
Quinto Império: o Reino de Deus pelas armas na Inglaterra
A loucura de querer instaurar o Reino de Deus pelas armas
Como um grupo de cristãos zelosos na Inglaterra do século 17 se convenceu de que pegar em armas e derramar sangue nas ruas de Londres era a melhor maneira de apressar a volta de Jesus Cristo e inaugurar o seu reinado na terra?
Essa tragédia foi protagonizada pelo chamado Movimento do Quinto Império, um dos episódios mais instrutivos de fanatismo religioso da história da Igreja. Para entender sua origem, é preciso recuar até a Guerra Civil Inglesa, que culminou na decapitação pública do rei Carlos I em 1649 e na derrubada da monarquia. O país estava em choque, as estruturas tradicionais haviam desmoronado e uma atmosfera febril de expectativa apocalíptica tomou conta de muitas igrejas puritanas.
A pedra que derruba a estátua
A base teológica do grupo estava ancorada numa leitura apressada e literalista de Daniel 2. Na visão da estátua revelada ao rei Nabucodonosor, quatro impérios mundiais se sucediam (Babilônia, Pérsia, Grécia e Roma, na leitura histórica) até que uma pedra cortada sem auxílio de mãos humanas destruía a estátua e estabelecia um reino eterno (Daniel 2:31-45). Os partidários do Quinto Império concluíram que a monarquia inglesa caída era o último vestígio do quarto império e que o quinto reino, governado por Cristo e pelos seus “santos”, deveria ser proclamado imediatamente em solo inglês.
Só que a pedra foi cortada “sem auxílio de mãos humanas”: o reino chega por iniciativa de Deus, não por conquista nossa. Cristo já o inaugurou, ele cresce pela pregação e pelo Espírito, e será consumado quando o Rei voltar.
Da esperança em Cromwell ao Anticristo
A princípio, eles enxergaram em Oliver Cromwell o instrumento escolhido por Deus para conduzir essa transição. Quando Cromwell convocou o chamado “Parlamento dos Santos”, em 1653, formado por homens religiosos e dedicados, a euforia atingiu o ápice. Só que a assembleia se revelou politicamente inoperante e dividida por disputas mesquinhas. Em dezembro, ela própria entregou o poder a Cromwell, que assumiu como Lorde Protetor.
A decepção dos radicais foi devastadora. De um dia para o outro, Cromwell deixou de ser visto como servo piedoso e passou a ser rotulado como o próprio Anticristo, um tirano que estaria bloqueando a chegada do Messias. A frustração política alimentou o delírio da revolução armada.
O fim sangrento
O desfecho veio em janeiro de 1661, já sob a restauração do rei Carlos II. Thomas Venner, um tanoeiro de vinho, liderou cerca de cinquenta homens fortemente armados pelas ruas de Londres, aos gritos de “Rei Jesus e suas cabeças sobre os portões!”. Convencidos de que eram invulneráveis e de que legiões de anjos desceriam dos céus para apoiá-los, atacaram postos de guarda e mataram civis inocentes. Em poucos dias, o exército real cercou o grupo, matou a maioria dos rebeldes e enforcou os sobreviventes por traição.
A advertência para a Igreja
O fracasso do Quinto Império deixou uma advertência para a igreja de qualquer época. Jesus já tinha dito, diante de Pôncio Pilatos:
“Respondeu Jesus: Meu Reino não é deste mundo; se meu Reino fosse deste mundo, meus trabalhadores lutariam, para que eu não fosse entregue aos Judeus; mas agora meu Reino não é daqui.”
(João 18:36, Bíblia Livre)
Toda vez que crentes tentam sequestrar as profecias bíblicas para legitimar projetos de poder político, ou sonham em impor a justiça de Deus pela coerção e pela violência da espada, o resultado não é o avanço do evangelho, mas o descrédito da fé e a destruição de vidas humanas. Nós também somos tentados a apressar o que só o Rei pode trazer. Tomara que aprendamos a esperar.
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