
Coração inquieto: por que só Deus sacia a nossa alma
Diário de bordo
Quem tem planta em apartamento conhece a cena. Ela cresce torta, esticada na direção da janela, porque lá está a luz. Ninguém ensinou a planta a fazer isso. Ela foi feita assim, e qualquer canto sem sol deixa a coitada murcha, por mais bonito que seja o vaso.
A gente também é um pouco assim. Tem um jeito de se entortar em busca de alguma coisa, e muita gente passa a vida sem saber o que procura. Santo Agostinho resumiu isso nas Confissões, quando falou com Deus: “Fizeste-nos para ti, e o nosso coração está inquieto enquanto não descansar em ti.”
A sede que a gente tenta matar com outras coisas
Essa inquietação, mais que defeito de fábrica, é sinal de que fomos feitos pra Deus. Fomos criados à imagem dele, e por isso carregamos um anseio pelo nosso Criador, que nada mais preenche. Trabalho, dinheiro, aprovação, prazer, até coisas boas e nobres ficam devendo quando entram no lugar dele. A pessoa ganha o que queria e, passado o brilho, volta o vazio.
João ouve, no céu, os anciãos declararem:
Digno és, Senhor, de receber glória, e honra, e poder; porque tu criaste todas as coisas, e por tua vontade são e foram criadas.
(Ap 4:11)
Se tudo existe por vontade dele, é lógico que a gente só se encontre inteira perto dele. Deus quer que a gente descanse nele a cada momento. E tem cristão que passa anos cheio de informação sobre Deus, lê, estuda, ouve pregação, e quase nunca prova do que significa viver consciente da presença dele. Quando prova, vira uma experiência rara, e ele volta a viver de gotinhas.
Por que a gente não consegue chegar lá
O problema é que ninguém chega sozinho. A primeira barreira está na nossa própria natureza, estragada pelo pecado. Ficamos em falta com o Criador, e essa dívida precisa ser paga. A consciência humana tenta, então, juntar crédito. Muitas religiões montam um sistema de boas obras para equilibrar a conta, e o resultado costuma ser culpa, um vazio que nenhuma obra consegue aplacar. Mesmo que desse certo, não bastaria, porque o perdão precisa ser alcançado.
E aqui entra uma segunda dificuldade, que a gente quase nunca percebe. Perdão e purificação não são a mesma coisa. Pense num menino que passou a tarde jogando bola na chuva e chega em casa coberto de lama. O pai diz que não vai bater nem de castigo, está tudo perdoado. Ótimo. Mas o menino ainda não pode se sentar à mesa, nem pisar no tapete da sala. Antes precisa de um banho. O perdão resolveu o problema com a bronca, mas não resolveu o estado em que ele chegou.
Com a gente e Deus acontece parecido. Não dá pra entrar na presença do Deus santo com o mau cheiro do pecado. Há um padrão de santidade que nós mesmos não alcançamos. Orgulho, vaidade, malícia, tudo isso é estranho à presença dele. Chegar ao trono da graça exige mais que um perdão: exige uma limpeza completa.
O profeta Zacarias anunciou essa provisão ao falar de “uma fonte aberta para a casa de Davi e para os habitantes de Jerusalém, para purificá-los do pecado e da impureza” (Zc 13:1).
A fonte que Cristo abriu
A limpeza de que a gente precisa não sai de esforço nosso. Vem de um acontecimento único na história. O Filho eterno, a imagem do Deus invisível e o Primogênito de toda a criação, em quem todas as coisas subsistem (Cl 1:15-17), se voltou para nós e fez o que ninguém mais podia fazer.
Repare como, em quase tudo, o Messias aceitou ajuda. Nasceu do corpo de Maria, que o trouxe ao mundo em Belém, e chorou nos braços dela. Foi cuidado por José, o carpinteiro que trabalhava do nascer ao pôr do sol pra sustentar a família. No caminho do Calvário, deixaram que um homem de Cirene, Simão, carregasse a cruz por ele (Lc 23:26). Mas na obra do perdão e da purificação dos pecados da humanidade, o Filho de Deus agiu sozinho. Cumpriu sem ajuda de ninguém tudo o que a redenção exigia.
Esse é o centro do cristianismo: Deus se esforçando para alcançar o homem, quando a gente tentava subir até ele. Em Cristo, Deus não só perdoa a nossa dívida, mas também nos limpa, nos transforma e nos convida a entrar na presença dele como filhos amados, e não como criminosos perdoados e tímidos. Aquele homem de Nazaré, que andou pelas estradas empoeiradas da Judeia, era o próprio Deus que se fez carne pra nos levar de volta pra casa. Viveu a vida perfeita que a gente não vivia e morreu a morte que a gente merecia. Na cruz, pagou a dívida e quebrou o poder do pecado que nos mantinha presos. A ressurreição mostra que a obra foi aceita, e a porta para a presença de Deus está aberta.
O fim da busca
Então a busca que começou numa inquietação do coração termina em Cristo. Esse anseio da alma já não anda às cegas, porque quem a chama pelo nome é o próprio Deus. A presença dele não é um cume distante que a gente escala com as forças que sobraram, mas uma casa pra onde fomos convidados a voltar. A resposta pra maior angústia da alma não é um conjunto de regras, uma filosofia complicada nem uma meditação qualquer. É uma Pessoa.
A inquietação vira paz. A busca vira relacionamento. E a presença de Deus, que parecia alvo impossível, vira morada. Tomara que a gente pare de se entortar atrás de tanta luz falsa e descanse de uma vez nele.
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