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HistóriaPais da Igreja16 de 25

Quem esmaga a serpente? Gênesis 3:15 segundo as tradições

O hebraico, a Septuaginta, a Vulgata e a Reforma diante de uma palavra: ele ou ela?

Diego Gonçalvesatualizado 11 min de leitura2.154 palavras

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Em Gênesis 3:15, quem esmaga a cabeça da serpente, ele ou ela? Por causa de uma única palavra desse versículo, pintores, escultores e pregadores retrataram a mesma promessa de modos diferentes, e até hoje há igrejas com estátuas de Maria pisando uma serpente. No hebraico, quem dá o golpe é o descendente da mulher; no latim que o Ocidente leu por séculos, é a própria mulher.

Acontece no grupo da família: alguém escreve “ela chega amanhã” quando queria dizer “ele chega amanhã”, e metade da família se arruma para esperar a pessoa errada no portão. Em Gênesis 3:15, uma diferença desse tamanho mudou o lugar onde muitos cristãos procuraram a vitória sobre o mal.

Você vai entender por que esse versículo, e uma palavra dentro dele, levou as tradições da Igreja a ler de modos diferentes quem derrota a serpente, e o que o próprio texto sustenta.

Para responder, vamos abrir o texto hebraico, a tradução grega feita antes de Cristo, a Bíblia latina que os monges copiaram e os documentos oficiais da Igreja Católica. São três leituras, contadas uma a uma: a dos Pais antigos, com Irineu; a latina, com Bernardo de Claraval, que colocou Maria na cena da vitória; e a da Reforma, com Lutero e Calvino, que voltou ao hebraico. Antes de qualquer divergência, há um chão comum, porque católicos, ortodoxos e protestantes confessam o mesmo Cristo vencedor.

A cena de Gênesis 3

Que cena é essa, afinal? Adão e Eva já comeram do fruto e já se esconderam entre as árvores do jardim, e agora Deus chama cada um a prestar contas. Ao homem e à mulher ele faz perguntas, mas à serpente apenas dá a sentença: no versículo 14, ela é amaldiçoada entre os animais e condenada a rastejar sobre o ventre e a comer pó todos os dias da sua vida.

Logo depois vem o versículo 15, que na Nova Versão Internacional diz assim: “Porei inimizade entre você e a mulher, entre a sua descendência e o descendente dela; este lhe ferirá a cabeça, e você lhe ferirá o calcanhar.” A NVI usa ferir nas duas metades, e outras traduções preferem esmagar na primeira, que é a imagem que você provavelmente conhece.

Para os primeiros ouvintes israelitas, que conheciam de perto as cobras dos campos e das pedras, a figura era clara: a serpente morde o calcanhar e pode derrubar, mas o pé que desce sobre a cabeça acaba com ela. O que esses ouvintes ainda não sabiam era o rosto do descendente que Deus prometia ali. A palavra hebraica traduzida por descendência é zera, ou seja, semente, a mesma do grão que o lavrador joga na terra, e pode indicar uma colheita inteira de filhos ou um único filho. O pronome que vem depois é hu, masculino, e concorda com essa palavra, que também é masculina em hebraico.

E a serpente desse versículo, o próprio Gênesis já diz que ela é Satanás? Gênesis 3 não diz, porque apresenta a serpente como o mais astuto dos animais que Deus tinha feito, e a ligação aparece depois, em outros livros. O livro da Sabedoria, que católicos e ortodoxos recebem como Escritura e os protestantes tratam como apócrifo, diz que a morte entrou no mundo pela inveja do diabo. O Apocalipse, no capítulo 12, versículo 9, chama o grande dragão de antiga serpente, o Diabo e Satanás, e esse fio merece um estudo à parte, porque aqui a pergunta é de quem é o pé que dá o golpe.

Irineu e o Cristo vencedor

Como os primeiros cristãos leram esse versículo, e quem eles viram no descendente da mulher? A primeira leitura vem de Irineu, bispo de Lião, que por volta do ano 180 escreveu contra as heresias do seu tempo. Ele escrevia contra grupos que desprezavam o corpo e a matéria, e por isso insistia que Cristo nasceu de mulher, com carne e ossos de verdade, para derrotar o inimigo no mesmo chão em que o homem tinha caído. Irineu chama isso de recapitulação, isto é, Cristo refaz a história humana desde o começo, passo a passo, e vence no mesmo terreno em que Adão foi vencido. Para ele, a cabeça da serpente fica debaixo do pé do Filho.

