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Quem traiu Jerusalém e abriu as portas para Roma?

A dinastia dos hasmoneus, dos Macabeus a Pompeu: como uma família dividida entregou Jerusalém a Roma

Diego Gonçalvesatualizado 10 min de leitura2.036 palavras

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Por volta de 88 antes de Cristo, no meio de Jerusalém, um rei judeu mandou crucificar oitocentos judeus e assistiu bebendo, reclinado com as concubinas. Ele era neto dos Macabeus, os heróis que libertaram Israel. Como essa família acabou entregando Jerusalém a Roma?

Setenta e nove anos separam o dia em que os Macabeus livraram os judeus do jugo dos reis gregos do dia em que o general romano Pompeu entrou em Jerusalém. Em todo esse tempo, uma só família governou a Judeia: a dos hasmoneus, como os historiadores a chamam. O inimigo que a derrubou não veio de fora.

O decreto de Simão

Em setembro de 140 antes de Cristo, no pátio do Templo, os sacerdotes e o povo mandaram gravar em placas de bronze um decreto em favor de Simão, o último dos irmãos Macabeus. Dois anos antes, os judeus tinham voltado a ser independentes, e o autor do primeiro livro dos Macabeus registrou o momento numa frase curta: “foi tirado de Israel o jugo das nações”. O decreto dava a Simão o exército, o Templo e a púrpura, e dizia assim: “os judeus e os sacerdotes houveram por bem que Simão fosse o chefe deles e sumo sacerdote para sempre, até que se levantasse um profeta fiel”.

Repare nas duas pontas dessa frase. “Para sempre” fazia do cargo uma herança de família. “Até que se levantasse um profeta fiel” punha a herança sob reserva, porque o poder vinha de um decreto do povo, não de uma palavra de Deus.

A família de Simão era de sacerdotes, mas não da linhagem dos sumos sacerdotes, e não era da casa de Davi, a quem Deus tinha prometido o trono. Os livros dos Macabeus não estão na Bíblia das igrejas da Reforma, mas são uma boa fonte histórica, e aqui o próprio documento confessa que aquele arranjo era provisório.

Cinco anos depois, em 135, Simão desceu a Jericó com dois dos filhos e foi recebido pelo genro, Ptolomeu, numa pequena fortaleza chamada Doc. O livro dos Macabeus conta que, quando Simão e os filhos estavam embriagados, Ptolomeu e os seus homens se levantaram da mesa e mataram os três. O autor resume com uma frase seca: ele pagou o bem com o mal. O último dos irmãos Macabeus morreu à mesa, pelas mãos da própria família.

Hircano rompe com os fariseus

Quem conta o resto é Flávio Josefo, sacerdote judeu que descendia dessa mesma família pela mãe e que escreveu, em Roma, as Antiguidades Judaicas. O filho de Simão, João Hircano, governou trinta anos, e Josefo diz que ele era amado pelos fariseus, até um banquete em que pediu aos convidados que o corrigissem. Um deles, chamado Eleazar, respondeu: “Depõe o sumo sacerdócio, e que te baste governar o povo.” O motivo, disse Eleazar, era um boato de que a mãe de Hircano tinha sido cativa dos gregos, e o filho de uma mulher que talvez tivesse sido violentada não podia ser sumo sacerdote. Josefo diz que o boato era falso.

Mesmo assim, Hircano rompeu com os fariseus e passou para o partido dos saduceus, que só aceitavam as normas escritas na Lei de Moisés. Depois anulou as normas que os fariseus tinham dado ao povo e passou a punir quem as guardava.

O mesmo Hircano destruiu o templo dos samaritanos no monte Gerizim, o monte de que a samaritana falaria a Jesus mais de um século depois. E obrigou os idumeus, um povo vizinho do sul, a se circuncidar se quisessem ficar na sua terra. Desde então, diz Josefo, eles são judeus. É dessa Idumeia convertida à força que vai sair a família de Herodes, o rei que extinguiria os hasmoneus.

Aristóbulo e Alexandre Janeu

Quando Hircano morreu, o filho mais velho, Aristóbulo, quis mais do que o sumo sacerdócio. Josefo escreve que ele foi o primeiro a pôr o diadema de rei. Depois prendeu a própria mãe e a deixou morrer de fome, acorrentada, e mandou matar o irmão de quem mais gostava, num corredor escuro ao lado do Templo, por causa de uma intriga da corte. Josefo tira a lição dessa morte: nada é mais forte que a inveja e a calúnia, nada separa mais a afeição e o parentesco natural. Aristóbulo reinou um ano, e a casa estava em guerra consigo mesma.

