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Gerizim ou Jerusalém? A resposta de Jesus à samaritana

Os dois montes, o templo derrubado e o que Jesus disse à mulher no poço de Jacó (João 4)

Diego Gonçalvesatualizado 11 min de leitura2.154 palavras

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Por volta do ano 30, ao meio-dia, um judeu cansado da viagem se sentou à beira de um poço, ao pé do monte Gerizim, e pediu água a uma mulher samaritana. Acima deles, no alto do monte, estavam os restos de um templo que um sumo sacerdote judeu tinha destruído mais de cem anos antes. E foi para aquele monte que ela virou a conversa, ao fazer a Jesus a pergunta que dividia dois povos: qual dos dois montes era o lugar certo de adorar a Deus?

A pergunta ao pé do monte

Quem conta a cena é o Evangelho de João, no capítulo 4. Jesus ia da Judeia para a Galileia, e João diz que era necessário passar pela Samaria. O historiador judeu Flávio Josefo explica por quê: para quem tinha pressa, pela Samaria se ia da Galileia a Jerusalém em três dias. Mas o caminho mais curto atravessava a terra de um povo com quem os judeus não se davam.

A mulher disse isso com todas as letras: “Como é que tu, sendo judeu, pedes de beber a mim, que sou mulher samaritana?” E o versículo termina assim: “Pois judeus não se dão com samaritanos.” Nos quatro Evangelhos, é a única vez que Jesus é chamado de judeu, no singular, e quem o chama assim é uma samaritana. Na mesma frase, ela nomeia duas distâncias: judeu e samaritana, homem e mulher.

O poço também tinha história. Ficava perto do campo que Jacó deu ao filho José, onde os ossos de José foram enterrados. E a mulher pergunta a Jesus se ele é maior que “o nosso pai Jacó, que nos deu o poço”. Para ela, os samaritanos eram filhos de Jacó, tanto quanto os judeus.

Depois de ouvir dele coisas da sua vida que um estranho não podia saber, ela diz: “Senhor, vejo que tu és profeta. Os nossos pais adoraram neste monte; e vós dizeis que em Jerusalém está o lugar onde é preciso adorar.” Neste monte. Do poço, ela podia apontar.

O templo derrubado no alto do monte

A pergunta dela não era curiosidade de escola. Carregava mais de cem anos de mágoa, e, para entendê-la, é preciso subir ao monte.

Quem conta o que aconteceu lá em cima é o mesmo Josefo, um sacerdote de Jerusalém que escreveu as Antiguidades Judaicas em Roma, por volta do ano 93. Ele não gostava dos samaritanos: chamava-os de cuteus, como se fossem estrangeiros. Ele conta que o sumo sacerdote João Hircano, neto do Macabeu Matatias, o mesmo que, segundo o próprio Josefo, rompeu com os fariseus, tomou Siquém e o Gerizim, onde ficava “o santuário feito à imagem do templo de Jerusalém”. E acrescenta uma frase seca: “este santuário ficou deserto”. Josefo não fala de incêndio nem de demolição, e o monte, esse, continuou santo para os samaritanos. O que caiu foi o templo, com a cidade que havia ao redor dele no topo, e quem mostrou isso foi a arqueologia, que também mudou a data.

Pela ordem do relato de Josefo, isso teria acontecido por volta de 128 antes de Cristo. Mas o arqueólogo israelense Yitzhak Magen escavou o topo do Gerizim por mais de vinte anos. Pelas moedas que achou ali, ele concluiu que o templo e a cidade foram destruídos por volta de 110, quase vinte anos depois.

Uns anos depois, os filhos de Hircano cercaram a cidade de Samaria durante um ano, e Josefo diz que Hircano a fez desaparecer, deixando as torrentes cobrirem o lugar. Era a cidade grega, não o centro dos samaritanos.

E uma lista judaica em aramaico, a Megillat Ta’anit, a Lista dos Jejuns, que muitos datam do século primeiro, guarda os dias em que era proibido fazer luto. No mês de Kislev, ela registra “o dia do monte Garizim, em que não se faz luto”. Muitos estudiosos leem nessa linha a vitória de Hircano. Se estiverem certos, o fim do outro templo virou, em Jerusalém, um dia de festa.

Quem eram os samaritanos

Mas quem eram os que adoravam no outro monte? Do lado de Judá, o segundo livro dos Reis conta que a Assíria, depois de conquistar o reino do Norte, trouxe colonos de várias nações para a Samaria, e que eles “temiam o Senhor e serviam os seus deuses”. Foi assim que Jerusalém aprendeu a contar a origem dos vizinhos. Mas o capítulo fala dos colonos assírios, e os samaritanos do tempo de Jesus adoravam um só Deus e guardavam a Lei de Moisés. Eles contavam outra história.

