
Cântico dos Cânticos: por que está na Bíblia? Introdução
O amor sem tabu: por que Deus colocou Cântico dos Cânticos na Bíblia?
Quem abre as Escrituras desavisado quase sempre toma um choque quando chega às páginas de Cântico dos Cânticos. Acostumado com os mandamentos solenes do Êxodo, com as batalhas épicas dos Reis ou com as repreensões severas dos profetas, o leitor de repente se depara com um poema apaixonado, vibrante e sem filtros, que fala abertamente sobre beijos na boca, desejo físico, abraços na madrugada e elogios detalhados à beleza corporal de um casal enamorado.
A reação mais comum ao longo dos séculos foi uma ponta de constrangimento religioso: afinal de contas, o que um livro de amor romântico e atração física está fazendo dentro do cânon sagrado?
Durante boa parte da história da igreja, muitos teólogos e monges tentaram escapar desse desconforto apelando para alegorias forçadas. Afirmavam que seria indigno de Deus inspirar um texto sobre paixão conjugal, e por isso transformaram cada detalhe do poema num enigma espiritual abstrato. Os beijos viraram símbolos da iluminação da alma, os seios da amada viraram o Antigo e o Novo Testamento, e o jardim dos amantes foi reduzido a metáforas sobre o paraíso celestial.
O grande erro dessa abordagem envergonhada é que ela parte de um pressuposto falso: a ideia de que a espiritualidade verdadeira precisa ter nojo da matéria e do corpo humano.
A Bíblia nunca foi um manual de puritanismo vitoriano que enxerga o prazer conjugal como algo pecaminoso ou tolerado apenas para procriação. No livro de Gênesis, antes que o pecado entrasse no mundo e distorcesse tudo, o próprio Deus criou o homem e a mulher dotados de corpos capazes de sentir atração, afeto e prazer físico no casamento, declarando ao final que tudo aquilo era muito bom. Cântico dos Cânticos está na Bíblia exatamente para resgatar a beleza e a pureza desse plano original.
O livro funciona como um poderoso antídoto contra dois extremos perigosos que continuam adoecendo a sociedade contemporânea.
De um lado está a mentalidade mundana, que rebaixa a sexualidade a um consumo egoísta, descartável e pornográfico, onde o corpo do outro vira mero objeto de prazer temporário sem compromisso algum. Do outro lado está o moralismo farisaico, que trata o afeto, o romantismo e o sexo no casamento como um tabu vergonhoso sobre o qual ninguém pode conversar com maturidade.
Cântico dos Cânticos desmancha essas duas distorções de uma vez só. Ele demonstra que o desejo romântico e o deleite físico não são uma invenção do diabo para ser temida, nem uma mercadoria barata para ser banalizada, mas uma celebração sagrada que floresce com plenitude dentro dos limites da fidelidade matrimonial.
A espinha dorsal de todo o poema é resumida na frase mais conhecida da amada: “Eu sou do meu amado, e o meu amado é meu” (Cânticos 6.3). Não há manipulação, jogos de poder ou insegurança; há uma entrega recíproca, marcada pelo respeito mútuo, pelo companheirismo paciente e pelo compromisso inegociável de cuidar do coração do outro.
Ao afirmar a dignidade do amor conjugal, Cânticos também nos aponta para o horizonte maior da redenção.
O amor apaixonado, sacrificial e exclusivo entre marido e mulher é a imagem mais nítida que a criação terrena possui para ilustrar a aliança eterna entre Cristo e a sua Igreja, como o apóstolo Paulo ensinaria mais tarde em Efésios 5.
A inclusão de Cântico dos Cânticos na Bíblia é uma prova maravilhosa de que a graça de Deus não veio para anular a nossa humanidade, mas para redimi-la por inteiro. Deus se importa com a nossa mente, com o nosso espírito, mas também se importa com os nossos afetos, com o nosso casamento e com a alegria simples de amar e ser amado na poeira do dia a dia.
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