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Anabatistas na América: Da fuga na Europa à nova terra

O que os anabatistas viveram ao pisar na América

Diego Gonçalves3 min de leitura607 palavras

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Por mais de um século e meio depois do início da Reforma Protestante, os anabatistas viveram fugindo de fogueiras, prisões e afogamentos sumários pela Europa. Governantes católicos e protestantes concordavam em quase nada, mas se uniam com facilidade na hora de caçar homens e mulheres cujo crime era defender o batismo de crentes adultos e se recusar terminantemente a empunhar armas contra o próximo.

Mas o que acontece com uma comunidade religiosa acostumada a sofrer quando a perseguição finalmente cessa e as portas da liberdade se abrem?

William Penn, de chapéu e traje quacre, firma um acordo sob um grande olmo com os índios lenapes, em pintura de Benjamin West
Benjamin West, O tratado de Penn com os índios, 1771-1772. Pennsylvania Academy of the Fine Arts, Filadélfia. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Essa pergunta começou a ser respondida em outubro de 1683, quando treze famílias alemãs desembarcaram na Filadélfia. Elas vinham fugindo do massacre europeu atraídas pela proposta de William Penn, um líder quacre que fundou a colônia da Pensilvânia com base num experimento inédito: uma terra onde ninguém seria punido ou marginalizado por suas convicções de fé.

Ali, nos arredores da Filadélfia, aqueles imigrantes fundaram uma vila chamada Germantown. Pela primeira vez em gerações, eles puderam cultivar a terra, erguer suas casas e se reunir aos domingos sem o pavor de soldados arrombando a porta.

A liberdade, porém, trouxe desafios que os anabatistas nunca tinham enfrentado antes. Na Europa, a linha entre a igreja e o império era fácil de enxergar: o Estado perseguia, e a igreja fiel sangrava. Na América livre, as fronteiras ficaram muito mais sutis.

O primeiro grande choque veio com a realidade social da colônia. Enquanto muitos colonos ingleses enriqueciam comprando pessoas escravizadas para trabalhar nas lavouras, os anabatistas e quacres de Germantown olharam para aquela prática e sentiram incômodo imediato. Como alguém que confessava seguir a Cristo podia comercializar seres humanos criados à imagem de Deus?

Em 1688, líderes daquela pequena comunidade redigiram um documento histórico: a Petição de Germantown contra a Escravidão. Foi a primeira denúncia pública e organizada contra o comércio de escravizados na América do Norte. Com uma franqueza desconcertante, eles perguntaram aos seus vizinhos: como vocês se sentiriam se fossem roubados de sua terra natal e vendidos como mercadoria no mercado? A sociedade da época engavetou o texto, mas a semente profética estava lançada.

O segundo teste veio com os conflitos armados. Quando estourou a Guerra da Independência Americana, os patriotas exigiram que todo morador jurasse fidelidade à causa e tomasse armas contra a coroa britânica. Para os anabatistas, as palavras de Jesus no Sermão da Montanha continuavam de pé: amar os inimigos e orar pelos que perseguem (Mateus 5:44). Por causa dessa recusa pacífica, muitos tiveram seus cavalos e colheitas confiscados, pagaram multas pesadas e foram tachados de covardes pelos novos donos do poder.

A trajetória desses pioneiros revela uma verdade valiosa sobre a vida cristã. É duro enfrentar a perseguição explícita, mas o teste mais traiçoeiro quase sempre acontece quando a perseguição acaba. É na bonança que o mundo oferece aceitação, conforto e riqueza em troca de pequenas concessões silenciosas.

A experiência de Germantown ensina que a liberdade concedida pelas leis dos homens nunca substitui o compromisso com o evangelho. A fé de verdade não usa a paz para se acomodar, mas para viver o discipulado de Cristo com fidelidade, custe o que custar.