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Randolph Sinks Foster: o bispo metodista que escreveu contra o calvinismo e em defesa da pureza cristã

Diego Gonçalves13 min de leitura2.528 palavras

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Neste texto

Na conferência metodista de Ohio de 1837, um rapaz de dezessete anos pediu para ser admitido como pregador em experiência. Tinha largado os livros do colégio para isso. Quem o apresentou disse ao bispo que se tratava de “um jovem esplêndido”. Um veterano dos circuitos, David Young, levantou-se e explicou ao bispo, recém-chegado ao Oeste, que ali se chamava até batata de esplêndida. O rapaz foi aceito assim mesmo. Chamava-se Randolph Sinks Foster. Doze anos depois, ele escreveria uma das réplicas metodistas mais lidas contra o calvinismo; mais tarde, presidiria duas escolas e seria bispo da Igreja Metodista Episcopal por três décadas.

Retrato de Randolph Sinks Foster
Randolph Sinks Foster, fotografia de autor desconhecido publicada em Northwestern University: A History, 1855-1905 (1905). Domínio público, via Wikimedia Commons.

Vida

Nascido numa cadeia

Foster nasceu em 22 de fevereiro de 1820 em Williamsburg, no condado de Clermont, em Ohio. O pai, Israel Foster, era o carcereiro do condado, e o menino nasceu no prédio da cadeia. Os pais eram metodistas fervorosos e tinham boa situação. A família trazia uma história de fronteira: o avô se mudara da Virgínia para o Kentucky e morrera num ataque de índios.

Foster estudou no Augusta College, no Kentucky, a primeira escola superior metodista a oeste dos montes Apalaches, onde ensinavam Martin Ruter, John P. Durbin e Henry B. Bascom. Não chegou a se formar. Aos dezessete anos deixou os estudos para entrar na conferência de Ohio, e anos depois admitia que tinha errado em sair do colégio. Compensou a falta com estudo próprio pelo resto da vida.

Os circuitos de Ohio e as cartas contra o calvinismo

Foi ordenado diácono pelo bispo Beverly Waugh e presbítero pelo bispo Elijah Hedding. Começou no circuito de Charleston, na atual Virgínia Ocidental, e passou por circuitos e igrejas de Ohio, entre eles Hillsborough, Portsmouth, Lancaster e Springfield. Em 1840 casou-se com Sarah Ann Miley, irmã do futuro teólogo John Miley. O casal teve vários filhos.

Por volta de 1848 Foster pastoreava a Wesley Chapel, em Cincinnati. O pastor presbiteriano Nathan L. Rice vinha atacando a doutrina e os costumes metodistas no Presbyterian of the West, e Matthew Simpson, editor do Western Christian Advocate, abriu o jornal às respostas de Foster. Eram cartas dirigidas a Rice. Os leitores pediram o livro, e em 1849 saiu Objections to Calvinism as It Is (“Objeções ao calvinismo como ele é”), com introdução de Simpson e um apêndice com as tréplicas. Rice respondeu que não pretendia discutir com Foster enquanto debatia com Simpson. O livro foi reeditado várias vezes nos anos seguintes e fez do pastor de menos de trinta anos um nome conhecido entre os metodistas.

Nova York, Christian Purity e Northwestern

Em 1850 Foster foi transferido para Nova York, para a igreja da Mulberry Street. Ali teve como ouvinte o financista Daniel Drew, e conversavam sobre como a riqueza podia servir à igreja. Anos depois, Foster esteve entre os que diziam ter levado Drew a fundar um seminário teológico perto de Nova York. Em 1851 publicou pela Harper Nature and Blessedness of Christian Purity, com introdução do bispo Edmund S. Janes, o livro sobre a inteira santificação que o acompanharia a vida toda. Seguiram-se a Pacific Street, no Brooklyn, e a Trinity Church, em Nova York.

Em junho de 1856 foi eleito presidente da Northwestern University, em Evanston, Illinois, aberta no ano anterior. Pediu licença para terminar o compromisso em Nova York e quis que o salário daquele período fosse aplicado em livros. Tomou posse em 18 de junho de 1857 e defendeu a biblioteca, os aparelhos científicos e um museu de história natural, numa época em que alguns líderes religiosos desconfiavam das ciências. Os alunos gostavam dele e o público o admirava como orador, mas ele mesmo concluiu que a administração não era o seu dom. Em 1860 voltou ao púlpito, na igreja da Washington Square, em Nova York. Recusou depois a presidência da Troy University.

