
Jônatas Macabeu era o Sacerdote Ímpio de Qumran?
Jônatas, o Sacerdote Ímpio dos manuscritos do mar Morto e a pergunta de Hebreus 5 sobre a honra do sacerdócio
Na festa das Cabanas de 152 antes de Cristo, entre as tendas de ramos de Jerusalém, o sacerdote Jônatas vestiu a veste do sumo sacerdote por carta de um rei grego. Era ele o Sacerdote Ímpio dos manuscritos do mar Morto?
A carta chegou com púrpura e uma coroa de ouro. Jônatas, irmão de Judas, o Macabeu, comandava os judeus fiéis numa Judeia sujeita aos reis gregos da Síria. E, nos manuscritos do deserto, um grupo que rompeu com o sacerdócio de Jerusalém acusa um sumo sacerdote sem nome de ter começado bem e terminado no orgulho.
Um sumo sacerdote nomeado por carta
Em Ptolemaida, o porto que hoje se chama Aco, reinava desde aquele ano Alexandre, rival de Demétrio no trono da Síria. A carta abre com “O rei Alexandre ao irmão Jônatas, saudações”, e irmão é fórmula de corte. Depois vem a nomeação: “E agora te constituímos hoje sumo sacerdote da tua nação, e que sejas chamado Amigo do Rei”, que era um posto da corte.
Quem conta é o primeiro livro dos Macabeus, escrito por volta de 100 antes de Cristo por um partidário da família de Jônatas. Está na Bíblia católica e na ortodoxa; as igrejas da Reforma não o contam como Escritura, mas o leem como documento histórico. A carta não fala da família sacerdotal de Jônatas, de unção nem do consentimento dos sacerdotes. Quem nomeia é o rei, e o meio é uma carta. E o livro conta que Jônatas “vestiu a veste santa” e, na mesma frase, “reuniu tropas e preparou muitas armas”. O sumo sacerdote novo era também chefe militar.
Demétrio também escreveu, mas “à nação dos judeus”, e não a Jônatas, e ofereceu mais, como 15 mil siclos de prata por ano para o santuário. Se essa carta é autêntica, discute-se. Mas “Jônatas e o povo não acreditaram nessas palavras” e ficaram com Alexandre, “porque fora o primeiro a dirigir-lhes palavras de paz”. Em 150, Demétrio caiu em batalha, e Alexandre se casou em Ptolemaida com uma filha do rei do Egito. Nas bodas, o rei mandou vestir Jônatas de púrpura e sentou-o ao seu lado, e depois, diz o livro, “o glorificou”. Cada rei novo voltou a confirmar o cargo: três reis, três confirmações. A honra tinha virado lance de leilão.
Uns 15 anos antes, em Modin, oficiais de outro rei grego tinham feito uma oferta ao pai de Jônatas: “E serás tu e teus filhos dos amigos do rei, e tu e teus filhos sereis glorificados com prata e ouro.” O pai recusou, porque a oferta exigia abandonar a aliança, o que a carta não pedia. Mas o filho aceitou o título que o pai recusou; a observação é nossa.
A púrpura não era estranha ao sumo sacerdote: as vestes de Arão já eram de “ouro, azul, púrpura, carmesim e linho”. A diferença estava em quem dava a veste: a de Arão vinha da Lei; a púrpura de Jônatas, de um rei estrangeiro, de origem duvidosa.
Pouco antes da carta, um antigo ministro de Antíoco IV, o rei contra quem os Macabeus se levantaram, levou a Roma o jovem Alexandre e preparou o terreno no Senado. Quem conta é Políbio, historiador grego contemporâneo dos fatos, nas Histórias. Os homens sensatos, escreve ele, “percebiam a montagem do drama”, mas o Senado votou a favor de “filhos de um rei que foi nosso amigo e aliado”, sem dizer qual. O primeiro livro dos Macabeus chama Alexandre de filho de Antíoco, sem discutir. Mas dois historiadores posteriores, um latino e um grego, escrevem com todas as letras que ele mentiu sobre a própria origem. Foi esse rei quem deu a Jônatas a púrpura.
