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HistóriaPais da Igreja1 de 26

Aristides de Atenas: O filósofo que defendeu os cristãos

Aristides de Atenas: O filósofo que defendeu os cristãos diante do imperador

Diego Gonçalves6 min de leitura1.117 palavras

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Neste texto

Durante séculos, os manuais de história da igreja apontavam Justino Mártir, que viveu por volta do ano 150 depois de Cristo, como o autor da mais antiga defesa escrita da fé cristã que sobreviveu ao tempo. Sabia-se, pelos relatos do historiador Eusébio de Cesareia no século IV, que antes de Justino outros homens cultos haviam escrito ao imperador Adriano para conter a onda de calúnias e perseguições contra a igreja. Só que essas obras primitivas eram consideradas perdidas para sempre.

Um desses pioneiros esquecidos era Aristides, um filósofo grego de Atenas que continuou vestindo sua túnica de filósofo mesmo após se converter a Cristo. Por volta do ano 125 (alguns estudiosos preferem situar a obra no reinado de Antonino Pio, sucessor de Adriano), Aristides entregou uma carta formal ao imperador romano, mostrando a racionalidade da fé cristã e, acima de tudo, a conduta moral irrepreensível dos discípulos de Jesus.

Busto em mármore do imperador Adriano, com os cabelos encaracolados e a barba curta
Busto do imperador Adriano, destinatário da Apologia de Aristides, século II. Museus do Vaticano, Roma. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O resgate desse texto no final do século XIX é uma das histórias mais interessantes da arqueologia cristã.

O enigma literário de um texto esquecido

Por mais de mil anos, a Apologia de Aristides pareceu apagada da história. A redescoberta começou em 1878, quando monges armênios de um mosteiro em Veneza publicaram um pequeno fragmento em armênio, de uma tradução antiga que preservavam em seus arquivos.

A confirmação definitiva veio em 1889, quando o pesquisador britânico Rendel Harris encontrou um manuscrito completo em língua siríaca na biblioteca do Mosteiro de Santa Catarina, no Monte Sinai. Pouco tempo depois, o acadêmico Armitage Robinson descobriu algo ainda mais inesperado: o texto original em grego nunca havia sumido por completo. Ele estava disfarçado dentro de uma famosa novela medieval cristã, A Vida de Barlaão e Josafá (uma adaptação cristianizada da vida de Buda, tradicionalmente atribuída a João de Damasco). Sem saber, copistas de várias línguas medievais haviam preservado a defesa de Aristides na boca de um personagem da história.

Com essas fontes em mãos, o mundo moderno pôde finalmente ler as palavras exatas que um intelectual cristão do início do século II dirigiu ao governante do Império Romano.

A razão cósmica contra a vergonha dos ídolos

Aristides abre sua defesa a partir da observação atenta da natureza: “Ao contemplar os céus, a terra e os mares, e ao observar o sol e a ordem do cosmos, compreendi que o mundo é movido pelo poder de um Outro. E aquele que move todas as coisas é Deus”. Para o filósofo ateniense, o Criador é eterno, incorruptível, sem princípio nem fim, e não necessita de oferendas materiais, pois tudo pertence a Ele.

A partir desse fundamento, Aristides passa em revista os povos que conhece e examina a coerência religiosa de cada um (na obra, os egípcios aparecem dentro da parte dos gregos; aqui ficam à parte, para facilitar a leitura):

  1. Os bárbaros: erraram ao adorar os elementos da natureza (terra, água, fogo, ventos e astros), confundindo a criatura passageira com o Criador eterno.
  2. Os gregos: cometeram um erro ainda mais vergonhoso ao criar deuses à semelhança humana. Os próprios mitos gregos descreviam divindades adúlteras, homicidas, invejosas, ladras e mancas. Aristides confronta o imperador com uma pergunta difícil de responder: se as leis do Império Romano puniam o adultério e o assassinato com pena de morte, como os romanos podiam adorar deuses que praticavam essas mesmas abominações?
  3. Os egípcios: desceram a um nível ainda mais baixo de superstição ao prestar culto a animais irracionais, répteis e plantas que morriam, apodreciam e serviam de comida.
  4. Os judeus: aproximaram-se muito mais da verdade por reconhecerem o Deus único e soberano e por praticarem o amor ao próximo, embora tivessem se apegado a formalismos externos e celebrações lunares.

O retrato da comunidade cristã primitiva

A parte mais bonita do texto de Aristides surge quando ele descreve quem são os cristãos para o imperador. O filósofo não apela para milagres nem para discussões abstratas. O grande argumento da apologia cristã primitiva era a vida transformada da comunidade:

  • Integridade moral: “Não cometem adultério nem fornicação, não dão falso testemunho e não cobiçam o que pertence ao vizinho. Honram pai e mãe e amam o próximo. O que não querem que os outros lhes façam, eles não fazem a ninguém”.
  • Igualdade real no amor: “Persuadem seus servos e servas a se tornarem cristãos pelo afeto que têm por eles, e quando estes se convertem, chamam-nos de irmãos sem nenhuma distinção social”. Em uma sociedade romana sustentada pela escravidão cruel e pelo preconceito de castas, os cristãos sentavam à mesma mesa com os seus escravos e os tratavam como irmãos na fé.
  • Socorro silencioso e generoso: “Acolhem o estrangeiro sob o seu teto e se alegram com ele como com um irmão legítimo. Não viram as costas para a viúva e livram o órfão do opressor. E se há entre eles alguém pobre e necessitado, e a comunidade não tem comida sobrando, eles jejuam dois ou três dias para que o necessitado receba o alimento de que precisa”.
  • Humildade sem vaidade: “As boas obras que praticam não são anunciadas aos ouvidos da multidão; eles tomam cuidado para agir em segredo, como quem encontrou um tesouro e o guarda com discrição”.

Aristides chega a dizer, diante do trono do homem mais poderoso do mundo: “Não tenho dúvidas de que o mundo subsiste por causa da oração e da intercessão dos cristãos”.

A apologia que continua viva

A Apologia de Aristides nos lembra de uma verdade que muitas vezes esquecemos hoje. A vitória da igreja primitiva sobre o paganismo imperial não foi conquistada por manobras políticas, influência partidária ou força militar. A igreja conquistou o respeito do mundo antigo porque a sua mensagem de esperança em Cristo vinha acompanhada de uma santidade palpável, de pureza nos costumes e de um amor sacrificial que o paganismo nunca conseguiu produzir. Os cristãos de Aristides não se apresentam como melhores por esforço próprio: essa vida é fruto do Espírito em quem crê em Cristo, pela graça de Deus (Gálatas 5:22-23).

Quando um pagão olhava para um cristão do século II, via um homem pronto para repartir o próprio pão, perdoar os inimigos que o caluniavam e orar pelos magistrados que o perseguiam. Esse cristianismo simples, corajoso e coerente desarma a hostilidade dos críticos e aponta com clareza para o poder de Jesus Cristo.

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