Irineu também coloca Eva e Maria lado a lado, retomando uma comparação que outros cristãos do século dois já faziam: pela desobediência de uma virgem veio a ruína, e pela obediência de outra veio aquele que salva. Maria aparece como a nova Eva, de pé ao lado da cena, enquanto o pé que esmaga a serpente continua sendo o do Filho.

Esse Cristo com o pé sobre a serpente passou para todas as igrejas, e o Oriente o guardou de modo muito direto, porque as igrejas ortodoxas leem o Antigo Testamento na Septuaginta, a tradução grega feita por judeus antes de Cristo. Nessas páginas gregas o pronome é autos, ele, embora a palavra grega para descendência seja neutra; muitos estudiosos veem nessa escolha a espera por uma pessoa, e outros, uma simples decisão de tradutor.

Os ortodoxos chamam Maria de Theotokos, ou seja, Mãe de Deus, título confirmado pelos bispos reunidos em Éfeso, em 431, para dizer que o menino no colo dela é Deus. Nos ícones do Oriente, Maria muitas vezes aparece com o Filho nos braços, e as igrejas ortodoxas nunca precisaram de um pronome feminino em Gênesis 3:15.

Bernardo e o ipsa da Vulgata

Então, de onde veio o “ela”? A segunda leitura nasce no Ocidente, com a Vulgata, a tradução latina ligada a Jerônimo, que trabalhou em Belém na passagem do século quatro para o cinco.

Em muitos manuscritos latinos, e na edição oficial impressa em Roma em 1592, o versículo diz ipsa conteret caput tuum, isto é, “ela esmagará a tua cabeça”. Os manuscritos não concordam entre si, e ninguém pode afirmar se a forma feminina saiu da pena do tradutor ou da mão de copistas posteriores.

Como reconstrução, e não como registro, dá para pensar num monge diante do pergaminho, à luz de uma vela, molhando a pena na tinta e escrevendo ipsa sem imaginar quantos sermões nasceriam daquela palavra.

No século doze, na abadia de Claraval, na França, o monge Bernardo pregou sermões em louvor da Virgem Mãe e leu esse ipsa ao pé da letra: para ele, a mulher que esmaga a cabeça da serpente é Maria. Nas igrejas do Ocidente, escultores puseram a serpente debaixo dos pés dela, e em 1854 o papa Pio IX, na bula Ineffabilis Deus, recorreu a Gênesis 3:15 ao definir o dogma da Imaculada Conceição. Ali ele afirma, apoiado nos Pais, que Maria esteve unida ao Filho na vitória sobre o inimigo.

Você pode estar pensando: “Mas então os católicos colocam Maria no lugar de Jesus?” Pelos documentos da própria Igreja Católica, a resposta é não. O Concílio Vaticano II, na constituição Lumen Gentium, ensina que os textos do Antigo Testamento, lidos na Igreja à luz da revelação posterior, mostram a mãe do Redentor já prefigurada na promessa de vitória sobre a serpente. A vitória, portanto, pertence ao Redentor, e Maria aparece associada a ele como a mãe que o carregou no ventre.

Há ainda uma virada que muitos protestantes desconhecem: em 1979, a Igreja Católica publicou a Nova Vulgata, sua revisão oficial em latim, e nessas páginas o versículo traz ipsum, um pronome que concorda com descendência. A Igreja Católica de hoje não apoia essa associação no “ela”, mas na figura da nova Eva e no que recebeu dos Pais.

Até aqui, você viu Irineu apontando o pé do Filho sobre a serpente, o Oriente guardando esse Cristo com Maria de Filho nos braços e Bernardo, no Ocidente latino, colocando Maria dentro da cena da vitória; ainda falta o que a Reforma encontrou no hebraico e o que o próprio texto decide.

