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Randal Rauser: O teólogo canadense que discute a fé com os ateus

Diego Gonçalves13 min de leitura2.560 palavras

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Neste texto

Em julho de 2011, um professor de teologia de Edmonton, no Canadá, publicou no seu blog uma pequena sátira. Nela, o prefeito de Genebra, a cidade de Calvino, decretava o “Dia do Orgulho Arminiano”, e os calvinistas da cidade ficavam indignados. A piada servia a um argumento sério. Os críticos repetem que o arminiano tem motivo para se orgulhar da própria salvação, porque foi ele quem escolheu crer. O professor respondeu que essa crítica esquece “essa coisinha chamada graça preveniente” (“The Day the Arminian Pride Parade Came to Geneva”, 2011). O autor era Randal Rauser, teólogo batista canadense e apologista conhecido pelos diálogos públicos com ateus.

Retrato de Randal Rauser
Randal Rauser num debate transmitido em 6 de janeiro de 2022. Imagem de Modern-Day Debate, CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Infância e formação

Randal D. Rauser nasceu em 1973, em Edmonton, na província de Alberta. Aos quatro anos mudou-se com a família para Kelowna, na Colúmbia Britânica, e cresceu no vale do Okanagan, onde viveu cerca de dezesseis anos. Nasceu num lar cristão e tornou-se seguidor de Jesus ainda criança. Em 2017, ao lançar um livro sobre a graça, escreveu que passou quarenta anos tentando entender o que há de tão confuso nela e que só agora as coisas começavam a fazer sentido.

Depois veio a região de Vancouver, onde passou uns seis anos e meio. Formou-se em 1996 na Trinity Western University, com distinção, numa dupla graduação em inglês e em estudos religiosos interculturais. Em 1999 concluiu o mestrado em estudos cristãos no Regent College, com uma dissertação sobre a Igreja Católica e a contracepção, orientada por Edwin Hui. Nesses anos, trabalhava como motorista de limusine.

Em 1999 foi para Londres fazer o doutorado no King’s College, com Colin Gunton, a quem chama de seu mentor teológico. Voltou ao Canadá em 2002, terminou a tese morando em Surrey e recebeu o título em 2003. A tese, Trinity, Mind and World: A Theological Epistemology of Mediation, juntava os dois interesses que marcariam a carreira dele: a doutrina da Trindade e a pergunta sobre como conhecemos a Deus.

Briercrest e Taylor

No ano letivo de 2002-2003 ensinou filosofia no Briercrest College, em Caronport, Saskatchewan, substituindo um professor em licença. Em 2003 voltou a Edmonton para ser professor de teologia histórica no Seminário Taylor, ligado aos batistas. Foi professor assistente até 2007 e depois professor associado. Ensinou apologética, história da Igreja e teologia sistemática, e orientou estudos sobre as Institutas de Calvino e a doutrina do inferno.

Em 2009 vieram os seus trabalhos acadêmicos mais importantes: Theology in Search of Foundations, pela Oxford University Press, e o capítulo “Theology as a Bull Session” no volume Analytic Theology, organizado por Oliver Crisp e Michael Rea, marco da teologia analítica, feita com as ferramentas da filosofia analítica.

O “apologista tentativo”

Ao mesmo tempo, Rauser se voltou para o público comum. Entre 2009 e 2011 manteve um blog no Christian Post com o nome de “The Tentative Apologist”, o apologista tentativo, nome que passou para o seu site e o seu podcast. A palavra diz muito do estilo dele: defender a fé admitindo as dificuldades. O próprio site descreve o projeto como um pensamento cristão “progressivamente evangélico, generosamente ortodoxo, rigorosamente analítico”.

O livro que o tornou conhecido fora da academia foi Finding God in the Shack (2009), um guia de conversa sobre o romance A Cabana, de William Paul Young, que responde às críticas de Chuck Colson e de Albert Mohler ao livro. A obra saiu no Brasil pela Planeta. Seguiu-se The Swedish Atheist, the Scuba Diver and Other Apologetic Rabbit Trails (2012), pela InterVarsity, uma conversa de uma tarde num café entre Randal e um ateu chamado Sheridan.

A conversa com ateus virou marca dele. Escreveu com John W. Loftus, ex-pastor e polemista ateu, God or Godless? (2013), com vinte debates curtos, e com Justin Schieber An Atheist and a Christian Walk into a Bar (2016). Debateu em rádio, em podcasts e em canais de vídeo, como o programa Unbelievable?, da rádio Premier.