Jônatas, ao contrário, era sacerdote de nascimento, mas não da casa que tinha o sumo sacerdócio havia gerações. Flávio Josefo, sacerdote judeu que escreveu em Roma as Antiguidades Judaicas, mais de dois séculos depois, conta que a quebra veio com Alcimo, “da linhagem de Arão, mas não desta casa”. Alcimo morreu em 159, paralisado, depois de mandar derrubar o muro do pátio interior do santuário, e o primeiro livro dos Macabeus se cala até as Cabanas de 152. Josefo escreve que “a cidade ficou sete anos sem sumo sacerdote”, mas, em outro livro das Antiguidades, põe no cargo o próprio Judas.
Os rolos do deserto e o Sacerdote Ímpio
Em 1947, numa gruta perto do mar Morto, não longe das ruínas de Qumran, apareceram sete rolos. Um deles era um comentário ao profeta Habacuque, copiado uns cem anos depois de Jônatas, de um texto que pode ser mais antigo. Quem guardou esses rolos não deixou o nome. O episódio sobre fariseus e saduceus mostrou que a maioria dos estudiosos pensa que foram essênios, mas a hipótese tem críticos sérios. Os textos falam de um grupo guiado por sacerdotes, que lia os profetas como se falassem da sua própria história.
O comentário nunca diz o nome do adversário: chama-o de Sacerdote Ímpio. O primeiro retrato diz que ele “foi chamado pelo nome da verdade no começo do seu posto”. E continua: “mas, quando governou em Israel, o seu coração se elevou, e abandonou a Deus e traiu os preceitos por causa da riqueza.” No começo, um bom nome, provavelmente a fama de leal e verdadeiro. Depois, um verbo de governo, e não de culto, e por isso se procura um sumo sacerdote que também governava. E o coração que se eleva vem da lei do rei, em Deuteronômio 17: o comentário acusa o sacerdote com a regra que a Lei dava ao rei.
Mais adiante vem o castigo: Deus o “entregou na mão dos seus inimigos”, “porque agiu impiamente contra o seu eleito”. O eleito é o Mestre de Justiça, que também era sacerdote e, para o grupo, o intérprete de “todas as palavras dos seus servos, os profetas”. O conflito é entre dois sacerdotes, e nenhum dos dois tem nome.
Na cena mais estranha, o Sacerdote Ímpio “perseguiu o Mestre de Justiça para devorá-lo no ardor do seu furor, na sua casa de exílio”. E, no Dia da Expiação, “apareceu-lhes para devorá-los e fazê-los tropeçar no dia do jejum, o sábado do seu repouso”. O episódio sobre Pompeu no Santo dos Santos lembrou que esse era o único dia do ano em que o sumo sacerdote passava o véu. Se pôde viajar no dia deles, é porque o grupo guardava esse dia em outra data, com outro calendário. É dedução, embora a mais aceita. É o retrato de um sumo sacerdote visto pelos que ele perseguia.
Numa cópia da Regra da Comunidade, achada na mesma gruta, quem entra se submete “à decisão dos filhos de Zadoque, os sacerdotes que guardam a aliança”. Seria natural ver ali os herdeiros do antigo sacerdote Zadoque, expulsos de Jerusalém pela família de Jônatas. Os textos complicam. Outras cópias da Regra dizem “à decisão dos Muitos”, isto é, dos membros do grupo. E o Documento de Damasco, ligado ao grupo, chama os filhos de Zadoque de “os eleitos de Israel, os chamados pelo nome, que estão de pé no fim dos dias”. É título dos eleitos, e não árvore genealógica.
Quem foi o Sacerdote Ímpio?
Toda identificação do Sacerdote Ímpio é hipótese, e a mais comum é Jônatas. O nome da verdade combina com o chefe que “julgava o povo e eliminou os ímpios de Israel”, a frase sobre o governo combina com a investidura por um rei, e o castigo combina com o seu fim. Um general que queria “cingir o diadema” atraiu Jônatas a Ptolemaida, e lá “fecharam as portas, prenderam-no”. No inverno de 143 para 142, o general o matou. A mesma cidade onde o rei o tinha vestido de púrpura o entregou aos inimigos. Mas não há indício de que Jônatas tenha perseguido dissidentes judeus, e os textos não dizem que o Sacerdote foi morto por estrangeiros, só que foi entregue.
Simão, o irmão dele, é o segundo nome mais citado. Outros pensam num neto de Simão que foi rei e sumo sacerdote, e há quem leia no título uma série de sumos sacerdotes. Numa tese publicada em 1971, o estudioso Hartmut Stegemann propôs que o silêncio daqueles sete anos escondia um sumo sacerdote, o Mestre de Justiça, afastado por Jônatas. É uma hipótese bonita, mas nenhum texto antigo diz isso.
