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Richard B. Hays: O biblista metodista que ouviu os ecos das Escrituras

Diego Gonçalves13 min de leitura2.554 palavras

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Neste texto

Na véspera de um Natal no fim dos anos 1960, um estudante de literatura inglesa da Universidade Yale acompanhou a mãe ao culto. Na adolescência ele tinha deixado a religião de lado; a igreja lhe parecia “cheia de hipócritas”, como contou décadas depois. Naquela noite abriu a Bíblia ao acaso e caiu em Marcos 8:35: “Quem quiser, pois, salvar a sua vida perdê-la-á; e quem perder a vida por causa de mim e do evangelho salvá-la-á”. O versículo, disse ele, o acertou “bem no peito”. O estudante era Richard Bevan Hays, que viria a ser um dos biblistas mais lidos do seu tempo, presbítero da Igreja Metodista Unida e deão da Duke Divinity School.

Vida

Oklahoma, Yale e Massachusetts

Richard B. Hays nasceu em 4 de maio de 1948, em Oklahoma City. Passou os primeiros meses de vida em Frankfurt, na Alemanha, onde o pai, piloto, voava na ponte aérea de Berlim. Os pais se separaram quando ele tinha três anos, e a mãe, organista de igreja, o criou em Oklahoma City, dentro da Igreja Metodista Unida. Ainda adolescente conheceu Judith (Judy) Cheek, com quem se casou em 21 de junho de 1970.

Em Yale estudou literatura inglesa, formou-se em 1970 e foi diácono da capela Battell. Foi marcado pelo ativismo cristão do capelão William Sloane Coffin, que liderava os protestos contra a Guerra do Vietnã no campus. Entrou depois na Perkins School of Theology, o seminário metodista de Dallas, mas saiu em 1971, desanimado com o carreirismo que via entre os colegas, e foi com Judy para Massachusetts. Lá ensinou inglês no ensino médio, em Longmeadow, onde queria que os alunos aprendessem a apreciar “Shakespeare e a Bíblia como literatura”.

O casal entrou numa comunidade cristã de vida partilhada, The Ark, em Springfield, que em 1974 se tornou a Metanoia Fellowship. Hays foi presbítero da comunidade em 1975 e 1976 e, na prática, o seu pastor. Ao mesmo tempo ia e voltava de New Haven para cursar a Yale Divinity School, onde concluiu o mestrado em divindade em três anos. Nesses anos nasceram os filhos, Christopher, em 1973, e Sarah, em 1976.

Emory, Yale e Duke

O doutorado em Novo Testamento foi feito na Universidade Emory, em Atlanta, e concluído em 1981. A tese, publicada em 1983 com o título The Faith of Jesus Christ (A fé de Jesus Cristo), foi reeditada em 2002, e Luke Timothy Johnson viu nisso um sinal de influência real.

Em 1981 Hays voltou a Yale como professor assistente de Novo Testamento. Em 1989 publicou Echoes of Scripture in the Letters of Paul (Ecos das Escrituras nas cartas de Paulo), e em 1991 mudou-se para a Duke Divinity School, uma das escolas teológicas oficiais da Igreja Metodista Unida. Em 1996 saiu The Moral Vision of the New Testament (A visão moral do Novo Testamento), que a revista Christianity Today escolheu entre os cem livros religiosos mais importantes do século XX. Em 2002 recebeu a cátedra George Washington Ivey de Novo Testamento.

Hays foi presbítero ordenado da Conferência do Norte da Geórgia da Igreja Metodista Unida e pregou de igrejas rurais de Oklahoma à Abadia de Westminster, em Londres.

Deão, doença e últimos anos

Em 2010 tornou-se deão da Duke Divinity School, e em 2013 e 2014 deu as Hulsean Lectures, em Cambridge. Em maio de 2015 recebeu o diagnóstico de câncer no pâncreas e deixou o cargo. O tratamento deu resultado, e ele terminou Echoes of Scripture in the Gospels (Ecos das Escrituras nos Evangelhos, 2016), voltou a ensinar por um último semestre e se aposentou em 2018. Em 2022 a British Academy lhe deu a Medalha Burkitt por distinção em estudos bíblicos; recebeu também doutorados honorários da Universidade Goethe, de Frankfurt, e do Seminário St. Mary’s, em Baltimore, onde ensinava Michael J. Gorman.

O câncer voltou em 2022 e, no outono de 2024, chegou aos pulmões. Em outubro daquele ano Hays fez a sua última conferência, em Dallas. Morreu em casa, em Nashville, no Tennessee, em 3 de janeiro de 2025, aos 76 anos. A última mensagem que deixou aos amigos citava Romanos 14. No culto memorial na capela de Duke, Richard Lischer pregou sobre Romanos 8. O colega C. Kavin Rowe resumiu: “Richard era um cristão de verdade”.

