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Jesus histórico e Cristo da fé: o que Helena buscava

Diego Gonçalves10 min de leitura1.905 palavras

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Neste texto

Numa basílica em Roma, você pode ver pedaços de madeira guardados como tesouros. Fragmentos que seriam da cruz de Cristo, um espinho que seria da coroa e uma tábua, o Títulus, com uma inscrição gasta. Milhões de pessoas vão lá. Não vão para admirar a arquitetura, mas para ficar perto desses objetos. Querem tocar, de alguma forma, o evento que mudou o mundo.

Muita gente sente essa necessidade de tocar na história, de ter uma fé física, palpável. Isso levanta uma pergunta: existe algo a mais, algum significado por trás desses supostos pedaços de madeira que a gente pode ver e tocar?

A cruz que Helena teria encontrado

Vamos voltar ao ano 326. O Império Romano agora é cristão, graças ao imperador Constantino. A mãe dele, Helena, uma cristã devota, faz uma peregrinação à Terra Santa. Ela não é historiadora nem arqueóloga, é peregrina, e o objetivo dela é devocional. Eusébio de Cesareia, o historiador da época, conta que ela queria encontrar os antigos lugares sagrados, construir igrejas em Belém, onde Jesus nasceu, e no monte das Oliveiras, de onde ele ascendeu. Queria orar onde os pés de Cristo tocaram o chão.

A tradição que surge um pouco depois conta uma história mais famosa. Em Jerusalém, Helena teria encontrado o sepulcro de Cristo, que havia sido coberto por um templo pagão. Ao escavarem, acharam não uma, mas três cruzes. Como saber qual era a de Cristo? A lenda diz que, ao tocar uma mulher doente, uma das cruzes a curou milagrosamente. Era a verdadeira. Helena teria enviado partes dela para Roma e para o filho, Constantino, em Constantinopla. Dizem até que os pregos foram usados para fazer um elmo e um freio para o cavalo do imperador, como se a cruz fosse um talismã de proteção.

Essa história moldou a imaginação cristã por séculos. Mas será que foi assim mesmo? Vamos ser honestos.

O primeiro problema é o silêncio. Eusébio, bispo de Cesareia, que viveu aquela época e escreveu bastante sobre a viagem de Helena e a construção da igreja do Santo Sepulcro, não diz uma palavra sobre a descoberta da cruz. Nada. Um silêncio absoluto sobre o que seria a maior descoberta da cristandade. O segundo problema é a distância: os relatos de historiadores como Rufino e Sócrates Escolástico aparecem de trinta a cem anos depois do evento, e já vêm carregados de elementos lendários, visões e milagres de cura. Além disso, as fontes discordam. Ambrósio de Milão, escrevendo em 395, diz que a cruz foi identificada não por um milagre, mas pelo Títulus, a placa de Pilatos.

Isso não significa que nada aconteceu. Mostra que, muito rápido, história e fé se entrelaçaram. Para Helena e para a igreja daquela época, o Cristo da fé, o Senhor divino, Rei dos reis, cuja cruz era um troféu de vitória sobre a morte, era a realidade dominante. A busca dela era por contato físico com esse Cristo vitorioso.

A busca pelo Jesus histórico

Essa história, com sua mistura de fatos, lendas, devoção e ceticismo, é um espelho para a maior de todas as perguntas: quem foi Jesus? Porque, assim como Helena, nós também estamos separados de Jesus por uma lacuna de tempo. E, como na história da cruz, os evangelhos também estão cheios de milagres e de uma fé profunda que moldou a narrativa.

Isso nos leva ao problema que assombra a teologia há uns trezentos anos: como separar o Jesus da história, o judeu do primeiro século que andou pela Galileia, do Cristo da fé, o Filho de Deus adorado pela igreja? Dessa tensão nasceu o que chamamos de “busca pelo Jesus histórico”.

Tudo começou com homens como Reimarus, no século XVIII, que basicamente disse que os apóstolos inventaram tudo: Jesus teria sido um pregador judeu que fracassou, e os discípulos roubaram o corpo e criaram uma nova religião.

