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Richard C. H. Lenski: O comentarista luterano que defendeu a graça para todos

Diego Gonçalves12 min de leitura2.415 palavras

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Neste texto

Em 1923, quem pedia flores pelo correio em Columbus, Ohio, podia receber uma lista mimeografada de dálias, dos pompons brancos às variedades cor de salmão, e outra de gladíolos, as duas com o nome de R. C. H. Lenski no alto. O homem que vendia as flores era professor de teologia no seminário luterano da cidade, editor de um jornal em alemão e autor de livros de exegese para pregadores. Oito anos depois começaria a sair a obra que guardou o seu nome: um comentário a todo o Novo Testamento que pastores de muitas denominações ainda consultam.

Vida

Da Pomerânia a Ohio

Richard Charles Henry Lenski nasceu em 14 de setembro de 1864, em Greifenberg, na Pomerânia, então parte da Prússia (hoje Gryfice, na Polônia). Os pais eram prussianos, e o menino teve pelo menos um irmão, Paul, nascido em 1866. Em 1873 a família emigrou para os Estados Unidos.

Lenski estudou na Capital University, em Columbus, e no departamento teológico ligado a ela, as duas instituições do Sínodo Conjunto Evangélico Luterano de Ohio e Outros Estados, uma igreja de imigrantes alemães que se definia pela fidelidade ao Livro de Concórdia, a coleção das confissões luteranas do século XVI. Lenski foi ordenado pastor desse sínodo em 1887.

No ano seguinte casou-se com Marietta Young, professora, natural do condado de Franklin, em Ohio. Os dois se conheceram na própria Capital, quando ela foi visitar um irmão que estudava ali. Tiveram cinco filhos: Esther, Gerhard, Oscar, Lois e Miriam.

Pastor em Baltimore e em Ohio

Lenski serviu primeiro em Baltimore, no estado de Maryland, e depois em três cidades de Ohio: Trenton, Springfield e Anna. Em Springfield a família morava na casa pastoral da Igreja Luterana Zion, e ali nasceu Lois, em 14 de outubro de 1893. Em 1899 Lenski aceitou o chamado de Anna, um povoado do condado de Shelby, e lá ficou doze anos. Lois se tornaria escritora e ilustradora de livros infantis, e a sua autobiografia, Journey into Childhood (1972), descreve os anos na casa pastoral de Anna.

Ainda pastor, Lenski começou a escrever. Em 1898 publicou His Footsteps (Nas pegadas dele), estudos de edificação sobre a vida de Cristo. O livro apresenta Jesus como o modelo da humanidade restaurada: “a própria perfeição sem pecado de Jesus faz dele o exemplo em cujas pegadas devemos seguir” (His Footsteps, 1898, cap. 2). Em 1904 assumiu a redação da Lutherische Kirchenzeitung, o jornal em alemão do sínodo, que dirigiu por vinte anos, até 1924. Também presidiu por alguns anos o Distrito Oeste do Sínodo de Ohio.

Professor em Columbus

Em 1911 Lenski voltou à Capital University como professor de línguas clássicas e de teologia. A família mudou-se para o campus, em Bexley, nos arredores de Columbus. No seminário, que hoje se chama Trinity Lutheran Seminary, ele ensinou exegese, dogmática e homilética, e mais tarde foi deão da escola. Fora da sala de aula, fotografava, desenhava a lápis e cuidava das flores, e os catálogos de 1923 mostram que o jardim chegou a virar um pequeno comércio.