Drew e o episcopado

Foster foi delegado às Conferências Gerais de 1864, 1868 e 1872. Em 1868 visitou com o bispo Edward Ames as conferências metodistas da Irlanda e da Inglaterra. No mesmo ano, John McClintock o chamou para a cadeira de teologia sistemática do novo Drew Theological Seminary, em Madison, Nova Jersey. Em março de 1870 estava à cabeceira do amigo quando ele morreu, e foi eleito para sucedê-lo. Os anos eram difíceis, e ele não deixou marca forte como professor. A esposa morreu em 1871.

Em maio de 1872, na Conferência Geral do Brooklyn, Foster foi eleito bispo. Deixou Drew, e a cadeira de teologia passou ao cunhado, John Miley. Começou pela área de Cincinnati e depois fixou residência em Boston. Como bispo, presidiu conferências em todo o país e visitou as missões da Europa, do México, da América do Sul e do Oriente. Fez em 1878 três conferências na assembleia de Chautauqua sobre a vida depois da morte, publicadas como Beyond the Grave (1879), e em 1890 deu as conferências Merrick na Ohio Wesleyan University, Philosophy of Christian Experience.

Dedicou os últimos anos aos Studies in Theology. O plano era de onze volumes, e ele completou seis, de Prolegomena (1889) a Sin (1899). Em 1892, defendendo a reunião da Igreja Metodista Episcopal com a do Sul, separadas desde 1844 pela questão da escravidão, escreveu que o cabelo, antes negro como o corvo, agora era branco como a neve: “É o entardecer”. Morreu em Newton Centre, Massachusetts, em 1º de maio de 1903, e foi sepultado no cemitério de Green-Wood, no Brooklyn.

Pensamento

Foster é wesleyano. Foi pastor e bispo da Igreja Metodista Episcopal a vida inteira, defendeu a teologia de John Wesley contra o calvinismo e dedicou um livro inteiro à doutrina wesleyana da perfeição cristã. Nas conferências de 1890, definiu o próprio ponto de partida como, “em linhas gerais, o dos teólogos arminianos”, sem apego servil a todos os detalhes que os defensores acrescentaram à teoria. A tese de Paul Hvidding (1950) o estuda, ao lado de Miley, como representante da escola arminiana mais influente dos Estados Unidos no século XIX.

O calvinismo pelas suas consequências

O método de Objections to Calvinism é declarado logo no começo. Foster não quis montar um sistema contrário nem refutar os argumentos calvinistas um a um. Quis expor o calvinismo com as palavras dos próprios calvinistas, a Confissão de Westminster, Witsius, Edwards e outros, citados por extenso, e tirar as consequências. A premissa é que “o que é logicamente falso não pode ser verdadeiro segundo a Escritura”: a Bíblia não ensina contradições, e um sistema que leva a conclusões contrárias ao caráter de Deus foi lido errado na Bíblia.

As objeções mais fortes estão no capítulo sobre a chamada eficaz. Se a regeneração é irresistível e vem antes da fé, argumenta Foster, a fé deixa de ser condição da salvação e vira efeito necessário; o convite do pregador para que o pecador se arrependa perde sentido; e, se Deus pode regenerar quem quiser e não o faz, a incredulidade que resta no mundo é, no fim, preferência de Deus. No capítulo sobre a vontade, ele ataca a teoria de que a vontade sempre segue o motivo mais forte, que chama de raciocínio em círculo, e responde a Jonathan Edwards, o mesmo adversário que Daniel Whedon enfrentaria em The Freedom of the Will (1864). Foster escreve com dureza, mas diz no primeiro capítulo que guarda desde menino “a mais profunda afeição” pela Igreja Presbiteriana, onde tinha parentes e amigos. Para o pano de fundo histórico, leia Por que John Wesley rejeitou o calvinismo? e Sínodo de Dort: concílio ou purga?.

Incapaz sem a graça, mas não sem graça

A crítica de Foster ao calvinismo não parte de um otimismo sobre a natureza humana. Em Philosophy of Christian Experience ele afirma que a queda pôs na alma de Adão uma inclinação ao pecado que ele, entregue a si mesmo, não tinha poder de reverter, e que essa inclinação passa a todos os descendentes, de modo que nenhum escapa dela. O que impede a ruína completa são as “influências restauradoras” que vêm da expiação de Cristo, feita por Adão e por toda a sua descendência. Em Sin (1899) a mesma ideia aparece numa frase curta: sem a graça, somos incapazes para o bem; “isso se admite, mas não estamos sem graça”.

É a doutrina wesleyana da graça preveniente, a graça que vem antes de qualquer resposta humana, alcança todos e torna possível o arrependimento e a fé, sem forçá-los. Para Foster, quem se perde se perde por recusar essa graça, e não por falta dela. A doutrina está exposta em A graça preveniente em Armínio.