Depois veio David Friedrich Strauss, em 1835. Ele foi mais sutil. Não disse que era fraude, disse que era mito. Para Strauss, os evangelhos não são biografias, são epifanias. A fé primitiva teria pegado o Jesus real e o envolvido em camadas de mitologia, do mesmo jeito que os gregos contavam histórias sobre seus heróis. O nascimento virginal, os milagres e a ressurreição seriam apenas a ideia de um Jesus tornando-se divino, e não o relato de fatos.

No século XIX, acadêmicos como Harnack tentaram descascar o mito para encontrar o Jesus real. E o que encontraram? Apenas um professor de moral gentil, que ensinou sobre a paternidade de Deus e a fraternidade dos homens. Nessa visão, Jesus parecia mais um protestante liberal europeu do século XIX.

Em 1906, Albert Schweitzer derrubou tudo. No livro A busca do Jesus histórico, ele analisou todas essas tentativas e concluiu que eram inúteis. Segundo ele, aqueles acadêmicos olhavam para o fundo de um poço escuro e viam o reflexo dos próprios rostos. O Jesus histórico de Schweitzer não era um professor de moral moderno, e sim um profeta apocalíptico judeu, intenso e estranho, que acreditava que o fim do mundo estava chegando. Um homem que se lançou contra a roda da história esperando que Deus interviesse; a roda girou e o esmagou. Ele morreu na cruz, desiludido, gritando: “Deus meu, por que me abandonaste?”. Para Schweitzer, esse Jesus é um estranho para nós, que vem como um desconhecido. A busca parecia ter chegado a um beco sem saída.

Isso levou a uma divisão. De um lado, acadêmicos como Rudolf Bultmann simplesmente jogaram a toalha e disseram que não podemos saber quase nada sobre a vida e a personalidade de Jesus. Para Bultmann, tudo o que temos é o querigma, a proclamação da fé, e isso já bastava. O Jesus histórico não importava.

De outro lado surgiu a Escola da História das Religiões. Esses estudiosos argumentaram que o Jesus histórico era apenas um rabino judeu, e que a divindade dele, o Cristo da fé, foi uma invenção posterior de Paulo e da igreja gentílica. Teriam pegado o culto ao imperador romano, que chamava César de Senhor e Salvador, e os cultos de mistério gregos, e aplicado essa linguagem a Jesus. O argumento era que o monoteísmo judaico jamais permitiria que um homem fosse adorado como Deus.

A reviravolta: o culto a Jesus

Mas será que essa divisão é real? Será que o culto a Cristo foi mesmo uma invenção grega? Aqui a história dá uma reviravolta. A pesquisa mais recente, a chamada “Terceira Busca”, começou a questionar essa ideia, e o que ela descobriu é muito interessante.

A característica mais antiga e mais judaica do cristianismo primitivo não são os ensinamentos morais de Jesus, mas o culto a ele, a adoração. Isso não foi inventado cem anos depois; começou logo. Nossas fontes mais antigas não são os evangelhos, são as cartas de Paulo. E Paulo, um ex-fariseu rigorosamente monoteísta, escrevendo apenas uns vinte anos depois da crucificação, já falava de Jesus em termos divinos.

Veja Filipenses 2. Paulo cita o que a maioria dos estudiosos considera um hino cristão anterior a ele, ou seja, um hino que os cristãos já cantavam antes de Paulo escrever:

Ele, sendo em forma de Deus, não considerou que o ser igual a Deus era algo a que devia apegar-se, mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, e foi obediente até a morte e morte de cruz. Por isso, Deus o exaltou e lhe deu o nome que está acima de todo nome.

(Fp 2:6-9)

Isso é judaico, é antigo e é adoração. Ou veja o que Plínio, o Jovem, um governador romano, escreveu ao imperador Trajano por volta de 112. Ele investigava os cristãos e relatou que tinham o hábito de se reunir num dia fixo, antes do amanhecer, para cantar hinos a Cristo como a um deus.

