AssineApoie
MembrosOs fascículos de cada episódio do canal Crer Para Compreender

HistóriaJoão

De Luder a Lutero: A origem do nome do reformador

O liberto por Cristo: A história pouco conhecida por trás do sobrenome de Lutero

Diego Gonçalves3 min de leitura642 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Se procurarmos nos documentos da juventude do homem que abalou a Europa do século XVI, não encontraremos o nome Martinho Lutero. O reformador nasceu e cresceu como Martin Luder. Seu pai, o mineiro Hans Luder, assinava assim, e toda a família na Saxônia carregava essa grafia germânica rústica. Foi só por volta de 1517, o mesmo ano em que ele publicou as 95 Teses contra as indulgências, que o sobrenome passou a ser escrito de forma definitiva como Luther, com o “th”. Essa pequena alteração ortográfica diz muito sobre o Renascimento e sobre a teologia da graça.

A primeira razão para a mudança foi cultural e social. No século XVI, a Europa vivia o auge do Renascimento humanista. Nas universidades, o latim e o grego eram as línguas da erudição, e muitos acadêmicos costumavam latinizar ou helenizar seus sobrenomes para parecerem mais cultos. O maior parceiro teológico de Lutero, por exemplo, chamava-se Philipp Schwartzerdt (que em alemão significa literalmente “terra preta”); ao entrar para o círculo acadêmico, traduziu o sobrenome para o grego e passou a ser Philipp Melanchthon.

Retrato de Martinho Lutero, de perfil de três quartos, pintado por Lucas Cranach, o Velho
Lucas Cranach, o Velho, Retrato de Martinho Lutero, 1528. Veste Coburg. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Além disso, o sobrenome de família trazia um incômodo popular. No dialeto saxão da época, a palavra Luder tinha conotações vulgares e pejorativas, associada na fala das ruas a termos como carniça, malandro ou indivíduo de má índole. Para um jovem professor de teologia que ganhava projeção na recém-fundada Universidade de Wittenberg, carregar uma grafia que soava rude nas tavernas não ajudava.

A verdadeira virada, porém, foi mais do que estética: foi profundamente teológica.

Quando a sua mente foi iluminada pela verdade bíblica de que a salvação é um presente imerecido da graça de Deus, recebido mediante a fé em Cristo (sola gratia, sola fide), Lutero sentiu que uma corrente invisível havia sido quebrada em sua alma. Ele passou anos aterrorizado com o medo do inferno e da ira divina, tentando comprar a própria paz com jejuns e autoflagelação no mosteiro. Ao compreender a justificação pela fé, experimentou a verdadeira liberdade dos filhos de Deus: “Se o Filho vos libertar, verdadeiramente sereis livres” (João 8:36, Bíblia Livre).

Empolgado com o estudo do Novo Testamento grego, Lutero começou a assinar algumas cartas e tratados com o pseudônimo Eleutherius, palavra derivada do grego eleutheros, que significa “o liberto”, “aquele que é livre”. O próprio termo aparece em João 8:36, no verso citado acima. Lutero brincava com os amigos dizendo que havia deixado de ser o velho e culpado Luder para se tornar Martinus Eleutherius, o homem libertado por Cristo.

Dessa raiz grega de liberdade (eleutheria) nasceu a transição para a grafia Luther. Colocar o “th” no sobrenome era um jogo de palavras erudito e uma declaração pública de fé: ele não era mais um prisioneiro da culpa religiosa ou das imposições romanas, mas um arauto da liberdade do Evangelho. Três anos depois, em 1520, escreveria um de seus tratados mais lidos, A Liberdade do Cristão, cuja frase de abertura resume a sua nova identidade: “O cristão é um senhor perfeitamente livre de todas as coisas, a ninguém sujeito; e o cristão é um servo perfeitamente serviçal de todas as coisas, a todos sujeito”.

Aquela mudança de nome foi o selo de uma nova vida. Lutero não queria apenas soar como um intelectual respeitado entre os humanistas; queria que o seu sobrenome lembrasse a todos de que, quando a verdade da cruz alcança o pecador, nenhuma escravidão religiosa é capaz de mantê-lo acorrentado.

140pal/min