
Amish e menonitas: por que vivem na contramão do mundo
Não vos conformeis: Por que os amish e menonitas decidiram viver na contramão do mundo
Quem viaja pelas estradas rurais do estado da Pensilvânia ou de Ohio, nos Estados Unidos, quase sempre tem a sensação de ter cruzado um portal no tempo. Entre caminhonetes modernas e tratores gigantescos, de repente surge uma carruagem preta de madeira puxada por cavalos. Dentro dela viaja uma família vestindo roupas austeras do século dezenove: homens de chapéu de palha e barba comprida sem bigode; mulheres de vestidos compridos, avental e touca branca na cabeça.
São os amish. Para a maioria dos turistas, eles parecem apenas uma atração folclórica curiosa, um povo teimoso que parou no tempo por medo da tecnologia.
Só que essa leitura é rasa e preconceituosa. Os amish, assim como seus primos históricos, os menonitas e os irmãos, não vivem desse jeito por ignorância. Vivem assim por causa de uma convicção bíblica levada às últimas consequências: a ordem que o apóstolo Paulo deu aos cristãos em Romanos 12:2, “E não vos conformeis com a presente era; mas transformai-vos pela renovação da vossa mentalidade” (Romanos 12:2, Bíblia Livre).
A pergunta que esses grupos se fazem há cinco séculos é simples e perturbadora: até que ponto a igreja pode se moldar aos valores da sociedade secular sem perder a sua própria alma?
O batismo que custava a vida
Para entender de onde surgiu esse estilo de vida, precisamos voltar para a Europa do século dezesseis, no calor da Reforma Protestante. Enquanto Martinho Lutero e João Calvino reformavam as igrejas com o apoio de príncipes e governos locais, um grupo de jovens em Zurique, na Suíça, achou que a Reforma havia parado no meio do caminho.
Eles olharam para o Novo Testamento e não encontraram nenhuma igreja financiada pelo Estado nem bebês batizados por decreto imperial. Para eles, a igreja era uma comunidade voluntária de discípulos comprometidos, e o batismo deveria ser uma escolha consciente de adultos dispostos a seguir Jesus até a morte.
Por causa dessa prática de “rebatizar”, seus inimigos lhes deram o apelido depreciativo de anabatistas, palavra que quer dizer “rebatizadores”.
As autoridades civis e religiosas da época se revoltaram. Naquele tempo, o registro de qualquer cidadão dependia do batismo infantil na paróquia, e os governantes exigiam juramentos solenes de lealdade e recrutamento obrigatório para o exército. Como os anabatistas se recusavam a pegar em armas, a jurar fidelidade a qualquer monarca da terra e a batizar seus recém-nascidos, foram tratados como subversivos perigosos.
Católicos e protestantes se uniram para exterminá-los. Milhares de anabatistas foram afogados em rios (os juízes chamavam isso, com ironia, de “o terceiro batismo”), queimados na fogueira ou decapitados. O holandês Menno Simons assumiu a liderança dos sobreviventes, ensinando a não resistência e o amor aos inimigos, e dele vieram os menonitas. Mais tarde, no século dezessete, um líder suíço chamado Jakob Ammann achou que a comunidade estava relaxando na disciplina e fundou o ramo mais conservador: os amish.
Empurrados pela perseguição, eles cruzaram o oceano e encontraram refúgio nas terras agrícolas da América do Norte.
A tecnologia tem que servir à comunidade, não destruí-la
Ao contrário do que muita gente imagina, os amish não acreditam que a eletricidade, o motor a explosão ou o computador sejam coisas do diabo. O critério deles é social e comunitário.
Antes de autorizar qualquer inovação tecnológica na comunidade, os anciãos da congregação se reúnem e fazem uma pergunta essencial: o que essa novidade vai fazer com a nossa família e com os nossos laços de vizinhança?
Pense no automóvel, por exemplo. O carro permite que você viaje cinquenta quilômetros em meia hora. Parece ótimo, só que ele também permite que você trabalhe longe, compre no shopping de outra cidade e deixe de conviver com o seu vizinho. A carruagem a cavalo tem um limite físico de alcance: você é obrigado a viver, comprar, produzir e depender das pessoas que moram a poucos quilômetros de você.
O mesmo vale para a luz elétrica da rede pública. Estar ligado aos cabos do governo significaria trazer para dentro da sala a televisão, a propaganda consumista e valores que corroem a simplicidade. Em vez de televisores, eles preferem sentar ao redor da mesa à luz de lamparinas a querosene para conversar, ler a Bíblia e cantar juntos.
Quando o celeiro de uma família pega fogo num raio, nenhum amish liga para a seguradora. No dia seguinte, duzentos homens da comunidade se reúnem com martelos, serrotes e madeira doada, e antes do pôr do sol um celeiro novinho está de pé. Preferem depender uns dos outros, em amor mútuo (Gálatas 6:2), a depender de apólices de seguro.
O choque do perdão radical
Se a vida comunitária deles chama atenção, o compromisso com o perdão deixa o mundo moderno sem palavras.
Em outubro de 2006, um homem armado invadiu uma pequena escola amish de sala única em Nickel Mines, na Pensilvânia. Ele alinhou dez meninas e atirou nelas à queima-roupa, matando cinco antes de tirar a própria vida. O crime chocou a imprensa internacional e despertou ódio e revolta.
A reação da comunidade amish desconcertou o mundo. Horas depois do massacre, vizinhos amish foram até a casa da viúva e dos filhos do atirador para consolá-los e dizer que não os culpavam. Dias depois, compareceram ao funeral dele, abraçaram os parentes e criaram um fundo de apoio para sustentar a família daquele que havia matado as suas filhas.
Quando repórteres perguntaram como era possível perdoar uma atrocidade daquelas sem exigir vingança, a resposta, no fundo, era a do Evangelho: Jesus mandou perdoar “setenta vezes sete” (Mateus 18:22), e quem não perdoa não pode esperar o perdão do Pai (Mateus 6:14-15).
O que eles têm a dizer para nós hoje
A maioria de nós não vai viver numa fazenda sem eletricidade nem trocar o carro da família por uma charrete. E a Bíblia não exige isso de nós. Ninguém se salva por vestir preto ou dispensar a tomada: somos salvos pela graça, mediante a fé em Cristo, e não por obras (Efésios 2:8-9). A separação do mundo, quando é verdadeira, nasce dessa graça e não a substitui.
Mas a postura desses grupos funciona como um espelho incômodo. Vivemos numa cultura que idolatra a pressa, a ostentação nas redes sociais, o consumo de quinquilharias de que não precisamos e a vingança implacável contra qualquer um que pise no nosso calo. A igreja muitas vezes parece idêntica ao mundo lá fora: briga por poder político, vive atolada em dívidas por vaidade e não sabe perdoar uma ofensa boba no corredor do templo.
Os amish e menonitas nos lembram que seguir a Jesus cobra um preço de verdade. Ser discípulo de Cristo pede coragem para viver na contramão: escolher a simplicidade onde todo mundo ostenta, construir laços reais de comunidade onde reina o individualismo e estender a mão do perdão onde a regra da sociedade é o linchamento. Tomara que o Espírito Santo nos dê essa coragem.
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