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O Peregrino: O fundo firme que sustenta na hora da morte

"O fundo é firme, meu irmão!": A maior lição de "O Peregrino" sobre a esperança

Diego Gonçalves5 min de leitura983 palavras

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Neste texto

Em 1660, um funileiro inglês de pouco estudo chamado John Bunyan foi jogado na prisão de Bedford, nos arredores de Londres. O crime dele não foi roubo, nem assassinato, nem traição política. Bunyan pregava o evangelho em campos abertos e praças públicas sem a licença oficial do bispo anglicano local.

Os juízes foram claros: bastava Bunyan prometer que nunca mais pregaria na rua e as portas da cadeia seriam abertas. Ele poderia voltar para casa, cuidar da esposa e da filha mais velha, Mary, que tinha nascido cega.

A resposta do pregador calou o tribunal: “Se vocês me soltarem hoje, pela graça de Deus eu estarei pregando de novo amanhã de manhã”.

Gravura de John Bunyan com a filha cega diante do portão da prisão de Bedford
John Bunyan e sua filha cega diante do portão da prisão de Bedford, gravura publicada em Cassell's Illustrated History of England, 1865. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Bunyan passou doze anos trancado numa cela úmida às margens do rio Ouse, fazendo pontas de cordão para sustentar a família à distância. Só que, em vez de apodrecer na amargura, ele pegou papel e tinta e começou a sonhar.

Foi na prisão que ele escreveu O Peregrino, a maior alegoria literária da história cristã e um dos livros mais traduzidos do mundo, atrás apenas da própria Bíblia em muitas contagens.

O medo do rio escuro

O livro narra a jornada de Cristiano, um homem que sai da Cidade da Destruição com um peso enorme amarrado nas costas, passa pela porta estreita, vê o fardo rolar para dentro do sepulcro vazio aos pés da cruz e caminha rumo à Cidade Celestial.

Por isso a história é tão real e comovente: Cristiano não é um super-herói. Ele erra o caminho, cai no Pântano do Desânimo, perde o ânimo diante do gigante Desespero no Castelo da Dúvida e quase morre de pavor em várias curvas da estrada. É o retrato de qualquer um de nós na caminhada da fé.

A cena mais impressionante de todo o livro acontece bem no finalzinho, a poucos metros do destino.

Para entrar nos portões da Cidade Celestial, não havia ponte de mármore. Todo peregrino tinha de atravessar a pé um rio largo, caudaloso e muito escuro: o rio da morte.

Cristiano e o companheiro, Esperançoso, entraram juntos na água gelada. E ali aconteceu algo que assusta quem tem uma visão triunfalista da religião.

Cristiano, que havia enfrentado demônios armados e caminhado pelo Vale da Sombra da Morte, começou a afundar em pânico. A água subiu até o pescoço. Uma escuridão espessa tomou conta da mente dele, e os pecados antigos, de antes e de depois da conversão, voltaram para acusá-lo. Ele olhou para o companheiro e gritou: “Estou afundando nas águas profundas; as ondas passam por cima da minha cabeça; todos os seus vagalhões caíram sobre mim!” As palavras ecoam o Salmo 69:2 e o Salmo 42:7.

O peregrino mais fiel estava tomado pelo medo da morte e do juízo.

A voz que resgata da lama

Nesse instante de horror, a graça brilha através do amigo que caminhava ao lado.

Esperançoso esticou o braço, segurou firme a cabeça de Cristiano para que a boca dele ficasse fora da água e gritou uma das frases mais consoladoras da literatura cristã em língua inglesa:

— Tenha bom ânimo, meu irmão! Eu sinto o fundo sob os meus pés, e ele é firme!

Esperançoso não deu sermão, não perguntou “onde está a sua fé?”. Lembrou ao irmão que a travessia não dependia da força dos braços cansados dele nem da perfeição do seu passado. A certeza da chegada dependia da solidez do chão debaixo deles.

Pouco depois, as trevas se dissiparam da mente de Cristiano. Ele se lembrou da promessa de Deus em Isaías: “Quando você passar pelas águas, estarei com você; e, quando passar pelos rios, eles não o submergirão” (Isaías 43:2). O medo desapareceu, os pés dele encontraram apoio firme e os dois saíram do outro lado do rio, recebidos com música e trombetas pelos anjos.

O chão firme de Bunyan é a promessa de Deus e Cristo, a rocha que não se move, e não a fé forte de Cristiano, que vacila. Somos salvos pela graça, mediante a fé, e é essa mesma graça que nos sustenta até o fim. Wesley chamava de testemunho do Espírito essa segurança de que somos filhos de Deus (Romanos 8:16), que não depende do que sentimos naquele dia.

Uma rocha para o nosso cansaço

A mensagem que Bunyan deixou para a igreja naquele calabouço de Bedford continua atual.

Vivemos num mundo cheio de incertezas, perdas e despedidas dolorosas. Cedo ou tarde, todo mundo vai ter de encarar as águas escuras da dor, da doença grave ou da perda de quem mais ama. Nessas horas, o coração vacila, as emoções falham e a sensação de que vamos afundar tenta nos paralisar.

A boa notícia do evangelho é que a nossa esperança não está apoiada na intensidade dos nossos sentimentos nem na nossa capacidade de nadar bem.

Ela repousa sobre a fidelidade daquele que já cruzou o abismo da morte antes de nós e ressuscitou ao terceiro dia. Mesmo quando as ondas da vida baterem com força no seu peito e a água parecer fria demais, lembre-se do grito de Esperançoso: o Senhor Jesus é o fundo firme que sustenta os nossos pés até o outro lado.

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