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Paul Copan: O filósofo que defende o Deus do Antigo Testamento

Diego Gonçalves13 min de leitura2.551 palavras

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Neste texto

Em junho de 2023, com a Ucrânia em guerra havia mais de um ano, um professor de filosofia da Flórida deu palestras públicas em Kiev e em Ternopil sobre a guerra justa e a fé cristã. Dias depois, em Lublin, na Polônia, falou sobre os textos difíceis do Antigo Testamento. O pai dele, Valery Copan, era de origem ucraniana. O professor era Paul Copan, que passou boa parte da carreira respondendo a uma acusação de Richard Dawkins: a de que o Deus do Antigo Testamento seria um “monstro moral”.

Retrato de Paul Copan
Paul Copan em 2012. Foto de PaulCopan.com, CC BY-SA 3.0, via Wikimedia Commons.

Vida

Formação

Paul Copan nasceu em 1962, em Cleveland, no estado de Ohio. A mãe, Valtraut Kirsch Copan, nasceu em Riga, na Letônia. Na adolescência ele se mudou com a família para Connecticut, na Nova Inglaterra. De 1980 a 1984 estudou Bíblia na Columbia International University, na Carolina do Sul; anos depois escreveria um manual de ética bíblica com J. Robertson McQuilkin, que presidiu essa escola. Formado, passou um ano viajando pela Student Foreign Missions Fellowship, ligada à InterVarsity, para falar em faculdades cristãs.

Em 1985 entrou na Trinity Evangelical Divinity School, perto de Chicago, onde fez o mestrado em divindade (MDiv), o curso de formação pastoral, e o mestrado em filosofia da religião. A dissertação defendeu a impossibilidade de uma série infinita de eventos no passado, premissa do argumento cosmológico kalam; o filósofo Stuart Hackett, primeiro leitor, disse que ela estava entre as três melhores que já tinha lido.

Pastor e professor

Antes da carreira acadêmica, Copan foi pastor de jovens da Storrs Community Church, em Connecticut (1988-1989), e membro da equipe pastoral da First Presbyterian Church de Schenectady, no estado de Nova York (1989-1995), onde também trabalhou com estudantes universitários pela InterVarsity. Em 1996 começou o doutorado em filosofia na Marquette University, em Milwaukee, concluído em 2000 com uma tese sobre a ética do filósofo ateu Michael Martin, que defendia uma moral objetiva sem Deus. Os dois trocaram réplicas na revista Philosophia Christi. A pergunta de onde vem a obrigação moral num universo sem Criador nunca mais saiu da obra de Copan.

Ensinou na Trinity (1996-1998 e 2000-2003), no Alliance Theological Seminary, da Aliança Cristã e Missionária (2002-2004), e no Bethel Seminary (2003-2004). De 1998 a 2003 foi conferencista e pesquisador do ministério de apologética de Ravi Zacharias. Nesses anos organizou os debates de William Lane Craig com John Dominic Crossan, do Jesus Seminar (1998), com comentários de Ben Witherington III e Craig Blomberg, e com Gerd Lüdemann sobre a ressurreição (2000). Com Craig escreveu Creation out of Nothing (2004), defesa da criação a partir do nada.

Em 2004 assumiu a cátedra Pledger Family de Filosofia e Ética na Palm Beach Atlantic University, em West Palm Beach, na Flórida, onde está até hoje. Presidiu a Evangelical Philosophical Society, a sociedade dos filósofos evangélicos americanos, de 2006 a 2012. De 2005 a 2016 foi presbítero da Memorial Presbyterian Church, primeiro na Igreja Presbiteriana dos Estados Unidos e depois na ECO, uma denominação presbiteriana evangélica.

O Deus do Antigo Testamento

Em 2008 publicou o artigo “Is Yahweh a Moral Monster?”, resposta aos novos ateus. O tema cresceu em Is God a Moral Monster? (2011), traduzido para o português, o romeno, o polonês, o russo e outras línguas, em Did God Really Command Genocide? (2014), escrito com o filósofo neozelandês Matthew Flannagan, e em Is God a Vindictive Bully? (2022), que ganhou um prêmio de mérito da revista Christianity Today. Com Heath Thomas e Jeremy A. Evans, organizou Holy War in the Bible (2013).

Foi pesquisador visitante em Oxford em 2017 e em 2024; nesta última estadia, foi guia voluntário em The Kilns, a casa de C. S. Lewis. Preside desde 2024 o grupo de filosofia da religião da Tyndale Fellowship, na Inglaterra, e ajudou a criar o mestrado em filosofia da religião da sua universidade. Escreveu ou organizou cerca de 45 livros, entre eles volumes recentes sobre a deificação, a participação dos salvos na natureza divina (2 Pedro 1:4), e sobre o inferno. Em 2025 publicou, em ucraniano, Cristianismo e a guerra na Ucrânia. É casado com Jacqueline e tem seis filhos.

