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Batismo de adultos foi crime: Anabatistas contra reis

Mergulhar nas águas era crime: Quando o batismo de adultos desafiou reis e impérios

Diego Gonçalves6 min de leitura1.130 palavras

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Neste texto

Hoje, quando uma pessoa decide se batizar numa igreja evangélica, a cena é de festa: a família senta nos primeiros bancos, tira fotos com o celular, o pastor faz uma oração e o candidato entra no tanque batismal com um sorriso no rosto. É um momento de celebração pacífica e comunitária da fé.

Só que, no século dezesseis, descer às águas de um rio para ser batizado como adulto era considerado crime de traição contra o Estado.

Muitos homens e mulheres foram presos, açoitados em praça pública e até afogados em rios congelados porque se recusavam a batizar os filhos recém-nascidos e pediam o batismo apenas depois de crerem conscientemente em Jesus.

Gravura em preto e branco de uma mulher conduzida pela praça de uma cidade holandesa, entregando o filho a um homem, entre soldados e curiosos nas janelas
Cópia de 1722 segundo Jan Luyken, Anneke Jans, anabatista condenada ao afogamento. Coleção Luyken, Amsterdam Museum. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Para entender por que um punhado de água causava tanto pânico nos reis e bispos da Europa, precisamos olhar para trás e ver o que estava em jogo naquela decisão.

A certidão de nascimento do Império

Durante mais de mil e duzentos anos, a Europa viveu sob o regime daquilo que os historiadores chamam de Cristandade: a fusão completa entre a Igreja e o Estado.

Naquele sistema, não existia cartório civil. O batismo infantil era a sua certidão de nascimento, o seu registro de cidadania e o meio pelo qual o Estado reconhecia a sua família como súdita. Se você nascia na Inglaterra, era automaticamente batizado na Igreja Anglicana e súdito do rei inglês; se nascia na Espanha, era batizado na Igreja Católica e súdito do monarca espanhol; se nascia em Genebra, era batizado na Igreja Reformada.

O batismo de bebês era o cimento que mantinha a sociedade amarrada. O rei precisava da igreja para garantir que os cidadãos obedecessem às leis por dever de consciência religiosa; e a igreja precisava da espada do rei para prender os hereges e recolher os dízimos obrigatórios.

Quando os primeiros anabatistas, no século dezesseis, e os batistas, no começo do século dezessete, começaram a ler o Novo Testamento por conta própria, perceberam um abismo entre o texto bíblico e aquele arranjo político.

O retorno às águas do Novo Testamento

Lendo os evangelhos, Atos e as cartas de Paulo, aqueles cristãos não encontraram ordem nem exemplo claro de bebês batizados. O padrão do Novo Testamento era sempre o mesmo: primeiro o arrependimento e a fé em Cristo; depois, e somente depois, o batismo como confissão pública dessa fé.

Em Romanos 6:3-4, o apóstolo Paulo usa a imagem do sepultamento para explicar o sentido das águas: quem desce ao rio confessa que o velho homem pecador morreu com Cristo, e quem sai das águas anda em novidade de vida. A palavra grega baptizo quer dizer “mergulhar”, e foi por esse caminho que esses cristãos entenderam o gesto. O batismo, porém, não salva ninguém: é o sinal público da fé em Cristo, porque somos salvos pela graça, mediante a fé (Efésios 2:8).

Só que a reivindicação dos primeiros batistas ingleses, como John Smyth e Thomas Helwys por volta de 1609, ia muito além de uma discussão sobre a quantidade de água no ritual.

Ao defenderem que o batismo só tinha validade quando era uma escolha voluntária de quem cria, eles estavam declarando algo revolucionário para a época: o Estado não é dono da consciência do ser humano.

O preço da liberdade de consciência

Se a fé é uma decisão pessoal entre o indivíduo e Deus, então ninguém pode nascer cristão por decreto real. A igreja não é a população inteira de um país reunida por obrigação cívica; a igreja é uma comunidade voluntária de discípulos comprometidos com Jesus.

Em 1612, Thomas Helwys escreveu um livrinho corajoso chamado Uma Breve Declaração sobre o Mistério da Iniquidade. Ele teve a coragem de enviar uma cópia, com dedicatória de próprio punho, ao rei Tiago I da Inglaterra, e disse ao monarca:

“O rei é um homem mortal e não Deus; portanto, não tem poder sobre as almas imortais dos seus súditos, para fazer leis e ordenar regras para elas, e para colocar sobre elas mestres espirituais.”

Helwys defendia que até mesmo os judeus, os turcos e os hereges deveriam ter total liberdade de consciência e de culto, cabendo a Deus, e a mais ninguém, julgar a alma humana. O rei Tiago não aceitou a ousadia. Helwys foi preso em Newgate, em Londres, e morreu lá dentro poucos anos depois, pagando com a própria vida pela sua convicção.

A revolução silenciosa que mudou o Ocidente

Perseguidos e expulsos da Inglaterra, muitos desses crentes cruzaram o Atlântico rumo à América do Norte. Em 1636, um jovem pastor chamado Roger Williams foi expulso da colônia de Massachusetts pelos próprios puritanos porque continuava defendendo a separação absoluta entre a Igreja e o Estado e a liberdade religiosa irrestrita.

Williams fundou a colônia de Rhode Island e estabeleceu ali um dos primeiros governos da história baseados expressamente na separação entre os poderes religioso e civil. A semente plantada por aqueles dissidentes contribuiu, séculos mais tarde, para a defesa da liberdade religiosa na Constituição dos Estados Unidos e nos debates sobre os direitos humanos.

O historiador americano Martin E. Marty cunhou, na década de 1980, o termo “baptistificação” para descrever essa transformação do cristianismo: hoje, em quase todas as tradições, a ideia de que a fé deve ser uma escolha livre, consciente e não imposta pelo governo é aceita como o padrão natural.

O perigo de esquecer as próprias raízes

O batismo de crentes não nasceu como marca de orgulho denominacional, para uma igreja se sentir superior à outra. Ele nasceu como um grito de libertação espiritual, em nome da liberdade de consciência diante de Deus.

Descer às águas era dizer, diante de todos, que a nossa lealdade final não pertence aos imperadores da terra, aos partidos políticos ou às convenções sociais, mas a Jesus Cristo. Significava abrir mão da religião como controle social para abraçar o discipulado voluntário da cruz.

Toda vez que a igreja moderna flerta com o poder político, tenta usar a força do Estado para impor sua moral aos outros ou esquece a sua vocação de defender a liberdade de consciência para todos, ela desonra a memória dos mártires que morreram nas prisões e nos rios da Europa. As águas do batismo continuam nos lembrando que o Reino de Deus não avança pela força da espada, mas pela entrega sincera do coração àquele que nos amou primeiro.

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