Numa inscrição grega da ilha de Delos, de uns duzentos anos antes de Cristo, eles se apresentam assim: “Os israelitas que fazem oferendas ao santuário santo do Argarizein”. Argarizein é o monte Gerizim, escrito numa palavra só, como os samaritanos o escreviam. Não se diziam samaritanos, mas israelitas, filhos de José, guardiões da Lei. Aceitavam como Escritura só os cinco livros de Moisés. E, nesses cinco livros, o lugar estava escrito. Em Deuteronômio 12, Moisés manda o povo buscar “o lugar que o Senhor escolher”. É o que diz o texto hebraico dos judeus: o lugar ainda seria revelado, e o leitor que conhecia a história de Davi sabia qual era. Na Bíblia dos samaritanos, o Pentateuco Samaritano, falta uma letra, e a frase diz: “o lugar que o Senhor escolheu”. Já estava escolhido, no tempo de Moisés. Era o Gerizim, o monte da bênção, junto de Siquém, onde Abraão e Jacó tinham levantado altares.

E há mais. Em Deuteronômio 27, onde os judeus leem que o altar devia ser feito no monte Ebal, os samaritanos leem no monte Gerizim; qual é a leitura mais antiga, os especialistas ainda discutem. E, na Bíblia deles, depois do “não cobiçarás”, vem um mandamento a mais, que manda edificar o altar no Gerizim. Para um samaritano, adorar naquele monte não era só seguir o exemplo dos pais, de que a mulher falou. Era obediência aos Dez Mandamentos.

A rivalidade era antiga. Duzentos anos antes de Jesus, um sábio de Jerusalém chamado Ben Sira escreveu o livro que hoje se chama Eclesiástico. Ali ele diz que havia duas nações de que a sua alma tinha nojo, e uma terceira que nem povo era: “a nação insensata que mora em Siquém”. E Josefo conta, numa história com jeito de lenda, que em Alexandria, por volta de 150 antes de Cristo, judeus e samaritanos levaram a briga a um rei do Egito. Cada lado dizia que o seu templo tinha sido construído segundo as leis de Moisés. Era a pergunta da samaritana, feita num tribunal.

No tempo de Jesus, a ferida estava aberta. Josefo conta que, numa noite de Páscoa, por volta do ano 6 ou 9, samaritanos entraram às escondidas no Templo de Jerusalém e espalharam ossos humanos pelos pórticos, o que tornava o lugar impuro para a festa. E Lucas conta o outro lado: quando Jesus mandou mensageiros a uma aldeia samaritana, não o receberam, porque o rosto dele ia na direção de Jerusalém. Tiago e João quiseram mandar descer fogo do céu sobre a aldeia, e Jesus os repreendeu.

A resposta de Jesus

É contra esse fundo que se ouve a resposta de Jesus à mulher. Está em João 4:21-22:

“Disse-lhe Jesus: Mulher, crê em mim, que a hora vem, quando nem neste monte, nem em Jerusalém, adorareis ao Pai. Vós adorais o que não sabeis; nós adoramos o que sabemos, porque a salvação vem dos judeus.”

(João 4:21-22, Bíblia Livre)

Ele diz três coisas. Primeiro, que vem uma hora, e em João a hora costuma ser a de Jesus, a da cruz e da glória. Segundo, que a salvação vem dos judeus: ele fala como judeu e não diz à samaritana que os dois lados têm razão. Terceiro, que a pergunta muda. Ela perguntou onde; ele responde a quem. Ela falou do lugar; ele fala do Pai.

E continua: “Mas vem uma hora, e é agora, em que os verdadeiros adoradores adorarão o Pai em espírito e verdade.” A hora ainda vinha, porque a cruz estava à frente, e já tinha chegado, porque ele estava ali.

Em espírito e verdade é, no grego, uma expressão só, e não opõe o culto de dentro ao culto de fora. No Evangelho de João, o Espírito é o que Jesus vai dar, e a verdade é ele mesmo, como ele diz em João 14:6: eu sou o caminho, e a verdade, e a vida.

A mulher responde com a esperança que tinha: “Sei que vem o Messias, chamado Cristo. Quando ele vier, nos anunciará todas as coisas.” Os cinco livros que os samaritanos aceitavam prometiam um profeta como Moisés, que falaria tudo o que Deus lhe mandasse, e a Bíblia deles trazia essa promessa logo depois dos Dez Mandamentos. O profeta falaria tudo; ela esperava quem anunciasse todas as coisas. E Jesus responde: “Eu sou, eu que falo contigo.” É a primeira vez que ele diz eu sou no Evangelho de João.