Pensamento

Onde ele fica

Na classificação desta série, Copan é um simpatizante do arminianismo. Ele rejeita o determinismo calvinista, defende uma graça preveniente oferecida a todos e que pode ser resistida, põe a fé antes da regeneração e explica a relação entre a presciência de Deus e a liberdade humana pelo molinismo, que diz preferir. Molinismo é a tese do jesuíta Luis de Molina (século XVI) de que Deus sabe o que cada pessoa livre faria em qualquer situação possível (o “conhecimento médio”) e governa a história com esse saber sem determinar as escolhas.

Numa lista de leituras sobre arminianismo e molinismo para a Credo House, Copan recomendou Roger Olson, Jerry Walls, Joseph Dongell, Kenneth Keathley e Robert Shank. Incluiu os molinistas porque o próprio Jacó Armínio foi influenciado pelo molinismo, chamou Against Calvinism, de Olson, de um “não” gracioso, mas firme, ao calvinismo, e deixou de fora o teísmo aberto, que considera filosófica e biblicamente problemático.

Pecado original e graça

O texto mais detido de Copan sobre o tema é “Original Sin and Christian Philosophy” (2003). Ele começa pela ordem da Bíblia: Gênesis 1 e 2 vêm antes de Gênesis 3. O ser humano continua portador da imagem de Deus, mesmo caído, e o pecado é uma corrupção, e não uma substância. Os cristãos, escreve, são “santos pecadores, e não lesmas pecadoras”; todos somos indignos da graça, mas não sem valor.

Essa corrupção não se cura com esforço moral. Contra Pelágio, que pensava ser possível reverter a queda seguindo o exemplo de Cristo, Copan afirma que a desordem do coração exige uma intervenção radical de Deus. Com o filósofo John Hare, corrige Kant: o “dever implica poder” só vale para o ser humano caído com a graça de Deus. E põe a cruz no centro: a substituição penal é a chave da expiação, porque só Cristo, Deus e homem, podia pagar a dívida que nós não podíamos pagar.

Daí vem a graça preveniente. Deus dá a todos graça e oportunidade suficientes pelo Espírito Santo, que convence o mundo do pecado (João 16:8) e atrai as pessoas a Cristo (João 6:44). Essa graça pode ser recusada, como Estêvão disse aos que “sempre resistem ao Espírito Santo” (Atos 7:51). Ninguém se perde por ter nascido no lugar errado, mas por ter resistido à graça. No fim do artigo entra o molinismo: talvez, segundo o conhecimento médio de Deus, qualquer um de nós, posto no jardim, tivesse escolhido o mesmo caminho de Adão. A hipótese tira da boca do objetor uma nova versão da oração do fariseu (Lucas 18:11): “Graças te dou, Deus, porque não sou como Adão”.

A ordem da salvação

Em textos para o blog da Credo House, Copan contestou a tese reformada de que Deus regenera a pessoa para que ela creia. A Bíblia põe a fé antes da vida nova: aos que receberam Cristo, “deu-lhes o poder de serem feitos filhos de Deus” (João 1:12). Em “Divine Exasperation” (“A exasperação divina”), reuniu os textos em que Deus se mostra frustrado com a resistência humana, como a vinha de Isaías 5:4 (“Que mais se podia fazer à minha vinha?”). Se Deus espera de verdade o arrependimento e manda que todos, em toda parte, se arrependam (Atos 17:30), o problema está na resistência de quem recebe a graça, e não na falta dela.

Em 2008 criticou Almighty over All, de R. C. Sproul Jr., que fazia de Deus o autor do pecado. Copan respondeu que Deus não precisa de pecadores para mostrar a sua ira, porque não depende de nada (Salmo 50:12), e que o mal é corrupção do bem, como ensinou Agostinho. Para ele, o filho levou o calvinismo a um ponto que o pai, R. C. Sproul, evitava.

A lei de Moisés e a conquista

O argumento central de Is God a Moral Monster? é que a lei de Moisés não é o ideal de Deus, mas um passo real em direção a ele. Jesus disse que Moisés permitiu o divórcio “por causa da dureza do vosso coração” (Mateus 19:8); para Copan, a lei inteira tem essa marca. Deus “encontra o seu povo onde ele está” e o leva a uma justiça maior que a dos povos vizinhos.