O irmão que subiu ao trono depois dele se chamava Alexandre Janeu, e era rei e sumo sacerdote ao mesmo tempo. Numa festa das Cabanas, quando ele estava junto ao altar para oferecer o sacrifício, a multidão começou a atirar nele as cidras que cada judeu levava à festa. E voltou o velho boato: gritavam que ele vinha de uma cativa e era indigno de sacrificar. Janeu mandou os soldados estrangeiros atacarem, e Josefo diz que morreram uns seis mil.

Depois veio a guerra aberta. Josefo escreve que, em seis anos de guerra contra o próprio povo, Janeu matou não menos de cinquenta mil judeus. Quando ele perguntou o que queriam para fazer as pazes, todos gritaram que ele morresse. E o povo fez uma coisa que nenhum Macabeu teria imaginado: chamou contra o seu rei um rei grego, Demétrio, herdeiro do mesmo império de que os seus avós tinham se libertado. Demétrio venceu a batalha, mas a guerra virou, e Janeu voltou para Jerusalém com os prisioneiros.

A Guerra Judaica, de Josefo, conta o que ele fez. “Crucificou oitocentos no meio da cidade e degolou as mulheres e os filhos deles diante dos seus olhos; e assistia a isso bebendo, reclinado com as concubinas.” O povo deu ao rei o apelido de “o Trácio”, pela crueldade.

Esse fato tem uma segunda testemunha, que não depende de Josefo. Entre os manuscritos do mar Morto há um comentário ao profeta Naum, escrito por um grupo judeu que odiava tanto o rei quanto os fariseus. Ele fala de um Demétrio, rei dos gregos, que quis entrar em Jerusalém, e de um Leão Furioso que se vingou dos seus inimigos e que “pendura homens vivos”. A maioria dos estudiosos lê esse leão como Alexandre Janeu. Mais de um século antes de Roma crucificar Jesus fora dos muros de Jerusalém, a cruz já tinha sido levantada no meio da cidade por um rei-sacerdote da casa dos Macabeus.

Dois irmãos e um árbitro de fora

Quando Janeu morreu, a viúva, Salomé Alexandra, governou nove anos e entregou a administração aos fariseus que o marido tinha perseguido. Josefo resumiu o arranjo numa frase: ela governava os outros; os fariseus governavam a ela. Os fariseus usaram o poder para se vingar dos conselheiros de Janeu. Os nobres do velho rei se juntaram, então, em volta do filho mais novo da rainha, outro Aristóbulo, sobrinho do primeiro, e receberam dela várias fortalezas do país. Do outro lado ficaram os fariseus e o filho mais velho, outro Hircano, neto do primeiro, que a mãe tinha feito sumo sacerdote.

Quando a rainha morreu, em 67, os dois filhos fizeram o que a casa já tinha ensinado a fazer. Aristóbulo tomou a coroa. Hircano, o mais velho, fugiu para o rei dos nabateus, que voltou com um exército e cercou Aristóbulo no monte do Templo. Judeus cercavam judeus no lugar mais santo da nação.

Durante esse cerco, os sitiantes levaram ao acampamento um homem justo chamado Onias, famoso porque, numa seca, tinha orado por chuva e sido atendido, e mandaram que ele amaldiçoasse os sitiados. Josefo guardou a oração que ele fez em vez disso. “Ó Deus, rei do universo, já que os que estão comigo são o teu povo e os sitiados são os teus sacerdotes, peço-te que não atendas a uns contra os outros.” Os perversos dentre os judeus, diz Josefo, o cercaram e o apedrejaram ali mesmo. O único homem que se recusou a escolher um lado foi morto pelos de dentro.

Depois vieram os árbitros de fora. Os dois irmãos foram pedir a Pompeu que decidisse a briga, e quando o general marchou sobre Jerusalém, em 63, os partidários de Hircano lhe abriram as portas. O geógrafo grego Estrabão, que não tinha nenhum interesse em defender os judeus, resumiu na sua Geografia o fim da dinastia numa linha, sobre os dois irmãos: “brigando eles pelo poder, Pompeu veio e os depôs”. E Josefo, nas Antiguidades Judaicas, dá a sentença: os culpados daquela desgraça foram Hircano e Aristóbulo, por se levantarem um contra o outro.

