AssineApoie

HistóriaJoão

Por que Deus não tem netos, apenas filhos

Diego Gonçalves3 min de leitura561 palavras

Leitura automática pelo seu navegador; pode haver erros de pronúncia.

Áudio em preparo — assine para ser avisado

Todo pai e mãe cristão carrega no peito o desejo sincero de ver os filhos caminhando com Deus. Ensinamos as primeiras orações antes de dormir, levamos à escola bíblica, matriculamos nos acampamentos de jovens e tentamos criar um ambiente protegido para que a fé crie raízes. O perigo começa quando passamos a achar que a conversão pode ser transmitida por herança ou por pura disciplina doméstica, como se o amor a Cristo fosse algo que se repassa em testamento familiar.

No século 17, na Nova Inglaterra puritana, a família mais influente da colônia viveu essa ilusão no mais alto nível: a dinastia Mather.

Gravura em mezzotinta de Cotton Mather, pastor puritano de Boston, de peruca e veste clerical
Peter Pelham, Cotton Mather, 1727, gravura em mezzotinta. National Gallery of Art, Washington. Domínio público (CC0), via Wikimedia Commons.

Foram três gerações de gigantes intelectuais. O patriarca Richard Mather deixou a Inglaterra por causa da perseguição e ajudou a organizar as igrejas da colônia, sonhando com uma comunidade de santos visíveis. Seu filho, Increase Mather, foi pastor de uma das maiores igrejas de Boston, presidente da Universidade de Harvard e diplomata respeitado. E o neto, Cotton Mather, foi um dos homens mais cultos da sua época, autor de centenas de livros e membro da Royal Society de Londres.

Se dependesse de berço religioso, erudição teológica e regras rígidas de conduta, a dinastia Mather teria mantido a chama da piedade acesa para sempre. Só que a realidade bateu na porta com força.

A cada nova geração, o fervor dos primeiros pioneiros foi murchando. Os netos dos puritanos já não tinham as mesmas experiências profundas com Deus; frequentavam os cultos por convenção social e se interessavam mais pelo comércio e pela riqueza de Boston do que pela oração. Para segurar os jovens nos bancos da igreja, os ministros afrouxaram os requisitos de membresia, mas a vida espiritual continuava fria. E o zelo por manter o controle da sociedade conviveu com episódios sombrios, como o pânico coletivo dos julgamentos das bruxas de Salém.

A dinastia Mather deixou uma lição desconcertante para todas as famílias cristãs. Você pode transmitir cultura, boas maneiras e até amor pelas Escrituras. Mas não consegue fabricar o novo nascimento no coração dos seus filhos. É o que João diz sobre os filhos de Deus:

“Mas a todos quantos o receberam, deu-lhes poder de serem feitos filhos de Deus: aos que creem em seu nome. Os quais não são gerados de sangue, nem de vontade da carne, nem de vontade de homem, mas sim de Deus.”

(João 1:12-13, Bíblia Livre)

A fé verdadeira não viaja pelo cordão umbilical nem se impõe por decreto familiar. Cada pessoa precisa ter o seu próprio encontro com a graça de Deus, reconhecer o próprio pecado e se dobrar diante da cruz. É a graça que vai ao encontro de cada filho, e cada filho precisa responder a ela com fé.

Deus tem filhos, mas não tem netos. A nossa responsabilidade como pais é semear a verdade com amor, coerência e graça, sabendo que o novo nascimento de quem mais amamos é obra do Espírito de Deus, e não nossa.