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Judas 14 cita o livro de Enoque. Deveria estar na Bíblia?

O que Gênesis 5, Hebreus e Judas dizem sobre Enoque, e por que o livro citado por Judas ficou fora do cânon

Diego Gonçalvesatualizado 13 min de leitura2.507 palavras

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O livro de Enoque não está na Bíblia que você tem em casa, e mesmo assim a carta de Judas, no Novo Testamento, cita um trecho dele e diz que Enoque profetizou. O homem que dá nome a esse livro ocupa só quatro versículos de Gênesis, e a carta aos Hebreus afirma que ele não experimentou a morte. Por volta do ano duzentos, Tertuliano defendeu que os cristãos recebessem aquele escrito; quase dois séculos depois, Jerônimo registrou que muitos rejeitavam a carta de Judas por essa citação, e Agostinho explicou por que o livro ficou de fora. No século dezoito, George Whitefield pregou um sermão inteiro sobre uma única frase de Gênesis, “Enoque andou com Deus”, e a Igreja Ortodoxa Etíope lê o livro de Enoque como Escritura até hoje. Se um texto inspirado chama aquelas palavras de profecia, o que, afinal, faz um texto ser Palavra de Deus?

Quatro versículos e uma data que falta

Gênesis 5 é uma genealogia, ou seja, uma lista de pais e filhos que vai de Adão até Noé pela linhagem de Sete. Cada geração segue o mesmo molde, e o refrão se repete: um homem viveu tantos anos, gerou filhos e filhas, e morreu. Quem já caminhou por um cemitério de cidade pequena no Dia de Finados conhece esse ritmo: um nome, uma data de nascimento, uma data de morte, e logo ao lado outro nome com mais duas datas. Gênesis 5 soa assim até o sétimo nome a partir de Adão, cujo bloco termina de outro jeito no versículo 24. Na Nova Versão Internacional, ele diz: “Enoque andou com Deus; e já não foi encontrado, pois Deus o havia arrebatado”. Na linha de Enoque, falta a segunda data. Não confunda esse Enoque com o filho de Caim, cujo nome batiza uma cidade em Gênesis 4, nem com o livro que leva o seu nome e aparece citado no Novo Testamento. Como um homem de quatro versículos acabou emprestando o nome a um livro inteiro, e por que esse livro é citado na Escritura sem estar nela?

Antes do livro, precisamos olhar para o homem: o que Gênesis quer dizer quando afirma que Enoque andou com Deus? A expressão aparece duas vezes nesses quatro versículos e volta mais adiante, para descrever Noé, em Gênesis 6:9. Para os primeiros ouvintes, andar com alguém era partilhar o caminho de todo dia, e o texto não acrescenta nenhum feito: Enoque gerou Matusalém, teve outros filhos e filhas e andou com Deus por trezentos anos.

No século onze, na França, o comentarista judeu Rashi recolheu da tradição dos rabinos uma explicação para essa quebra: Enoque era justo, mas facilmente inclinado a voltar ao mal, e Deus o tirou do mundo antes da hora. Por isso, para Rashi, o texto diz apenas que Enoque já não estava: ele não ficou no mundo para completar os seus anos, e essa é uma leitura séria de um texto curtíssimo.

O Novo Testamento lê o mesmo silêncio de outro modo. Hebreus 11:5, diz: “Pela fé Enoque foi arrebatado, de modo que não experimentou a morte”, e acrescenta que antes disso ele “recebeu testemunho de que tinha agradado a Deus”. O autor de Hebreus citava a Septuaginta, a tradução grega do Antigo Testamento feita por judeus antes de Jesus, e nela o hebraico “andou com Deus” aparece como “agradou a Deus”. Por isso ele liga Enoque, logo no versículo 6, a esta regra: “Sem fé é impossível agradar a Deus”. Para Hebreus, andar com Deus, agradar a Deus e viver pela fé são a mesma vida vista de três lados. Onde Rashi viu um justo retirado para não cair, Hebreus vê um homem levado porque creu, e constrói esse retrato só com Gênesis.

Judas cita um livro que não está na Bíblia

Judas, porém, quando quis falar do mesmo Enoque, foi buscar as palavras em outro texto. Que texto foi esse, e por que um autor do Novo Testamento iria procurá-lo fora das Escrituras de Israel?

A carta de Judas tem um capítulo só e foi escrita a uma igreja em perigo, onde homens infiltrados usavam a graça de Deus como desculpa para a imoralidade e negavam Jesus Cristo como Soberano e Senhor. No meio dessa advertência, nos versículos 14 e 15, Judas escreve: “Enoque, o sétimo a partir de Adão, profetizou acerca deles: ‘Vejam, o Senhor vem com milhares de milhares de seus santos, para julgar a todos’”. Essas palavras correspondem de muito perto a um trecho do começo do livro que hoje chamamos Primeiro Enoque, no capítulo 1, versículo 9, um escrito que, tudo indica, os leitores de Judas conheciam. Esse livro, segundo a grande maioria dos estudiosos, é uma coleção de escritos judaicos composta em etapas, entre o terceiro século antes de Cristo e a época de Jesus, e escrita em nome de Enoque, não por ele. Hoje ele sobrevive por inteiro apenas em gueês, a antiga língua da liturgia etíope, e os Manuscritos do Mar Morto guardaram pedaços dele em aramaico.