Investigações e livros recentes

Depois de cerca de vinte anos, deixou o seminário. Em março de 2024 já assinava como ex-professor e diretor de investigações em organizações religiosas da Veritas Solutions, empresa canadense que investiga denúncias de assédio e abuso. Num artigo escrito com Bob Stenhouse, fundador da empresa, afirmou que “na raiz, o abuso tem a ver com poder” (“Disabusing the Church”, Faith Today, 2024). Os dois publicaram em 2025 Disabuse, manual sobre abusos em igrejas.

Os livros dos últimos anos, vários deles pela 2 Cup Press, mostram um autor cada vez mais ligado ao cristianismo progressista: Jesus Loves Canaanites (2021), Progressive Christians Love Jesus Too (2022), resposta a Another Gospel?, de Alisa Childers, The Doubters’ Creed (2023) e, em outubro de 2025, o seu 18º livro, The Wideness of the Sea: How to be Evangelical and Gay Affirming. Em 6 de junho de 2026 apresentou os temas desse livro na Rushton Lecture da Canadian Association for Baptist Freedoms, em Port Williams, na Nova Escócia.

Pensamento

Onde ele fica no arminianismo

Rauser é um simpatizante do arminianismo, e não um arminiano clássico. Quando trata da eleição, argumenta do lado arminiano: rejeita a eleição incondicional, defende que o amor de Deus alcança todas as pessoas e recorre à graça preveniente para responder às críticas calvinistas. A Society of Evangelical Arminians reproduziu vários desses textos entre os de autores arminianos. Mas o rótulo que Rauser escolhe para si é o de evangélico progressista e de ortodoxia generosa, e em pontos centrais (a autoridade da Escritura, o destino final dos perdidos, a expiação) ele se afasta do arminianismo clássico de Jacó Armínio e de John Wesley, como veremos.

A eleição e o amor de Deus

O argumento central de Rauser contra o calvinismo é sobre o amor. Em “Calvinism and the Arbitrary Camp Director” (2011), ele imagina um acampamento para jovens problemáticos cujo diretor castiga alguns com chicote, por pura retribuição, e restaura outros com carinho. Nada separa os dois grupos: o diretor escolhe ao acaso. Para Rauser, o mesmo vale para a eleição incondicional, porque nela a concessão do amor eletivo de Deus a algumas criaturas e não a outras é “inteiramente arbitrária”. Em “Tigers, Tabbys, and God’s Special Love for His Elect” (2011), responde à comparação com o marido que ama a esposa de modo especial. O amor romântico é exclusivo, mas o amor de Deus é ágape, e não eros, e não precisa negar a uns o que dá a outros. A alegria de uma criança com o presente de Natal não aumenta porque a amiga ficou sem nenhum.

Ele rejeita também a ideia de que Deus apenas “deixa passar” os reprovados. Em “Calvinism, Arminianism and Omnibenevolence” (2012), compara a situação a quem pode salvar um homem que se afoga e prefere assistir: a culpa moral é quase a mesma de quem o empurra. E responde ao calvinista que diz que o arminiano tem o mesmo problema, já que Deus cria pessoas que ele sabe que vão se perder. A diferença, segundo Rauser, é que no calvinismo existe um mundo possível em que todos são eleitos e Deus não o cria, enquanto no arminianismo esse mundo pode nem existir, porque depende de criaturas que de fato se arrependam. Num texto de 2011 ele resume a diferença com uma imagem: no calvinismo Deus poderia salvar todos e escolhe não salvar; na visão arminiana, Deus está num bote salva-vidas do Titanic e põe nele quantos pode. O arminianismo clássico prefere outra linguagem, a de que dar às criaturas uma liberdade real é exercício da soberania de Deus, e não limite a ela.

É aí que entra a graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana e liberta a vontade para crer. Na sátira de Genebra, Rauser conta a história de um avião que cai no mar. O socorrista traz o oxigênio, a máscara e o arnês; um passageiro aceita ser resgatado, o outro recusa e se afoga. O que foi salvo não tem do que se gabar, diz Rauser, e simplesmente fica grato. A imagem lembra a de Armínio, do mendigo que estende a mão para receber a esmola. Os textos de Rauser sobre o tema, porém, tratam mais do caráter de Deus do que da incapacidade humana; a doutrina arminiana da graça preveniente parte da depravação total e da vontade caída que só a graça liberta.

Teologia, razão e mistério

Em Theology in Search of Foundations (2009), Rauser conta como Descartes, Locke e Kant tentaram dar à teologia uma base racional segura e acabaram, sem querer, como os “coveiros” dela. Examina as teologias que abandonaram toda fundação e propõe voltar a um fundacionismo moderado, na linha de Alvin Plantinga: há crenças que podemos ter sem prová-las a partir de outras, como a crença no mundo exterior, e as crenças cristãs podem estar entre elas. O objetivo declarado do livro era dar base ao “antiquado realismo doutrinário”, segundo o qual as doutrinas afirmam coisas verdadeiras sobre Deus.