O cristianismo primitivo nunca foi apenas a religião de Jesus e dos seus ensinamentos. Foi, desde o início, a religião sobre Jesus. O verdadeiro desafio dos primeiros cristãos não era saber se Jesus era um bom mestre, mas enfrentar o que Orígenes, no século 3, chamou de “o maior de todos os mistérios”: como aquela poderosa majestade divina, o próprio Verbo do Pai, a própria sabedoria de Deus, podia ser acreditada como alguém que existiu dentro do alcance daquele homem que apareceu na Judeia?

Encarnação e docetismo

Essa é a doutrina da Encarnação: o Deus invisível se tornou visível, o que não sofre sofreu, o imortal morreu. Foi a narrativa que Irineu apresentou no fim do século 2, uma história cósmica que começa na criação, passa pela queda de Adão e pelos profetas e culmina no Verbo que se fez carne. Para Irineu, Jesus recapitulou toda a humanidade em si mesmo. Onde Adão falhou, Cristo obedeceu. A transgressão que veio pela árvore do Éden foi desfeita pela obediência na árvore da cruz.

Por isso a maior ameaça à fé no século 2 não era o ceticismo, era o docetismo. Docetismo é a crença de que Jesus só parecia ser humano, mas não tinha corpo de verdade; o sofrimento e a morte dele teriam sido apenas aparência, e Jesus seria uma espécie de fantasma, uma miragem divina.

O bispo Inácio de Antioquia reagiu duramente contra isso, insistindo na realidade da encarnação e da paixão de Cristo. A caminho do martírio em Roma, ele escreveu cartas aflitas sobre o assunto. Aos cristãos de Trales, escreveu: “Permaneçam surdos quando alguém lhes falar à parte de Jesus Cristo. O homem que verdadeiramente nasceu, comeu e bebeu, foi verdadeiramente perseguido sob Pôncio Pilatos, foi verdadeiramente crucificado e morreu. Ele também foi verdadeiramente ressuscitado dos mortos.”

De volta a Helena

Essa defesa nos traz de volta a Helena. Talvez a busca dela, com toda a devoção e até superstição, estivesse mais perto da verdade do cristianismo primitivo do que a busca acadêmica moderna. Helena não procurava um professor de moral nem um filósofo cínico. Não procurava um Jesus histórico que pudesse ser separado do Cristo da fé. Procurava o ponto de contato: o lugar onde o divino e o humano se tocaram, onde Deus pisou na terra, suou, sangrou e morreu.

A busca moderna tentou encontrar um Jesus que pudesse ser explicado sem a ressurreição. Só que o cristianismo gira em torno da ressurreição. A fé dos apóstolos não se baseava num conjunto de lembranças de um rabi ou de um mártir falecido. Baseava-se na convicção absoluta de que o Jesus crucificado estava vivo e tinha sido vindicado por Deus como Senhor e Messias. A ressurreição não é um mito acrescentado no fim da história. É o evento histórico que fez os apóstolos reler tudo.

No fim, a tensão entre o Jesus da história e o Cristo da fé se resolve. A afirmação central do cristianismo é que não são duas coisas diferentes, mas uma só. O fundamento da fé cristã não é uma relíquia que pode ser falsa, nem uma teoria acadêmica que muda a cada geração, nem apenas um código moral. O fundamento é uma pessoa: Jesus, concebido por obra do Espírito Santo, nascido da virgem Maria, que andou na Galileia dos gentios, caminhou até Jerusalém, padeceu sob Pôncio Pilatos, foi crucificado, morto e sepultado, ressurgiu dos mortos ao terceiro dia e subiu ao céu.

Este é Jesus, o Cristo, que está sentado à direita de Deus Pai Todo-poderoso e que, segundo a fé, tem autoridade para julgar e salvar todas as coisas. Essa tensão entre o Jesus humano e o Cristo divino é o motor de toda a teologia cristã.