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John Wycliffe: O homem cujos ossos foram queimados

O homem cujos ossos foram queimados: A história de John Wycliffe

Diego Gonçalves4 min de leitura844 palavras

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Imagine o tamanho da ira que uma instituição precisa acumular contra alguém para, mais de quarenta anos depois de sua morte, mandar um grupo de coveiros desenterrar o caixão do sujeito, queimar os seus ossos em uma fogueira e atirar as cinzas num riacho.

Foi exatamente esse espetáculo de ódio póstumo que a hierarquia religiosa promoveu em 1428 contra John Wycliffe, na Inglaterra.

Gravura de religiosos retirando os ossos de Wycliffe do caixão, queimando-os numa fogueira e lançando as cinzas na água
Exumação e queima dos ossos de John Wycliffe, gravura da edição de 1837 de Atos e monumentos, de John Foxe. Domínio público, via Wikimedia Commons.

O que um filósofo e sacerdote poderia ter feito de tão terrível para merecer essa vingança tanto tempo depois de ter sido sepultado? A resposta é tão simples quanto desconcertante: Wycliffe cometeu o “crime” de traduzir a Bíblia para a língua do povo comum e ensinar que a autoridade de Deus está muito acima do poder dos papas.

No século 14, John Wycliffe era amplamente reconhecido como o pensador mais brilhante da prestigiada Universidade de Oxford. Ele viveu em uma das épocas mais sombrias da história europeia: a Peste Negra havia acabado de dizimar entre um terço e metade da população e a Guerra dos Cem Anos sangrava os recursos da Inglaterra. Enquanto as pessoas comuns passavam fome e viviam apavoradas com a morte, a igreja mantinha a posse de cerca de um terço das terras férteis do reino, segundo estimativas da época, cobrando taxas abusivas de camponeses falidos. Para piorar a tensão, os papas haviam abandonado Roma e fixado residência em Avignon, na França, e muitos ingleses os viam como instrumentos dos reis franceses, inimigos mortais da Inglaterra.

Indignado com a opulência dos prelados, Wycliffe começou a lecionar e escrever sobre a natureza da autoridade. Ele sustentava que qualquer governante, seja rei ou bispo, só detém poder legítimo se a sua liderança refletir o caráter humilde e justo de Cristo. Quando um líder espiritual usa o cargo para acumular riquezas e oprimir os outros, ele perde a sua autoridade moral diante de Deus.

Mais do que criticar o dinheiro da igreja, Wycliffe desferiu o golpe mais profundo na estrutura clerical da época ao afirmar que as Escrituras são a autoridade suprema de fé para o cristão. É a convicção que a Reforma chamaria mais tarde de sola Scriptura (2 Timóteo 3:16-17): os papas, os concílios e a tradição se medem pela Palavra, e não o contrário. Na visão dele, se a Bíblia contém tudo o que o ser humano precisa para conhecer a salvação, ela não pode ser privilégio exclusivo de uma elite letrada em latim.

Junto com um grupo de acadêmicos leais, Wycliffe assumiu uma tarefa colossal: traduzir a Bíblia inteira, da Vulgata latina para o inglês arcaico. Estamos falando de uma época muito anterior à invenção da imprensa de Gutenberg, o que significa que cada cópia da tradução precisava ser transcrita à mão, letra por letra, em pergaminhos caros.

Não bastava apenas traduzir; era preciso fazer a mensagem circular. Wycliffe começou a treinar jovens pregadores humildes, chamados pejorativamente de lolardos. Esses homens vestiam túnicas rústicas de lã, andavam descalços pelas estradas de terra e carregavam porções bíblicas manuscritas debaixo do braço para pregar em praças de feira e vilarejos esquecidos. Pela primeira vez na vida, padeiros, ferreiros e tecelões podiam ouvir as palavras de Jesus e dos apóstolos na mesma língua em que conversavam dentro de suas casas.

O arcebispo de Canterbury ficou enfurecido e declarou publicamente que Wycliffe era um “filho da serpente antiga” por ousar traduzir o texto sagrado para a língua vulgar dos ingleses. No entanto, protegido por nobres locais que admiravam sua coragem, Wycliffe escapou da fogueira em vida e morreu em paz, em 31 de dezembro de 1384, três dias depois de sofrer um derrame durante a missa em sua pequena paróquia em Lutterworth.

A instituição não aceitou ser desafiada. Em 1415, o Concílio de Constança declarou Wycliffe oficialmente herege. Em 1428, por ordem do Papa Martinho V, seus restos mortais foram retirados da sepultura, queimados até virarem pó e lançados nas águas correntes do rio Swift.

O historiador inglês Thomas Fuller, na Church-History of Britain (1655), resumiu esse episódio com uma metáfora que se tornou célebre: o riacho Swift levou as cinzas de Wycliffe para o rio Avon, o Avon levou para o rio Severn, o Severn desembocou nos mares e os mares as espalharam pelo oceano inteiro. Da mesma forma, as ideias de Wycliffe não puderam ser contidas: elas atravessaram o continente, acenderam a fé de Jan Hus na Boêmia e prepararam o terreno para a explosão da Reforma Protestante mais de um século depois. Homens podem queimar ossos e papel, mas nunca tiveram o poder de apagar a Palavra de Deus da história. “A palavra do nosso Deus continua firme para sempre” (Isaías 40:8, Bíblia Livre).