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História

1505 na vida de Lutero: O ano em que tudo mudou

O ano da tempestade: Por que 1505 mudou para sempre a vida de Martinho Lutero

Diego Gonçalves3 min de leitura691 palavras

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Se pudéssemos escolher um único ano para apontar a curva mais dramática na vida de Martinho Lutero, esse ano seria 1505. Em poucos meses, o jovem estudante de 21 anos passou do topo da aprovação social e familiar para o isolamento silencioso de uma cela monástica. Foi o ano em que o futuro jurista promissor morreu e o monge angustiado nasceu, dando início à jornada espiritual que, doze anos depois, desembocaria na Reforma Protestante.

O início de 1505 foi de celebração. Lutero concluiu seus estudos na Universidade de Erfurt com o grau de Mestre em Artes. Ele havia conquistado o bacharelado e o mestrado no menor tempo permitido pelos estatutos da universidade, brilhando tanto nos debates públicos que professores e alunos o chamavam, com respeito, de “O Filósofo”.

Pedra memorial de arenito no campo perto de Stotternheim, onde Lutero fez o voto na tempestade de 1505
Sebastian Wallroth, Pedra de Lutero (Lutherstein) em Stotternheim, marco no local do voto de 1505. CC BY 3.0, via Wikimedia Commons.

Para o seu pai, Hans Luder, aquilo era a realização de um sonho de vida inteira. Hans havia começado como mineiro de cobre e trabalhou duro, nas minas e nas fundições da região de Mansfeld, para que os filhos tivessem um futuro melhor. Orgulhoso do talento do primogênito, comprou para Martinho uma cópia caríssima do Corpus Juris Civilis, a obra mais prestigiada para quem pretendia advogar, e matriculou o rapaz na Faculdade de Direito de Erfurt. Tudo indicava que Lutero trilharia uma carreira jurídica brilhante, casaria com uma moça de boa família e garantiria a estabilidade financeira de todos.

No dia 2 de julho daquele mesmo ano, porém, o roteiro foi rasgado ao meio. Voltando a pé para a universidade depois de passar alguns dias com os pais em Mansfeld, Lutero foi apanhado de surpresa por uma tempestade brutal perto da vila de Stotternheim. Um raio atingiu o solo tão perto dele que a força do impacto o lançou na lama. Apavorado com a perspectiva de morrer naquele instante e ser condenado ao inferno sem estar em paz com Deus, gritou a primeira coisa que lhe veio à mente: “Ajuda-me, Santa Ana! Eu me tornarei um monge!”.

O voto feito no terror da tempestade não foi mera explosão de medo. Foi o transbordamento de uma angústia espiritual que corroía Lutero havia meses. Por trás da fachada de aluno brilhante, ele vivia assombrado pela fragilidade da vida e pela santidade inacessível de Deus.

Lutero levou duas semanas para organizar os pensamentos, conversou com os amigos mais próximos e decidiu cumprir a promessa. No dia 16 de julho, reuniu os companheiros de república para um jantar de despedida, onde fez um último brinde, tocou seu alaúde pela última vez e distribuiu seus livros caros de direito. Na manhã seguinte, em 17 de julho de 1505, bateu nos portões do Mosteiro Negro dos Agostinianos Observantes em Erfurt e deixou que as portas pesadas se fechassem atrás de si.

O pai ficou furioso, recusou-se a falar com o filho e o acusou de jogar fora anos de sacrifício da família por causa de um capricho.

Foi justamente dentro daquele convento que Lutero aprendeu, aos poucos, o que é a graça. Pelos anos seguintes, tentou desesperadamente aplacar a culpa de sua alma jejuando até desmaiar de fraqueza, passando noites em claro sobre as pedras frias e confessando pecados por horas a fio. Ele mesmo declarou anos mais tarde: “Se algum monge pudesse ter chegado ao céu por méritos monásticos, com certeza teria sido eu”.

O fracasso de todos os seus esforços religiosos no claustro preparou o terreno para que ele compreendesse, pela leitura das cartas de Paulo, que a salvação não se conquista pela dor do penitente. É dom de Deus, recebido pela fé em Cristo, somente pela graça. Sem o trovão de 1505, Lutero teria sido apenas mais um advogado competente no império alemão; com ele, tornou-se o homem que devolveu o Evangelho ao coração do povo.

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