Os primeiros livros do professor foram feitos para o púlpito. Para as séries de leituras do ano litúrgico, como a de Eisenach, preparada na Alemanha no fim do século XIX, Lenski escreveu volumes de exegese e esboços de sermão: The Eisenach Gospel Selections, que chegou à segunda edição revista em 1916, The Eisenach Epistle Selections (1914), New Gospel Selections (1919) e The Eisenach Old Testament Selections (1925). No prefácio da segunda edição das seleções dos Evangelhos, datado de 31 de dezembro de 1915, explicou o método: trabalhar sobre o texto grego de Westcott e Hort e aproveitar sem acanhamento os comentaristas alemães, porque seria “tolice ignorar” o que eles tinham acumulado. Para os cultos noturnos escreveu Saint Paul (1916), nove estudos sobre a vida e as cartas do apóstolo, com a epígrafe de 1 Coríntios 15:10: “pela graça de Deus sou o que sou” (1 Coríntios 15:10, Bíblia Livre). Escreveu também um manual de homilética, The Sermon: Its Homiletical Construction, e Kings and Priests (Reis e sacerdotes), sobre o sacerdócio de todos os crentes.

O comentário ao Novo Testamento

Na velhice Lenski se dedicou à obra pela qual é lembrado. O primeiro volume da série The Interpretation of… foi o do Evangelho de João, de 1931, com 1.418 páginas, pela Lutheran Book Concern, a editora do sínodo. Na Concordia Theological Monthly, do Sínodo de Missouri, P. E. Kretzmann apresentou o autor como exegeta conhecido e deão na Capital University. Vieram depois Mateus (1932), Marcos e Lucas e Atos (1934), Apocalipse e as cartas aos Coríntios (1935) e Romanos (1936). Cada volume traz uma tradução literal do grego feita por ele e o comentário versículo a versículo, atento à gramática, aos tempos verbais e à ordem das palavras, sempre a partir da leitura luterana tradicional.

Richard C. H. Lenski morreu em 14 de agosto de 1936, aos 71 anos, com a série incompleta. Os volumes restantes saíram depois da sua morte: Gálatas, Efésios e Filipenses e as cartas de Colossenses a Filemom (1937), Hebreus e Tiago e as cartas de Pedro, João e Judas (1938). Reorganizada depois em doze volumes, a série foi reimpressa pela Augsburg nos anos 1960 e continua em catálogo.

O neto Gerhard Lenski tornou-se um sociólogo conhecido, e o bisneto Richard E. Lenski, biólogo, criou em 1988 um dos experimentos de evolução mais longos da ciência, com a bactéria E. coli.

Pensamento

Um luterano contra o calvinismo

Lenski é um simpatizante do arminianismo. Ele não se dizia arminiano: escrevia como luterano confessional, citava com frequência a Fórmula de Concórdia e via o “sinergismo”, a ideia de que o homem coopera com a própria conversão, como um erro grave. Nos pontos em que o arminianismo se separa do calvinismo, porém, ele está do lado de Armínio. Afirmou a expiação universal, a graça resistível, a eleição pela presciência e a possibilidade real de cair da graça, e combateu sem trégua a doutrina do decreto absoluto.

A posição vem do sínodo em que se formou. Entre o fim da década de 1870 e o começo da de 1880, os luteranos do Meio-Oeste americano se dividiram na chamada controvérsia da predestinação. C. F. W. Walther e o Sínodo de Missouri ensinavam que a eleição divina é causa da fé dos que se salvam. Matthias Loy e o Sínodo de Ohio respondiam que Deus elegeu intuitu fidei, isto é, em vista da fé que ele previu. Missouri acusou Ohio de sinergismo; Ohio acusou Missouri de calvinismo. A divisão durou décadas, e Lenski ficou do lado de Ohio.

A graça universal e resistível

O primeiro ponto é a extensão da graça. Comentando João 3:16 em New Gospel Selections (1919), Lenski afirma que “o mundo” significa ali todos os seres humanos, “sem exceção de um só indivíduo”. Chama a leitura calvinista, que reduz “o mundo” e “todos os homens” (1 Timóteo 2:4) a “toda espécie de homens”, de “um dos erros piores e mais perigosos”, que envenena “o rio da graça livre na própria nascente”. A raiz do erro, para ele, é ler as promessas universais à luz de uma vontade secreta que salva só alguns, quando Deus é sincero no chamado do evangelho. Seguindo a teologia luterana clássica, distingue a vontade antecedente de Deus, que quer a salvação de todos, da vontade consequente, que salva os que creem e julga os que recusam.