Em Faith Lacking Understanding (2008), percorre o Credo dos Apóstolos (Trindade, criação, encarnação, expiação, ascensão e juízo final) e mostra as dificuldades lógicas e morais das formulações tradicionais, sem prometer resolver todas. A fé, ali, convive com o mistério. A mesma ideia volta em The Doubters’ Creed (2023), escrito como ponte para quem não crê que o cristianismo seja verdadeiro, mas gostaria que fosse.

A Escritura e os textos difíceis

Desde o artigo “Let Nothing That Breathes Remain Alive”, publicado em 2009 na revista Philosophia Christi num simpósio de que também participou Paul Copan, Rauser trata das ordens de extermínio dos cananeus (Deuteronômio 7:1-2; Josué 6:21). Em Jesus Loves Canaanites (2021), parte da intuição moral de que o genocídio é sempre errado, compara as narrativas ao genocídio de Ruanda, de 1994, e conclui que Deus não deu essas ordens e que a conquista provavelmente não aconteceu como está narrada. Chama a sua proposta de “erro providencial”: Deus teria permitido na Bíblia passagens que contrariam a nossa consciência para levar o leitor a lutar com elas. O resenhista Stephen Bedard julgou que a proposta cria mais problemas do que resolve. Aqui Rauser se distancia da declaração de fé deste site, que crê que os autógrafos das Escrituras foram preservados de erro.

Sobre a cruz, Rauser vê na substituição penal, a ideia de que Cristo sofreu a pena que nos cabia, uma imagem importante que ainda fala com força, e rejeita apenas apresentá-la como a explicação total da expiação (sermão na igreja menonita de Lendrum, Edmonton, 2015). Para Armínio e Wesley, e para este site, ela é o centro da obra de Cristo, como mostra o estudo sobre satisfação penal e alcance universal.

Os de fora e o fim

Rauser se declara inclusivista: crê que pessoas podem ser salvas por Cristo sem ter ouvido o evangelho. Defende também que todo cristão deveria ser um “universalista esperançoso”, alguém que não afirma que todos serão salvos, mas espera que sejam (What on Earth Do We Know About Heaven?, 2013, cap. 20). A declaração de fé deste site afirma o castigo eterno dos ímpios.

O mesmo cuidado com quem está de fora aparece em Is the Atheist My Neighbor? (2015). Rauser chama de “tese da rebelião” a ideia de que todo ateu suprime de propósito uma crença inata em Deus, por ódio a ele e vontade de pecar. Relê Salmo 14:1 e Romanos 1:18-21 e conclui que eles não sustentam a tese. O ateu, diz ele, é o próximo da parábola do bom samaritano e deve ser recebido com hospitalidade.

Em The Wideness of the Sea (2025), defende que um evangélico pode aceitar as uniões entre pessoas do mesmo sexo, com um argumento organizado em Escritura, tradição, razão e experiência, os quatro elementos que, desde Albert Outler, se chamam quadrilátero wesleyano (no qual, para Wesley, a Escritura é a autoridade suprema). É a posição em que Rauser mais se afasta do evangelicalismo histórico e das igrejas arminianas e wesleyanas que mantêm a ética sexual tradicional.

Obras principais

  • Let Reason Be Your Guide? A Brief Introduction to Reformed Epistemology (2001)
  • Christian Philosophy A to Z, com Daniel Hill (2006)
  • Faith Lacking Understanding: Theology “Through a Glass, Darkly” (2008)
  • Theology in Search of Foundations (2009)
  • Finding God in the Shack (2009)
  • You’re Not as Crazy as I Think (2011)
  • The Swedish Atheist, the Scuba Diver and Other Apologetic Rabbit Trails (2012)
  • God or Godless?, com John W. Loftus (2013)
  • What on Earth Do We Know About Heaven? (2013)
  • Is the Atheist My Neighbor? Rethinking Christian Attitudes toward Atheism (2015)
  • An Atheist and a Christian Walk into a Bar, com Justin Schieber (2016)
  • What’s So Confusing About Grace? (2017)
  • Conversations with My Inner Atheist (2020)
  • Jesus Loves Canaanites: Biblical Genocide in the Light of Moral Intuition (2021)
  • Progressive Christians Love Jesus Too (2022)
  • The Doubters’ Creed: How to Be a Christian When You Don’t Believe It’s True (2023)
  • Disabuse, com Bob Stenhouse (2025)
  • The Wideness of the Sea: How to be Evangelical and Gay Affirming (2025)

Livros em português

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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