondicional, que é dada de modo irresistível, e que não pode ser perdida. Sondado sobre isso, Bertius disse o que pensava e logo se viu despido de todas as honras. Agradece a Cristo por ter sofrido algo pelo seu nome e conta que a perda o levou a estudar de novo toda a Escritura.

A tese do livro é a perseverança condicional: o crente persevera enquanto permanece em Cristo pela fé, e que essa fé pode ser abandonada. Bertius a apoia em Ezequiel 18:24 e 33:13, e lembra que a frase “o justo pode abandonar a sua justiça” não tem nada de nova, porque é do profeta. O livro se organiza em axiomas: os santos devem perseverar, podem perseverar, só os que perseveram são salvos e a perseverança na fé é dom de Deus. Bertius não faz da perseverança uma conquista humana: ela vem de Deus, e quem cai abandona o dom.

A objeção mais comum era que a doutrina tirava a certeza da salvação. Bertius responde com uma imagem de família: o filho tem certeza da herança do pai, embora possa, por culpa sua, merecer ser deserdado. E distingue duas perseveranças. A que se apoia num decreto incondicional de eleição e reprovação ele diz querer derrubar, porque contraria a Palavra e tira das pessoas todo cuidado com a salvação. A que Deus exige e os santos praticam segundo o evangelho é justamente a que o livro defende. Os adversários, observa, toleravam divergência sobre a eleição, mas não sobre esse ponto, porque viam nele “a proa e a popa da nossa salvação”.

Aqui Bertius foi além de Armínio. Na Declaração de Sentimentos, Armínio deixou a questão da apostasia em aberto, e o quinto artigo da Remonstrância pediu que ela fosse examinada nas Escrituras. Bertius afirmou com todas as letras a possibilidade da queda, posição que Simão Episcópio e a Confissão Remonstrante (1621) adotariam depois e que John Wesley ensinaria no século seguinte. É também a posição da declaração de fé deste site, que fala de uma perseverança condicional e da apostasia como abandono da fé (veja perseverança e apostasia na teologia arminiana).

Contra Pelágio, com os antigos

Os adversários acusaram Bertius de semipelagianismo, isto é, de pôr no homem o primeiro passo da salvação. O livro mostra outra coisa. Bertius aceita a condenação de Pelágio pelos concílios africanos de Cartago e Mileve e enumera, um por um, os erros condenados ali, como a ideia de que a graça é dada segundo os nossos méritos ou de que a vitória sobre o pecado vem do livre-arbítrio e não da ajuda de Deus. Depois observa que nenhum desses cânones fala de um decreto incondicional de eleição nem de uma perseverança garantida por ele. Para Bertius, nenhum autor latino antes de Agostinho tinha posto em dúvida a possibilidade da apostasia, e o próprio Agostinho só chegou à tese ao combater Pelágio. Por isso reúne testemunhos dos Pais, de Justino a Bernardo, e das confissões luteranas e reformadas, e dedica o livro às igrejas da Hungria, da Boêmia, da Dinamarca, da Polônia e da Suécia.

A fé e a justificação

Na correspondência com Lubbertus (1612), a pergunta era se Deus conta a própria fé, o ato de crer, como justiça, no sentido próprio das palavras de Romanos 4:3-5. Bertius dizia que sim; Lubbertus negava e tratava a tese como abominável. Armínio usava a mesma linguagem. A declaração de fé deste site afirma a justificação somente pela fé, pela imputação da justiça de Cristo, e prefere dizer que a fé recebe Cristo, sem contribuir com nada para a salvação.

Concórdia e método

A oração fúnebre mostra o que Bertius admirava. Armínio, conta ele, raramente falava da divisão dos cristãos sem lágrimas, desejava que os membros dispersos de Cristo crescessem juntos num só corpo e achava que as divisões se curavam com oração, instrução pacífica e o exemplo de uma vida santa, e não matando uns aos outros. Perto do fim, o discurso traz um elogio: Armínio era um holandês que quem o conheceu não pôde estimar o bastante, e quem não o estimou nunca o conheceu de verdade. O mesmo tema volta no poema de 1618 sobre a concórdia da igreja.

Bertius também queria método. No prefácio do Apologeticus lamentou que tivesse decaído o antigo costume de disputar “digno dos filósofos”, e no Hymenaeus diz que voltou à Escritura com a ajuda da lógica, escrevendo em axiomas e demonstrações.

Obras principais

  • Nomenclator autorum omnium (catálogo da biblioteca de Leiden, Leiden, 1595).
  • Tabularum geographicarum contractarum libri (Amsterdã, 1600; edições ampliadas em 1602-1603, 1606 e 1616).
  • Oratio in obitum reverendi et clarissimi viri D. Iacobi Arminii (Leiden, 1609; tradução holandesa, 1609; inglesa, Londres, 1672).
  • Aen-spraeck aen D. Fr. Gomarum e Schouwe over Gomari proeve (Leiden, 1610).
  • Theoremata de perseverantia sanctorum (Leiden, 1611).
  • Epistolica disceptatio de fide iustificante, com Sibrandus Lubbertus (Delft, 1612).
  • Hymenaeus desertor, sive de sanctorum apostasia problemata duo (Frankfurt, 1612; tradução holandesa, 1613; reedição ampliada, Leiden, 1651).
  • Apologeticus (Leiden, 1614).
  • Commentariorum rerum Germanicarum libri tres (Amsterdã, 1616).
  • Scripta adversaria collationis Hagiensis, tradução latina (Leiden, 1616).
  • De amabili ecclesiae concordia iambi (Leiden, 1618).
  • Theatrum geographiae veteris (Amsterdã, 1618-1619, 2 volumes).
  • Notitia chorographica episcopatuum Galliae (Paris, 1625).
  • Breviarium totius orbis terrarum (Paris, 1625; outras edições em 1629 e 1662).
  • De aggeribus et pontibus (Paris, 1629).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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