O que os primeiros leitores entenderam

Os primeiros leitores cristãos entenderam que essa resposta não era um tanto faz. Orígenes escreveu esta parte do seu Comentário a João em Cesareia, não longe do Gerizim, no século 3. Ele conta que os samaritanos ainda diziam aos judeus a mesma frase da mulher, e escreve que, antes da hora anunciada pelo Senhor, se devia fugir do monte dos samaritanos e adorar em Sião.

Treze séculos depois, o reformador João Calvino, que lia o Deuteronômio no texto dos judeus, resumiu no seu comentário a João: “Os samaritanos tinham por regra o exemplo dos pais; os judeus apoiavam-se no mandamento de Deus.” Mas, chamando Deus de Pai, diz Calvino, Jesus anunciava que Deus seria Pai comum de todos. E foi isso que aconteceu ali mesmo.

A mulher deixou o cântaro e foi contar na cidade, e muitos samaritanos vieram e pediram a Jesus que ficasse com eles. O judeu que tinha pedido água ficou dois dias hospedado entre samaritanos. E eles disseram à mulher: “Nós mesmos ouvimos e sabemos que este é verdadeiramente o Salvador do mundo.” A história do poço, em que Jesus disse que a salvação vem dos judeus, termina com samaritanos chamando um judeu de Salvador do mundo.

Anos depois, o livro de Atos conta que a Samaria recebeu a palavra de Deus, e os apóstolos de Jerusalém mandaram para lá Pedro e João, que oraram para que os samaritanos recebessem o Espírito Santo. O mesmo João que quis fogo do céu sobre uma aldeia samaritana desceu à Samaria para pedir o Espírito sobre ela. E Lucas, que escreveu as duas cenas, usa o mesmo verbo: a aldeia não tinha recebido Jesus, e agora a Samaria tinha recebido a palavra.

O lugar que se cumpriu numa pessoa

Muito depois de Jesus, um pequeno tratado dos rabinos, chamado Kutim, “os cuteus”, diz quando um samaritano poderia ser recebido: quando renegasse o monte Gerizim e confessasse Jerusalém e a ressurreição dos mortos. Jesus não pediu à mulher que trocasse de monte. O mesmo Evangelho já tinha dito onde estava o lugar: Jesus falou do santuário do seu corpo, e o Verbo se fez carne e armou a sua tenda entre nós. O lugar que os dois povos disputavam se cumpriu numa pessoa.

Volte ao poço ao pé do Gerizim, com os restos do templo lá no alto. A pergunta da mulher trazia duas coisas: um templo derrubado por João Hircano, sumo sacerdote de Jerusalém, e uma Bíblia que punha aquele monte nos Dez Mandamentos. Jesus não deu razão ao monte dela, nem tirou de Jerusalém o que Deus lhe tinha dado: a salvação vinha dos judeus. Mas disse que a hora de adorar o Pai em espírito e verdade tinha chegado nele, e os samaritanos que o ouviram chamaram aquele judeu de Salvador do mundo. O monte continua lá, e os samaritanos também: pouco menos de mil, que ainda sacrificam cordeiros no Gerizim toda Páscoa. Jesus continuou subindo a Jerusalém nas festas. Uns quarenta anos depois da conversa no poço, foi o Templo de Jerusalém que ficou em ruínas, destruído pelos romanos no ano 70.

E, séculos depois, um comentário dos rabinos ao Gênesis, o Bereshit Rabbah, conta que um samaritano viu um rabino a caminho de Jerusalém e lhe perguntou se não seria melhor orar “neste monte bendito do que naquela casa arruinada”. Naquela casa, no pátio de fora, uma pedra escrita em grego ameaçava de morte o estrangeiro que desse mais um passo.

Publicado em 19 de outubro de 2026 · Atualizado em 25 de outubro de 2026

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Fontes para aprofundar

  • The History of the Jewish People in the Age of Jesus ChristEmil Schürer (rev. Geza Vermes, Fergus Millar e Martin Goodman) · 1885–1891; edição revista 1973–1987

    A obra de referência sobre a história, as instituições e a literatura do judaísmo de 175 a.C. a 135 d.C. A edição revista em inglês atualizou o original alemão com Qumran.

  • A guerra judaicaFlávio Josefo · c. 75

    Testemunho de quem lutou na revolta de 66 e depois passou para o lado romano. É a fonte principal sobre a destruição de Jerusalém e do Templo no ano 70, acontecimento que…

  • Antiguidades judaicasFlávio Josefo · c. 93–94

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