Os textos não dão o nome; dão o retrato. Começou com nome de verdade, ensoberbeceu ao governar, juntou riqueza, perseguiu o Mestre e foi entregue aos inimigos. A maioria aposta em Jônatas, e o retrato serve, com perturbadora facilidade, a mais de um homem daquele século.
De onde vem a honra: Hebreus 5
O grupo do deserto não deixou de esperar um sacerdote. A Regra fala do tempo “até que venha um profeta e os messias de Arão e de Israel”, um ungido sacerdote e um ungido rei. E, como vimos no episódio sobre a dinastia que se destruiu por dentro, o decreto que deu o cargo a Simão também esperava, “até que se levante um profeta fiel”. Jesus, como também vimos nesse episódio, não era da linhagem de Arão: veio de Judá.
A carta aos Hebreus não responde a Qumran do jeito que Qumran queria, mas volta à pergunta que estava por baixo de tudo: de onde vem a honra. Hebreus 5 começa dizendo que todo sumo sacerdote é “tomado dentre os homens” e “é constituído”, o verbo da carta do rei, e que “está revestido de fraqueza”: veste as vestes santas, e por baixo delas veste a fraqueza.
Vem então o versículo 4: “E ninguém toma para si mesmo a honra, mas a recebe quem é chamado por Deus, como também Arão.” O sacerdote legítimo é tomado; o ilegítimo toma. Depois da revolta de Coré, que contestou o sacerdócio de Arão, Deus disse a ele: “como serviço de presente vos dou o vosso sacerdócio”.
E o versículo 5: “Assim também o Cristo não glorificou a si mesmo para se tornar sumo sacerdote; glorificou-o aquele que lhe disse: ‘Tu és meu Filho, eu hoje te gerei’.” Glorificar é o verbo do rei que glorificou Jônatas, e, onde o rei escreveu “te constituímos hoje”, Deus diz “eu hoje te gerei”. A ponte é nossa: não há indício de que o autor de Hebreus pensasse em Jônatas.
O sumo sacerdote que Deus constituiu
O versículo 6 cita o salmo em que o Senhor jura: “Tu és sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque”. A investidura de Cristo vem nos versículos 7 e 8: “Ele, nos dias da sua carne, ofereceu orações e súplicas, com forte clamor e lágrimas, àquele que podia salvá-lo da morte, e foi atendido por causa da sua reverência; embora fosse Filho, aprendeu a obediência pelas coisas que sofreu.” E, “tendo sido aperfeiçoado, tornou-se causa de salvação eterna para todos os que lhe obedecem, proclamado por Deus sumo sacerdote segundo a ordem de Melquisedeque”.
Na Bíblia grega, aperfeiçoar é o verbo da consagração dos sacerdotes: Arão foi consagrado com vestes, e Hebreus usa a mesma palavra para o que o sofrimento fez em Cristo. O reformador João Calvino, no Comentário a Hebreus, de 1549, viu na cruz e na morte “uma espécie solene de consagração”. Jônatas recebeu de um rei uma coroa de ouro. Hebreus diz que agora vemos Jesus “por causa do sofrimento da morte, coroado de glória e de honra”. Quem o constituiu não foi carta de rei, nem decreto do povo, mas o juramento de Deus.
Nem o arranjo de Jerusalém nem a retirada do deserto resolveram a crise. Hebreus também manda sair, mas em direção a uma pessoa: “Saiamos, pois, a ele, fora do acampamento”. E o Sacerdote Ímpio foi acusado por sacerdotes judeus como ele: o aviso não é contra um povo, é para todo líder, a começar pelos nossos.
Volte às tendas de ramos de 152, ao sacerdote que vestiu a veste santa porque uma carta chegou com púrpura e ouro. Ele pode ter sido o Sacerdote Ímpio, mas nenhum texto diz o nome; certo é que foi nomeado por um rei grego. Cristo foi proclamado por Deus. Diante dele, ninguém toma nada, e Hebreus convida: “Aproximemo-nos, pois, com ousadia do trono da graça, para recebermos misericórdia”.
- História da Igreja
- Macabeus
- Segundo Templo
- Sumo Sacerdote
