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Amish e menonitas: por que vivem na contramão do mundo

Não vos conformeis: Por que os amish e menonitas decidiram viver na contramão do mundo

Diego Gonçalves6 min de leitura1.266 palavras

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Neste texto

Quem viaja pelas estradas rurais do estado da Pensilvânia ou de Ohio, nos Estados Unidos, quase sempre tem a sensação de ter cruzado um portal no tempo. Entre caminhonetes modernas e tratores gigantescos, de repente surge uma carruagem preta de madeira puxada por cavalos. Dentro dela viaja uma família vestindo roupas austeras do século dezenove: homens de chapéu de palha e barba comprida sem bigode; mulheres de vestidos compridos, avental e touca branca na cabeça.

São os amish. Para a maioria dos turistas, eles parecem apenas uma atração folclórica curiosa, um povo teimoso que parou no tempo por medo da tecnologia.

Carruagem amish preta puxada por um cavalo marrom, numa rua asfaltada de Intercourse, na Pensilvânia, ao lado de carros estacionados
Carruagem de um amish da Antiga Ordem em Intercourse, Pensilvânia, 2009. Foto de Rlevse. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Só que essa leitura é rasa e preconceituosa. Os amish, assim como seus primos históricos, os menonitas e os irmãos, não vivem desse jeito por ignorância. Vivem assim por causa de uma convicção bíblica levada às últimas consequências: a ordem que o apóstolo Paulo deu aos cristãos em Romanos 12:2, “E não vos conformeis com a presente era; mas transformai-vos pela renovação da vossa mentalidade” (Romanos 12:2, Bíblia Livre).

A pergunta que esses grupos se fazem há cinco séculos é simples e perturbadora: até que ponto a igreja pode se moldar aos valores da sociedade secular sem perder a sua própria alma?

O batismo que custava a vida

Para entender de onde surgiu esse estilo de vida, precisamos voltar para a Europa do século dezesseis, no calor da Reforma Protestante. Enquanto Martinho Lutero e João Calvino reformavam as igrejas com o apoio de príncipes e governos locais, um grupo de jovens em Zurique, na Suíça, achou que a Reforma havia parado no meio do caminho.

Eles olharam para o Novo Testamento e não encontraram nenhuma igreja financiada pelo Estado nem bebês batizados por decreto imperial. Para eles, a igreja era uma comunidade voluntária de discípulos comprometidos, e o batismo deveria ser uma escolha consciente de adultos dispostos a seguir Jesus até a morte.

Por causa dessa prática de “rebatizar”, seus inimigos lhes deram o apelido depreciativo de anabatistas, palavra que quer dizer “rebatizadores”.

As autoridades civis e religiosas da época se revoltaram. Naquele tempo, o registro de qualquer cidadão dependia do batismo infantil na paróquia, e os governantes exigiam juramentos solenes de lealdade e recrutamento obrigatório para o exército. Como os anabatistas se recusavam a pegar em armas, a jurar fidelidade a qualquer monarca da terra e a batizar seus recém-nascidos, foram tratados como subversivos perigosos.

Católicos e protestantes se uniram para exterminá-los. Milhares de anabatistas foram afogados em rios (os juízes chamavam isso, com ironia, de “o terceiro batismo”), queimados na fogueira ou decapitados. O holandês Menno Simons assumiu a liderança dos sobreviventes, ensinando a não resistência e o amor aos inimigos, e dele vieram os menonitas. Mais tarde, no século dezessete, um líder suíço chamado Jakob Ammann achou que a comunidade estava relaxando na disciplina e fundou o ramo mais conservador: os amish.

Empurrados pela perseguição, eles cruzaram o oceano e encontraram refúgio nas terras agrícolas da América do Norte.

A tecnologia tem que servir à comunidade, não destruí-la

Ao contrário do que muita gente imagina, os amish não acreditam que a eletricidade, o motor a explosão ou o computador sejam coisas do diabo. O critério deles é social e comunitário.

Antes de autorizar qualquer inovação tecnológica na comunidade, os anciãos da congregação se reúnem e fazem uma pergunta essencial: o que essa novidade vai fazer com a nossa família e com os nossos laços de vizinhança?

Pense no automóvel, por exemplo. O carro permite que você viaje cinquenta quilômetros em meia hora. Parece ótimo, só que ele também permite que você trabalhe longe, compre no shopping de outra cidade e deixe de conviver com o seu vizinho. A carruagem a cavalo tem um limite físico de alcance: você é obrigado a viver, comprar, produzir e depender das pessoas que moram a poucos quilômetros de você.

O mesmo vale para a luz elétrica da rede pública. Estar ligado aos cabos do governo significaria trazer para dentro da sala a televisão, a propaganda consumista e valores que corroem a simplicidade. Em vez de televisores, eles preferem sentar ao redor da mesa à luz de lamparinas a querosene para conversar, ler a Bíblia e cantar juntos.

Quando o celeiro de uma família pega fogo num raio, nenhum amish liga para a seguradora. No dia seguinte, duzentos homens da comunidade se reúnem com martelos, serrotes e madeira doada, e antes do pôr do sol um celeiro novinho está de pé. Preferem depender uns dos outros, em amor mútuo (Gálatas 6:2), a depender de apólices de seguro.

O choque do perdão radical

Se a vida comunitária deles chama atenção, o compromisso com o perdão deixa o mundo moderno sem palavras.

Em outubro de 2006, um homem armado invadiu uma pequena escola amish de sala única em Nickel Mines, na Pensilvânia. Ele alinhou dez meninas e atirou nelas à queima-roupa, matando cinco antes de tirar a própria vida. O crime chocou a imprensa internacional e despertou ódio e revolta.

A reação da comunidade amish desconcertou o mundo. Horas depois do massacre, vizinhos amish foram até a casa da viúva e dos filhos do atirador para consolá-los e dizer que não os culpavam. Dias depois, compareceram ao funeral dele, abraçaram os parentes e criaram um fundo de apoio para sustentar a família daquele que havia matado as suas filhas.

Quando repórteres perguntaram como era possível perdoar uma atrocidade daquelas sem exigir vingança, a resposta, no fundo, era a do Evangelho: Jesus mandou perdoar “setenta vezes sete” (Mateus 18:22), e quem não perdoa não pode esperar o perdão do Pai (Mateus 6:14-15).

O que eles têm a dizer para nós hoje

A maioria de nós não vai viver numa fazenda sem eletricidade nem trocar o carro da família por uma charrete. E a Bíblia não exige isso de nós. Ninguém se salva por vestir preto ou dispensar a tomada: somos salvos pela graça, mediante a fé em Cristo, e não por obras (Efésios 2:8-9). A separação do mundo, quando é verdadeira, nasce dessa graça e não a substitui.

Mas a postura desses grupos funciona como um espelho incômodo. Vivemos numa cultura que idolatra a pressa, a ostentação nas redes sociais, o consumo de quinquilharias de que não precisamos e a vingança implacável contra qualquer um que pise no nosso calo. A igreja muitas vezes parece idêntica ao mundo lá fora: briga por poder político, vive atolada em dívidas por vaidade e não sabe perdoar uma ofensa boba no corredor do templo.

Os amish e menonitas nos lembram que seguir a Jesus cobra um preço de verdade. Ser discípulo de Cristo pede coragem para viver na contramão: escolher a simplicidade onde todo mundo ostenta, construir laços reais de comunidade onde reina o individualismo e estender a mão do perdão onde a regra da sociedade é o linchamento. Tomara que o Espírito Santo nos dê essa coragem.

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