Lutero e Calvino: de volta ao hebraico

E os protestantes, o que fizeram com esse versículo? A terceira leitura é a da Reforma, e quem dá voz a ela primeiro é Martinho Lutero, numa sala de aula de Wittenberg, onde a partir de 1535 ele comentou o Gênesis diante de estudantes que anotavam cada palavra. Dessas anotações nasceram as preleções sobre Gênesis, e nelas o versículo é a primeira promessa do evangelho: aplicar a Maria o que o texto diz do descendente é tirar de Cristo o que pertence a Cristo. Aqui Lutero vai na direção contrária de Bernardo, mas não na de Irineu, porque volta ao masculino do hebraico e ao Cristo que os Pais viam no versículo.

Em Genebra, João Calvino publicou em 1554 um comentário sobre Gênesis e deu ao versículo 1 ênfase própria: a descendência é primeiro o povo que nasce da mulher, filhos e netos ao longo das gerações. Para ele, esse povo luta com a serpente geração após geração e só vence sob Cristo, que é a cabeça do povo inteiro. Luteranos, reformados e a maior parte das igrejas evangélicas herdaram esse caminho, em que Lutero olha para uma pessoa e Calvino para um povo reunido em torno dela.

A provocação vale também para nós, protestantes: com medo do excesso mariano, muitos de nós passamos por esse versículo como se a mulher não estivesse nele. E ela está, porque Deus põe a inimizade entre a serpente e a mulher, e é do ventre dela que vem o descendente.

Uma objeção católica

Agora a objeção mais forte, feita por um católico sério: “A Igreja lê a Escritura como um todo; se os Pais já viam Maria como a nova Eva, por que ela não estaria unida à vitória que Gênesis anuncia?” A pergunta merece respeito, porque a figura da nova Eva é antiga e bonita, e nenhum cristão precisa ter medo de dizer o nome de Maria.

Só que o peso tem de vir do próprio texto: no hebraico está escrito ele, na tradução grega está escrito ele, e até a revisão oficial católica em latim hoje concorda com a descendência. A forma feminina é uma variante latina, sem apoio no original. Por isso, colocar o pé de Maria sobre a serpente, ou apoiar nesse versículo doutrinas sobre ela, vai além do que Gênesis afirma, porque a Escritura põe a vitória no descendente, com Cristo como único mediador. A mulher continua honrada exatamente pelo lugar que o texto lhe dá, o de ser aquela de quem vem o vencedor.

Entre protestantes fiéis à Escritura, a diferença entre Lutero e Calvino segue como conversa entre irmãos, e o texto acolhe as duas ênfases, porque zera é ao mesmo tempo um grão e uma colheita. É o Novo Testamento que mostra como as duas se encontram, quando Paulo escreve em Gálatas, capítulo 4, versículo 4: “Mas, quando chegou a plenitude do tempo, Deus enviou seu Filho, nascido de mulher, nascido debaixo da lei.” Na cruz, o descendente foi ferido de verdade; no túmulo vazio, ficou claro que a serpente não tinha a última palavra, e o reino de Cristo avança até que todo inimigo esteja debaixo dos seus pés. E Paulo estende essa vitória ao povo do Filho em Romanos, capítulo 16, versículo 20: “Em breve o Deus da paz esmagará Satanás debaixo dos pés de vocês.” Um descendente vence, e o seu povo pisa com ele.

Recapitulando: Irineu viu o pé de Cristo sobre a serpente e Maria como a nova Eva, e o Oriente guardou esse Cristo nos seus ícones. Bernardo, no Ocidente latino, leu o ipsa e uniu Maria à vitória, sem pôr Maria no lugar do Filho. A Reforma voltou ao hebraico, com Lutero apontando para Cristo e Calvino para o povo que vence sob Cristo.

Qual dessas leituras mais surpreendeu você, e, mais perto da sua vida, em quem você tem descansado diante do mal?

Ele, e não ela

Diante da pergunta do começo, ele ou ela, o hebraico responde que é ele: a mulher tem lugar de honra na promessa, mas o golpe na cabeça da serpente é do descendente, e esse descendente é Jesus Cristo.

Repare também quando a promessa foi feita: antes de qualquer lei, altar ou sacrifício, no mesmo dia da queda, Deus anuncia a derrota da serpente aos ouvidos dos culpados, e a graça fala primeiro.

No grupo da família, todo mundo precisa saber quem vai chegar para esperar no portão certo, e Deus deixou isso escrito desde a primeira promessa: quem vem é o Filho nascido de mulher, e é por ele que você pode esperar. Que o Deus da paz esmague em breve o mal debaixo dos seus pés.

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