
Batismo de adultos foi crime: Anabatistas contra reis
Mergulhar nas águas era crime: Quando o batismo de adultos desafiou reis e impérios
Hoje, quando uma pessoa decide se batizar numa igreja evangélica, a cena é de festa: a família senta nos primeiros bancos, tira fotos com o celular, o pastor faz uma oração e o candidato entra no tanque batismal com um sorriso no rosto. É um momento de celebração pacífica e comunitária da fé.
Só que, no século dezesseis, descer às águas de um rio para ser batizado como adulto era considerado crime de traição contra o Estado.
Muitos homens e mulheres foram presos, açoitados em praça pública e até afogados em rios congelados porque se recusavam a batizar os filhos recém-nascidos e pediam o batismo apenas depois de crerem conscientemente em Jesus.
Para entender por que um punhado de água causava tanto pânico nos reis e bispos da Europa, precisamos olhar para trás e ver o que estava em jogo naquela decisão.
A certidão de nascimento do Império
Durante mais de mil e duzentos anos, a Europa viveu sob o regime daquilo que os historiadores chamam de Cristandade: a fusão completa entre a Igreja e o Estado.
Naquele sistema, não existia cartório civil. O batismo infantil era a sua certidão de nascimento, o seu registro de cidadania e o meio pelo qual o Estado reconhecia a sua família como súdita. Se você nascia na Inglaterra, era automaticamente batizado na Igreja Anglicana e súdito do rei inglês; se nascia na Espanha, era batizado na Igreja Católica e súdito do monarca espanhol; se nascia em Genebra, era batizado na Igreja Reformada.
O batismo de bebês era o cimento que mantinha a sociedade amarrada. O rei precisava da igreja para garantir que os cidadãos obedecessem às leis por dever de consciência religiosa; e a igreja precisava da espada do rei para prender os hereges e recolher os dízimos obrigatórios.
Quando os primeiros anabatistas, no século dezesseis, e os batistas, no começo do século dezessete, começaram a ler o Novo Testamento por conta própria, perceberam um abismo entre o texto bíblico e aquele arranjo político.
O retorno às águas do Novo Testamento
Lendo os evangelhos, Atos e as cartas de Paulo, aqueles cristãos não encontraram ordem nem exemplo claro de bebês batizados. O padrão do Novo Testamento era sempre o mesmo: primeiro o arrependimento e a fé em Cristo; depois, e somente depois, o batismo como confissão pública dessa fé.
Em Romanos 6:3-4, o apóstolo Paulo usa a imagem do sepultamento para explicar o sentido das águas: quem desce ao rio confessa que o velho homem pecador morreu com Cristo, e quem sai das águas anda em novidade de vida. A palavra grega baptizo quer dizer “mergulhar”, e foi por esse caminho que esses cristãos entenderam o gesto. O batismo, porém, não salva ninguém: é o sinal público da fé em Cristo, porque somos salvos pela graça, mediante a fé (Efésios 2:8).
Só que a reivindicação dos primeiros batistas ingleses, como John Smyth e Thomas Helwys por volta de 1609, ia muito além de uma discussão sobre a quantidade de água no ritual.
Ao defenderem que o batismo só tinha validade quando era uma escolha voluntária de quem cria, eles estavam declarando algo revolucionário para a época: o Estado não é dono da consciência do ser humano.
O preço da liberdade de consciência
Se a fé é uma decisão pessoal entre o indivíduo e Deus, então ninguém pode nascer cristão por decreto real. A igreja não é a população inteira de um país reunida por obrigação cívica; a igreja é uma comunidade voluntária de discípulos comprometidos com Jesus.
Em 1612, Thomas Helwys escreveu um livrinho corajoso chamado Uma Breve Declaração sobre o Mistério da Iniquidade. Ele teve a coragem de enviar uma cópia, com dedicatória de próprio punho, ao rei Tiago I da Inglaterra, e disse ao monarca:
“O rei é um homem mortal e não Deus; portanto, não tem poder sobre as almas imortais dos seus súditos, para fazer leis e ordenar regras para elas, e para colocar sobre elas mestres espirituais.”
Helwys defendia que até mesmo os judeus, os turcos e os hereges deveriam ter total liberdade de consciência e de culto, cabendo a Deus, e a mais ninguém, julgar a alma humana. O rei Tiago não aceitou a ousadia. Helwys foi preso em Newgate, em Londres, e morreu lá dentro poucos anos depois, pagando com a própria vida pela sua convicção.
A revolução silenciosa que mudou o Ocidente
Perseguidos e expulsos da Inglaterra, muitos desses crentes cruzaram o Atlântico rumo à América do Norte. Em 1636, um jovem pastor chamado Roger Williams foi expulso da colônia de Massachusetts pelos próprios puritanos porque continuava defendendo a separação absoluta entre a Igreja e o Estado e a liberdade religiosa irrestrita.
Williams fundou a colônia de Rhode Island e estabeleceu ali um dos primeiros governos da história baseados expressamente na separação entre os poderes religioso e civil. A semente plantada por aqueles dissidentes contribuiu, séculos mais tarde, para a defesa da liberdade religiosa na Constituição dos Estados Unidos e nos debates sobre os direitos humanos.
O historiador americano Martin E. Marty cunhou, na década de 1980, o termo “baptistificação” para descrever essa transformação do cristianismo: hoje, em quase todas as tradições, a ideia de que a fé deve ser uma escolha livre, consciente e não imposta pelo governo é aceita como o padrão natural.
O perigo de esquecer as próprias raízes
O batismo de crentes não nasceu como marca de orgulho denominacional, para uma igreja se sentir superior à outra. Ele nasceu como um grito de libertação espiritual, em nome da liberdade de consciência diante de Deus.
Descer às águas era dizer, diante de todos, que a nossa lealdade final não pertence aos imperadores da terra, aos partidos políticos ou às convenções sociais, mas a Jesus Cristo. Significava abrir mão da religião como controle social para abraçar o discipulado voluntário da cruz.
Toda vez que a igreja moderna flerta com o poder político, tenta usar a força do Estado para impor sua moral aos outros ou esquece a sua vocação de defender a liberdade de consciência para todos, ela desonra a memória dos mártires que morreram nas prisões e nos rios da Europa. As águas do batismo continuam nos lembrando que o Reino de Deus não avança pela força da espada, mas pela entrega sincera do coração àquele que nos amou primeiro.
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