Uma casa dividida contra si mesma

Uns noventa anos depois, na Galileia, escribas que tinham descido de Jerusalém acusaram Jesus de expulsar demônios pelo poder do príncipe dos demônios. A resposta dele está em Marcos 3:24-25:

“Se algum reino estiver dividido contra si mesmo, tal reino não pode durar; e se alguma casa estiver dividida contra si mesma, tal casa não pode durar firme.”

(Marcos 3:24-25, Bíblia Livre)

Jesus não estava falando dos hasmoneus. O argumento dele era que Satanás não expulsa Satanás, e que, se ele expulsava os demônios, era porque alguém mais forte tinha entrado na casa do forte e o amarrado. Mas a frase sobre o reino dividido era um provérbio que todo mundo conhecia, como notou o reformador João Calvino na sua Harmonia dos Evangelhos, e a história daquela família é um exemplo dela. João Crisóstomo, que pregou sobre o mesmo dito no século 4, nas Homilias sobre Mateus, disse do jeito mais curto: as guerras de fora não são tão ruinosas quanto as civis.

Os judeus piedosos que viveram aqueles anos sabiam onde estava a ferida. Eles nos deixaram os Salmos de Salomão, uma coleção que só leva o nome do antigo rei e não entrou na Bíblia. Um deles lamenta o general que derrubou os muros com o aríete. Noutro, escrito depois de Pompeu, o alvo é outro: eles acusam os que tomaram à força o trono prometido à descendência de Davi e o devastaram, e pedem que Deus levante o rei, filho de Davi. A maioria dos estudiosos reconhece nesses usurpadores os reis dessa família. O decreto de Simão tinha esperado um profeta fiel; os salmistas esperavam um filho de Davi.

Um profeta, um rei, um sacerdote

O Novo Testamento responde às duas esperas com o mesmo nome. Pedro, em Atos 3, diz que Jesus é o profeta que Moisés anunciou, aquele que Deus levantaria do meio do povo. A carta aos Hebreus, no capítulo 7, lembra que nosso Senhor procede de Judá, a tribo dos reis, e o apresenta como sacerdote para sempre, segundo a ordem de Melquisedeque, rei e sacerdote no tempo de Abraão.

A família que juntou o trono e o altar nas mesmas mãos caiu porque a morte e a inveja dividiam a casa a cada geração. Cristo é o profeta, o rei da casa de Davi e o sacerdote que vive para sempre, e quando a multidão quis fazê-lo rei à força, ele se retirou sozinho para o monte.

Volte àquele rei reclinado à mesa, bebendo diante das cruzes no meio de Jerusalém. Ele não era um invasor: era neto do homem a quem os judeus e os sacerdotes tinham dado o poder “até que se levantasse um profeta fiel”. A família que libertou Israel entregou Jerusalém a Roma porque se dividiu contra si mesma: cada geração tomou um título novo e perdeu um apoio, até que dois irmãos foram buscar fora o árbitro que a casa não tinha dentro. E isso confronta também a nós, porque toda comunidade de fé que começa lutando pela verdade pode terminar lutando pelo trono. A pergunta que cabe aqui está em 1 Coríntios 1:13: Cristo foi dividido?

Uns cento e vinte anos depois de Pompeu, num tribunal de Jerusalém, um prisioneiro chamado Paulo gritou que era fariseu, e o conselho dos sacerdotes se partiu ao meio.

Publicado em 17 de outubro de 2026 · Atualizado em 25 de outubro de 2026

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Fontes para aprofundar

  • 1 e 2 MacabeusJudaísmo do Segundo Templo · c. 124–100 a.C.

    A revolta dos macabeus contra Antíoco IV (167–160 a.C.), a purificação do Templo e o martírio dos fiéis. 2 Macabeus traz a esperança da ressurreição dos mártires e a oração…

  • A guerra judaicaFlávio Josefo · c. 75

    Testemunho de quem lutou na revolta de 66 e depois passou para o lado romano. É a fonte principal sobre a destruição de Jerusalém e do Templo no ano 70, acontecimento que…

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