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A Reforma esquecida: Os protestantes na Itália do século 16

A Reforma esquecida: O que aconteceu com os protestantes na Itália do século 16?

Diego Gonçalves4 min de leitura723 palavras

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Quando o assunto é a Reforma do século 16, a memória coletiva vai quase direto para a Alemanha de Martinho Lutero, a Suíça de João Calvino ou a Inglaterra dos puritanos. A impressão que ficou nos manuais escolares é a de que a península itálica era um bloco católico inabalável, onde nenhuma ideia de volta às Escrituras conseguiu lançar sementes.

Os documentos da época contam uma história diferente e muito mais dramática. A mensagem da justificação pela fé, isto é, de que o pecador é declarado justo diante de Deus pela graça, mediante a fé, somente em Cristo, floresceu com força bem debaixo do nariz do papa.

Nas décadas de 1530 e 1540, as ideias de retorno às Escrituras se espalharam pelos grandes centros urbanos do Renascimento italiano. Mercadores alemães que desciam até o porto de Veneza levavam tratados teológicos escondidos em fardos de tecidos. Em cidades cultas como Pádua, Lucca, Ferrara, Módena e Florença, médicos, nobres, artesãos e frades liam com avidez o Novo Testamento em italiano.

Retrato de Pedro Mártir Vermigli, reformador italiano, de barba e barrete escuro, pintado por Hans Asper
Hans Asper, Retrato de Pedro Mártir Vermigli, 1560. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O maior símbolo desse avivamento silencioso foi o livro O Benefício de Cristo. Escrito por um monge beneditino e revisado por humanistas, o livreto exaltava a graça imerecida de Deus e ensinava que o sacrifício de Jesus na cruz basta para perdoar os pecados de qualquer pessoa, sem as penitências inventadas pelos homens. A obra virou um sucesso editorial, com dezenas de milhares de cópias vendidas num tempo em que a maioria da população não sabia ler.

Mais surpreendente ainda foi a adesão de grandes líderes da própria Igreja de Roma.

O pregador mais famoso e disputado da península, o frei capuchinho Bernardino Ochino, atraía multidões tão grandes que, segundo se contava, até cardeais choravam ouvindo seus sermões. Ele foi tocado pelo evangelho da graça. Ao lado dele estava Pedro Mártir Vermigli, florentino, erudito em hebraico e grego e prior do mosteiro de Lucca, responsável pela formação de lideranças monásticas.

Quando o papa Paulo III e a cúpula do Vaticano perceberam que a doutrina bíblica conquistava as cátedras universitárias e os mosteiros mais prestigiados da Itália, o pânico tomou conta da cúria. A reação de Roma foi rápida e dura.

Em 1542, o papado reorganizou a Inquisição Romana sob o comando do cardeal Carafa, com plenos poderes para vigiar, interrogar, prender e executar quem fosse suspeito de heresia evangélica. Três anos depois, em 1545, foi aberto o Concílio de Trento, que endureceu os dogmas e condenou formalmente a doutrina da justificação somente pela fé.

Convocados para interrogatórios que terminariam na fogueira, homens como Vermigli e Ochino tomaram a decisão mais dolorosa de suas vidas: fugir da Itália, atravessando os Alpes em direção à Suíça.

Dentro da Itália, a repressão foi rigorosa. Milhares de exemplares de O Benefício de Cristo foram procurados de casa em casa e queimados em público, e o livro praticamente desapareceu por séculos. Pequenas igrejas secretas foram desfeitas, nobres foram decapitados e crentes foram jogados nas prisões do Santo Ofício. A exceção foi a comunidade dos valdenses, camponeses que viviam nos vales alpinos do Piemonte, resistiram aos massacres e conseguiram, em 1561, o direito de adorar a Deus segundo as Escrituras.

Apesar da violência que sufocou a Reforma na península, o exílio dos intelectuais italianos acabou beneficiando o restante da Europa.

Na Inglaterra, Vermigli tornou-se professor de teologia em Oxford e foi um dos conselheiros do arcebispo Thomas Cranmer na formação da teologia da Igreja Anglicana. Mais tarde, em Estrasburgo e Zurique, sua erudição bíblica o colocou entre os grandes nomes do pensamento reformado.

A história dos protestantes italianos do século 16 nos lembra que a Palavra de Deus não se apaga por decretos humanos nem por perseguições. Quando uma porta se fecha pela violência, a providência de Deus faz o vento da história espalhar as mesmas sementes e frutificar em outros lugares, como Jesus disse: “se o grão de trigo, ao cair na terra, não morrer, ele fica só; porém se morrer, dá muito fruto” (João 12:24, Bíblia Livre).

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