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A palavra que Wesley leu e muitas Bíblias trocaram

Perfeitos ou maduros em Filipenses 3:15: o que Wesley entendeu por perfeição cristã

Diego Gonçalvesatualizado 5 min de leitura1.091 palavras

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Num mesmo versículo de Paulo, uma Bíblia de quatrocentos anos atrás chama alguns cristãos de “perfeitos”, e a Bíblia que talvez esteja do seu lado chama essas mesmas pessoas de “maduros”. Afinal, um cristão pode ser perfeito?

Perfeitos ou maduros?

O versículo é Filipenses 3:15. Na King James, a tradução inglesa de 1611, Paulo diz “let us therefore, as many as be perfect, be thus minded”, isto é, “todos nós que somos perfeitos, pensemos assim”. Na NVI, o mesmo trecho diz: “Todos nós que alcançamos a maturidade devemos ver as coisas dessa forma, e se em algum aspecto vocês pensam de modo diferente, isso também Deus lhes esclarecerá.”

Era a King James que estava aberta nos púlpitos e nas casas da Inglaterra quando John Wesley (1703–1791), pregador anglicano do século 18 e pai do movimento metodista, começou a ensinar o que ele chamou de perfeição cristã. O nome incomodou desde o primeiro dia, e muitos amigos dele discordaram, porque a palavra soava como alguém se colocando acima dos outros. Wesley podia ter trocado o nome por “santidade” e evitado metade das brigas, mas não trocou. No livro em que reuniu tudo o que pensava sobre o assunto, a Explicação clara da perfeição cristã, ele dá a razão em poucas palavras: “existe, sim, uma perfeição, porque ela é mencionada na Escritura repetidas vezes”. E, na Bíblia que ele lia, ela era mesmo: a palavra “perfect” aparece espalhada pelas cartas do Novo Testamento, muitas vezes falando de gente, em lugares onde as versões de hoje preferem “maduro”, “completo” ou “adulto”. A King James deu a Wesley o vocabulário, e ele levou a sério uma palavra que encontrou impressa na página.

A manga da feira e a palavra grega

Para entender a palavra, pense na manga que você escolhe na feira. Quando você aperta de leve e diz que ela está madura, você não está dizendo que a casca não tem nenhuma mancha; você está dizendo que ela chegou ao ponto, que está pronta para aquilo que uma manga existe para ser. A palavra grega que Paulo usa é teleios, que vem de telos, ou seja, o alvo, o fim para o qual uma coisa existe. Teleios é o que chegou ao seu alvo: completo, adulto, no ponto. A palavra portuguesa “perfeito” carrega a mesma ideia, porque vem do latim e quer dizer “feito por inteiro”.

Você pode estar pensando: “Então a King James errou, e Wesley construiu uma doutrina inteira em cima de uma tradução antiga.” A resposta está no próprio capítulo. As duas traduções seguram metades verdadeiras da palavra: “perfeito” guarda o alvo, e “maduro” guarda o caminho até ele. Três versículos antes, em Filipenses 3:12, Paulo escreve: “Não que eu já tenha obtido tudo isso ou tenha sido aperfeiçoado, mas prossigo para alcançá-lo, pois para isso também fui alcançado por Cristo Jesus.” No grego, “aperfeiçoado” é da mesma família de teleios. Ou seja, no mesmo parágrafo Paulo diz que ainda não foi aperfeiçoado e logo depois se coloca entre os perfeitos, e ele não está se contradizendo. Para Paulo, perfeito é quem ainda não chegou ao fim, mas já corre inteiro na direção certa, sem um pé em cada estrada.

O que Wesley queria dizer

Mas, se nem Paulo dizia que tinha chegado, o que Wesley queria dizer com um cristão perfeito: alguém que não peca mais? Wesley respondia que não, e respondia com cuidado. O cristão continua errando por ignorância, por engano, por fraqueza do corpo e da mente, porque ainda vive neste mundo. O que muda é o coração, que passa a ser governado pelo amor de Deus a ponto de não escolher mais o pecado de propósito, sabendo o que está fazendo. Numa carta ao reverendo William Dodd, ele resumiu tudo numa frase que comove pela simplicidade: “a perfeição é só outro nome para a santidade, ou para a imagem de Deus no homem”.

Wesley também conhecia o perigo do exagero. Na própria Explicação clara, ele discute com gente do seu movimento, como Thomas Maxfield e George Bell, que dizia já ter chegado lá e que ele não reconhecia como exemplo do que pregava.

Isso não cheira a orgulho?

Mesmo assim, a objeção mais forte merece ser dita inteira: “Isso cheira a orgulho, porque a própria Bíblia diz que quem se acha sem pecado está mentindo.” É verdade, e está em 1João 1:8: “Se afirmarmos que estamos sem pecado, enganamos a nós mesmos, e a verdade não está em nós.” Só que a mesma carta, poucas linhas depois, em 1João 2:1, diz: “Meus filhinhos, escrevo-lhes estas coisas para que vocês não pequem. Se, porém, alguém pecar, temos um intercessor junto ao Pai, Jesus Cristo, o Justo.” João espera as duas coisas ao mesmo tempo: que você não peque, e que, se pecar, corra para Cristo. Wesley insistia nisso, porque até o cristão mais maduro continua precisando do sacrifício de Jesus todos os dias.

Talvez o problema maior hoje esteja do nosso lado. Nós aprendemos a dizer “ninguém é perfeito” como quem encerra uma conversa. Nós aprendemos a usar essa frase para não pedir perdão a quem ferimos. Nós aprendemos a usá-la até para não esperar mais nada da graça de Deus dentro do nosso próprio coração.

Alcançados por Cristo, ainda correndo

Paulo mostra de onde vem essa perfeição. Ele corre porque antes foi alcançado por Cristo Jesus: a mão de Cristo segurou primeiro, e a corrida nasce dessa graça. No fim do mesmo capítulo, ele diz que a linha de chegada é a volta de Cristo, que vai transformar até o nosso corpo frágil para ser semelhante ao corpo glorioso dele.

Então, sim, pela Escritura o cristão pode ser perfeito, do jeito que a manga da feira é madura: inteiro no amor e na direção, mas ainda com marca na casca e ainda sem ter chegado ao fim. Por isso, peça a Deus que o amor dele ocupe o seu coração inteiro, e não use mais “ninguém é perfeito” como desculpa para parar de correr.

Publicado em 10 de outubro de 2026 · Atualizado em 25 de outubro de 2026

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    Cinquenta e cinco anos de viagens, pregações ao ar livre e organização das sociedades metodistas. A anotação de 24 de maio de 1738 conta Aldersgate: durante a leitura do…

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  • Uma explicação clara da perfeição cristãJohn Wesley · 1766; ed. final 1777

    Wesley reúne o que ensinou de 1725 a 1765 sobre a perfeição cristã: amor a Deus e ao próximo que domina o coração, recebido pela fé, sem significar ausência de erros ou…

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