O segundo ponto é o modo como a graça age. Em Saint Paul (1916), ao comentar a conversão de Saulo em Atos 9, ele escreve: “A revelação feita a Saulo não agiu de modo automático, nem com força irresistível; ele não foi compelido e forçado a crer”. O ser humano pode opor à verdade uma “oposição voluntária e obstinada”, como fez o faraó. Do mesmo modo, comentando João 12, rejeita a ideia de que Deus mandou o profeta anunciar a incredulidade dos judeus e depois a produziu no coração deles para cumprir a profecia: “Isso seria calvinismo”. O endurecimento é juízo que vem depois, quando o evangelho, recusado de propósito, se torna “cheiro de morte, para a morte” (2 Coríntios 2:16, Bíblia Livre). No comentário a Romanos (1936) a leitura é a mesma: o “endurece a quem quer” de Romanos 9:18 não pode significar que Deus endurece alguns por causa de um decreto eterno e absoluto.

Incapacidade humana e fé como dom

Lenski afirma a incapacidade total do homem natural com a mesma força que Armínio. Comentando a parábola da figueira estéril, corrige quem diz que ali “o livre-arbítrio do homem é reconhecido e respeitado”: “Não há livre-arbítrio, apenas uma vontade presa, escravizada, no estado natural ou não convertido do homem” (New Gospel Selections, 1919). A fé é “esta bendita obra de Deus, não do homem” (Saint Paul, 1916, sobre Romanos 3:24), e por isso não é mérito. Quando a justificação é “de graça”, escreve, até “o mais sutil sinergismo” fica excluído, mas a fé nunca fica de fora, porque Deus não justifica ninguém sem ela.

É o mesmo equilíbrio que o arminianismo clássico chama de graça preveniente: Deus age primeiro e liberta a vontade, e a pessoa, alcançada pela graça, pode crer ou resistir. Lenski não usa o termo. Ele descreve essa obra como o poder de Cristo, da Palavra e do Espírito que acende a fé e que muitos “resistem com sucesso”. O desenho é parecido com o da Declaração de Sentimentos de Jacó Armínio.

Eleição pela presciência e perseverança condicional

Sobre a eleição, Lenski fica com a resposta de Ohio. Em João 11:52, Caifás profetiza que Jesus morreria para juntar em um “os filhos de Deus, que estavam dispersos” (João 11:52, Bíblia Livre). Eles são chamados filhos antes de crer, e Lenski explica que isso não repousa num “decreto absoluto e misterioso de predestinação”, que seria calvinismo, nem numa boa disposição natural das pessoas, que seria pelagianismo. Repousa na presciência divina, “que conhece desde o princípio todos aqueles em quem a graça e o chamado terão êxito” (New Gospel Selections, 1919). É uma eleição condicional à fé, mas a fé continua sendo fruto da graça (ver A eleição condicional em Cristo).

Sobre a perseverança, a posição é igualmente clara. Em João 6:39 Jesus diz que é vontade do Pai que ele não perca nenhum dos que lhe foram dados. Lenski comenta que isso não quer dizer que uma alma que chegou à fé não possa mais se perder: “Não há preservação irresistível”. Na mesma linha, ao comentar o sal que perde o sabor (Mateus 5:13), em The Eisenach Gospel Selections, cita com aprovação Matthias Loy: os crentes podem se afastar do Salvador e “cair da graça”. É a perseverança condicional que a nossa declaração de fé também afirma (ver A perseverança dos santos).