Num ponto Foster se afasta da nossa declaração de fé. Ele afirmava que a depravação herdada de Adão é um mal real, do qual a pessoa precisa ser libertada, mas negava que ela traga culpa: ninguém é culpado pelo pecado de Adão nem pela natureza que recebeu ao nascer, e só os pecados pessoais tornam alguém culpado. Era a tendência de vários metodistas americanos do fim do século XIX, como Whedon e Miley. A declaração do site afirma que todos nascemos pecadores e sob a justa condenação de Deus.

A pureza cristã

O tema que acompanhou Foster da juventude à velhice foi a inteira santificação, a obra da graça pela qual Deus, depois da conversão, purifica o coração do pecado que restou e o enche de amor. Christian Purity separa quatro opiniões: a de que a santificação completa só acontece na hora da morte, a de que ela é o amadurecimento lento da regeneração, a de que esse amadurecimento pode chegar antes da morte, e a dele, a de que ela pode ser uma obra imediata, recebida pela fé a qualquer momento em que essa fé é exercida. A frase que Foster pôs no começo do capítulo de definição resume o livro: “O homem pode ser santo e viver!”.

Foster definia o estado como liberdade do pecado “propriamente dito”, interior e exterior, com as virtudes de amor, mansidão e humildade presentes sem mistura. Gastou muitas páginas no que essa santidade não inclui: não dá infalibilidade à inteligência, não livra de erros de juízo nem de enfermidades do corpo, não impede que o crente sinta tentações. Apoiou-se aqui na Explicação clara da perfeição cristã, de Wesley. Admitia também que o caminho pode ser tão gradual que a pessoa não saiba dizer em que momento o rio se alargou em mar. Na edição revista de 1869 disse que vinte anos de estudo não tinham mudado a substância do que escrevera na primeira, nascida “de uma experiência elevada”, e acrescentou capítulos sobre a diferença entre regeneração e inteira santificação, com a intenção de acalmar as disputas sobre o assunto na igreja. É a mesma doutrina da nossa declaração de fé, e o tema está exposto em A santificação.

Perseverança e igreja

Foster ensinava a perseverança condicional: o ramo não é arrancado da videira, escreveu em 1890, enquanto ele mesmo não se arranca, pelo pecado consciente e pela decisão da vontade pelo mal. Criticava os evangelistas que pediam às pessoas que levantassem a mão para se declarar cristãs, e até santificadas, e achava que esse método rebaixava a experiência cristã. Em Centenary Thoughts (1884), no centenário do metodismo americano, listou os perigos da igreja: a assimilação ao mundo, o descaso com os pobres, a forma no lugar da piedade, o abandono da disciplina, o ministério mercenário e um evangelho impuro, tudo resumido em “uma igreja da moda”.

A controvérsia sobre a ressurreição

Beyond the Grave lhe trouxe a acusação de heresia. Ali Foster defendeu que o ser humano é espírito, que o corpo é instrumento, e que a ressurreição não é a recomposição das mesmas partículas de carne postas no túmulo, apoiado em 1 Coríntios 15:37-38, 1 Coríntios 15:50 e 2 Coríntios 5:1. O pastor James E. Lake, da conferência de Nova Jersey, respondeu em 1889 com o livreto Bishop Foster’s Heresy. Foster não negava a ressurreição dos mortos, mas a nossa declaração de fé afirma a ressurreição corporal com mais clareza do que ele.

Legado

Foster pertence à geração que deu ao metodismo americano a sua teologia acadêmica, com Whedon, Miley e Daniel Steele. O livro contra o calvinismo foi reeditado nos anos 1850, e Christian Purity ganhou nova edição em 1897 e saiu em sueco em 1881, traduzido por Erik Stenholm, entre as leituras exigidas dos candidatos ao ministério metodista na Suécia.

Obras principais

  • Objections to Calvinism as It Is, in a Series of Letters Addressed to Rev. N. L. Rice (Cincinnati, 1849).
  • Nature and Blessedness of Christian Purity (Nova York, Harper, 1851); edição revista e ampliada, Christian Purity; or, The Heritage of Faith (1869).
  • Beyond the Grave (1879), conferências na assembleia de Chautauqua de 1878.
  • Centenary Thoughts for the Pew and Pulpit of Methodism (1884).
  • Studies in Theology, seis volumes: Prolegomena (1889), Theism (1889), The Supernatural Book (1889), Creation (1895), God: Nature and Attributes (1897) e Sin (1899).
  • Philosophy of Christian Experience (1890), conferências Merrick na Ohio Wesleyan University.
  • Union of Episcopal Methodisms (1892).

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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