Tertuliano, Jerônimo e Agostinho

Os cristãos das gerações seguintes precisaram decidir o que fazer com essa citação.

A primeira leitura começa num chão comum, porque todas as vozes cristãs desta conversa recebem Gênesis, Hebreus e a carta de Judas como Escritura e confessam o mesmo Senhor Jesus. É a leitura de Tertuliano, cristão de Cartago, no norte da África, que por volta do ano duzentos escreveu O adorno das mulheres, uma obra sobre o modo de as cristãs se vestirem. No livro primeiro, capítulo terceiro, ele admite que alguns não recebiam o escrito de Enoque porque os judeus não o tinham entre as suas Escrituras. Tertuliano responde com argumentos que ainda hoje circulam. O texto poderia ter atravessado o dilúvio pelas mãos de Noé, bisneto de Enoque, e falava do Senhor, razão pela qual, segundo ele, os judeus o teriam rejeitado. Acima de tudo, Enoque tinha a seu favor o testemunho de Judas, a quem Tertuliano chama de apóstolo. Essa leitura sobrevive até hoje, porque a Igreja Ortodoxa Etíope Tewahedo, uma das igrejas cristãs mais antigas da África, recebe Primeiro Enoque no seu cânon, ou seja, na lista dos livros que lê como Escritura. Não se trata de uma seita nem de uma curiosidade de museu, mas de irmãos que leem a Bíblia com reverência e herdaram esse cânon. A maioria dos cristãos antigos, porém, não se convenceu, e a resistência chegou a respingar na própria carta de Judas.

A segunda leitura responde a Tertuliano exatamente no ponto em que ele se apoiou, o testemunho de Judas. Por volta de 392, em Belém, Jerônimo escreveu Sobre os homens ilustres, um catálogo de autores cristãos, e no capítulo quarto registrou que a carta de Judas era rejeitada por muitos. O motivo era um testemunho tomado do livro de Enoque, que Jerônimo chama de apócrifo, isto é, um escrito fora da lista dos livros lidos como Escritura. Mesmo assim, completa ele, a carta ganhou autoridade pelo tempo e pelo uso. Repare na ironia: a citação que, para Tertuliano, dava autoridade ao livro chegou a pôr em dúvida o lugar da própria carta de Judas.

Agostinho, escrevendo em Hipona no começo do século quinto, tratou da pergunta por nome em A Cidade de Deus, livro quinze, capítulo 23, e concede mais do que você talvez espere. Não se pode negar, diz ele, que Enoque, o sétimo a partir de Adão, escreveu algumas coisas divinas, porque Judas o afirma numa carta canônica, isto é, recebida no cânon. Mas esses escritos não estavam no cânon que os sacerdotes do povo hebreu guardavam no templo, geração após geração. A antiguidade deles os tornava suspeitos, e não havia como provar que eram de fato as palavras de Enoque, porque ninguém os apresentava a partir de uma transmissão confiável. O critério de Agostinho separa, portanto, a palavra verdadeira que Judas cita do livro de origem incerta que a carrega.

Essa é a leitura que católicos, ortodoxos e protestantes herdaram, cada um nos seus próprios documentos. O Concílio de Trento, em abril de 1546, fixou a lista católica das Escrituras sem nenhum livro de Enoque, e as igrejas ortodoxas de tradição grega e eslava também não o recebem. Do lado protestante, a Confissão de Fé de Westminster, no século dezessete, declara que os chamados apócrifos não são inspirados e nem chega a nomear Enoque. Mas essa leitura ainda não diz o que fazer com o homem que andou com Deus.

Whitefield e o homem que andou com Deus

A terceira leitura muda a pergunta. George Whitefield, pregador inglês dos avivamentos do século dezoito, dedicou um sermão inteiro, Andar com Deus, a Gênesis 5:24. Ele parte do que a expressão supõe e busca a resposta em Amós 3:3: duas pessoas só andam juntas se estiverem de acordo. Para Whitefield, andar com Deus supõe que a inimizade do coração contra Deus foi vencida, isto é, que houve reconciliação, e depois pede comunhão constante e crescimento de todo dia. Onde Tertuliano e Agostinho discutiam um livro, Whitefield volta aos quatro versículos e mostra que eles bastam para um sermão e para uma vida. Essa ênfase atravessa a piedade evangélica que nasceu dos avivamentos e hoje se espalha por muitas denominações.

E aqui o texto confronta você e a mim, porque é mais fácil discutir um livro misterioso do que andar com Deus numa terça-feira qualquer.