Pensamento

Um wesleyano que trabalhou como exegeta

Hays era wesleyano. Foi criado na Igreja Metodista Unida, ordenado presbítero nela, membro de igrejas metodistas até o fim e professor, por 27 anos, de uma escola metodista. Escreveu como exegeta, e não como teólogo sistemático, mas a marca da tradição aparece no seu modo de ler a Bíblia. Em The Moral Vision, a tradição, a razão e a experiência entram na interpretação sem serem fontes de autoridade iguais à Escritura: estão numa “relação hermenêutica” com o Novo Testamento, que é a norma. É o quadrilátero wesleyano, nome dado por Albert Outler, na forma correta, com a Bíblia acima das outras três.

A marca aparece também na salvação. No ensaio “Salvation by Trust?” (A salvação pela confiança?, 1997), Hays escreveu: “Porque Jesus confiou, nós somos ao mesmo tempo chamados e capacitados a confiar”. A frase cabe na linguagem arminiana da graça que vem antes e torna possível a resposta. No mesmo texto ele lê Romanos 9 a 11 como defesa da fidelidade de Deus a Israel, e a oliveira de Romanos 11 como imagem de ramos cortados pela incredulidade que podem ser enxertados de novo. Biblistas arminianos aprenderam com ele a ler esses capítulos pelo contexto do Antigo Testamento: Brian Abasciano seguiu a sua linha na tese sobre Romanos 9, e Charles Edward White aplicou os testes de Hays à leitura que Calvino fez do capítulo e concluiu que ele trata do papel de Israel na história da salvação, e não de um decreto de reprovação (ver Os decretos de Deus e a predestinação).

A fé de Jesus Cristo

A tese tratou de uma expressão grega de Paulo, pistis Christou (Gálatas 2:16; Romanos 3:22). A tradução comum é “fé em Cristo”; gramaticalmente, ela também pode significar “a fé (ou a fidelidade) de Cristo”. Hays defendeu a segunda leitura. Por trás de Gálatas 3:1 a 4:11 ele viu uma história: o Filho, fiel até a morte de cruz, cumpre a promessa feita a Abraão e reconcilia os seres humanos com Deus. Hays distinguia a leitura “cristológica”, que destaca o efeito salvador da fidelidade de Jesus, da “antropológica”, que destaca o ato humano de crer, mas não negava que é preciso crer para ser justificado. Em 1991 o quarto volume de Pauline Theology, da Society of Biblical Literature, trouxe o seu ensaio “PISTIS and Pauline Christology: What Is at Stake?” e a resposta de James D. G. Dunn, defensor da leitura tradicional.

A nossa declaração de fé fala da justificação pela fé em Cristo, na linha de Armínio e de Wesley (ver A justificação pela fé). A leitura de Hays não tira a fé humana do quadro: põe o fundamento da salvação na obediência fiel de Jesus, e a fé de quem crê passa a ser participação nessa fidelidade. Nos dois casos, a salvação repousa no que Cristo fez.

Os ecos das Escrituras

Echoes of Scripture in the Letters of Paul mudou o estudo do uso do Antigo Testamento por Paulo. Hays partiu da crítica literária: quando Paulo cita ou alude a um texto, muitas vezes o contexto inteiro da passagem antiga ressoa no argumento, mesmo sem ser citado. Para separar ecos reais de coincidências, propôs sete testes: se o texto estava disponível ao autor, o volume do eco, a recorrência, a coerência com o tema, a plausibilidade histórica, a história da interpretação e se a leitura resultante faz sentido. O Paulo que sai do livro é um leitor criativo das Escrituras de Israel, e não um colecionador de textos-prova. “Paulo, tateando para dar voz ao seu evangelho, encontra na Escritura a linguagem para dizer o que precisa ser dito”, escreveu. B. J. Oropeza aprendeu nele o método da intertextualidade.

Depois Hays levou o método aos Evangelhos. Em Reading Backwards (Lendo de trás para a frente, 2014) e Echoes of Scripture in the Gospels, mostrou que cada evangelista lê as Escrituras de modo próprio, mas os quatro chegam ao mesmo ponto: “cada um dos quatro evangelistas identifica Jesus como a encarnação do Deus de Israel”. Contra quem diz que a divindade de Jesus foi invenção tardia, argumentou que foram as Escrituras de Israel, lidas à luz da ressurreição, que ensinaram os primeiros cristãos a ver em Jesus a presença de Deus em pessoa.

