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História

C.S. Lewis: a conversão do convertido mais relutante

O convertido mais relutante da Inglaterra: a jornada de C.S. Lewis

Diego Gonçalves3 min de leitura629 palavras

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Muitas pessoas costumam imaginar que a conversão a Cristo é sempre o resultado de uma comoção emocional repentina ou o fruto natural de uma criação religiosa mantida por costume de família. A trajetória de C. S. Lewis desmente esse clichê do começo ao fim. Se alguém avisasse ao jovem professor de literatura de Oxford, no início dos anos vinte, que ele se transformaria no maior defensor da fé cristã do século vinte, ele provavelmente daria uma gargalhada irônica. Naquela época, Lewis era um ateu convicto, armado até os dentes com a lógica mais afiada da filosofia materialista e protegido por uma couraça de cinismo que parecia indestrutível.

Essa muralha defensiva não havia sido construída por acaso; tinha raízes fincadas na dor. Aos nove anos de idade, em Belfast, ele assistiu à mãe morrer de câncer, apesar de todas as suas orações de menino. O trauma familiar, o distanciamento do pai e a dureza de colégios internos autoritários secaram as últimas gotas da sua fé de infância. Para piorar, aos dezenove anos ele foi enviado para as trincheiras da Primeira Guerra Mundial, na França, onde viu de perto o barro, o sangue e amigos sendo estraçalhados pela artilharia inimiga. Lewis voltou ferido no corpo e com uma certeza absoluta na cabeça: o universo era um acidente cego, hostil e sem nenhum Criador bondoso no comando.

Ao assumir seu posto acadêmico em Oxford, a vida parecia resolvida. Ele tinha livros raros, prestígio intelectual, debates elegantes com os colegas e o conforto de uma vida sem cobranças espirituais. Só que a realidade tem uma insistência teimosa. Conforme se aprofundava nos clássicos literários, um detalhe desconfortável começou a chamar a atenção de Lewis: os autores que possuíam mais peso, profundidade e beleza moral, como George MacDonald e G. K. Chesterton, eram homens apaixonados por Cristo. Em contrapartida, os pensadores ateus que ele tanto lia soavam frios, rasos e cinzentos.

A amizade com outros acadêmicos de Oxford começou a abrir fendas profundas na sua fortaleza. O golpe mais forte veio de longas caminhadas com seu amigo J. R. R. Tolkien. Em uma noite de outono, caminhando pelos jardins de Magdalen College, Tolkien argumentou que os anseios humanos por sacrifício, nobreza e redenção, presentes nas grandes mitologias do mundo, não eram mentiras deslavadas. Eram prenúncios de algo real: a diferença é que, no caso de Jesus de Nazaré, o milagre havia acontecido no palco da história real, com data, hora e testemunhas documentadas.

A rendição de Lewis não teve nada de romantismo fácil. Ele resistiu o quanto pôde, lutando contra cada evidência como quem tenta segurar uma represa que racha. Anos mais tarde, ao relatar a noite de 1929 em que finalmente se ajoelhou no quarto para admitir que Deus era Deus, ele definiu a si mesmo como “o convertido mais desanimado e relutante de toda a Inglaterra”. Ele não abraçou a fé porque procurava um consolo psicológico agradável, mas porque a verdade o havia encurralado sem saída.

A escolha de seguir a Jesus cobrou um preço pesado no prestígio mundano. Seus colegas de universidade torceram o nariz, passaram a tratá-lo com desdém e bloquearam promoções acadêmicas importantes simplesmente porque ele ousou falar sobre o Evangelho em transmissões de rádio durante os bombardeios da Segunda Guerra e escrever histórias sobre um leão que entrega a própria vida para salvar traidores.

A jornada de C. S. Lewis expõe uma das maiores ilusões da nossa época: a ideia de que a descrença é sempre um sinal de lucidez e superioridade intelectual. Muitas vezes, a armadura do ceticismo serve apenas para proteger o ego ferido contra as exigências do amor de Deus. Só que quando o Criador decide alcançar um coração sincero, não há biblioteca, argumento filosófico ou mágoa antiga capaz de resistir à insistência da sua graça.

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