Citar uma profecia não é receber o livro

“Se o texto inspirado diz que Enoque profetizou, como o livro pode não ser inspirado?”, você pode estar pensando. E a objeção tem peso, porque há estudiosos modernos que concordam que Judas tratou aquelas palavras como profecia verdadeira. Pesada pelo próprio texto, a objeção encontra um paralelo decisivo na carta a Tito, capítulo 1, versículo 12, onde Paulo cita um poeta de Creta e o chama de “um dos seus próprios profetas”. Logo depois ele afirma: “Tal testemunho é verdadeiro”, e ninguém conclui daí que aquele poema entrou na Bíblia. A Escritura pode confirmar que uma frase é verdadeira, e até chamar de profeta quem a disse, sem receber o livro inteiro de onde ela veio. É o que acontece em Judas: o Espírito, por meio dele, confirma que aquelas palavras sobre a vinda do Senhor são verdadeiras, e não diz nada sobre o resto de um livro escrito séculos depois. Judas também não usa ali a fórmula “está escrito”, com que o Novo Testamento costuma apresentar as Escrituras de Israel. Quando um pregador cita no púlpito um verso de Carlos Drummond de Andrade e diz que o poeta acertou, ninguém sai do culto achando que Drummond entrou na Bíblia.

Então, se citar não basta, o que faz um texto ser Palavra de Deus? O cânon não é uma lista que a Igreja inventa, mas o reconhecimento dos livros que Deus deu ao seu povo. Para o Antigo Testamento, Paulo aponta o caminho em Romanos 3:2, ao dizer que “aos judeus foram confiadas as palavras de Deus”. Depois de ressuscitar, no caminho de Emaús, Jesus explicou a dois discípulos o que essas Escrituras já diziam a respeito dele, como conta Lucas no capítulo 24 do seu evangelho. O livro de Enoque nunca esteve entre os livros que Israel recebia como Escritura, e o próprio Tertuliano admitia isso.

Há um limite honesto aqui: os estudiosos ainda discutem quando e como a lista das Escrituras hebraicas se fechou, e os Manuscritos do Mar Morto mostram que alguns grupos judeus liam Enoque com estima. Mesmo assim, o texto sustenta a segunda leitura, e a de Tertuliano não resiste a ele: o argumento do verbo profetizar prova demais, porque pela mesma lógica o poeta de Creta também entraria na Bíblia. Dizemos isso com respeito pelos irmãos etíopes, que guardaram esse texto com reverência por séculos, mas sem fingir empate onde o texto decide.

Cristãos fiéis à Escritura divergem, sim, sobre detalhes, como a pergunta se Judas tinha o livro diante dos olhos ou uma tradição que corria de boca em boca, e nisso seguimos irmãos. A provocação vale também para quem cresceu ouvindo que a Escritura basta, porque essa convicção pode virar preguiça ou credulidade. Há quem despreze os Pais da Igreja sem ter lido uma página deles, e há quem se impressione com qualquer texto antigo vendido como revelação perdida; Jerônimo e Agostinho corrigem os dois.

O fio que leva a Cristo

E o fio que o próprio texto estende nos leva até Cristo, como Jesus fez com os discípulos no caminho de Emaús. Enoque foi poupado da morte sem vencê-la; Jesus entrou nela e saiu do outro lado, porque, como diz em João 10:18, tinha autoridade para entregar a vida e para retomá-la. Nele a fé de Enoque, exercida antes da lei e das promessas, encontra o seu fundamento: o único que venceu a morte por direito próprio. A frase que Judas cita também aponta para ele, porque Judas chama Jesus Cristo de nosso Senhor ao longo da carta, e tudo indica que lê a antiga profecia como anúncio da vinda de Cristo para julgar. Esse Senhor que vem é o mesmo por meio de quem, segundo Romanos 5:1, temos paz com Deus. É por ele que você e eu podemos andar com Deus hoje, reconciliados, na mesma fé que agradou a Deus em Enoque.

Gênesis 5 quebra o refrão da morte num homem que andou com Deus, e Hebreus lê esse andar como a fé que agrada a Deus, onde Rashi viu um justo retirado antes que caísse. Judas cita um livro escrito séculos depois em nome de Enoque e conhecido dos seus leitores. Tertuliano e a igreja etíope o receberam como Escritura, apoiados no testemunho de Judas. Jerônimo e Agostinho separaram a profecia verdadeira do livro de origem incerta, e católicos, ortodoxos e protestantes herdaram essa leitura. Whitefield devolveu a atenção ao homem, e o próprio texto mostrou que citar uma profecia não equivale a receber o livro como Escritura.

E você, o que pesa mais na sua fé: o livro que ficou de fora ou os quatro versículos que ficaram dentro?

No cemitério de cidade pequena, cada nome continua com as suas duas datas, e na linha de Enoque a segunda ficou faltando. Para quem anda com Deus em Cristo, a segunda data ainda chega, mas deixou de ser a última palavra, porque Jesus disse, em João 11:25: “Aquele que crê em mim, ainda que morra, viverá”. Você não precisa de um livro extra para andar com Deus: quatro versículos de Gênesis e uma linha de Hebreus bastam para mostrar que uma vida assim agrada a Deus e não termina na morte.

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