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A maldição de Canaã caiu sobre os africanos? Gênesis 9
Gênesis 9:25 lido com Cipriano, Crisóstomo, Matthew Henry e Frederick Douglass, e o uso da maldição para defender a escravidão
A maldição de Canaã, em Gênesis 9, é pronunciada por Noé quando ele acorda do vinho, e cai sobre o neto, Canaã, e não sobre Cam, o filho que viu a nudez do pai. Mesmo assim, durante séculos, essa frase foi chamada de maldição de Cam e repetida em púlpitos e panfletos para dizer que os povos africanos tinham nascido para servir. Em torno desse versículo se reúnem vozes de épocas diferentes que quase nunca se encontram na mesma conversa. Cipriano, bispo de Cartago, viu no vinho de Noé a paixão de Cristo, e João Crisóstomo fez da cena uma lição sobre cobrir a vergonha de um pai. Com esse versículo começava a defesa bíblica da escravidão do pastor batista Thornton Stringfellow, e a resposta de Frederick Douglass, que tinha fugido da escravidão, mostrou onde aquela leitura desmoronava. E o próprio texto guarda uma pedra no caminho, porque o versículo diz, com todas as letras, servo de servos. Então, a Bíblia amaldiçoou os povos africanos, ou essa leitura foi construída muito depois de Gênesis?
A cena em Gênesis 9
O capítulo 9 de Gênesis começa com Deus abençoando Noé e os seus filhos depois do dilúvio, e termina dentro de uma tenda. Noé, que trabalhava a terra, planta uma vinha, bebe do vinho, se embriaga e fica nu; Cam, a quem o texto chama de pai de Canaã, vê a nudez do pai e vai contar aos dois irmãos. Sem e Jafé entram andando de costas, com uma capa sobre os ombros, e cobrem o pai sem ver a vergonha dele.
Quando acorda e descobre o que o filho lhe tinha feito, Noé pronuncia as palavras de Gênesis 9:25: “Maldito seja Canaã; Servo de servos será a seus irmãos” (Bíblia Livre).
Talvez você conheça aquela história de família, contada no almoço de domingo, em que, depois de duas ou três gerações, quem aprontou já virou outro tio, e ninguém mais confere. Com este versículo aconteceu algo parecido, só que o engano saiu da mesa da família e foi parar nos mercados de gente. Por que a maldição cai sobre o neto, se quem viu a nudez de Noé foi o pai, e como uma frase sobre Canaã acabou servindo, muitos séculos depois, para defender a escravização de povos africanos?
Canaã, a terra que Israel conhecia
Gênesis chegou a Israel como parte da Lei de Moisés, e Israel conhecia os cananeus de perto, porque ia viver na mesma terra. Para esse ouvinte, Canaã era o nome da terra prometida e dos povos que moravam nela, e o narrador prepara esse nome desde o começo.
Quando o capítulo 10 lista os filhos de Cam, aparecem quatro nomes: Cuxe, Mizraim, Fute e Canaã. Mizraim é o nome hebraico do Egito, e Cuxe é a região ao sul dele, no vale do Nilo, que a Bíblia grega chamou de Etiópia. A maldição não menciona os outros três, e o mesmo capítulo põe os descendentes de Canaã num território que ia de Sidom a Gaza e até Sodoma e Gomorra.
Os intérpretes judeus antigos também estranharam a troca de nomes e deram mais de uma resposta. Flávio Josefo, historiador judeu do primeiro século, reconta a cena nas Antiguidades judaicas e diz que Noé poupou Cam por causa da proximidade de sangue e lançou a maldição sobre a descendência dele. A resposta de Josefo não fala de cor de pele e parte de um texto que aponta, com insistência, para Canaã.
Cipriano: a figura da paixão
E o que um bispo do norte da África, no século terceiro, enxergava dentro daquela tenda? A primeira leitura vem de Cartago, onde Cipriano, bispo da cidade, escreveu a um colega chamado Cecílio sobre um problema concreto: havia igrejas celebrando a ceia do Senhor com um cálice só de água. Para mostrar que o cálice precisava de vinho, ele vai buscar figuras no Antigo Testamento, isto é, acontecimentos antigos que antecipam outros maiores, e uma delas é Noé.
Cipriano lembra a embriaguez, a nudez, o segundo filho que conta e os dois irmãos que cobrem, chama tudo isso de figura da paixão do Senhor e diz que um ponto basta: Noé bebeu vinho, e não água. Aqui aparece o terreno comum das leituras cristãs, a mesma fé em Jesus, e essa leitura figural ficou como herança de católicos, ortodoxos e protestantes. É bonito ver um bispo africano olhar para aquela tenda e enxergar primeiro a cruz.
Repare, porém, no que não está ali: Cipriano chama o filho que expôs o pai apenas de segundo filho e não diz uma palavra sobre povo, terra ou cor. A leitura protege o texto de qualquer uso racial, mas deixa em aberto o que fazer com a maldição que o próprio Noé pronunciou.
