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Por que a fé imposta por lei termina em tirania

O que a história dos puritanos ingleses ensina sobre impor a religião pelo Estado

Diego Gonçalves3 min de leitura525 palavras

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Toda vez que um grupo religioso alcança o poder político e resolve usar o aparato do Estado para obrigar a sociedade a ser santa, o desfecho é desastroso. Usar decretos, polícia e leis para endireitar a conduta alheia é um engano recorrente, que de tempos em tempos seduz lideranças desavisadas. A maturidade espiritual nunca nasce de coação; ela brota da resposta voluntária do coração à graça de Deus. Quando se tenta impor preceitos bíblicos pela legislação civil, o resultado não é a formação de discípulos de Cristo, mas a multiplicação de pessoas revoltadas e hipócritas.

A história da Inglaterra no século 17 mostra esse fracasso de modo muito claro.

Retrato de Oliver Cromwell em armadura, com o semblante severo, pintado no século 17
Robert Walker, Retrato de Oliver Cromwell, século 17. Domínio público, via Wikimedia Commons.

Após anos de conflito armado contra o absolutismo do rei Carlos I, as forças do Parlamento, fortemente influenciadas pelo puritanismo, saíram vitoriosas da guerra civil. O rei foi executado em 1649 e o comandante militar Oliver Cromwell passou a governar o país; em 1653 recebeu o título de Lorde Protetor.

Cromwell tinha uma fé pessoal intensa. Estudava as Escrituras, jejuava antes dos combates e acreditava com sinceridade ter a missão divina de converter a nação em um modelo de pureza. O problema começou quando esse fervor espiritual virou vigilância policial obrigatória.

Sob o governo puritano, os teatros foram fechados, as festividades tradicionais foram suspensas, os passeios aos domingos foram vetados e até as reuniões familiares no Natal foram proibidas, sob a justificativa de que os festejos populares eram desvios mundanos. Soldados armados fiscalizavam o comportamento dos cidadãos nas ruas. Na Irlanda, as expedições militares de Cromwell promoveram massacres brutais contra populações católicas, sob o pretexto de defender a fé reformada.

O resultado dessa tentativa de impor virtude pela força foi o cansaço generalizado da população. Assim que Cromwell morreu, em 1658, o modelo desmoronou. Exausta daquele controle sufocante sobre a rotina diária, a sociedade britânica celebrou a volta da família real e restabeleceu a monarquia em 1660, preferindo governantes mundanos a continuar sob a tutela de líderes que usavam a religião como instrumento de coerção civil.

A experiência desse período deixa um alerta para os nossos dias. O Reino de Cristo não depende da espada dos governos nem de conchavos de poder para transformar vidas. O próprio Jesus disse a Pilatos:

“Respondeu Jesus: Meu Reino não é deste mundo; se meu Reino fosse deste mundo, meus trabalhadores lutariam, para que eu não fosse entregue aos Judeus; mas agora meu Reino não é daqui.”

(João 18:36, Bíblia Livre)

Jesus jamais recorreu à força do império romano para inaugurar o seu Reino. A verdadeira relevância da igreja na sociedade se consolida pela integridade diária, pela prática da justiça e pelo amor sacrificial ao próximo. Quem empurra padrões morais por imposição legal trai a essência do evangelho e expõe a incapacidade de persuadir pelo exemplo e pela verdade.

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