Uma hermenêutica da confiança

Em novembro de 1996, num discurso à Society of Biblical Literature em Nova Orleans, Hays enfrentou a “hermenêutica da suspeita”, que lê a Bíblia sobretudo como instrumento de poder. Notou que muitos críticos desconfiavam do texto e confiavam sem reservas na própria experiência, e propôs que “uma hermenêutica da confiança é ao mesmo tempo necessária e primária”. O modelo é Abraão, que creu na promessa contra a evidência da idade e da esterilidade: ele “exemplifica uma hermenêutica do consentimento, uma hermenêutica da confiança”. A suspeita tem lugar, mas o primeiro alvo dela somos nós mesmos. A plateia o aplaudiu de pé.

A visão moral do Novo Testamento

The Moral Vision organiza a ética do Novo Testamento em quatro tarefas. A descritiva lê cada autor por si. A sintética procura o que une vozes tão diferentes, e Hays encontra três imagens focais: a comunidade (o Novo Testamento fala primeiro à igreja, não ao indivíduo isolado), a cruz (a morte de Jesus é o modelo da vida fiel) e a nova criação (a igreja vive entre o “já” e o “ainda não” do reino). A unidade, escreveu, “não é a unidade de um sistema dogmático”. A tarefa hermenêutica examina como Reinhold Niebuhr, Karl Barth, John Howard Yoder, Stanley Hauerwas e Elisabeth Schüssler Fiorenza usaram a Bíblia. A pragmática aplica o método a cinco casos: a violência, o divórcio, a homossexualidade, o antijudaísmo e o aborto.

As conclusões foram firmes. Hays viu na não violência um tema constante do Novo Testamento e defendeu que a igreja renuncie à violência, à maneira de Jesus diante da cruz. Defendeu o casamento para a vida toda e pediu às igrejas que recebessem os divorciados como membros plenos. Argumentou contra o aborto a partir da misericórdia para com os indefesos. Sobre a homossexualidade, escreveu que ela era “um entre muitos sinais trágicos de que somos um povo quebrado, afastado do propósito amoroso de Deus”.

O último livro e a nossa declaração de fé

Em 2024 Hays publicou com o filho, Christopher B. Hays, professor de Antigo Testamento no Seminário Fuller, The Widening of God’s Mercy (O alargamento da misericórdia de Deus). Ali deixou a posição de 1996, defendeu a inclusão plena de pessoas homossexuais na igreja e chamou o livro de ato de arrependimento pelo uso que se fizera do seu texto anterior. Afirmou que a sua exegese das passagens sobre o tema não tinha mudado; mudara a leitura da história bíblica maior, em que Deus “muda de ideia” para ampliar a misericórdia, como na inclusão dos eunucos (Isaías 56) e dos gentios. Críticos wesleyanos, como Timothy Tennent, responderam que o livro deixa de lado textos claros, como Mateus 19:4-6, e mesmo leitores simpáticos perguntaram como esse retrato se ajusta à imutabilidade e à presciência de Deus. Hays insistiu que Deus “não é caprichoso, não é volúvel”.

Aqui há duas diferenças com a nossa declaração de fé. A primeira é a sexualidade: cremos que a Escritura ensina com clareza o que agrada a Deus nessa área e que a igreja deve acolher cada pessoa com graça e verdade, como está em Homossexualidade e Bíblia: acolhimento sem hipocrisia. Para isso usamos a regra que o próprio Hays defendeu em 1996: a Escritura como norma, acima da tradição, da razão e da experiência. A segunda é a doutrina de Deus: afirmamos que Deus conhece todo o futuro e que as passagens em que ele “se arrepende” descrevem a sua relação viva com o povo sem tirar dele esse conhecimento. Isso não apaga o que Hays ensinou a gerações de pastores e biblistas: a ler Paulo como herdeiro das Escrituras de Israel, a ver Jesus como o Deus de Israel em pessoa e a confiar no texto antes de suspeitar dele.

Obras principais

  • The Faith of Jesus Christ: An Investigation of the Narrative Substructure of Galatians 3:1-4:11 (1983; 2ª ed., 2002).
  • Echoes of Scripture in the Letters of Paul (1989).
  • The Moral Vision of the New Testament: Community, Cross, New Creation (1996).
  • First Corinthians (1997), comentário da série Interpretation.
  • New Testament Ethics: The Story Retold (1998).
  • The Art of Reading Scripture (2003), organizado com Ellen F. Davis.
  • The Conversion of the Imagination: Paul as Interpreter of Israel’s Scripture (2005).
  • Seeking the Identity of Jesus (2008), organizado com Beverly Roberts Gaventa.
  • Reading Backwards: Figural Christology and the Fourfold Gospel Witness (2014).
  • Echoes of Scripture in the Gospels (2016).
  • Reading with the Grain of Scripture (2020).
  • The Widening of God’s Mercy: Sexuality Within the Biblical Story (2024), com Christopher B. Hays.

Para aprofundar

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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