
Cantares de Salomão: O que o livro ensina sobre amor e desejo
O que o livro de Cantares ensina sobre o amor e o desejo
Durante séculos, muitos pregadores e teólogos ficaram constrangidos com o livro de Cantares de Salomão. Como um livro que fala abertamente de beijos na boca, carícias na pele, elogios às curvas do corpo e noites inteiras de prazer foi parar dentro do cânon sagrado da Bíblia?
Para fugir do desconforto, muitos inventaram uma ginástica alegórica inacreditável. Disseram que os dois seios da noiva eram o Antigo e o Novo Testamento, que os lábios que destilam mel eram os apóstolos pregando e que o beijo do primeiro capítulo era a união da alma com o Logos. Toda essa sofisticação servia, no fundo, para esconder um preconceito antigo: a ideia grega de que o corpo físico é sujo e de que Deus só se importa com coisas etéreas e espirituais.
Só que a Bíblia não é platônica. Ao colocar Cantares no coração do Antigo Testamento, Deus resgatava a bondade original da criação, aquela que Ele mesmo declarou “muito boa” (Gênesis 1:31). O livro não precisa de disfarce alegórico para ter valor espiritual. Ele é exatamente o que aparenta ser: uma celebração poética, vibrante e madura do romance, do desejo físico e da lealdade conjugal.
Um resgate contra dois extremos
O livro de Cantares desmonta dois erros que continuam destruindo casamentos até hoje: o puritanismo repressivo e a pornografia descartável.
De um lado, o puritanismo finge que a atração física é um mal necessário, tolerado apenas para a reprodução, e carrega a intimidade conjugal com um sentimento doentio de culpa e tabu. De outro lado, a cultura de consumo moderna transforma o sexo num esporte casual, desprovido de afeto, de alma e de qualquer aliança de lealdade mútua, onde o outro vira um objeto de uso passageiro.
Cantares passa longe dos dois abismos. No poema, o prazer físico é pleno, gostoso e livre de vergonha, mas está totalmente integrado ao afeto sincero, à admiração pessoal e ao compromisso exclusivo. O casal conversa, admira a inteligência e o caráter um do outro, sente saudade e se entrega de corpo e alma. São amantes e, ao mesmo tempo, melhores amigos: “Este é o meu amado, e este é o meu amigo”, diz a mulher (Cantares 5:16, tradução livre do hebraico).
A voz e o protagonismo da mulher
Um dos detalhes mais impressionantes do livro, ainda mais considerando a sociedade patriarcal do antigo Oriente Próximo, é que a mulher tem voz ativa do início ao fim. A noiva, na verdade, fala mais do que o homem. Ela não é um troféu passivo a ser conquistado nem uma propriedade silenciosa. Ela expressa seu desejo com desenvoltura, busca o homem amado, toma iniciativas e elogia a beleza do corpo dele com a mesma intensidade com que é elogiada.
Não há traço de opressão ou de humilhação. O relacionamento se baseia no consentimento mútuo, na reciprocidade e na alegria compartilhada. Quando ela declara: “Eu sou do meu amado, e meu amado é meu” (Cantares 6:3, Bíblia Livre), expressa uma posse que não é escravidão, mas entrega mútua. Um pertence ao outro em perfeita igualdade de afeição.
O ritmo do amor e a força da chama
O livro repete três vezes uma advertência poética que serve de freio de ouro para as ansiedades do coração: “que não acordeis, nem desperteis ao amor, até que ele queira” (Cantares 2:7; 3:5; 8:4, Bíblia Livre).
O texto bíblico sabe que o desejo humano é uma força colossal. Se for despertado fora de hora, com a pessoa errada ou sem a maturidade de um compromisso estável, ele queima e destrói como incêndio fora de controle. O amor precisa de tempo, de raízes e de ambiente seguro para florescer. Há uma sabedoria enorme em respeitar o ritmo das coisas, sem queimar etapas por mera carência ou impulso.
No capítulo 8, o poema chega ao seu ponto mais alto ao descrever a natureza desse amor:
“Põe-me como selo sobre o teu coração, como selo sobre o teu braço; porque o amor é forte como a morte, e o ciúme é severo como o Xeol; suas brasas são brasas de fogo, labaredas intensas. Muitas águas não poderiam apagar este amor, nem os rios afogá-lo; ainda que alguém desse todos os bens de sua casa por este amor, certamente o desprezariam.”
(Cantares 8:6-7, Bíblia Livre)
Em “labaredas intensas” o hebraico traz shalhebetyah, “chama de Yah”, e muitos traduzem “labaredas do Senhor”. É a única vez em que o livro chega perto de nomear Deus, embora se discuta se o sufixo é mesmo o nome divino. De todo modo, o amor verdadeiro entre marido e mulher traz em si uma faísca do fogo de Deus. Ele não é uma mercadoria que se compre, e quem tentasse comprá-lo só receberia desprezo. É uma força resiliente, que aguenta as tempestades da vida real, as rotinas cansativas e as mudanças do tempo.
Ler Cantares com maturidade nos devolve a beleza do casamento projetado por Deus, sinal da aliança entre Cristo e a igreja (Efésios 5:31-32). Cuidar do romance, manter a admiração acesa e cultivar o carinho físico no casamento não é futilidade mundana, mas adoração sincera ao Criador que inventou o corpo, a pele e a alegria de amar.
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