Crisóstomo e Henry: a conduta e a história
E se a cena for, antes de tudo, a história de uma família real e do que cada filho escolheu fazer? A segunda leitura responde a Cipriano trocando a figura pela conduta. João Crisóstomo, pregando em Antioquia no fim do século quarto, alivia a culpa de Noé com uma observação simples: Noé foi o primeiro a plantar uma vinha e ainda não conhecia a força do vinho.
O peso, para ele, está na atitude dos filhos, e qualquer família daquela igreja entendia a diferença entre quem espalha a vergonha do pai e quem a cobre. Mais de mil e trezentos anos depois, no comentário do pastor presbiteriano inglês Matthew Henry, o cumprimento da maldição aparece nos cananeus que perderam a terra diante dos descendentes de Sem.
Essa leitura moral e histórica atravessa a pregação de católicos, ortodoxos e protestantes, mas abre uma porta perigosa: se a maldição se cumpre na história, alguém pode procurar em que outros povos ela continua se cumprindo.
Da maldição à escravidão
Como uma frase dita numa tenda chegou às mãos de quem defendia a escravidão? A terceira leitura discorda da segunda num ponto só: procura o cumprimento nos povos do tempo de quem lê. A ligação entre Cam e a pele escura não está em lugar nenhum do texto bíblico. Ela aparece em escritos judaicos, cristãos e muçulmanos de séculos posteriores e ganha força à medida que africanos negros passam a ser escravizados em grande número.
No século quinze, a maldição de Noé já surge na crônica de Gomes Eanes de Zurara, da corte portuguesa, como explicação para a servidão dos africanos negros capturados na costa da Guiné. No mesmo trecho, o nome do filho sai trocado, Caim no lugar de Cam, sinal de que o argumento já andava longe da página. Nos séculos seguintes, navios portugueses levariam milhões de africanos escravizados para o Brasil.
No Sul dos Estados Unidos, no século dezenove, a leitura virou um argumento bíblico completo, montado em dois passos. O primeiro passo está numa defesa bíblica da escravidão que começava com as palavras de Noé, escrita por Thornton Stringfellow, pastor batista da Virgínia. Canaã aparece ali com o nome certo, mas a frase é lida como palavra dita no lugar de Deus e, portanto, como prova de que o próprio Deus tinha instituído a escravidão entre os homens.
O segundo passo veio em livros como Bible Defence of Slavery (Defesa bíblica da escravidão), de Josiah Priest, publicado no começo da década de 1850. Ali Cam aparece como pai dos povos negros, e a servidão deles, como destino anunciado na tenda. Foi assim que a Bíblia aberta passou a dividir a mesa com as correntes, em púlpitos e panfletos do Sul.
E aqui não há como fugir: quem pregava isso confessava a autoridade da Escritura como nós confessamos, e isso torna a história incômoda para quem está deste lado da mesa. Leram Canaã e escreveram Cam. Leram uma profecia sobre um povo antigo e fizeram dela uma ordem para o presente. Leram uma frase pronunciada numa tenda e fizeram dela uma cor de pele, um preço e uma vida inteira de trabalho forçado.
A quarta leitura vem de quem estava do outro lado da corrente e sentiu o peso do argumento no próprio corpo. Frederick Douglass nasceu escravizado em Maryland, fugiu para o Norte e, em 1845, publicou a narrativa da própria vida. No primeiro capítulo, o argumento da descendência de Cam recebe dele uma resposta que nenhum senhor do Sul podia negar. Se só os descendentes de Cam podiam ser escravizados pela Escritura, a escravidão do Sul logo deixaria de ser bíblica, porque milhares de crianças nasciam escravizadas tendo como pais os próprios senhores.
No apêndice do mesmo livro, fica claro que a rejeição dele se dirigia ao cristianismo escravocrata do seu país, e não ao cristianismo de Cristo. Os batistas do Sul tinham fundado a sua convenção no mesmo ano, depois de romper com os do Norte por causa de missionários donos de escravos. Em junho de 1995, nos cento e cinquenta anos da convenção, os delegados reunidos em Atlanta aprovaram uma resolução sobre reconciliação racial, que reconhece o papel da escravidão na formação da convenção. O texto repudia a escravidão como um mal histórico e pede desculpas aos afro-americanos pelo racismo que eles mesmos toleraram ou praticaram.
Do lado católico, um documento do Vaticano sobre a Igreja e o racismo, publicado em 1988, condena o racismo e afirma a unidade da família humana. Pedir perdão pela leitura errada, porém, ainda não responde à pergunta mais difícil, aquela que o próprio versículo levanta.