Onde Lenski se afasta da nossa declaração de fé

Há diferenças, e elas vêm da tradição luterana. A primeira está nos meios de graça. Para Lenski o Espírito Santo age sempre pela Palavra e pelos sacramentos, e não “imediatamente”, separado deles; por isso desconfiava de quem orava por “um novo Pentecostes” em reavivamentos. Armínio admitia que o Espírito age também antes e além da pregação, e a nossa declaração afirma que a graça preveniente alcança todas as pessoas. A segunda está na santificação. Lenski chamou de “um dos grandes erros de hoje” a ideia de uma “segunda bênção” instantânea, que ele entendia como um estado sem pecado. A inteira santificação que defendemos não é ausência de pecado, de erros ou de tentações, mas um coração purificado e cheio de amor, que continua a crescer. Lenski ensinava que, onde o Espírito justifica, ele também começa a santificar, e que a luta contra o pecado dura a vida toda.

Um exegeta de polêmica

O tom de Lenski é combativo: ele escreve contra calvinistas, contra críticos alemães como Theodor Zahn e contra luteranos de outros sínodos. Em 2001 James White, apologista reformado, publicou uma resposta aos comentários de Lenski sobre Romanos 9, acusando-o de retratar a posição reformada de modo injusto. Para os defensores da eleição incondicional, o seu comentário a Romanos ainda é um adversário a enfrentar.

O seu legado maior está na paciência com o texto grego, e muitos que nunca ouviram falar do Sínodo de Ohio aprenderam com Lenski que a graça de Deus é para todos, que pode ser recusada e que a fé que salva é presente de Deus (ver também Arminianismo: expiação para todos).

Obras principais

  • His Footsteps: Studies for Edification from the Life of Christ (1898)
  • The Eisenach Epistle Selections (1914)
  • The Eisenach Gospel Selections (2ª ed. revista, 1916)
  • Saint Paul: A Brief Series of Evening Texts Made Ready for Pulpit Work (1916)
  • New Gospel Selections (1919)
  • The Eisenach Old Testament Selections (1925)
  • The Epistle Selections of the Ancient Church (1935)
  • The Gospel Selections of the Ancient Church (1936)
  • Comentário ao Novo Testamento, série The Interpretation of…: Evangelho de João (1931), Mateus (1932), Marcos e Lucas (1934), Atos (1934), Apocalipse (1935), 1 e 2 Coríntios (1935), Romanos (1936), Gálatas, Efésios e Filipenses (1937), Colossenses a Filemom (1937), Hebreus e Tiago (1938), cartas de Pedro, João e Judas (1938)

Para aprofundar

  • Lueker, Erwin L.; Poellot, Luther; Jackson, Paul (orgs.). “Lenski, Richard Charles Henry”. Christian Cyclopedia. Concordia Publishing House / Igreja Luterana–Sínodo de Missouri. cyclopedia.lcms.org
  • Bexley Historical Society. “Lois Lenski Covey: author, illustrator”. bexleyhistoricalsociety.org
  • EBSCO Research Starters. “Lois Lenski”. ebsco.com
  • Rast, Lawrence. Church History 3: Predestination Controversy (aula). Concordia Theological Seminary, Fort Wayne. media.ctsfw.edu
  • Kretzmann, P. E. Resenha de The Interpretation of St. John’s Gospel. Concordia Theological Monthly, 1931. media.ctsfw.edu
  • White, James. “A Reformed Response to the Comments of R. C. H. Lenski on Romans 9” (2001). Alpha and Omega Ministries. aomin.org
  • Lenski, R. C. H. His Footsteps (1898). archive.org
  • Lenski, R. C. H. Saint Paul (1916). archive.org
  • Lenski, R. C. H. The Eisenach Gospel Selections, 2ª ed. (1916). archive.org
  • Lenski, R. C. H. New Gospel Selections (1919). archive.org
  • R. C. H. Lenski. Dahlias (catálogo, Columbus, 1923). Henry G. Gilbert Nursery and Seed Trade Catalog Collection. archive.org
  • Lutheran Library. “Richard C. H. Lenski” (página do autor, com obras digitalizadas). lutheranlibrary.org
  • “Richard C. H. Lenski”. Wikipedia (em inglês). en.wikipedia.org

Este texto faz parte da série sobre os teólogos arminianos.

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