Sobre a servidão, ele mostra que a palavra hebraica ebed quer dizer servo ou trabalhador, e que a servidão em Israel era, na maior parte, um contrato de quem caiu na pobreza (Levítico 25:39). A lei punia com a morte o sequestro (Êxodo 21:16), libertava o servo ferido (Êxodo 21:26-27) e proibia devolver o escravo fugido (Deuteronômio 23:15-16); se as potências coloniais tivessem cumprido essas três leis, argumenta, a escravidão moderna não teria existido como existiu. Sobre Canaã, nega que houvesse limpeza étnica: o alvo era a religião cananeia, e estrangeiros como Raabe entraram no povo de Deus. As frases totais de Josué, como a de que ele destruiu “tudo o que tinha fôlego” (Josué 10:40), seriam a hipérbole comum às crônicas de guerra do antigo Oriente Próximo.

O biblista Ken Esau achou que Copan às vezes escolhe a leitura mais favorável de cada texto, mas reconheceu que os argumentos são em geral plausíveis. Em Is God a Vindictive Bully? Copan respondeu a Greg Boyd, que lê as ordens de guerra como acomodações que a cruz desmente. Opor Jesus a Moisés, diz Copan, é uma falsa dicotomia, própria de “marcionitas práticos”, em referência a Marcião, que no século II separou o Deus de Israel do Pai de Jesus.

O argumento moral

No ensaio “God, Naturalism, and the Foundations of Morality” (2008), Copan distingue o conhecer do ser. Os ateus conhecem os mesmos valores morais que os cristãos porque também foram feitos à imagem de Deus (Gênesis 1:26-27); a questão é como processos sem valor teriam produzido pessoas com dignidade. A resposta dele cabe numa frase: “da ausência de valor, só vem ausência de valor”. Ao dilema de Eutífron responde que o bem não depende de uma ordem arbitrária nem de um padrão acima de Deus, mas do caráter do próprio Deus.

Diferenças com a nossa declaração de fé

Copan está perto do arminianismo clássico na graça preveniente para todos, na graça resistível, na expiação universal e na substituição penal. As diferenças estão em três pontos. A declaração de fé deste site afirma que todos nascemos sob a justa condenação de Deus; Copan, com Millard Erickson, Gordon Lewis e Bruce Demarest, fala de uma corrupção herdada e de uma culpa “condicional”, que só pesa quando a pessoa aprova o pecado por escolha consciente (ver O pecado original e a depravação total). O molinismo é uma explicação que o arminianismo clássico admite, mas não exige. E Copan insiste na imagem de Deus que permanece no ser humano caído, enquanto a tradição de Armínio e Wesley põe o acento na vontade presa ao pecado, que só a graça liberta. Sobre os temas dele, ver também O problema do mal e A soberania de Deus e o livre-arbítrio humano.

Obras principais

  • “True for You, But Not for Me” (Bethany House, 1998; edição revista, 2009).
  • Will the Real Jesus Please Stand Up? (org., Baker, 1998).
  • “That’s Just Your Interpretation” (Baker, 2001).
  • “Original Sin and Christian Philosophy”, Philosophia Christi 5, n. 2 (2003).
  • Creation out of Nothing (com William Lane Craig, Baker, 2004).
  • Loving Wisdom: Christian Philosophy of Religion (Chalice, 2007; edição revista, Eerdmans, 2020).
  • When God Goes to Starbucks (Baker, 2008).
  • Is God a Moral Monster? Making Sense of the Old Testament God (Baker, 2011).
  • An Introduction to Biblical Ethics (com J. Robertson McQuilkin, IVP Academic, 2014).
  • Did God Really Command Genocide? (com Matthew Flannagan, Baker, 2014).
  • Dictionary of Christianity and Science (org., Zondervan, 2017).
  • Is God a Vindictive Bully? (Baker Academic, 2022).
  • Transformed into the Same Image (org., com Michael Reardon, IVP Academic, 2024).

Livros em português

  • O Deus da Bíblia é cruel? Compreender o Deus do Antigo Testamento (Alêtheia, 2011). Ver na Amazon
  • O Jesus dos Evangelhos: mito ou realidade? (org., Vida Nova, 2012), o debate entre William Lane Craig e John Dominic Crossan. Ver na Amazon
  • Dicionário de cristianismo e ciência (org., Thomas Nelson Brasil, 2018). Ver na Amazon · Ver na Shopee
  • Deus realmente ordenou o genocídio? (com Matthew Flannagan, Vida Nova, 2020). Ver na Amazon · Ver na Shopee

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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