O que o texto sustenta
Você pode estar pensando: “Tudo bem, trocaram Canaã por Cam e Cam pela África, mas o versículo continua dizendo servo de servos, e um povo inteiro fica marcado pelo que o pai fez numa tenda”. “Então o problema não está só nos leitores, está no próprio texto”, você talvez complete. A objeção fica ainda mais forte quando você lembra que a própria Lei, em Deuteronômio 24:16, proíbe que os filhos morram pelo pecado dos pais: “Os pais não morrerão pelos filhos, nem os filhos pelos pais; cada um morrerá por seu pecado” (Bíblia Livre).
E aqui é preciso honestidade: o Gênesis não diz por que Noé amaldiçoou Canaã, e nenhuma das respostas antigas pode ser provada pelo próprio texto.
Então, qual dessas leituras o texto sustenta? A leitura racial não se sustenta em nenhum dos seus passos, e quem a pregou torceu a Escritura. O versículo nomeia Canaã, e Gênesis registra ali palavras de Noé sobre o futuro de um povo, sem entregá-las a leitor nenhum como ordem para escravizar alguém.
A resposta à objeção vem de dentro da própria Bíblia, sem que precisemos defender quem usou o texto. Quando a Lei explica o juízo sobre os cananeus, em Levítico 18, ela aponta para as práticas deles, e não para o sangue, e avisa Israel de que a terra o vomitaria se ele praticasse as mesmas coisas. Raabe, uma cananeia de Jericó, confia no Deus de Israel e é recebida no meio do povo, porque a porta nunca esteve fechada por nascimento. O que cai sobre Canaã é juízo anunciado sobre um povo que persistiu no mal, e não uma culpa de sangue a ser cobrada de qualquer pessoa.
A leitura de Cipriano honra Cristo, mas o Novo Testamento fala de Noé várias vezes, da arca, da fé e do dilúvio, e nunca da embriaguez, por isso ela fica como devoção dos pais, e não como sentido principal. A leitura que o texto sustenta melhor é a segunda, lida no horizonte de Israel: uma família real, um pecado real e uma palavra sobre os cananeus que a própria Bíblia acompanha. Cristãos fiéis à Escritura ainda divergem sobre como exatamente essa palavra se cumpriu e sobre quanto espaço dar às figuras dos pais, e seguem irmãos nessa conversa.
Canaã em Cristo
Só que a história de Canaã não termina no livro de Josué. Em Mateus 15, uma mulher que o evangelho chama de cananeia vai atrás de Jesus pedindo misericórdia para a filha, e ouve dele um elogio à grandeza da sua fé. Em Atos 8, um oficial etíope, isto é, vindo de Cuxe, é batizado na estrada para Gaza, antes mesmo da conversão de Cornélio.
E Paulo vai ao fundo da questão em Gálatas 3:13, quando escreve aos cristãos da Galácia que “Cristo nos resgatou da maldição da Lei ao se fazer maldição para o nosso benefício” (Bíblia Livre). O caminho de Gênesis 9 chega assim a uma cruz, onde o Filho de Deus toma sobre si a maldição que o pecado merece.
Diante dos filósofos de Atenas, em Atos 17:26, o mesmo apóstolo diz: “E de um sangue ele fez toda nação humana, para habitarem sobre a face da terra”. E em Gálatas 3:28 ele escreve: “Assim, não há judeu nem grego; não há servo nem livre; não há macho nem fêmea. Pois todos vós sois um em Cristo Jesus”. À mesa de Cristo, os filhos de Sem, de Cam e de Jafé se sentam como irmãos, e não como senhores e servos.
Lido no seu horizonte, o texto aponta para Canaã e fala a um Israel que conhecia os cananeus de perto. Cipriano viu no vinho de Noé a figura da paixão de Cristo, no meio de uma discussão sobre o cálice da ceia. Na segunda leitura, a cena é uma família real e uma profecia sobre os cananeus. A leitura racial trocou o nome, a terra e a cor, e serviu a correntes que iam de Portugal aos Estados Unidos.
Na voz de Douglass, ela desmoronou nos próprios termos, e cristãos das mesmas tradições acabaram pedindo perdão por ela. Qual dessas leituras mais surpreendeu você? E você já viu algum versículo ser usado, perto de você, para proteger aquilo que ele deveria confrontar?
Na história de família do almoço de domingo, o engano só acaba quando alguém abre o registro e confere o nome, e com Gênesis 9 acontece o mesmo. Cristãos já usaram a Bíblia para justificar o pecado que ela condena, e reconhecer isso sem desculpas é parte de andar na luz. A Primeira Carta de João promete:
“Porém, se andamos na luz, como ele está na luz, temos comunhão uns com os outros, e o sangue de Jesus, seu Filho, nos purifica de todo pecado.”
(1 João 1:7, Bíblia Livre)
A mesa que Cipriano defendia é o lugar dessa comunhão, onde filhos de Sem, de Cam e de Jafé bebem do mesmo cálice.
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